{"id":1035,"date":"2012-02-09T19:03:49","date_gmt":"2012-02-09T22:03:49","guid":{"rendered":"https:\/\/www.socialismoobarbarie.org\/?p=1035"},"modified":"2019-11-20T10:52:11","modified_gmt":"2019-11-20T13:52:11","slug":"usp-a-luta-contra-a-repressao-e-o-projeto-privatista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.socialismoobarbarie.org\/?p=1035","title":{"rendered":"USP: a luta contra a repress\u00e3o e o projeto privatista"},"content":{"rendered":"<p><b>Brasil: Uma pol\u00eamica contra o oportunismo e o burocratismo no movimento estudantil<\/b><b>\u00a0<\/b><\/p>\n<p align=\"right\"><i>Antonio Soler e Rosi Santos<\/i><sup>*<\/sup><i><\/i><\/p>\n<p>Desde 2008, a realidade mundial vem sendo marcada pela crise econ\u00f4mica. Apesar do processo de recupera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica do grupo de pa\u00edses chamado de BRICs (Brasil, R\u00fassia, \u00cdndia e China), que cumprem o papel de contrapesar a crise mundial, a recupera\u00e7\u00e3o tem se demonstrado limitada e parcial. Do ponto de vista social isso se manifesta nos altos \u00edndices de desemprego (principalmente entre a juventude) e no setor econ\u00f4mico-financeiro, por meio do endividamento do setor p\u00fablico (gerado pelas pol\u00edticas \u201cantic\u00edclicas\u201d, medidas tomadas pelos governos para combater a eminente depress\u00e3o que assolava a economia mundial e de muitos pa\u00edses). Agora, estes mesmos estados, depois de utilizarem massivamente verbas p\u00fablicas para salvar os capitalistas de uma cat\u00e1strofe total, v\u00eam tomando medidas de \u201csaneamento\u201d das contas p\u00fablicas (leia-se redu\u00e7\u00e3o de sal\u00e1rios, ou de gastos com previd\u00eancia, educa\u00e7\u00e3o etc.) com conseq\u00fc\u00eancias pol\u00edticas explosivas, vide o que ocorre na Gr\u00e9cia e Norte da \u00c1frica.<\/p>\n<p>Passamos por intensos processos de mobiliza\u00e7\u00e3o em v\u00e1rias partes do mundo em 2011, passando pelas mobiliza\u00e7\u00f5es em alguns pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina, como no Chile e Col\u00f4mbia, at\u00e9 as mobiliza\u00e7\u00f5es contra os pacotes de ajuste por toda a Europa. N\u00e3o obstante o aviltamento destes processos cont\u00ednuos, reflexo, ali\u00e1s, do momento de atual crise econ\u00f4mica e do sistema capitalista, \u00e9 necess\u00e1ria a percep\u00e7\u00e3o de que as diversas lutas se d\u00e3o segundo conjunturas pol\u00edticas e lutas muito distintas. Por outro lado, \u00e9 evidente que estamos num contexto grave de repress\u00f5es e de ataques \u00e0 classe trabalhadora mundial e aos lutadores de maneira geral. Nesse sentido, n\u00e3o podemos perder de vista que as lutas dos trabalhadores por sal\u00e1rio, terra, moradia, educa\u00e7\u00e3o e outras reivindica\u00e7\u00f5es t\u00eam sido duramente reprimidas e criminalizadas.<\/p>\n<p>A crise econ\u00f4mica tem sido um dos elementos centrais para uma onda hist\u00f3rica de rebeli\u00f5es em todo o planeta. Assistimos a um processo pol\u00edtico com uma intensidade n\u00e3o vista h\u00e1 d\u00e9cadas. Processo esse, que \u00e9 composto principalmente por revoltas de jovens (Inglaterra e Espanha), movimentos de desempregados e indignados de forma geral (\u201cOcupar Wall Street\u201d), rebeli\u00f5es populares contra regimes e governos (Primavera \u00c1rabe) e contra pacotes econ\u00f4micos (Gr\u00e9cia, It\u00e1lia, Espanha, Portugal) que acabam muitas vezes na queda de governos ou pela substitui\u00e7\u00e3o de outros com um perfil mais \u201ctecnocr\u00e1tico\u201d. Essa onda de resist\u00eancia apresenta limites (aus\u00eancia da classe oper\u00e1ria como vanguarda social organizada na frente das mobiliza\u00e7\u00f5es, organiza\u00e7\u00f5es sindicais e pol\u00edticas anticapitalistas com influ\u00eancia de massas, partidos revolucion\u00e1rios e consci\u00eancia generalizada entre a classe trabalhadora e a juventude da necessidade de lutar at\u00e9 o final, n\u00e3o s\u00f3 contra os efeitos, mas contra o capitalismo at\u00e9 o final) que se n\u00e3o forem superados, n\u00e3o podem refutar a brutal ofensiva imperialista para salvar o sistema da maior crise econ\u00f4mica desde o crash da d\u00e9cada de 1930.<\/p>\n<p>Apesar destas dificuldades pol\u00edtico-ideol\u00f3gicas, a situa\u00e7\u00e3o aberta pela crise econ\u00f4mica apresenta uma realidade muito mais favor\u00e1vel para a revolu\u00e7\u00e3o em termos internacionais. H\u00e1 d\u00e9cadas n\u00e3o assistimos uma polariza\u00e7\u00e3o t\u00e3o generalizada na luta de classes, com guerras civis, greves gerais unificadas entre trabalhadores e estudantes, rebeli\u00f5es populares&#8230; Tudo isso apesar do freio\/sabotagem das burocracias sindicais e estudantis, dos dirigentes e partidos nacionalistas e da ainda pouca presen\u00e7a de dire\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias em escala mundial.<\/p>\n<p>Se por um lado \u00e9 verdade que a burguesia e o imperialismo est\u00e3o hoje na ofensiva contra os trabalhadores para lhes transferir o custo das pol\u00edticas antic\u00edclicas, por outro lado, tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 menos verdade que estas pol\u00edticas v\u00eam enfrentando uma resist\u00eancia que ainda n\u00e3o foi derrotada. E mais, a profundidade da crise vai continuar exigindo que novas medidas de \u201cajuste\u201d sejam tomadas, realimentando assim novos enfrentamentos em v\u00e1rios pa\u00edses. O que nos p\u00f5e a possibilidade de um prolongamento da polariza\u00e7\u00e3o entre as classes, a cr\u00edtica ideol\u00f3gica, e novos processos de mobiliza\u00e7\u00e3o que podem colocar patamares superiores de enfrentamento contra o sistema. Esse \u201ccaldo de cultura pol\u00edtica\u201d, certamente, cria melhores condi\u00e7\u00f5es para o desenvolvimento da consci\u00eancia socialista revolucion\u00e1ria e para a constru\u00e7\u00e3o de partidos revolucion\u00e1rios que possam cumprir um importante papel na luta de classes atrav\u00e9s de sua influ\u00eancia sobre as massas trabalhadoras.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>A crise volta a amea\u00e7ar a estabilidade econ\u00f4mica e pol\u00edtica brasileira<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Como n\u00e3o poderia deixar de ser, o cen\u00e1rio econ\u00f4mico e pol\u00edtico nacional, desde 2008, sofre com a crise mundial. Evidentemente que as pol\u00edticas antic\u00edclicas desenvolvidas pelo governo t\u00eam mediado os seus efeitos. Essas pol\u00edticas s\u00e3o baseadas na isen\u00e7\u00e3o de impostos para o grande capital, em pol\u00edticas de financiamento de linhas de cr\u00e9dito e no investimento nas obras do Plano de Acelera\u00e7\u00e3o do Crescimento (PAC). Esse projeto se baseia em obras p\u00fablicas em parceria com o grande capital e sem nenhum risco para este, pois, as verbas estatais d\u00e3o garantia de lucratividade para as construtoras e demais empresas envolvidas. Para financiar essas pol\u00edticas, o governo j\u00e1 fez cortes e contingenciamentos no or\u00e7amento p\u00fablico que atingem R$ 60 bilh\u00f5es. Cortes estes, que atingem diretamente o investimento no setor p\u00fablico e nas condi\u00e7\u00f5es reais de vida dos trabalhadores. Al\u00e9m do mais, a crise econ\u00f4mica tem servido tamb\u00e9m para estabelecer um padr\u00e3o de explora\u00e7\u00e3o ainda maior: redu\u00e7\u00e3o de sal\u00e1rios, aumento e intensifica\u00e7\u00e3o da jornada de trabalho e terceiriza\u00e7\u00e3o s\u00e3o s\u00f3 alguns exemplos.<\/p>\n<p>A redu\u00e7\u00e3o de impostos para o grande capital, as linhas de cr\u00e9dito e o endividamento das fam\u00edlias possibilitou, do ponto de vista do mercado interno, por um per\u00edodo, a manuten\u00e7\u00e3o do consumo de massas. Em rela\u00e7\u00e3o ao mercado externo, as dificuldades na recupera\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses centrais t\u00eam demonstrado que as exporta\u00e7\u00f5es de <i>commodities <\/i>n\u00e3o podem garantir a manuten\u00e7\u00e3o <i>ad eternum <\/i>do crescimento do PIB. Nesse cen\u00e1rio, o investimento p\u00fablico na economia cumpre papel de grande desgaste, s\u00f3 que para isso, \u00e9 necess\u00e1rio fazer cortes sistem\u00e1ticos no or\u00e7amento destinado a sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Apesar de o Brasil ainda manter certa estabilidade econ\u00f4mica, no segundo semestre de 2011 a economia deu novamente claros sinais de que n\u00e3o \u00e9 imune a situa\u00e7\u00e3o mundial com uma dr\u00e1stica redu\u00e7\u00e3o do PIB durante todo um trimestre. Isto, somado \u00e0s condi\u00e7\u00f5es terr\u00edveis de exist\u00eancia da ampla maioria dos trabalhadores &#8211; o que leva, por sua vez, a centenas de processos de ocupa\u00e7\u00f5es rurais e urbanas, lutas oper\u00e1rias localizadas, degrada\u00e7\u00e3o social e mobiliza\u00e7\u00f5es estudantis &#8211; faz com que o estado, de forma preventiva, tenha a estrat\u00e9gia de desmantelar toda e qualquer forma de resist\u00eancia e organiza\u00e7\u00e3o independente.<\/p>\n<p>Apoiando-se em um aparato repressivo gigantesco e em uma legisla\u00e7\u00e3o que n\u00e3o rompeu totalmente com a ditadura militar, o estado tem reprimido violentamente qualquer a\u00e7\u00e3o de enfrentamento com a propriedade privada ou a \u201cordem p\u00fablica\u201d, mas, n\u00e3o o faz se apoiando apenas em seus mecanismos repressivos diretos. A partir do governo Lula, as principais organiza\u00e7\u00f5es do movimento social passaram a se posicionar de forma muito mais subserviente. O que era de in\u00edcio uma burocracia que encaminhava determinadas lutas, em alguns momentos pressionada pela situa\u00e7\u00e3o objetiva ou pela press\u00e3o dos trabalhadores (claro que sempre submetidas \u00e0 institucionalidade), passou a inviabilizar qualquer enfrentamento com os patr\u00f5es ou governo. Isso acaba fazendo com que os trabalhadores e a juventude fiquem praticamente sem nenhuma estrutura pol\u00edtico-organizativa para se apoiar ou unificar suas a\u00e7\u00f5es, facilitando assim, ainda mais o trabalho da repress\u00e3o.<\/p>\n<p>A classe dominante sabe que,\u00a0com a extens\u00e3o da crise econ\u00f4mica mundial e nacional em 2012, a situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica tende a se tornar cada vez mais aguda, gerando processos de enfrentamentos que amea\u00e7am diretamente governos, institui\u00e7\u00f5es, e a propriedade privada, que escapam ao controle do Estado. Por isso, esta classe vem tomando medidas preventivas, ou seja, reprimindo violentamente com a for\u00e7a policial e criminalizando amplamente ativistas e lideran\u00e7as. Al\u00e9m das in\u00fameras repress\u00f5es que ocorreram dentro da USP, vimos recentemente, neste ano, o epis\u00f3dio da higieniza\u00e7\u00e3o dos usu\u00e1rios de drogas e mendigos da Cracol\u00e2ndia, al\u00e9m da reintegra\u00e7\u00e3o de posse \u00e0 for\u00e7a da ocupa\u00e7\u00e3o de Pinheirinhos. Ambas realizadas pela pol\u00edcia militar a mando do Governo do Estado de S\u00e3o Paulo e de seu governador, Geraldo Alckmin.<\/p>\n<p>Se na Am\u00e9rica Latina observamos dezenas de lutas contra os efeitos das pol\u00edticas neoliberais, percebemos tamb\u00e9m no Brasil, lutas contra todo o processo de precariza\u00e7\u00e3o do ensino superior e contra o imp\u00e9rio da burocracia universit\u00e1ria. Tais protestos, inclusive, apesar de apresentarem aspectos distintos dos processos globais que ainda est\u00e3o em curso, inscrevem-se dentro do mesmo cen\u00e1rio mundial de crise econ\u00f4mica que, de forma desigual, atinge principalmente a juventude trabalhadora.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>A educa\u00e7\u00e3o superior no Brasil: qualidade e car\u00e1ter p\u00fablico do ensino sempre estiveram em disputa<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No Brasil, o ensino superior p\u00fablico sempre foi norteado por id\u00e9ias elitistas. N\u00e3o obstante isso, observamos diariamente in\u00fameras respostas por parte dos setores combativos das universidades a esta l\u00f3gica que privilegia os ricos. Assistimos, desde o in\u00edcio do governo do PT, a uma expans\u00e3o das universidades federais sem qualquer investimento que garanta a sua m\u00ednima qualidade. A educa\u00e7\u00e3o superior enfrenta pol\u00edticas neoliberais orquestradas tanto em \u00e2mbito estadual, quanto em \u00e2mbito federal e, deste modo, a cada dia perde-se mais o seu car\u00e1ter p\u00fablico. No interior das universidades, \u00e9 reproduzida a l\u00f3gica produtivista em que a educa\u00e7\u00e3o, assim como qualquer atividade, deve ser valorizada mercadologicamente, o que por outro lado, anuncia a pervers\u00e3o do \u201cquanto menor o custo, melhor\u201d, e assim, atrela diretamente o ensino \u00e0s metas estipuladas pelo Banco Mundial e aos interesses do capital transnacional.<\/p>\n<p>Para impor esta l\u00f3gica, ent\u00e3o, foi desenvolvido um processo de redu\u00e7\u00e3o constante do que havia de autonomia e democracia no interior dessas universidades, al\u00e9m de levar \u00e0 precariza\u00e7\u00e3o do ensino nos campi de expans\u00e3o das universidades federais e do trabalho dos servidores. Esse fen\u00f4meno \u00e9 assistido a olho nu com a aplica\u00e7\u00e3o do REUNI (Reestrutura\u00e7\u00e3o e Expans\u00e3o das Universidades Federais) pelas reitorias atreladas ao governo federal, que aderiram ao programa e t\u00eam de cumprir rigorosamente as famosas \u201cmetas de expans\u00e3o\u201d. \u00c9 parte desse processo, obviamente, a preocupa\u00e7\u00e3o com um programa de \u201cprodutividade\u201d que \u00e9 implantado em detrimento da qualidade do ensino e de pesquisa. Isto se manifesta concretamente no avan\u00e7o do trabalho terceirizado, no crescimento do poder das funda\u00e7\u00f5es de apoio de direito privado no interior das universidades, na falta de professores, nas salas de aula lotadas, na aus\u00eancia total ou exist\u00eancia prec\u00e1ria de laborat\u00f3rios, de moradia, de pol\u00edticas de assist\u00eancia e perman\u00eancia estudantil.<\/p>\n<p>Toda essa combina\u00e7\u00e3o foi o que tornou poss\u00edvel que o segundo semestre de 2011 se iniciasse em vermelho para juventude e para os trabalhadores da educa\u00e7\u00e3o superior, com greves, ocupa\u00e7\u00f5es de diversas reitorias de universidades p\u00fablicas como a Universidade Estadual do Paran\u00e1, Universidade Federal Fluminense, Universidade Federal do Cear\u00e1, Universidade Federal do Esp\u00edrito Santo, Universidade Federal Santa Catarina), em sua maioria universidades federais (para saber das demandas espec\u00edficas de cada uma das universidades, vide a mat\u00e9ria \u201cOnda de Ocupa\u00e7\u00f5es de Reitorias em Todo Pa\u00eds\u201d de nosso jornal Pr\u00e1xis, de Setembro de 2011). Essa mobiliza\u00e7\u00e3o nacional se iniciou com a greve dos trabalhadores t\u00e9cnico-administrativos e, em seguida, ganhou corpo com as ocupa\u00e7\u00f5es de reitorias em apoio \u00e0 greve e pelo atendimento das reivindica\u00e7\u00f5es dos trabalhadores e dos pr\u00f3prios estudantes.1 A Universidade de S\u00e3o Paulo, apesar de seu papel hist\u00f3rico de combatividade e peso no movimento estudantil nacional, neste per\u00edodo contava em seu interior, principalmente no campus central, com algumas iniciativas de luta, mas nada ainda org\u00e2nico.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Universidade de S\u00e3o Paulo: da funda\u00e7\u00e3o aos dias atuais<\/b><\/p>\n<p><b>\u00a0<\/b><\/p>\n<p>A cria\u00e7\u00e3o da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), em 1934, tem na Revolu\u00e7\u00e3o Constitucionalista de 1932 e sua derrota para as tropas federais, um dos fatores para sua funda\u00e7\u00e3o. Esta rela\u00e7\u00e3o conturbada entre poderes federais e estaduais deu vaz\u00e3o ao Movimento de 32, ou melhor dizendo, da luta pol\u00edtica entre os tenentes ligados \u00e0 ditadura getulista e a elite intelectual paulista, segue-se que esta \u00faltima teria sido derrotada. A partir disso, ent\u00e3o, a situa\u00e7\u00e3o gerada foi a de uma maior centraliza\u00e7\u00e3o do Estado brasileiro, que se fez atrav\u00e9s de uma intensa repress\u00e3o e controle dos movimentos sociais, e este, grosso modo, foi o pano de fundo que permitiu o acordo entre o governo federal e o governo paulista para a cria\u00e7\u00e3o da USP.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, partindo de an\u00e1lise mais pormenorizada da rela\u00e7\u00e3o entre a <i>Revolu\u00e7\u00e3o Constitucionalista de 32 <\/i>e a cria\u00e7\u00e3o da institui\u00e7\u00e3o, apontamos que n\u00e3o se tratava apenas de um confronto entre as classes dominantes paulistas e o governo federal, mas tamb\u00e9m do estabelecimento de mecanismos de concilia\u00e7\u00e3o e compromisso entre ambos, mecanismos estes que tornaram poss\u00edvel a concretiza\u00e7\u00e3o de um grande projeto elitista de ensino superior no Estado de S\u00e3o Paulo, forjado na necessidade de suprir a falta de quadros dirigentes neste Estado e no pa\u00eds como um todo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>A Miss\u00e3o Francesa<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Com a preocupa\u00e7\u00e3o distorcida sobre a qualidade do ensino nesta nova institui\u00e7\u00e3o, o governo brasileiro deu provas de sua subservi\u00eancia e da falta de uma identidade nacional pr\u00e9-concebida, dando in\u00edcio na Universidade de S\u00e3o Paulo a uma nova <i>Miss\u00e3o Francesa<\/i> no Brasil. O uso da palavra <i>miss\u00e3o <\/i>n\u00e3o \u00e9 algo recente para intitular o processo de migra\u00e7\u00e3o de professores vindos da Fran\u00e7a para lecionar no Brasil. Na verdade, assim era chamado oficialmente este processo desde aquele per\u00edodo. Entendemos que o uso dessa palavra est\u00e1 longe de ser um problema apenas conceitual, mas, de outro modo, apontamos o seu emprego como algo que n\u00e3o muito se diferenciou do que foi o processo colonizat\u00f3rio dos portugueses no Brasil, e evidentemente, mostra novamente que \u00e9ramos vistos como um povo aculturado.<\/p>\n<p>Contrariando aqueles que reivindicam esta miss\u00e3o como algo extremamente valioso para a cultura nacional, j\u00e1 que faziam parte dessa miss\u00e3o professores de alt\u00edssima qualidade como L\u00e9vi-Strauss, Braudel, Roger Bastide, Paul Arbousse-Bastide Pierre Monbeig etc (&#8230;) contamos um pouco do que se sabe deste processo. Ao contr\u00e1rio do que se pensa e diz, esses pensadores n\u00e3o foram escolhidos a dedo para lecionar no Brasil; n\u00e3o houve sob hip\u00f3tese alguma esta preocupa\u00e7\u00e3o. Esses autores, embora consagrados hoje, n\u00e3o tinham nenhuma autoridade no meio cient\u00edfico e reconhecimento intelectual na \u00e9poca de sua vinda ao pa\u00eds, contudo, eram extremamente jovens e rec\u00e9m-formados, e na vida acad\u00eamica brasileira fizeram suas escolas, e n\u00e3o o contr\u00e1rio. O que de forma alguma desprestigia esses autores, muito pelo contr\u00e1rio, n\u00e3o restam d\u00favidas de suas contribui\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas para forma\u00e7\u00e3o do pensamento pol\u00edtico, filos\u00f3fico e cient\u00edfico como um todo. Mas, sua presen\u00e7a denota, por outro lado, que nosso pa\u00eds pode sim formar pensadores e que, a partir deles, surgiram grandes pesquisadores.<\/p>\n<p>A inten\u00e7\u00e3o, com isto, \u00e9 de esclarecer o marco em que se deu o processo citado acima. Quando selecionados, n\u00e3o eram e nem se esperava que se tornassem \u201cfamosos\u201d. Segundo Fernando Novais, quando Braudel veio para S\u00e3o Paulo, por exemplo, n\u00e3o tinha sequer publicado sua tese ainda (Novaes, Fernando. Estudos avan\u00e7ados revista eletr\u00f4nica, vol.8 No 22, S\u00e3o Paulo, Sept.\/Dec.1994). A sele\u00e7\u00e3o desses professores, ali\u00e1s, foi totalmente sem crit\u00e9rio e totalmente aleat\u00f3ria. L\u00e9vi-Strauss conta, no primeiro cap\u00edtulo de <i>Tristes tr\u00f3picos, <\/i>que era formado em filosofia, mas que desejava ser antrop\u00f3logo. Sobre sua vinda ao Brasil, diz ainda que, num certo dia, recebeu um telefonema de seu professor de filosofia perguntando se continuava com a id\u00e9ia de estudar \u00edndios. Diante da confirma\u00e7\u00e3o, esse professor teria dito que ele precisaria falar com Georges Dumas, o mentor mais importante da pol\u00edtica cultural francesa no Brasil, pois ele estava organizando uma miss\u00e3o que iria para uma Universidade rec\u00e9m-criada em S\u00e3o Paulo e nos arredores dessa cidade era poss\u00edvel estudar \u00edndios. Esse foi o crit\u00e9rio para a escolha de L\u00e9vi-Strauss para vir ao Brasil.<\/p>\n<p>O Brasil se inseria em um conjunto de pa\u00edses que considerava a Fran\u00e7a como uma esp\u00e9cie de \u201cmadrinha universit\u00e1ria\u201d que auxiliava na funda\u00e7\u00e3o de institui\u00e7\u00f5es de ensino atrav\u00e9s de incentivo financeiro, e que, em contrapartida, tinha sua cultura disseminada e <i>o know-how de formadora de cultura e opini\u00e3o<\/i>. Outro elemento para an\u00e1lise, era que o mercado de trabalho para os professores franceses dos anos trinta era restrito. Em 1935, por exemplo, somente 723, dos 1775 que haviam obtido o grau de licenciatura em ensino superior, obtiveram uma coloca\u00e7\u00e3o no ensino p\u00fablico (Karady 1986, p. 353). Al\u00e9m disso, para os franceses o envio de professores para outros pa\u00edses tratava-se de uma pol\u00edtica de profissionaliza\u00e7\u00e3o docente e, para o pa\u00eds, uma tarefa de suma import\u00e2ncia para as rela\u00e7\u00f5es internacionais. Al\u00e9m disso, no \u00e2mbito da forma\u00e7\u00e3o de seus professores era fundamental o conhecimento de uma l\u00edngua estrangeira. Mas, no caso do Brasil, esta compet\u00eancia ling\u00fc\u00edstica n\u00e3o adquiriu tanta import\u00e2ncia, ao contr\u00e1rio, os cursos e confer\u00eancias eram ministrados em franc\u00eas, mesmo se fossem abertos a um p\u00fablico maior. Isto faz parte da estrat\u00e9gia geral da pol\u00edtica cultural centrada na difus\u00e3o da l\u00edngua francesa e de aculturamento de pa\u00edses ainda n\u00e3o \u201cdesenvolvidos\u201d.<\/p>\n<p>O projeto de cria\u00e7\u00e3o da USP n\u00e3o surgiu de um clamor social, ao contr\u00e1rio, surgiu de um desejo de altos grupos da elite paulistana, na d\u00e9cada de 1920. O principal deles e mais influente no processo, foi o grupo do jornal <i>O Estado de S\u00e3o Paulo, <\/i>atrav\u00e9s de figuras como J\u00falio de Mesquita Filho (secret\u00e1rio do jornal e redator), e Armando de Salles Oliveira (um dos diretores desse grupo e posteriormente presidente do jornal).<\/p>\n<p>Em 25 de janeiro de 1934, Armando de Salles Oliveira, representante da classe dominante paulista, por estar \u00e0 frente do jornal<i> Estado de S. Paulo, <\/i>e apesar de desejoso em manter a hegemonia paulista ou mineira na presid\u00eancia do Brasil, lan\u00e7ava m\u00e3o de duras cr\u00edticas ao presidente Get\u00falio Vargas que, sendo ga\u00facho, quebrou a dinastia mineira e paulista na presid\u00eancia e, depois da derrota de 32, trocou as cr\u00edticas ao governo pelo cargo de governador de S\u00e3o Paulo, nomeado por Get\u00falio. Ele, ent\u00e3o, assina o decreto que origina a USP com a concep\u00e7\u00e3o de que somente a elite paulistana, devidamente formada, teria condi\u00e7\u00f5es de propor um projeto ideal para o pa\u00eds. Assim, ainda hoje na USP, J\u00falio de Mesquita Filho, e Armando de Salles Oliveira, s\u00e3o amplamente reverenciados e homenageados na universidade. Armando Sales, inclusive, d\u00e1 nome \u00e0 Cidade Universit\u00e1ria, chamada: <i>Campus Cidade Universit\u00e1ria Armando Sales.<\/i><\/p>\n<p>Apesar do processo de descentraliza\u00e7\u00e3o encabe\u00e7ado pela atual gest\u00e3o da universidade, a USP atualmente \u00e9 formada por 36 unidades de pesquisa e ensino, das quais 24 se localizam em S\u00e3o Paulo. O Campus Butant\u00e3, localizado na regi\u00e3o oeste da capital, na Cidade Universit\u00e1ria, possui mais de oito milh\u00f5es de metros quadrados, al\u00e9m de um grande centro de pr\u00e1ticas esportivas (o maior da Am\u00e9rica Latina), 4 museus, 2 hospitais, o Centro Universit\u00e1rio \u201cMaria Ant\u00f4nia\u201d, al\u00e9m de diversos outros \u00f3rg\u00e3os especializados. Os v\u00e1rios outros campi &#8211; com as exce\u00e7\u00f5es da <a title=\"Escola de Artes, Ci\u00eancias e Humanidades da Universidade de S\u00e3o Paulo\" href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Escola_de_Artes,_Ci%C3%AAncias_e_Humanidades_da_Universidade_de_S%C3%A3o_Paulo\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Escola de Artes, Ci\u00eancias e Humanidades<\/a>, da <a title=\"Faculdade de Direito da Universidade de S\u00e3o Paulo\" href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Faculdade_de_Direito_da_Universidade_de_S%C3%A3o_Paulo\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Faculdade de Direito<\/a>, da <a title=\"Faculdade de Medicina da Universidade de S\u00e3o Paulo\" href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Faculdade_de_Medicina_da_Universidade_de_S%C3%A3o_Paulo\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Faculdade de Medicina<\/a>, da <a title=\"Escola de Enfermagem da Universidade de S\u00e3o Paulo\" href=\"http:\/\/pt.wikipedia.org\/wiki\/Escola_de_Enfermagem_da_Universidade_de_S%C3%A3o_Paulo\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Escola de Enfermagem<\/a>, da Faculdade de Sa\u00fade P\u00fablica e o campus da Zona Leste de S\u00e3o Paulo &#8211; est\u00e3o espalhados pelo interior paulista e tamb\u00e9m se vinculam \u00e0 universidade, para fins de ensino, pesquisa e extens\u00e3o, al\u00e9m de diversos outros \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos do estado.<\/p>\n<p>Toda esta estrutura demonstra n\u00e3o s\u00f3 o quanto esta universidade \u00e9 importante, mas o quanto \u00e9 alvo de disputas pol\u00edticas e econ\u00f4micas, por parte dos magnatas e especuladores do ensino, dos ide\u00f3logos da burguesia, do governo estadual e federal. Neste cen\u00e1rio, o povo n\u00e3o est\u00e1 presente e sequer se v\u00ea representado no interior desta universidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>A USP e sua trajet\u00f3ria<\/b><\/p>\n<p><i>\u00a0<\/i><\/p>\n<p><i>A hist\u00f3ria da USP, desde o seu in\u00edcio at\u00e9 hoje, sempre foi marcada pela elitiza\u00e7\u00e3o e persegui\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica. <\/i>O golpe militar de 1964 alterou totalmente a estrutura pol\u00edtica do pa\u00eds e afetou tamb\u00e9m a estrutura de poder da universidade. O reitor desse per\u00edodo era Lu\u00eds Antonio da Gama e Silva, bajulador do regime ditatorial (que chegou a ocupar provisoriamente as pastas do minist\u00e9rio da justi\u00e7a e da educa\u00e7\u00e3o) e que, com intuito de se incorporar ao novo governo, mantinha rela\u00e7\u00f5es t\u00e3o estreitas com regime, que implantou dentro da USP uma esp\u00e9cie de sucursal da ditadura militar. Esse reitor atuou na USP como porta voz deste regime nefasto, e n\u00e3o por coincid\u00eancia, em meio ao ano de 2011, chegou a ser chamado de revolucion\u00e1rio pela atual reitoria.2. Lu\u00eds Antonio da Gama e Silva, quando reitor da USP e Ministro da Justi\u00e7a, foi mentor do perverso Ato Institucional n\u00famero 5, chamado AI-5, que instaurou o pior per\u00edodo de repress\u00e3o na ditadura. Por meio deste ato, fechou-se o Congresso Nacional e ca\u00e7aram-se os direitos pol\u00edticos dos cidad\u00e3os brasileiros. Gama e Silva ainda teve a aud\u00e1cia de anunciar, em rede nacional, seu feito que retirou todos os direitos de express\u00e3o dos civis.<\/p>\n<p>A partir disso ent\u00e3o, a repress\u00e3o policial tomou conta da universidade com o total aval da reitoria e as pris\u00f5es violentas de professores e estudantes n\u00e3o sofreram o mais leve reparo por parte do reitor: \u201ca a\u00e7\u00e3o repressiva externa p\u00f4de agir livremente na universidade e criar uma atmosfera de temor generalizado provocada pelos atos de viol\u00eancia e pela amea\u00e7a permanente de pris\u00f5es e deten\u00e7\u00f5es arbitr\u00e1ria.\u201d (ADUSP, 2004. p. 13), a cita\u00e7\u00e3o anterior faz parte da obra <i>O controle ideol\u00f3gico na USP (1962-1978), <\/i>de professores da USP, que \u00e9 uma esp\u00e9cie de dossi\u00ea sobre como a Ditadura Militar n\u00e3o s\u00f3 interferiu na USP, mas, como foi reproduzida no seu interior pelos pr\u00f3prios \u00f3rg\u00e3os universit\u00e1rios.<\/p>\n<p>Com efeito, o reitor Gama e Silva, n\u00e3o contente em ver a atua\u00e7\u00e3o da ditadura na universidade, criou uma comiss\u00e3o secreta de servi\u00e7o de intelig\u00eancia para investigar opositores ao regime vigente e, \u00e9 claro, seu opositores internos: \u201cUma comiss\u00e3o especial para investigar atividades \u2018subversivas\u2019 na USP formada por professores (&#8230;) representantes das grandes escolas, [Medicina e Polit\u00e9cnica] eram todos elementos de confian\u00e7a do Reitor\u201d (ib\u00eddem, p. 17). N\u00e3o tardou para que a exist\u00eancia dessa comiss\u00e3o fosse denunciada \u00e0 imprensa por professores indignados com sua exist\u00eancia. Vejamos trechos de algumas das den\u00fancias: \u201cH\u00e1 forte ind\u00edcios, infelizmente fortes, de que pelo menos em certos n\u00facleos da Universidade de S\u00e3o Paulo a pol\u00edtica do \u2018dedo duro\u2019 (&#8230;) visando de maneira particular alguns elementos mais brilhantes daquela corpora\u00e7\u00e3o que alegadamente em nome de ideais da revolu\u00e7\u00e3o [leia-se o regime militar] (&#8230;). Na decis\u00e3o de concursos j\u00e1 estaria pesando a suposta ideologia dos candidatos, suposta porque s\u00e3o apenas alegada, soprada (&#8230;). Sabemos que trabalha na Universidade uma comiss\u00e3o destinada a aplicar dentro dela, o ato Institucional [ AI-5]\u201d. (26 de Julho de 1964, a Folha de S\u00e3o Paulo)<\/p>\n<p>A mat\u00e9ria prossegue em tom de cobran\u00e7a dizendo que na Universidade de Minas Gerais (UMG) \u201caonde de uma hora pra outra se instalara um interventor militar\u201d, este n\u00e3o durou dois dias dentro da universidade por que houve antes uma leg\u00edtima rea\u00e7\u00e3o da comunidade acad\u00eamica e o presidente Castelo Branco se viu for\u00e7ado a restituir a corpora\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e docente da universidade. Na USP, ao contr\u00e1rio, n\u00e3o se via ainda \u201cpartir nenhuma advert\u00eancia quanto \u00e0 persegui\u00e7\u00e3o de alguns de seus mestres e, em particular, quanto \u00e0 maneira pela qual t\u00eam sido eles detidos (&#8230;)\u201d. Durante muito tempo, apesar de den\u00fancias, esta comiss\u00e3o p\u00f4de agir livremente na universidade. Inaugura-se assim, o in\u00edcio de toda persegui\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s de vigil\u00e2ncia, censura e terrorismo ideol\u00f3gico na USP, vigente at\u00e9 os dias de hoje, em menor escala, mas, com o mesmo intuito: expurgar da universidade aqueles que se colocam contra a l\u00f3gica vertical da universidade estabelecida.<\/p>\n<p>Em Outubro de 1964, veio a lume um relat\u00f3rio assinado que pedia a suspens\u00e3o da universidade e de direitos pol\u00edticos a mais de 50 pessoas, entre elas, a maior parte eram professores, os demais eram estudantes e trabalhadores. O pedido de expurgo se baseava na justificativa de que era \u201crealmente impressionante a infiltra\u00e7\u00e3o de id\u00e9ias marxistas nos v\u00e1rios setores universit\u00e1rios\u201d e que deviam ser retirados da universidade estes que eram os \u201cdoutrinadores e os agentes dos processos subversivos\u201d (ib\u00eddem, p. 18). Esta lista de expuls\u00e3o continha nomes como: Florestan Fernandes, Caio Prado Junior, Fernando Henrique Cardoso, Luiz Hildebrando, M\u00e1rio Schenberg, entre outros.<\/p>\n<p>O primeiro a ser expulso foi o professor M\u00e1rio Schenberg, um dos maiores f\u00edsicos brasileiros, da Faculdade de Filosofia, obviamente pelo fato de \u201csempre ter se declarado abertamente comunista, mas do qual nunca se poderia dizer, que este lecionasse uma Mec\u00e2nica Racional (&#8230;) de inspira\u00e7\u00e3o marxista e, existisse tal coisa, seria justo que a lecionasse\u201d, em seguida, foram Fernando Henrique, Florestan Fernandes e Nuno Fidelino de Figuerodo, este \u00faltimo sequer poderia dizer que era de esquerda e Jo\u00e3o Cruz Costa, da Faculdade de Filosofia, que militava contra as influ\u00eancias do catolicismo tradicional nos estudos filos\u00f3ficos no Brasil, \u00e9 acusado tamb\u00e9m. O estudante Fuad Daher Saad tem at\u00e9 os dias de hoje \u201cseu prontu\u00e1rio retido no Instituto de F\u00edsica\u201d (ib\u00eddem, p. 22), apesar de absolvido.<\/p>\n<p>Florestan Fernandes desabafa em carta enviada em 9 de Setembro de 1964 ao Tenente da Pol\u00edcia Militar que diz o seguinte: \u201cH\u00e1 quase vinte anos venho dando o melhor do meu esfor\u00e7o para ajudar a construir em S\u00e3o Paulo um n\u00facleo de estudos universit\u00e1rios dignos desse nome (&#8230;) esse objetivo constituiu o principal alvo de minha vida. Por isso foi com indispens\u00e1vel desencanto e com indigna\u00e7\u00e3o que vi as escolas e os institutos da Universidade de S\u00e3o Paulo serem inclu\u00eddos na rede de investiga\u00e7\u00e3o sum\u00e1ria, de car\u00e1ter policial-militar (&#8230;); n\u00e3o somos um bando de malfeitores (&#8230;) o ensino em nosso pa\u00eds, s\u00f3 fornece \u00f4nus e pesados encargos, oferecendo escassos atrativos para os honestos. Vendo as coisas desse \u00e2ngulo e n\u00e3o me parece haver outro, recebi a convoca\u00e7\u00e3o para ser inquirido \u2018policial-militarmente\u2019 como uma inj\u00faria que afronta (&#8230;) a mentalidade cient\u00edfica, afetando-me portanto, tanto pessoalmente, quanto na condi\u00e7\u00e3o de docente, (&#8230;) e foi com surpresa que vislumbrei a indiferen\u00e7a da alta administra\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria [reitoria] diante dessa inova\u00e7\u00e3o, que estabelece nova tutela sobre a nossa atividade intelectual\u201d (Transcrito de <i>A Sociologia no Brasil<\/i>, Florestan Fernandes, Ed. Vozes, Petr\u00f3polis, 1977, pp. 209-212)<\/p>\n<p>Na Faculdade de Direito, al\u00e9m de v\u00e1rios estudantes, Caio Prado Junior, devido ao teor contestador de sua obra em rela\u00e7\u00e3o ao desenvolvimento da hist\u00f3ria econ\u00f4mica brasileira, era tido como personagem inc\u00f4modo naquela faculdade e dela deveria ser exclu\u00eddo. Entretanto, foi a faculdade de medicina a mais atingida. A predile\u00e7\u00e3o repressiva a esta escola tinha um apelo pessoal para o Reitor Gama, outra justificativa n\u00e3o seria poss\u00edvel, pois \u00e9 dif\u00edcil acreditar <i>\u201cque a faculdade de medicina abrigasse um n\u00famero maior de \u201csubversivos\u201d <\/i>do que as escolas de humanidades ou outras.<\/p>\n<p>Segundo a ADUSP, para o Reitor Gama e Silva, al\u00e9m de tentar garantir que n\u00e3o houvesse oposi\u00e7\u00f5es ao governo militar, era necess\u00e1rio garantir que seus pr\u00f3prios opositores fossem extirpados, e a Faculdade de Medicina era a escola onde havia a maior concentra\u00e7\u00e3o de apoiadores da antiga gest\u00e3o da universidade Ulh\u00f4a Cintra, que tinha uma pol\u00edtica progressista e inspirava a ideia da reforma universit\u00e1ria. Contudo, esta comiss\u00e3o para al\u00e9m de resolver desafetos do Reitor buscava conservar a USP sob a \u00e9gide dos ideais da \u201crevolu\u00e7\u00e3o\u201d, pois, \u201ctodos os relat\u00f3rios elaborados pela comiss\u00e3o eram encaminhados, diretamente aos \u00f3rg\u00e3os de repress\u00e3o\u201d assim, a id\u00e9ia de reforma universit\u00e1ria n\u00e3o era bem vista, na medida, que poderia significar maior autonomia e democratiza\u00e7\u00e3o da universidade.<\/p>\n<p>As demiss\u00f5es na USP ocorriam antes mesmo dos indiciamentos externos o que denota um rigor muitas vezes maior por parte da reitoria do que pelos pr\u00f3prios agentes repressivos do regime ditatorial. V\u00e1rios professores foram absolvidos por falta de provas no inqu\u00e9rito policial-militar, mas condenados dentro da universidade, seja por demiss\u00f5es sum\u00e1rias ou aposentadorias compuls\u00f3rias. Na <i>Folha de S\u00e3o Paulo<\/i> de 10 de fevereiro de 1966, citamos textualmente alguns trechos que tratam das senten\u00e7as, ressaltam, que os pr\u00f3prios promotores da pol\u00edcia-militar pediam mais provas a USP contra os acusados e na aus\u00eancia das mesmas, pediam a \u201cabsolvi\u00e7\u00e3o\u201d de todos acusados, em raz\u00f5es finais. Em trecho arrazoado diz: \u201cE as provas? Elas n\u00e3o aparecem. E n\u00e3o aparecer\u00e3o. S\u00e3o subjetivas as aprecia\u00e7\u00f5es\u201d. Em outro trecho diz que houve \u201cum esfor\u00e7o inaudito da Douta Promotoria em provar que alguns denunciados se reuniam no departamento de Parasitologia, em concili\u00e1bulos secretos para fins escusos, (&#8230;) [como] restabelecer o Partido Comunista\u201d o que se demonstrou infund\u00e1vel e que o teor das reuni\u00f5es tinham apenas interesses acad\u00eamicos. Deste modo, faz-se necess\u00e1rio frisar que quando as acusa\u00e7\u00f5es foram remetidas \u00e0 Justi\u00e7a Militar, foi poss\u00edvel uma defesa dos acusados e talvez uma demonstra\u00e7\u00e3o da improced\u00eancia e m\u00e1 f\u00e9 das den\u00fancias, enquanto no momento em que a investiga\u00e7\u00e3o ainda estava dentro da USP n\u00e3o era reservado o direito de defesa ou qualquer representa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><b>\u00a0<\/b><\/p>\n<p><b>Os anos s\u00e3o outros, mas a anatomia repressiva \u00e9 a mesma<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Na USP dos dias atuais, estudantes, professores e trabalhadores n\u00e3o docentes revivem o mesmo regime dos anos de chumbo; muitos s\u00e3o expulsos, processados, demitidos atrav\u00e9s de relat\u00f3rios, imagens, produzidos pela pr\u00f3pria universidade, de modo que s\u00e3o julgados pelas suas a\u00e7\u00f5es pelo mesmo sensor que os acusam. N\u00e3o obstante, em Abril de 2010 o professor do Instituto de Ci\u00eancia Biom\u00e9dicas (ICB), Rui Curi, foi processado pela reitoria e afastado de suas atividades por denunciar as irregularidades no armazenamento dos corpos do instituto. Corpos e org\u00e3os humanos eram armazenados em baldes comuns de pl\u00e1sticos como roupas sujas, al\u00e9m do descarte de produtos qu\u00edmicos em esgoto comum. As den\u00fancias se comprovaram e foram encaminhadas ao Minist\u00e9rio P\u00fablico, mas, isto n\u00e3o bastou e o professor seguiu processado, perseguido, e assediado, com incentivo da reitoria, por setores mais reacion\u00e1rios do departamento de Medicina.<\/p>\n<p>Em 08 de Dezembro de 2008, Claudinor Brand\u00e3o, trabalhador da USP, foi demitido por<i> justa causa, <\/i>ou melhor, por uma causa justa, pois, Claudionor Brand\u00e3o foi demitido por sua participa\u00e7\u00e3o na greve de trabalhadores de 2005. V\u00e1rias foram as irregularidades no processo, assim como foram v\u00e1rias as tentativas de negociar a readmiss\u00e3o do funcion\u00e1rio junto a USP, e todas v\u00e3s. Claudionor era e ainda \u00e9 militante ativo no Sindicato dos Trabalhadores da USP (SINTUSP) e por isso sofre tanta resist\u00eancia da reitoria em reincorpor\u00e1-lo ao quadro de funcion\u00e1rios. O SINTUSP \u00e9 alvo de ataques freq\u00fcente por parte da reitoria e s\u00e3o in\u00fameras as den\u00fancias de persegui\u00e7\u00e3o, de sabotagem, de espionagem a entidade e seus membros. Magno Carvalho, diretor do sindicato, em reportagem a revista <i>Forum<\/i> 106<b>,<\/b> de Janeiro de 2012, em mat\u00e9ria intitulada \u201cArapongagem na USP\u201d, fala de uma reuni\u00e3o em que somente estava presente a diretoria, que discutia sobre a possibilidade de greve da categoria, ou seja, tinha um car\u00e1ter restrito, era fechada, e que, todavia, documentos posteriormente encontrados na reitoria d\u00e3o conta de toda discuss\u00e3o desta reuni\u00e3o. Ainda segundo Magno, tal acontecimento alerta para a possibilidade de uso de escutas plantadas nas depend\u00eancias do sindicato. O mesmo ocorreu no Conjunto Residencial da USP, o CRUSP, onde delibera\u00e7\u00f5es de assembl\u00e9ia dos moradores e nomes de seus participantes foram parar na m\u00e3o da reitoria, o que resultou na elimina\u00e7\u00e3o de 8 estudantes.<\/p>\n<p>Na moradia estudantil, o CRUSP, em mar\u00e7o de 2010, houve uma ocupa\u00e7\u00e3o de um espa\u00e7o destinado \u00e0 moradia e que at\u00e9 aquele momento vinha sendo utilizado pela burocracia. Dias ap\u00f3s a ocupa\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o, estudantes foram processados e, em 2011, foram eliminados durante as f\u00e9rias da universidade. A acusa\u00e7\u00e3o \u00e9 sustentada por relat\u00f3rios de agentes de seguran\u00e7a da universidade. A prova do \u201ccrime\u201d: alguns nomes indicados por agentes de seguran\u00e7a que alegam os ter visto ocupando o espa\u00e7o, entre estes nomes foram inclu\u00eddas pessoas que sequer estiveram presentes no momento da a\u00e7\u00e3o, mas, que por serem do movimento estudantil, foram adicionados \u00e0 lista. A base jur\u00eddica da acusa\u00e7\u00e3o: Decretos da ditadura militar que ainda vigoram na USP para prender e processar pessoas que participam de atividades pol\u00edticas consideradas de esquerda. Estes decretos d\u00e3o conta que s\u00e3o pass\u00edveis de puni\u00e7\u00f5es &#8211; como expuls\u00f5es, demiss\u00f5es e afastamentos &#8211; atividades de cunho pol\u00edtico, religioso, al\u00e9m de fazerem parte das atribui\u00e7\u00f5es dos membros da comunidade universit\u00e1ria preservar a ordem, os bons costumes e o nome da institui\u00e7\u00e3o, assim como s\u00e3o pass\u00edveis de puni\u00e7\u00e3o atos que incentivem manifesta\u00e7\u00f5es ou greves.<\/p>\n<p><b>\u00a0<\/b><\/p>\n<p><b>Falar em Ditadura na USP n\u00e3o \u00e9 um exagero de pol\u00eamica<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A USP carrega em seu conte\u00fado v\u00e1rios elementos da cultura herdada da Ditadura de 1964: decretos do regime, vigil\u00e2ncia, controle, persegui\u00e7\u00e3o, puni\u00e7\u00e3o e um controle ostensivo da vida particular e pol\u00edtica das pessoas. Em pap\u00e9is oficiais timbrados com nome da universidade, assinados por representantes da mesma, e encontrados no CRUSP e na reitoria, foi poss\u00edvel dar vistas a documentos que relatavam reuni\u00f5es e assembl\u00e9ias dos estudantes e trabalhadores, assim como controle de freq\u00fc\u00eancia de visita dos moradores, troca de informa\u00e7\u00f5es detalhadas sobre o movimento sindical e estudantil, uma infra\u00e7\u00e3o grav\u00edssima a privacidade e liberdade das pessoas. A USP n\u00e3o passou pelo processo de \u201cdemocratiza\u00e7\u00e3o\u201d vivida pelo pa\u00eds na p\u00f3s-ditadura.<\/p>\n<p>V\u00e1rios elementos permanecem e remetem aos tempos de exce\u00e7\u00e3o. A come\u00e7ar pela estrutura de poder, que retrata uma esp\u00e9cie de dinastia do Governo Estadual dentro da universidade. Assim como Gama e Silva, que em 1964, no auge da ditadura, foi eleito pelo regime, contando com apoio interno de apenas uma escola, ainda hoje a escolha dos reitores \u00e9 decidida pelo governador do Estado. O atual reitor, eleito em 2010, n\u00e3o foi o mais votado no interior da universidade pelos professores titulares e mesmo assim, foi o escolhido pelo governador, o que revela os interesses que ele representa dentro USP. Gama e Silva foi o principal redator AI-5 e Rodas o atual reitor defendeu os militares da ditadura militar. Al\u00e9m disso, existem cargos extra-oficiais dentro da universidade destinados \u00e0 vigil\u00e2ncia de atividades pol\u00edticas. E enfim, o coordenador da Assist\u00eancia Social da USP foi tenente durante o regime militar, como se n\u00e3o bastasse Rodas j\u00e1 foi condecorado por oficiais da reserva do Ex\u00e9rcito, defensores da \u201cRevolu\u00e7\u00e3o de 64\u201d. Enquanto diretor da Faculdade de Direito, Rodas foi o primeiro administrador do Largo S\u00e3o Francisco, e \u00e9 considerado hoje, por toda a Faculdade, \u201cpersona non grata\u201d.<\/p>\n<p><i>\u00a0<\/i><\/p>\n<p><b>A dire\u00e7\u00e3o atual da universidade: suas liga\u00e7\u00f5es e interesses (<\/b><b>Quando uma m\u00e3o lava a outra, e as duas lavam uma cara)<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Jo\u00e3o Grandino Rodas, atual reitor da Universidade de S\u00e3o Paulo, come\u00e7ou a carreira p\u00fablica na Faculdade de Direito da USP (SANFRAN) e a dirigiu durante algum tempo. Ap\u00f3s isto, mesmo sendo denunciado por prevarica\u00e7\u00e3o e dano ao patrim\u00f4nio p\u00fablico3 naquela escola, foi eleito como reitor da USP. Rodas tornou-se famoso quando ficou conhecido por ser um daqueles que inocentaram v\u00e1rios militares\/torturadores da ditadura. Quando fez parte da Comiss\u00e3o Especial sobre Mortos e Desaparecidos Pol\u00edticos (CEMDP) de 1995 a 2002, ele votava contra a culpabilidade do Estado pela morte e desaparecimento de v\u00e1rios presos pol\u00edticos, sendo que o caso mais famoso fora o de Zuzu Angel. Rodas era jurista e foi escolhido pelo ex-presidente Fernando Henrique para exercer tal fun\u00e7\u00e3o, al\u00e9m disso, n\u00e3o por coincid\u00eancia Rodas foi escolhido pelo mesmo partido de FHC \u00e0 frente do Governo do Estado de S\u00e3o Paulo, o PSDB, para reitoria da USP. <i>Deixando claro que uma m\u00e3o lava a outra.<\/i><\/p>\n<p>A USP sempre foi um p\u00f3lo de resist\u00eancia e, principalmente, desde a <i>batalha da Maria Antonia,<\/i> em 1968, (conflito entre estudantes de direita do Mackzencie &#8211; apoiadores do regime militar &#8211; e os estudantes da USP considerados de esquerda e contr\u00e1rios ao regime). A luta contra ditadura que os estudantes, professores e trabalhadores da USP encamparam foi decisiva para o processo de maior radicaliza\u00e7\u00e3o do movimento de esquerda naquele per\u00edodo, em contrapartida, a repress\u00e3o no interior da universidade tamb\u00e9m foi bastante ofensiva. Sobre a USP sempre pesou, desde sua cria\u00e7\u00e3o at\u00e9 os dias atuais, a interfer\u00eancia pol\u00edtica e econ\u00f4mica externa com apoio interno dos gestores da institui\u00e7\u00e3o. Os governos e diversos setores da burguesia sempre tiveram interesse em mant\u00ea-la sob controle, ou melhor, sob o seu controle, com intuito de agir livremente dentro da universidade. Assim, vemos reitores indicados por governos como prestadores de servi\u00e7os dentro da universidade a seus beneficiadores, assim como, governos concedendo cargos e privil\u00e9gios para seus indicados. A reitoria da USP \u00e9 e sempre foi cargo de confian\u00e7a concedido pelo estado a seus aliados da burguesia para garantir a a\u00e7\u00e3o mercantilista, neoliberal dentro da universidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>A moderniza\u00e7\u00e3o conservadora na Universidade de S\u00e3o Paulo (USP)<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00c0 frente do estado de S\u00e3o Paulo h\u00e1 quase vinte anos, o PSDB (Partido da Social Democracia Brasileira) desenvolve uma ampla pol\u00edtica neoliberal em todos os setores da administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica. Essa pol\u00edtica significou um intenso processo de privatiza\u00e7\u00e3o das estatais paulistas, a imposi\u00e7\u00e3o do arrocho salarial com base e justificativa na lei de responsabilidade fiscal, a precariza\u00e7\u00e3o dos setores sociais como sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Desde 2007, em que os decretos que imputavam o fim da autonomia universit\u00e1ria4 encontraram uma impactante resist\u00eancia do movimento atrav\u00e9s da ocupa\u00e7\u00e3o da reitoria pelos estudantes e trabalhadores, ganhando assim grande repercuss\u00e3o nacional, h\u00e1 uma intensa queda de bra\u00e7o entre a burocracia universit\u00e1ria a servi\u00e7o do neoliberalismo e do movimento em defesa da universidade a servi\u00e7o dos trabalhadores. A universidade nos moldes atuais, mesmo que historicamente elitista, j\u00e1 n\u00e3o atende totalmente aos interesses da classe dominante, e esta tem por objetivo a constitui\u00e7\u00e3o de uma universidade exclusivamente ligada aos interesses mercadol\u00f3gicos. A finalidade, portanto, deste projeto \u00e9 \u201crefundar\u201d a universidade de S\u00e3o Paulo e \u00e9 evidente que n\u00e3o se trata de torn\u00e1-la acess\u00edvel e voltada aos interesses da maioria. \u00c9 claro que da parte dos trabalhadores n\u00e3o h\u00e1 um movimento ideologicamente homog\u00eaneo. No seu interior existe um conjunto de posi\u00e7\u00f5es que oscilam do oportunismo mais deslavado ao sectarismo. E nessa queda de bra\u00e7o com a Reitoria, o PSDB vem tratando de ajustar as t\u00e1ticas de acordo com a for\u00e7a do movimento e da pol\u00edtica de sua dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em 2007, trabalhadores e estudantes da USP enfrentaram uma ofensiva global contra o car\u00e1ter p\u00fablico da universidade e contra a organiza\u00e7\u00e3o independente dos estudantes e trabalhadores. A mobiliza\u00e7\u00e3o massiva e a ocupa\u00e7\u00e3o da reitoria por estudantes e funcion\u00e1rios permitiram uma vit\u00f3ria parcial diante da pol\u00edtica de aprofundar o controle governamental sobre a universidade. Ap\u00f3s o recuo do governo com o decreto declarat\u00f3rio publicado durante a ocupa\u00e7\u00e3o da reitoria de 2007, a estrat\u00e9gia mudou e passou a ser a de avan\u00e7ar nas \u201creformas\u201d atrav\u00e9s de pacotes menores de maldade, e sem, contudo, alterar a totalidade do projeto de avan\u00e7ar no processo de privatiza\u00e7\u00e3o da universidade.<\/p>\n<p>O que em 2007 era uma tentativa de \u201crefundar\u201d a universidade no atacado &#8211; o que foi repelido pelo movimento -, tomou nos anos seguintes a forma de um conjunto de medidas pontuais, mas que guardam a mesma l\u00f3gica interna do projeto de 2007. Essa estrat\u00e9gia passa por extirpar a resist\u00eancias dos trabalhadores e dos estudantes. Parte decisiva dessa estrat\u00e9gia s\u00e3o os processos administrativos e inqu\u00e9ritos criminais que s\u00e3o instaurados com a evidente inten\u00e7\u00e3o de retaliar dirigentes, ativistas sindicais e estudantes.<\/p>\n<p>Nos primeiros anos que se seguiram ap\u00f3s a ocupa\u00e7\u00e3o de 2007, Jos\u00e9 Serra (ent\u00e3o governando pelo PSDB) realiza, de forma combinada, uma s\u00e9rie de ataques aos ativistas. O primeiro foi a demiss\u00e3o de Claudionor Brand\u00e3o (dirigente sindical que, mesmo tendo estabilidade por lei, foi demitido em um processo administrativo claramente pol\u00edtico durante a gest\u00e3o da reitora Suely Vilela). Logo em seguida, a reitoria tomou o h\u00e1bito de processar aqueles que se colocavam em seu caminho. E quando os processos administrativos n\u00e3o foram suficientes para extirpar seus inimigos, foi necess\u00e1ria ajuda externa para punir os lutadores.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Militariza\u00e7\u00e3o da universidade e resist\u00eancia: A militariza\u00e7\u00e3o como forma de garantir a privatiza\u00e7\u00e3o da universidade<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ainda no governo de Jos\u00e9 Serra come\u00e7aram a ser criadas as condi\u00e7\u00f5es favor\u00e1veis, atrav\u00e9s de v\u00e1rias decis\u00f5es pol\u00edtico-administrativas, com o objetivo de impor a presen\u00e7a da pol\u00edcia no interior da universidade, o que culminou com a assinatura do conv\u00eanio da USP com a Pol\u00edcia Militar em 2011.<\/p>\n<p>Em 2009, funcion\u00e1rios e professores se rebelaram diante da trucul\u00eancia da reitoria calcada na demiss\u00e3o, precariza\u00e7\u00e3o e persegui\u00e7\u00e3o de lideran\u00e7as dos trabalhadores e dos estudantes, al\u00e9m das pol\u00edticas de privatiza\u00e7\u00e3o do ensino como a Universidade Virtual de S\u00e3o Paulo (UNIVESP), criada em outubro de 2008, que prev\u00ea a forma\u00e7\u00e3o de estudantes sem aulas presenciais e via internet. Para resistir a esta contra-ofensiva governamental, os funcion\u00e1rios, seguidos por estudantes e professores, organizaram em 2009 uma greve unificada. Nesse momento, n\u00e3o era apenas a USP que se mobilizava, havia tamb\u00e9m uma forte agita\u00e7\u00e3o em outras universidades estaduais, como na UNESP de Mar\u00edlia, onde os estudantes entraram em greve com ocupa\u00e7\u00e3o de salas de aula reivindicando moradia estudantil.<\/p>\n<p>Em maio de 2009 foi realizada uma importante assembl\u00e9ia de estudantes, com mais de 300 companheiros, na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU). J\u00e1 havia um processo de mobiliza\u00e7\u00e3o de estudantes e professores devido \u00e0s interven\u00e7\u00f5es no pr\u00e9dio \u2013 s\u00edmbolo internacional da arquitetura &#8211; sem nenhuma consulta \u00e0 comunidade acad\u00eamica. Apesar de uma parcela importante dos estudantes demonstrarem uma crescente disposi\u00e7\u00e3o de luta, a assembl\u00e9ia se limitou a votar por mais uma Assembl\u00e9ia, na semana seguinte, devido principalmente \u00e0 interven\u00e7\u00e3o vacilante da dire\u00e7\u00e3o (PSTU, apoiado pelo PSOL) do Diret\u00f3rio Central dos Estudantes (DCE). Era poss\u00edvel votar uma proposta concreta de paralisa\u00e7\u00e3o e outras atividades (atos, passeatas) em solidariedade aos funcion\u00e1rios, em greve h\u00e1 5 dias, e pelos eixos comuns, tirados entre funcion\u00e1rios, professores e estudantes, e espec\u00edficos dos estudantes. As resolu\u00e7\u00f5es desta assembl\u00e9ia, pela pol\u00edtica claramente de antimobiliza\u00e7\u00e3o da dire\u00e7\u00e3o do DCE, n\u00e3o apontaram para lugar algum. O problema \u00e9 que predominou \u2013 e ir\u00e1 predominar em outros momentos &#8211; um c\u00e1lculo mesquinho, ligado a interesses estranhos aos da luta, o que fez com que os estudantes n\u00e3o sa\u00edssem armados com uma data de in\u00edcio da greve estudantil, bem como com um calend\u00e1rio de luta que possibilitasse aos estudantes da USP, em conjunto com os demais estudantes das estaduais paulistas, enfrentarem os ataques da reitoria e do governo Serra.<\/p>\n<p>Por sua vez, um importante setor encabe\u00e7ado pelo Movimento Nega\u00e7\u00e3o da Nega\u00e7\u00e3o (MNN) sustentou durante toda assembl\u00e9ia uma posi\u00e7\u00e3o sect\u00e1ria, isto \u00e9, que a greve deveria ser votada naquele momento, sem demonstrar nenhuma preocupa\u00e7\u00e3o com a sua prepara\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m nos chamou aten\u00e7\u00e3o a passividade dos companheiros do grupo A Plenos Pulm\u00f5es (LER-QI), sobretudo se levarmos em conta sua responsabilidade como codire\u00e7\u00e3o do SINTUSP. Suas interven\u00e7\u00f5es giraram em torno de quest\u00f5es gerais, abstendo-se de uma luta direta para a vota\u00e7\u00e3o de uma data concreta para o in\u00edcio da greve. Ante a passividade burocr\u00e1tica do PSTU e ao sectarismo do MNN que, ao inv\u00e9s de proporem a greve a partir da semana seguinte, abstiveram-se na principal vota\u00e7\u00e3o da assembl\u00e9ia, isto \u00e9: a de iniciar a greve ou n\u00e3o.<\/p>\n<p>Devido \u00e0 tend\u00eancia crescente de mobiliza\u00e7\u00e3o e enfrentamento dos estudantes, o vazio pol\u00edtico deixado pela dire\u00e7\u00e3o do DCE causou uma perigosa fragmenta\u00e7\u00e3o do movimento frente aos enormes desafios colocados pela trucul\u00eancia de Jos\u00e9 Serra (governador do Estado de S\u00e3o Paulo pelo PSDB) e Suely Vilela (reitora da USP naquele momento). Assim, diante da trucul\u00eancia da reitora, que n\u00e3o permitiu a entrada de Brand\u00e3o (l\u00edder sindical demitido por persegui\u00e7\u00e3o pol\u00edtica) na negocia\u00e7\u00e3o no dia 25 de maio e da aus\u00eancia &#8211; inclusive f\u00edsica &#8211; da dire\u00e7\u00e3o do DCE, um setor dos estudantes que participou do Ato, ao n\u00e3o ter qualquer orienta\u00e7\u00e3o para lutar, realizou uma ocupa\u00e7\u00e3o parcial da reitoria. A aus\u00eancia pol\u00edtica da dire\u00e7\u00e3o do DCE, e de outros setores que devem ter responsabilidade efetiva na dire\u00e7\u00e3o do movimento, e a pol\u00edtica sect\u00e1ria (MNN e outros), levou os estudantes \u00e0 divis\u00e3o frente a esta a\u00e7\u00e3o. Para coroar a sua a\u00e7\u00e3o de antimobiliza\u00e7\u00e3o, a dire\u00e7\u00e3o do DCE se ausentou politicamente da cena e, logo ap\u00f3s a ocupa\u00e7\u00e3o da reitoria e da divis\u00e3o not\u00f3ria entre os estudantes, aparece e convoca uma plen\u00e1ria para \u201corganizar\u201d os estudantes em uma plen\u00e1ria que acabou votando pela retirada das depend\u00eancias da reitoria.<\/p>\n<p>Na assembl\u00e9ia do dia 28 de maio, a dire\u00e7\u00e3o do DCE n\u00e3o mudou de postura pol\u00edtica e continuou com a t\u00e1tica de adiar o movimento grevista dos estudantes. Agora a proposta da dire\u00e7\u00e3o do DCE (PSTU apoiado pelo PSOL) era a de um \u201cindicativo de greve para discutir nos cursos\u201d, ou seja, mais uma vez apostaram nas tend\u00eancias contr\u00e1rias \u00e0 luta. Outros setores (MNN e cia.) propunham a \u201cgreve imediata com radicaliza\u00e7\u00e3o\u201d e a LER-QI \u201cgreve a partir do dia 4 de abril\u201d. A formula\u00e7\u00e3o a nosso ver, que captava melhor a din\u00e2mica ascendente da mobiliza\u00e7\u00e3o era a da \u201cgreve imediata\u201d tendo claro que a din\u00e2mica e as necessidades do movimento s\u00e3o as que definem melhor as t\u00e1ticas a serem adotadas no decorrer da luta. A assembl\u00e9ia votou pelo indicativo de greve.<\/p>\n<p>A partir desse momento, a dire\u00e7\u00e3o do DCE apresentou uma proposta escandalosa, a de fazer a pr\u00f3xima assembl\u00e9ia apenas no dia 10 de junho, v\u00e9spera de feriado e do Congresso Nacional dos Estudantes. Esta proposta, caso passasse, colocaria o movimento na geladeira durante duas semanas, sendo que os enfrentamentos com a reitoria j\u00e1 indicavam uma radicaliza\u00e7\u00e3o do processo. Sendo esta derrotada, a assembl\u00e9ia seguinte foi marcada para o dia 4 de junho.<\/p>\n<p>Alertamos na assembl\u00e9ia esta manobra apresentada pelo PSOL e apoiada pelo PSTU que, apesar da universidade estar em uma conjuntura de luta favor\u00e1vel, estavam preocupados com o congresso. Nossa den\u00fancia, por\u00e9m, impossibilitou a posterga\u00e7\u00e3o da assembl\u00e9ia para o dia 10, vinte dias depois daquela assembl\u00e9ia, passando a proposta de assembl\u00e9ia para o dia 4. Entretanto, no dia 1 de junho, a \u201cfor\u00e7a t\u00e1tica\u201d da pol\u00edcia militar do Estado de S\u00e3o Paulo, sob as ordens da reitoria e do governo Serra, atentou contra o direito democr\u00e1tico de livre organiza\u00e7\u00e3o sindical dos funcion\u00e1rios da USP, dispersando os grevistas que realizavam piquete (m\u00e9todo hist\u00f3rico, e leg\u00edtimo de efetiva\u00e7\u00e3o da vontade da maioria dos trabalhadores em luta) em frente \u00e0 Reitoria.<\/p>\n<p>O ponto alto da greve de 2009 se deu ap\u00f3s o dia 9 de junho. Em uma manifesta\u00e7\u00e3o em frente \u00e0 portaria central (P1), contra a PM no interior da universidade, foi montada uma provoca\u00e7\u00e3o operada pela PM com o objetivo de reprimir a crescente mobiliza\u00e7\u00e3o da comunidade acad\u00eamica. Estudantes e funcion\u00e1rios foram perseguidos, atacados com bombas e balas de borracha. Ap\u00f3s os ataques da tropa de choque, parte dos alunos se refugiou no interior do pr\u00e9dio da Hist\u00f3ria e Geografia, e outra parte tomou a avenida em frente aos pr\u00e9dios da FFLCH (Faculdade de Filosofia, Letras e Ci\u00eancias Humanas) para realizar uma assembl\u00e9ia\/vig\u00edlia para exigir a liberta\u00e7\u00e3o dos presos pol\u00edticos e organizar o enfrentamento com a pol\u00edcia. Mesmo com a maioria dos estudantes a favor de realizar uma assembl\u00e9ia na avenida ocupada, a dire\u00e7\u00e3o do DCE (na \u00e9poca dirigida pelo PSTU), ap\u00f3s discuss\u00f5es no interior do pr\u00e9dio da hist\u00f3ria, n\u00e3o encaminhou a vontade da maioria. Um membro de DCE\/PSTU autoritariamente impediu que estudantes falassem ao microfone para encaminhar a proposta vitoriosa de realizar a assembl\u00e9ia na avenida. Quando perceberam que n\u00e3o seria poss\u00edvel manobrar, novamente o PSTU tentou implodir a assembl\u00e9ia e, ao se retirar, levou a caixa de som, em uma tentativa desesperada de inviabilizar a assembl\u00e9ia, fato que n\u00e3o ocorreu. Ap\u00f3s isto, foi instalada prontamente uma mesa de coordena\u00e7\u00e3o dos trabalhos. Passados v\u00e1rios minutos do in\u00edcio da assembl\u00e9ia, membros do DCE\/PSTU, quando viram que a assembl\u00e9ia ia acontecer, sim ou sim, tentam uma manobra para estabelecer burocraticamente a dire\u00e7\u00e3o da assembl\u00e9ia. Ap\u00f3s um encaminhamento tumultuado, a maioria dos estudantes repudiou a proposta que os membros da dire\u00e7\u00e3o do DCE assumissem a mesa da assembl\u00e9ia. Temos, aqui, mais um exemplo do <i>modus operandi<\/i> desta \u201cdire\u00e7\u00e3o\u201d. \u00c9 impressionante a regularidade da conduta burocr\u00e1tica desta corrente estudantil, pois durante todo o processo nunca procurou desenvolver pol\u00edticas que fossem pontes para impulsionar a mobiliza\u00e7\u00e3o dos estudantes, pelo contr\u00e1rio, se dedicaram a serem os porta-vozes do atraso e os dirigentes da vontade de n\u00e3o lutar. Houve, inclusive, assembl\u00e9ias em que impuseram o expediente do decurso de prazo impondo o fim da assembl\u00e9ia com uma s\u00e9rie de quest\u00f5es importantes a serem discutidas e votadas.<\/p>\n<p>A assembl\u00e9ia do dia 4 de junho j\u00e1 se deu em um patamar totalmente distinto de mobiliza\u00e7\u00e3o, pois, a a\u00e7\u00e3o da tropa de choque sob as ordens da reitoria fez o p\u00eandulo se voltar para a proposta de greve. A assembl\u00e9ia foi fundamental, pois acabou votando pela greve dos estudantes, o que colocava em outro patamar a mobiliza\u00e7\u00e3o pela derrubada da reitora, pelas elei\u00e7\u00f5es diretas, pelo fim da UNIVESP, pela reincorpora\u00e7\u00e3o de Brand\u00e3o e pelo atendimento a todas as pautas econ\u00f4micas dos funcion\u00e1rios.<\/p>\n<p>O DCE (dirigido pelo PSTU\/PSOL) tratou de frear a crescente necessidade e vontade de lutar dos estudantes, fatores que atrasaram de forma criminosa a unifica\u00e7\u00e3o com os professores e os funcion\u00e1rios, os \u00faltimos que, j\u00e1 em greve por reivindica\u00e7\u00f5es decisivas para o conjunto da comunidade, questionavam a estrutura de poder no interior da universidade e a pol\u00edtica privatista e elitista do governo Serra. Por for\u00e7a da mobiliza\u00e7\u00e3o e gra\u00e7as \u00e0 indigna\u00e7\u00e3o diante da repress\u00e3o policial aos piquetes, estudantes e professores entraram em greve. Com a greve instaurada em todos os setores e ganhando apoio da opini\u00e3o p\u00fablica e dentro da comunidade acad\u00eamica, o governo Serra intensificou sua pol\u00edtica repressiva, o que gerou mais indigna\u00e7\u00e3o e radicaliza\u00e7\u00e3o da luta. Na semana seguinte foi realizado um grande ato na Avenida Paulista com aproximadamente sete mil pessoas, o que demonstrou grande for\u00e7a e potencial da mobiliza\u00e7\u00e3o. Qual fator explica que uma crescente mobiliza\u00e7\u00e3o tenha reflu\u00eddo de forma t\u00e3o abrupta? Para n\u00f3s, o elemento fundamental foi a pol\u00edtica da dire\u00e7\u00e3o deste movimento. Primeiro, por ter aceitado negociar com a reitoria &#8211; reconhecendo sua autoridade (como se pode sentar para negociar com inimigo que se quer a cabe\u00e7a em um momento que \u00e9 poss\u00edvel continuar lutando?) &#8211; e por suspender os piquetes da greve. Segundo, porque, ap\u00f3s a passeata dos sete mil, n\u00e3o houve mais nenhuma iniciativa pol\u00edtica para aglutinar em uma a\u00e7\u00e3o conjunta todos os setores (possu\u00edamos uma proposta concreta no sentido de realizar um acampamento em frete \u00e0 reitoria, pois acredit\u00e1vamos que essa medida aglutinaria os estudantes, funcion\u00e1rios e professores durante a greve). Desta forma, nenhuma das reivindica\u00e7\u00f5es importantes foi atendida e, o que \u00e9 pior, em um momento em que ainda existiam possibilidades de enfrentamento.<\/p>\n<p>Apesar de respeitar a combatividade do Sindicato dos Trabalhadores da USP (SINTUSP), n\u00e3o podemos nos furtar ao debate franco que a luta de classes exige e, neste sentido, avaliarmos que medidas pol\u00edticas como negociar com Suely e suspender os piquetes foram equivocadas. N\u00e3o concordamos em absoluto, por todos os motivos expostos acima, com a avalia\u00e7\u00e3o da greve na USP, no primeiro semestre, realizada pelas correntes (PSTU, PSOL, LER-QI) e pelo SINTUSP, que afirmam que houve uma vit\u00f3ria do movimento no primeiro semestre. Neste sentido, essa metodologia se aproxima a dos setores burocr\u00e1ticos, que colocam o prest\u00edgio pessoal na frente de qualquer an\u00e1lise concreta da realidade. N\u00e3o \u00e9 isso o que nos legou o melhor da tradi\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria de L\u00eanin, Trotsky e Rosa Luxemburgo, pelo contr\u00e1rio, sempre se coloca a necessidade de tirar todas as li\u00e7\u00f5es do passado, independentemente do que possa advir disso.<\/p>\n<p>Infelizmente, a dire\u00e7\u00e3o do SINTUSP n\u00e3o fugiu desta l\u00f3gica. No jornal do Sintusp de agosto de 2009, dedicado ao balan\u00e7o da greve, afirma-se que <i>\u201ca greve dos trabalhadores da USP teve como subproduto tr\u00eas conquistas extremamente importantes, para al\u00e9m das conquistas econ\u00f4micas parciais&#8230;\u201d<\/i> dentre estas conquistas s\u00e3o elencados: o \u201cexemplo de como se deve lutar para resistir aos ataques que ser\u00e3o descarregados sobre a classe trabalhadora frente aos impactos da crise econ\u00f4mica mundial\u201d; o <i>\u201cexemplo de como os trabalhadores podem e devem levantar as demandas dos demais setores explorados e colocou em evid\u00eancia o ca<\/i>r\u00e1ter olig\u00e1rquico e reacion\u00e1rio da estrutura de poder e das camarilhas que governam a universidade\u201d. Aceitar retirar os piquetes (instrumento leg\u00edtimo de luta em defesa da exist\u00eancia real da greve decidida por maioria) em um momento em que havia uma intensifica\u00e7\u00e3o da luta, foi outro equ\u00edvoco que desarmou o movimento e acabou com uma importante atividade de aglutina\u00e7\u00e3o da vanguarda.<\/p>\n<p>Como se pode ver, o exemplo citado acima torna expl\u00edcito o que afirmamos em rela\u00e7\u00e3o aos perigos de transformar derrotas em vit\u00f3rias. N\u00e3o podemos negar que a luta dos funcion\u00e1rios do primeiro semestre de 2009 colocou em evid\u00eancia uma s\u00e9rie de problemas pol\u00edticos e estruturais da universidade e que a for\u00e7a da sua mobiliza\u00e7\u00e3o praticamente empurrou os demais setores da universidade ao processo de unifica\u00e7\u00e3o do movimento grevista, todavia, n\u00e3o se pode medir o resultado de uma luta pelas inten\u00e7\u00f5es do movimento, \u00e9 necess\u00e1rio verificar objetivamente quais foram os resultados pol\u00edticos e econ\u00f4micos dessa luta. A constru\u00e7\u00e3o de toda forma de justifica\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica trata de apresentar parcialmente a realidade, separar mecanicamente causas e efeitos e naturalizar o que \u00e9 hist\u00f3rico. O marxismo procura fazer o caminho inverso, buscando explica\u00e7\u00f5es\/avalia\u00e7\u00f5es totalizantes, hist\u00f3ricas e dial\u00e9ticas. No que pese a disputa entre as organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas que atuam nas v\u00e1rias frentes de luta dos trabalhadores e da juventude, o esfor\u00e7o para realizar avalia\u00e7\u00f5es objetivas das lutas e das condi\u00e7\u00f5es que derivam delas \u00e9 decisiva para orientar os pr\u00f3ximos passos do movimento. Infelizmente, a pr\u00e1tica rotineira de n\u00e3o se fazer an\u00e1lise concreta da realidade somada a outros fatores, n\u00e3o contribui para a luta dos trabalhadores, ao contr\u00e1rio, tem desarmado subjetivamente v\u00e1rios setores.<\/p>\n<p><b>\u00a0<\/b><\/p>\n<p><b>2010: Greve dos trabalhadores e ocupa\u00e7\u00e3o reitoria <\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em 2010, o novo reitor (Jo\u00e3o Grandino Rodas), conhecido direitista a servi\u00e7o da repress\u00e3o aos lutadores &#8211; respons\u00e1vel pela resolu\u00e7\u00e3o do Conselho Universit\u00e1rio que recomenda a interven\u00e7\u00e3o policial no interior da universidade &#8211; foi antidemocraticamente eleito. J\u00e1 em sua posse foi respons\u00e1vel pela repress\u00e3o de uma manifesta\u00e7\u00e3o estudantil que resultou em agress\u00f5es policiais e na pris\u00e3o de tr\u00eas estudantes.<\/p>\n<p>Rodas, desde sua posse e ainda hoje, \u00e9 praticamente um interventor do governo do Estado de S\u00e3o Paulo com o objetivo de aprofundar a pol\u00edtica tucana de desmonte da universidade p\u00fablica. Um claro exemplo disso \u00e9 a assinatura da UNIVESP, um dos itens fundamentais que levou a mobiliza\u00e7\u00e3o estudantil em 2009. Logo no in\u00edcio do ano letivo na USP, o novo reitor tratou de aprovar a medida e vem aplicando-a desde sua posse, al\u00e9m de outras para reprimir, perseguir, expulsar e demitir os lutadores da Universidade de S\u00e3o Paulo e, tamb\u00e9m, para estabelecer condi\u00e7\u00f5es favor\u00e1veis para impor o projeto privatista do governo do Estado (PSDB).<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o especificamente \u00e0 assinatura da UNIVESP, ali\u00e1s, vale dizer que com ela se instituiu um novo patamar de ataques \u00e0 universidade p\u00fablica, pois seus cursos s\u00e3o voltados para a forma\u00e7\u00e3o de profissionais para atender ao ensino p\u00fablico de n\u00edvel b\u00e1sico. Instituem-se, pois, no interior da universidade dois n\u00edveis de forma\u00e7\u00e3o &#8211; presencial e \u00e0 dist\u00e2ncia &#8211; que acabam por gerar um processo ainda maior de diferencia\u00e7\u00e3o profissional j\u00e1 existente anteriormente entre cursos tradicionais, como Direito, Engenharia e Medicina, de um lado, e os cursos de humanidades e Licenciatura, de outro. Tudo isso sob o marketing de que o acesso \u00e0 universidade p\u00fablica est\u00e1 sendo ampliado.<\/p>\n<p>Al\u00e9m desse quadro, outro muito parecido ao controle ideol\u00f3gico exercido nos tempos de ditadura irrompe-se. Al\u00e9m da ocupa\u00e7\u00e3o do bloco G, para fins de moradia estudantil, o fato de os funcion\u00e1rios, ap\u00f3s uma s\u00e9rie de tentativas frustradas, terem suas reivindica\u00e7\u00f5es atendidas pela reitoria, e entrarem em greve em 5 de maio.<\/p>\n<p>Desde a campanha salarial dos funcion\u00e1rios de 2010, culminada pela greve dos trabalhadores da USP e da UNICAMP,5 os trabalhadores da USP foram surpreendidos com a pol\u00edtica de reposi\u00e7\u00e3o salarial diferenciada, quebrando acordos anteriores que garantiam isonomia salarial entre professores e funcion\u00e1rios t\u00e9cnicos administrativos. A isonomia salarial foi quebrada quando o Conselho de Reitores das Universidades de S\u00e3o Paulo (CRUESP) concedeu aos professores das institui\u00e7\u00f5es a princ\u00edpio um aumento de 6%, al\u00e9m de bonifica\u00e7\u00e3o de R$ 500,00 e depois, pelas costas dos trabalhadores, concedeu mais 6% totalizado 12%, no qual o mesmo n\u00e3o foi estendido aos demais funcion\u00e1rios das universidades, em uma clara estrat\u00e9gia de dividir a unidade dos trabalhadores &#8211; estrat\u00e9gia que passa pela demiss\u00e3o e persegui\u00e7\u00e3o de lideran\u00e7as sindicais, controle dos espa\u00e7os estudantis, policiamento da vida no interior da universidade, de coopta\u00e7\u00e3o etc. &#8211; para continuar aplicando as pol\u00edticas privatizantes dos sucessivos governos do PSDB no Estado de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Diante disso, a categoria desenvolveu uma greve que durou 57 dias e que, diante dos cortes dos sal\u00e1rios de mil trabalhadores e da intransig\u00eancia da reitoria, teve como t\u00e1tica final a ocupa\u00e7\u00e3o da reitoria. Sob o isolamento interno &#8211; e externo &#8211; em que se encontrou o movimento grevista dos funcion\u00e1rios t\u00e9cnicos-administrativos e da t\u00e1tica de, por um lado, manter a quebra da isonomia salarial e n\u00e3o ceder \u00e0s demais reivindica\u00e7\u00f5es e, por outro, de n\u00e3o reprimir diretamente o movimento pela for\u00e7a policial pela reitoria &#8211; mesmo com a ocupa\u00e7\u00e3o da reitoria &#8211; fez-se um acordo que acabou com a greve. Nesse acordo se estabeleceu o pagamento dos dias parados, um reajuste de 6,57%, a abertura de negocia\u00e7\u00e3o por uma refer\u00eancia salarial de 5% e a n\u00e3o puni\u00e7\u00e3o de nenhum trabalhador. Bem, est\u00e1 \u00f3bvio que as principais reivindica\u00e7\u00f5es como a garantia da isonomia e reintegra\u00e7\u00e3o de Brand\u00e3o n\u00e3o foram conquistadas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>O ano do recrudescimento e da radicaliza\u00e7\u00e3o contra o projeto privatista<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O in\u00edcio de 2011 \u00e9 marcado pela demiss\u00e3o de 270 trabalhadores.6 Estas demiss\u00f5es demonstraram claramente a rela\u00e7\u00e3o da burocracia universit\u00e1ria com os trabalhadores, que dedicaram parte importante de suas vidas \u00e0 constru\u00e7\u00e3o da universidade, em muitos casos trabalhadores com mais de trinta anos de servi\u00e7o \u00e0 USP. Al\u00e9m de n\u00e3o terem reconhecido seu papel, receberam como pr\u00eamio a demiss\u00e3o e foram descartados como objetos obsoletos.<\/p>\n<p>Assim ocorreu com a funcion\u00e1ria Vera Soares, que na \u00e9poca, fora surpreendida \u00e0s oito da manh\u00e3 com a not\u00edcia de que: \u201cdever\u00e1 fazer o seu exame (demissional)\u201d (todas as falas da docente foram extra\u00eddas de seu depoimento \u00e0 ADUSP, Associa\u00e7\u00e3o de Docentes da USP, do dia 14 de outubro de 2011).A T\u00e9cnica da Cecae, que trabalhava na USP desde 1986 no regime celetista, descreveu \u00e0 ADUSP com muita precis\u00e3o o que significavam aquelas demiss\u00f5es: \u201cFoi sem justificativa, n\u00e3o houve nenhum processo de avalia\u00e7\u00e3o\u201d. Ainda sem poder acreditar na sua demiss\u00e3o disse, \u201cminha sensa\u00e7\u00e3o \u00e9 de que essas demiss\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o um ato isolado, s\u00f3 fazem sentido como parte de um plano geral. Falta de recurso n\u00e3o \u00e9\u201d. A USP tem um or\u00e7amento de 3,6 bilh\u00f5es de reais que, ao depender de Rodas, n\u00e3o ser\u00e1 utilizado para possibilitar melhores condi\u00e7\u00f5es de trabalho e ensino, mas para projetos que tem a finalidade de gerar lucro para os fundos de pesquisa e para empresas privadas, como o banco Santander, que atua ativamente na universidade inclusive com uma sala privativa dentro do espa\u00e7o do bloco G, onde os estudantes vieram a ocupar, para fins de moradia, devolvendo o caracter p\u00fablico ao espa\u00e7o.7<\/p>\n<p>Apesar deste in\u00edcio de ano marcado por demiss\u00f5es e refluxo do movimento estudantil, o fato que realmente manteve as mobiliza\u00e7\u00f5es na USP neste per\u00edodo foi outro. No primeiro semestre de 2011, a principal mobiliza\u00e7\u00e3o vivida na universidade de S\u00e3o Paulo foi a greve das trabalhadoras e trabalhadores terceirizadas\/dos da limpeza. Estas trabalhadoras e trabalhadores estavam submetidos a um regime de escravid\u00e3o ao trabalharem e n\u00e3o receberem seus sal\u00e1rios, e al\u00e9m da super-explora\u00e7\u00e3o, estes trabalhadores normalmente ficam desassistidos sindicalmente, uma vez que os sindicatos destas categorias s\u00e3o cooptados pela patronal. Essa situa\u00e7\u00e3o \u00e9 comum para os trabalhadores terceirizados da USP.<\/p>\n<p>As trabalhadoras e trabalhadores da empresa Uni\u00e3o, prestavam servi\u00e7o de limpeza \u00e0 USP e entraram em greve pelo absurdo atraso de pagamentos de dois meses.8. Como se n\u00e3o bastasse todas as mazelas da terceiriza\u00e7\u00e3o, como sal\u00e1rios de fome, condi\u00e7\u00f5es de trabalho prec\u00e1rias e discrimina\u00e7\u00e3o, o que colocava objetivamente em risco a sobreviv\u00eancia desses trabalhadores e de suas fam\u00edlias. V\u00e1rias manifesta\u00e7\u00f5es ocorreram durante a greve na universidade e contaram com a solidariedade de centenas de estudantes. Podemos notar o grau de insatisfa\u00e7\u00e3o desses trabalhadores, pela sua radicalidade; as trabalhadoras e trabalhadores pegaram os lixos dos banheiros e espalharam pelo p\u00e1tio, e ainda, as latas de lixos viraram tambores.<\/p>\n<p>Houve ent\u00e3o, uma assembl\u00e9ia dos estudantes no v\u00e3o da Hist\u00f3ria e Geografia. Nesta assembl\u00e9ia, al\u00e9m da pauta de fechamentos de cursos da EACH, outro grande ataque que a universidade sofria naquele momento, pautamos a quest\u00e3o dos terceirizados.9 Defendemos o apoio urgente e irrestrito aos trabalhadores por meio de atos unificados com o Sintusp e ampla participa\u00e7\u00e3o dos estudantes nos piquetes e paralisa\u00e7\u00e3o na semana seguinte, tendo em vista que os trabalhadores j\u00e1 estavam em greve h\u00e1 dias e a mobiliza\u00e7\u00e3o corria risco de dispersar, se n\u00e3o houvesse um apoio imediato. Infelizmente, medidas como estas n\u00e3o passaram nesta assembl\u00e9ia, primeiro pelo direitismo da dire\u00e7\u00e3o do DCE (PSOL), presente principalmente na ala dirigida pela corrente MES e, segundo, pelo oportunismo de organiza\u00e7\u00f5es como PSTU e LER-QI, que buscaram postergar a luta, indicando um ato a respeito das reformas do vestibular com paralisa\u00e7\u00e3o para o dia 28\/4. Nossa posi\u00e7\u00e3o era que na assembl\u00e9ia geral &#8211; realizada no dia 14\/4 &#8211; este fato pol\u00edtico da greve dos trabalhadores terceirizados fosse \u201caproveitado\u201d pelo movimento, sendo um agente mobilizador para a reorganiza\u00e7\u00e3o do movimento estudantil. Essa reorganiza\u00e7\u00e3o, acredit\u00e1vamos, passava primeiramente pela defesa destes trabalhadores para que recebessem seus sal\u00e1rios, tendo como objetivo maior a contrata\u00e7\u00e3o dos mesmos ao quadro de efetivos da USP10 e, a partir disto, barrar outras mazelas que a universidade vinha sofrendo (e ainda vem) como fechamento de cursos, demiss\u00f5es, mudan\u00e7as de grade curricular, fechamento de espa\u00e7os como o N\u00facleo de Consci\u00eancia Negra, persegui\u00e7\u00e3o aos lutadores, Univesp, etc., mas estes setores n\u00e3o se deram conta disto. Assim, gra\u00e7as aquela press\u00e3o espont\u00e2nea dos estudantes, estes trabalhadores receberam seus sal\u00e1rios atrasados. Mas, devido ao economicismo das correntes citadas acima, n\u00e3o houve um movimento forte o suficiente para garantir melhores condi\u00e7\u00f5es de trabalho e contrata\u00e7\u00e3o efetiva desses trabalhadores.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Militariza\u00e7\u00e3o do Campus e repress\u00e3o policial \u00e9 estopim para radicaliza\u00e7\u00e3o e greve no segundo semestre<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Para a reitoria n\u00e3o basta mais a utiliza\u00e7\u00e3o dos mecanismos de repress\u00e3o judiciais e administrativos &#8211; lembramos que a USP ainda \u00e9 regida por um estatuto institu\u00eddo durante a vig\u00eancia do AI 5 &#8211; para aprofundar a privatiza\u00e7\u00e3o e a elitiza\u00e7\u00e3o da universidade. O governo do estado (Alckmin) e a reitoria t\u00eam claro que essa estrat\u00e9gia, para ser posta em pr\u00e1tica, depende da intensifica\u00e7\u00e3o dos mecanismos de repress\u00e3o policial, e para isso foi assinado o conv\u00eanio entre a Secretaria de Seguran\u00e7a P\u00fablica e a USP. Rodas, depois de fazer uma campanha brutal de criminaliza\u00e7\u00e3o do movimento de trabalhadores e estudantes, passando pela demiss\u00e3o pol\u00edtica de sindicalistas de destaque do movimento, aproveitou-se do incidente tr\u00e1gico com um estudante da Faculdade de Economia e Administra\u00e7\u00e3o (FEA), morto ap\u00f3s um assalto, para justificar a entrada da PM na universidade atrav\u00e9s de um conv\u00eanio com a Secretaria de Seguran\u00e7a P\u00fablica do Estado para implementar bases fixas da PM no campus durante 5 anos.11<\/p>\n<p>No dia 8 de setembro, foi assinado o conv\u00eanio com Secretaria de Seguran\u00e7a P\u00fablica que implementou bases da Pol\u00edcia Militar dentro do campus. De nossa parte, fomos os primeiros a tratar de fazer a den\u00fancia e pautar a discuss\u00e3o sobre o tema rapidamente no interior do movimento, em seguida, vieram o MNN e o POR, a partir de um material conjunto.<\/p>\n<p>Encar\u00e1vamos esta quest\u00e3o como muita agravidade, na medida em que se tratava da presen\u00e7a definitiva da mesma pol\u00edcia que, em 2009, violentamente reprimiu a greve dos estudantes e funcion\u00e1rios, chegando inclusive, a jogar g\u00e1s pimenta em professores que apoiavam os estudantes. Agora esta corpora\u00e7\u00e3o voltava a USP, e com carta branca para atuar dentro da Universidade. Entendemos portanto que, desde aquele momento, o que est\u00e1 por tr\u00e1s de adotar o conv\u00eanio \u00e9 a \u201cregulamenta\u00e7\u00e3o\u201d da atua\u00e7\u00e3o PM no campus. Esta medida tem por objetivo reprimir qualquer forma independente de organiza\u00e7\u00e3o do movimento estudantil e dos trabalhadores e, por conseguinte, deixar o caminho mais f\u00e1cil para dar continuidade \u00e0 privatiza\u00e7\u00e3o e precariza\u00e7\u00e3o da universidade. O conv\u00eanio reacion\u00e1rio estabelecido entre USP e a Secretaria de Seguran\u00e7a P\u00fablica do Estado, o qual permite a\u00e7\u00e3o di\u00e1ria da Pol\u00edcia Militar (PM) dentro da universidade, vem no sentido de afrontar e intimidar cotidianamente trabalhadores, estudantes e a comunidade em geral, que devem ter acesso irrestrito \u00e0s depend\u00eancias da universidade. Ao contr\u00e1rio do que Rodas tenta falsear, a pol\u00edcia sob nenhum aspecto \u00e9 sin\u00f4nimo de seguran\u00e7a. Acompanhamos recentemente nos jornais de grande circula\u00e7\u00e3o e TV diversos esc\u00e2ndalos e den\u00fancias contra a a\u00e7\u00e3o corrupta, mercen\u00e1ria e b\u00e1rbara da pol\u00edcia.<\/p>\n<p><b>\u00a0<\/b><\/p>\n<p><b>Bastava uma fagulha<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A avalia\u00e7\u00e3o da atual gest\u00e3o do DCE (PSOL) era de que o movimento estudantil na USP estava derrotado, apostando assim, na sua desmobiliza\u00e7\u00e3o. Diziam que era necess\u00e1rio antes de tudo, construir um movimento, e em contrapartida, foi uma gest\u00e3o silenciosa diante do que estava sendo feito, pois n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o chamaram espontaneamente uma assembl\u00e9ia para discutir e tomar medidas de luta contra a assinatura do conv\u00eanio, como tentaram barrar qualquer iniciativa nesse sentido. Entretanto, fatos ocorridos no dia 27 de outubro, mudaram completamente o cen\u00e1rio, e o DCE estava prestes a ser atropelado pelo movimento que colocou a resist\u00eancia ao avan\u00e7o do processo de privatiza\u00e7\u00e3o e elitiza\u00e7\u00e3o da USP em patamar totalmente distinto. O problema adicional \u00e9 que a quest\u00e3o da seguran\u00e7a no campus na verdade foi agravada com a presen\u00e7a da PM, fato comprovado pelo epis\u00f3dio do dia 27 de outubro, pelas constantes blitz a estudantes, funcion\u00e1rios e professores e, posteriormente na viol\u00eancia e racismo impingidos a um estudante negro da EACH (campus localizado na zone leste da capital).<\/p>\n<p>No epis\u00f3dio em quest\u00e3o, com a pris\u00e3o de tr\u00eas estudantes na FFLCH, no dia 27 de Outubro, pelo suposto porte de drogas, a pol\u00edcia militar deu uma amostra cabal para quem quisesse ver, sobre qual \u00e9 o seu verdadeiro papel no interior do campus, ali\u00e1s, como \u00e9 em qualquer outro lugar. A PM n\u00e3o tardou em demonstrar a que veio. A resist\u00eancia espont\u00e2nea de centenas de estudantes diante desse ataque gerou uma mudan\u00e7a significativa na situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica no interior da universidade. E ficou clara para centenas de estudantes a posi\u00e7\u00e3o diretista do PSOL, que fez cord\u00e3o de isolamento ao redor dos 3 estudantes, isolando-os dos outros e (que estavam indignados com a a\u00e7\u00e3o da pol\u00edcia) prontificando-se, desta forma, em lev\u00e1-los para a delegacia para prestar esclarecimentos a pol\u00edcia. Ap\u00f3s isso, em uma assembl\u00e9ia os estudantes resolveram ocupar a sede administrativa da FFLCH.12 Nessa assembl\u00e9ia, haviam tr\u00eas propostas: ocupar a sede administrativa da FFLCH, ocupar a reitoria e adiar qualquer a\u00e7\u00e3o concreta, a \u00faltima defendida, \u00e9 claro, pelo PSTU.<\/p>\n<p>Durante a ocupa\u00e7\u00e3o se iniciou um intenso debate sobre a continuidade do movimento e sobre os eixos da mobiliza\u00e7\u00e3o onde o bloco do PSTU\/PSOL se enfrentou constantemente com o conjunto do bloco formado pelos setores mais combativos da universidade. O tema central girou em torno da quest\u00e3o do conv\u00eanio PM-USP, sendo que o bloco PSTU\/PSOL tentou o tempo todo desviar o foco do fim do conv\u00eanio\/fora PM com a formula\u00e7\u00e3o de um plano de seguran\u00e7a alternativo, uma pol\u00edcia mais humana, com policiais mulheres etc&#8230; Essa formula\u00e7\u00e3o tinha como preocupa\u00e7\u00e3o n\u00e3o a evidente necessidade de se investir em ilumina\u00e7\u00e3o, mais linhas de \u00f4nibus ou de espa\u00e7os de conviv\u00eancia, mas tinha, de fato, como principal foco desviar a aten\u00e7\u00e3o da luta contra o conv\u00eanio para construir uma proposta de negocia\u00e7\u00e3o mais palat\u00e1vel para a burocracia universit\u00e1ria.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Uma aposta na desmobiliza\u00e7\u00e3o <\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Na assembl\u00e9ia do dia 1 de novembro, quando com a presen\u00e7a de mais de mil estudantes em um momento em que o movimento crescia, o bloco PSTU\/PSOL apresentou a proposta de suspender a ocupa\u00e7\u00e3o da sede administrativa da FFLCH em nome da constru\u00e7\u00e3o de um processo mais amplo de mobiliza\u00e7\u00e3o. Esse argumento constitui-se em um contra-senso absoluto, pois n\u00e3o se tratava de um movimento que perdia for\u00e7a e nem apoio por um lado, e por outro, n\u00e3o havia nenhuma garantia que com a desocupa\u00e7\u00e3o os estudantes n\u00e3o sofreriam penalidades. Ou seja, a proposta de desocupa\u00e7\u00e3o naquele momento poderia levar um movimento em ascenso a ser derrotado, n\u00e3o por falta de for\u00e7a, mas por uma pol\u00edtica entreguista do bloco PSTU\/PSOL. Certamente uma preocupa\u00e7\u00e3o eleitoreira, pois as elei\u00e7\u00f5es para o DCE se aproximavam e realiz\u00e1-las em meio a uma ocupa\u00e7\u00e3o era visto por esse setor como algo perigoso para a manuten\u00e7\u00e3o de sua hegemonia a frente da entidade.<\/p>\n<p>Ora, a proposta de desocupar a reitoria foi levada \u00e0 vota\u00e7\u00e3o e contou com uma margem de cem votos em uma assembl\u00e9ia de mil estudantes. Para surpresa dos setores que queriam acabar com a mobiliza\u00e7\u00e3o, havia sido encaminhada para a mesa da assembl\u00e9ia uma proposta de ocupar a reitoria. A mesa composta por representantes do bloco PSTU\/PSOL tentou manipular a assembl\u00e9ia encaminhando essa proposta para o final, mas n\u00f3s, do Pr\u00e1xis, apoiados por outros setores, mantivemos o encaminhamento de que a proposta de ocupar a reitoria deveria preceder qualquer outra proposta, inclusive o calend\u00e1rio de atividades como propunha a mesa. Foram levadas \u00e0 vota\u00e7\u00e3o as duas propostas de encaminhamento e por um claro contraste visual, o encaminhamento de apreciar primeiro a proposta de ocupar a reitoria foi vitorioso. Em meio \u00e0 vota\u00e7\u00e3o, uma militante do PSOL prop\u00f4s que a assembl\u00e9ia terminasse devido ao fim do teto do hor\u00e1rio da assembl\u00e9ia, mais uma manobra pra n\u00e3o se reconhecer que a maioria dos estudantes queria sim, continuar na assembl\u00e9ia para discutir todas as propostas e, inclusive, a que propunha ocupar a reitoria. Ap\u00f3s um instante de consulta interna ao bloco, a mesa, simplesmente em meio ao processo de vota\u00e7\u00e3o, declarou a assembl\u00e9ia encerrada, se retirando e tentando retirar o equipamento de som, a\u00e7\u00e3o digna dos piores burocratas. Como dissemos anteriormente, pr\u00e1ticas repetidas por esse setor em outras ocasi\u00f5es. Ap\u00f3s momentos de confus\u00e3o, mesmo com essa funesta tentativa de implos\u00e3o e sem a milit\u00e2ncia desses setores golpistas, a assembl\u00e9ia se manteve e deu continuidade aos trabalhos. Com a assembl\u00e9ia restitu\u00edda e, com a presen\u00e7a de mais de quinhentos estudantes, a vota\u00e7\u00e3o sobre o encaminhamento, enfim, foi realizada. Por unanimidade foi votado apreciar a proposta de ocupar a reitoria, e esta, do mesmo modo, foi aprovada de forma un\u00e2nime. A partir da\u00ed a ocupa\u00e7\u00e3o foi realizada na madrugada do dia 2 de novembro.<\/p>\n<p><b>\u00a0<\/b><\/p>\n<p><b>A reintegra\u00e7\u00e3o de posse da reitoria<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A postura da dire\u00e7\u00e3o do DCE (PSOL), acompanhada pelo seu fiel escudeiro (juventude do PSTU) e por uma parte significativa dos professores contribuiu de forma decisiva para que a m\u00eddia de massa fizesse uma campanha para colocar a opini\u00e3o p\u00fablica contra o movimento de ocupa\u00e7\u00e3o. Mas, mesmo contra a burocracia do movimento estudantil, sem o apoio efetivo dos setores alternativos a CUT e a UNE, o movimento estava conseguindo furar o cerco e a cada dia que se passava, ganhava mais apoio. A cada assembl\u00e9ia que se realizava em frente \u00e0 reitoria ocupada, mais cursos davam informes do seu apoio ao movimento. Para que o movimento n\u00e3o se estendesse e ganhasse cada vez mais propor\u00e7\u00f5es e apoio entre os estudantes e na sociedade, como ocorreu em 2007, a reitoria n\u00e3o tardou em entrar com liminar de justi\u00e7a reclamando a reintegra\u00e7\u00e3o de posse do pr\u00e9dio, que inclusive em tempos passados era parte do complexo do CRUSP (bloco K e L).<\/p>\n<p>Aceitar essa intimida\u00e7\u00e3o da reitoria \u00e9 o mesmo que propor que uma categoria em greve suspenda a greve, para depois negociar o sal\u00e1rio. Qualquer movimento que cai nessa manobra \u00e9 derrotado da pior forma, ou seja, rendendo-se mesmo sem que se esgotem as possibilidades da luta. Ficou bastante evidente que a reitoria n\u00e3o estava disposta em negociar com os estudantes. Apesar disso, muitos acreditavam que n\u00e3o haveria reintegra\u00e7\u00e3o, com o argumento de que criaria um desgaste muito grande para o governo de estado de S\u00e3o Paulo e para a reitoria, a exemplo do que ocorreu em 2007.<\/p>\n<p>Em nenhum momento concordamos com a avalia\u00e7\u00e3o essa avalia\u00e7\u00e3o. Em primeiro lugar, por considerar que est\u00e1vamos e, permanecemos, em um momento totalmente distinto, em que h\u00e1 uma decis\u00e3o pol\u00edtica para se levar at\u00e9 o final o projeto de privatiza\u00e7\u00e3o da universidade. Essa decis\u00e3o pol\u00edtica se ap\u00f3ia em uma onda de processos administrativos com cunho pol\u00edtico e no conv\u00eanio com a policia militar, que cumpre o papel de seguran\u00e7a da reitoria para que esta ataque diretamente o movimento. Isso ficou bem claro com o fechamento do espa\u00e7o estudantil, caso que comentaremos mais abaixo. Em segundo lugar, diferentemente de 2007, em que havia um movimento unificado dos setores que comp\u00f5em a universidade, e mesmo no interior da burocracia havia desacordo em rela\u00e7\u00e3o ao decreto sobre a autonomia universit\u00e1ria. Na \u00faltima ocupa\u00e7\u00e3o da reitoria, apesar do crescente apoio que os estudantes recebiam, ainda estavam isolados, inclusive de forma criminosa pela sua pr\u00f3pria entidade.<\/p>\n<p><b>\u00a0<\/b><\/p>\n<p><b>O ponto alto da escalada de repress\u00e3o<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Como era de se esperar, a reintegra\u00e7\u00e3o de posse ocorreu no dia 8 de novembro, de madrugada. A opera\u00e7\u00e3o contou com um efetivo de 400 soldados, cavalaria e 4 helic\u00f3pteros. Esse foi um operativo militar superior ao empregado na invas\u00e3o da universidade pelo ex\u00e9rcito em 1968 para prender todos os estudantes do CRUSP. O resultado dessa opera\u00e7\u00e3o foi a pris\u00e3o de 73 estudantes, agress\u00e3o f\u00edsica e tortura psicol\u00f3gica. Inclusive \u00e9 importante salientar que do total de presos, 4 estavam fora do pr\u00e9dio, durante a a\u00e7\u00e3o policial e foram arbitrariamente detidos. Essa a\u00e7\u00e3o truculenta n\u00e3o foi apenas responsabilidade da reitoria, do governo do Estado de S\u00e3o Paulo, da justi\u00e7a estadual e da pol\u00edcia militar, mas contou tamb\u00e9m com a cumplicidade do governo federal que, como em outros casos de reintegra\u00e7\u00e3o, poderia ter intercedido de v\u00e1rias formas a favor dos estudantes e nada fez. A a\u00e7\u00e3o policial inclusive lan\u00e7ou v\u00e1rias bombas no CRUSP para que os estudantes n\u00e3o descessem em solidariedade aos presos, o que n\u00e3o se demonstrou efetivo, pois mesmo sob a amea\u00e7a policial, centenas de estudantes desceram em apoio aos presos. Ainda pela manh\u00e3, com a universidade sitiada pelas for\u00e7as repressivas, foram realizadas assembl\u00e9ias em v\u00e1rias unidades e decidiu-se pela imediata paralisa\u00e7\u00e3o. Ap\u00f3s um ato em frente \u00e0 reitoria, em passeata, 200 estudantes foram at\u00e9 a 74\u00aa delegacia de pol\u00edcia para exigir a soltura dos presos. Durante a noite, ent\u00e3o, houve uma imensa assembl\u00e9ia que contou com a presen\u00e7a de 3000 estudantes &#8211; a maior assembl\u00e9ia desde 2007 \u2013 e votou-se pela paralisa\u00e7\u00e3o at\u00e9 que os estudantes estivessem libertos, pelo fim dos processos e pelo atendimento a todas as reivindica\u00e7\u00f5es. Enfim, o conv\u00eanio PM-USP ganhava todos os seus contornos, ficava expl\u00edcito qual era a inten\u00e7\u00e3o e ela era, obviamente, a de impor a presen\u00e7a ostensiva da pol\u00edcia no interior do campus.<\/p>\n<p>A a\u00e7\u00e3o policial e a rea\u00e7\u00e3o dos estudantes da universidade ganharam repercuss\u00e3o internacional. O uso da for\u00e7a policial para resolver uma contenda interna foi not\u00edcia e alvo de cr\u00edtica por todo o globo. Toda a tradi\u00e7\u00e3o da autonomia universit\u00e1ria e do di\u00e1logo interno para se resolver as quest\u00f5es pertinentes \u00e0 universidade foi ignorada, abrindo assim, um precedente nefasto e que na verdade serve para medir, pelo meio empregado, a que se destina a atual gest\u00e3o da universidade. Em outras palavras, um projeto de universidade que n\u00e3o atenda ao interesse da maioria s\u00f3 pode mesmo ser implantado com o uso da for\u00e7a. \u00c9 nesse sentido que a atual gest\u00e3o vem atuando.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>A greve<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Com a greve, a conjuntura que j\u00e1 havia se alterado a partir do conflito com a pol\u00edcia no dia 27 de outubro, radicalizou-se ainda mais. Aqueles que colocavam em d\u00favida a viabilidade do movimento e de seus leg\u00edtimos m\u00e9todos (greve, passeatas, piquetes) n\u00e3o perceberam que, como n\u00e3o poderia deixar de ser, cedo ou tarde o Brasil iria se ligar \u00e0 onda de lutas radicalizadas que caracteriza a atual situa\u00e7\u00e3o mundial, deixando claro que a l\u00f3gica dos setores que dirigem o DCE e de v\u00e1rios CAs, al\u00e9m de grande parte dos professores, \u00e9 de aparato, ou seja, de indiferen\u00e7a \u00e0s demandas concretas da luta.<\/p>\n<p>At\u00e9 o final do ano, v\u00e1rios cursos se mant\u00eam em greve. Mesmo cursos que haviam resolvido suspender a greve, como o Curso de Letras, diante da for\u00e7a da mobiliza\u00e7\u00e3o e disposi\u00e7\u00e3o dos estudantes deste curso, voltam a se incorporar ao movimento, deixando muito claro que a disposi\u00e7\u00e3o de seguir lutando at\u00e9 derrotar o projeto de Rodas\/Alckmin, al\u00e9m de se manter, \u00e9 crescente. Al\u00e9m de todas as reivindica\u00e7\u00f5es de antes da desocupa\u00e7\u00e3o da reitoria, surge a luta contra a pris\u00e3o e o processo contra estes companheiros.<\/p>\n<p>No dia 24\/11, a assembl\u00e9ia realizada no Bi\u00eanio da POLI, composta por um n\u00famero massivo de estudantes (cerca de 2000), vota a continuidade quase un\u00e2nime da greve. Al\u00e9m disso, com rela\u00e7\u00e3o aos eixos do movimento, houve um ajuste que unificou dois eixos, isto \u00e9, a revoga\u00e7\u00e3o do conv\u00eanio PM-USP e o Plano de seguran\u00e7a, sendo que, ap\u00f3s esta \u00faltima assembl\u00e9ia, deliberou-se que para haver um plano de seguran\u00e7a, era condi\u00e7\u00e3o que o conv\u00eanio fosse revogado. Essa resolu\u00e7\u00e3o foi um avan\u00e7o na estrutura\u00e7\u00e3o do eixo da greve, pois deixou claro qual \u00e9 a hierarquia entre as reivindica\u00e7\u00f5es da greve, priorizando claramente a revoga\u00e7\u00e3o do conv\u00eanio, para que n\u00e3o reste nenhuma d\u00favida sobre o que \u00e9 central, n\u00e3o permitindo que manobras sejam feitas pela atual gest\u00e3o do DCE novamente. Outra vota\u00e7\u00e3o importante foi a de se o comando de greve deveria organizar a calourada. Tendo em vista a grande mobiliza\u00e7\u00e3o em que est\u00e1vamos (e estamos) e a import\u00e2ncia da cria\u00e7\u00e3o de um instrumento democr\u00e1tico que vise atender \u00e0s demandas do movimento estudantil, o comando foi institu\u00eddo na assembl\u00e9ia geral do dia 8 e at\u00e9 agora \u00e9 composto por representantes eleitos diretamente nas assembl\u00e9ias dos cursos.<\/p>\n<p>Na \u00faltima assembl\u00e9ia geral do ano o PSOL\/PSTU, com o argumento de que o movimento estava se esvaziando, propunham que a greve fosse suspensa para que entr\u00e1ssemos em um \u201cestado de greve\u201d (uma verdadeira manobra burocr\u00e1tica contra o movimento), proposta defendida pelo CCA (Dirigido tamb\u00e9m pelo PSOL e PSTU). Aprovar esta proposta significava recuar (em um momento onde a greve, mesmo no final do ano, e com dificuldades pelo seu isolamento em rela\u00e7\u00e3o aos demais setores da universidade) de levar a luta at\u00e9 o final e qui\u00e7\u00e1 derrotar o projeto privatista e elitista de universidade. Tamb\u00e9m significaria a perda de todo ac\u00famulo de for\u00e7a e da combatividade acumulada desde o dia 27 de outubro, e, tamb\u00e9m, a dispers\u00e3o das pautas do nosso movimento. O bloco PSOL\/PSTU antes de ser derrotado na assembl\u00e9ia da ECA, tentou votar o \u201cestado de greve\u201d na maioria das assembl\u00e9ias de curso, a fim de retomar, para aqueles dois partidos, o controle da organiza\u00e7\u00e3o da calourada. Foram derrotados na maioria dessas assembl\u00e9ias, pois ficou evidente que o verdadeiro prop\u00f3sito era retomar o controle burocr\u00e1tico sobre o movimento.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s isto, e em meio \u00e0s f\u00e9rias, Rodas elimina oito estudantes da universidade, imp\u00f5e o fechamento do espa\u00e7o estudantil e a desocupa\u00e7\u00e3o da Moradia Retomada do bloco G. \u00c9 neste cen\u00e1rio, com efeito, que temos a not\u00edcia de mais este brutal <strong>ataque ao movimento estudantil e ao direito de livre organiza\u00e7\u00e3o<\/strong> por parte da reitoria. No dia 17 de dezembro de 2011, foi publicado em Di\u00e1rio Oficial da Uni\u00e3o a not\u00edcia d<strong>a expuls\u00e3o de oito estudantes da universidade pelo REItor Jo\u00e3o Grandino Rodas.<\/strong> Essa \u201celimina\u00e7\u00e3o\u201d foi resultado da Comiss\u00e3o Processante, cuja <strong>decis\u00e3o se ap\u00f3ia em decretos de 1972, decretos estes que regulamentaram o AI5 no Brasil durante o regime militar. Desta forma, mesmo depois da Reforma Constitucional de 1988, absurdamente o AI5 ainda est\u00e1 em pleno vigor na USP.<\/strong> Dentre suas normas <strong>figura a proibi\u00e7\u00e3o de atividade pol\u00edtica no interior da universidade.<\/strong><\/p>\n<p>Segundo a reitoria, os estudantes foram expulsos <strong>por que desrespeitaram<\/strong> os artigos <em>5\u00ba, 6\u00ba, 21 e 22 do C\u00f3digo de \u00c9tica<\/em> da universidade que fala da preserva\u00e7\u00e3o as normas<i> <\/i><em>a<\/em><strong>os \u201cbons costumes, preceitos morais, valoriza\u00e7\u00e3o do nome e imagem da USP, moralidade, integridade acad\u00eamica (&#8230;)\u201d<\/strong><strong>.<\/strong> Estas <strong>expuls\u00f5es<\/strong>, como todos os outros ataques da reitoria, s\u00e3o de cunho totalmente pol\u00edtico, pois foram aplicadas <strong>contra estudantes que participam da luta<\/strong> pela perman\u00eancia estudantil na universidade e <strong>vinham sendo processados pela ocupa\u00e7\u00e3o de parte do Bloco G da moradia estudantil<\/strong>. Assim, al\u00e9m da \u00f3bvia medida legal, impetrando <strong>um mandato de seguran\u00e7a contra a elimina\u00e7\u00e3o desses estudantes, era necess\u00e1rio dar uma resposta pol\u00edtica<\/strong> <strong>\u00e0 altura ainda este ano.<\/strong> Diante de medidas fascistas como essa, \u00e9 necess\u00e1ria a mais ampla den\u00fancia e a unidade de a\u00e7\u00e3o. Para isso era preciso combinar a <strong>den\u00fancia pol\u00edtica e a constru\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00f5es com todos os setores da comunidade acad\u00eamica, e fora dela, que defendem a universidade p\u00fablica e democr\u00e1tica. <\/strong>Neste sentido, a reuni\u00e3o emergencial realizada na moradia estudantil (CRUSP) (j\u00e1 que a maioria dos estudantes expulsos vive ali) tirou medidas fundamentais para dar uma resposta imediata do movimento a mais um brutal ataque. Dentre essas medidas foi convocado um <strong>Ato no dia 19 de dezembro em resposta \u00e0 elimina\u00e7\u00e3o dos seis estudantes e uma reuni\u00e3o para reunir ativistas, o Comando de Greve, o SINTUSP, a ADUSP e demais entidades combativas de dentro e de fora da universidade.<\/strong><\/p>\n<p>J\u00e1 no dia 6 de janeiro os estudantes sofreram mais um ataque de Rodas, que tentou fechar o Espa\u00e7o de Viv\u00eancia estudantil, espa\u00e7o hist\u00f3rico e leg\u00edtimo dos estudantes, que vem sendo utilizado desde a d\u00e9cada de 70, localizado ao lado do restaurante central. Por volta das duas horas da tarde, a guarda do campus, escoltada pela pol\u00edcia militar, invadiu este espa\u00e7o e decidiu fech\u00e1-lo, obstruindo suas laterais para que ningu\u00e9m pudesse ter acesso ao lugar. O local s\u00f3 n\u00e3o foi tomado por inteiro, porque v\u00e1rios estudantes resistiram \u00e0 ofensiva da pol\u00edcia, impedindo que a guarda universit\u00e1ria e os diversos policiais da PM ocupassem uma de suas entradas, a \u00fanica que ainda n\u00e3o havia sido obstru\u00edda. Ap\u00f3s este acontecimento os estudantes decidiram resistir durante o final de semana inteiro para prevenir qualquer nova investida da guarda e da PM. Foi s\u00f3 na segunda, dia 9, por\u00e9m, que a ambas retornaram e, desta vez, utilizando-se de sua tradicional abordagem, o esculacho. Ainda na segunda, depois de a guarda e a PM tentarem invadir e tomar posse mais uma vez do espa\u00e7o estudantil, obtendo, por sua vez, a resist\u00eancia pac\u00edfica dos estudantes como resposta, o oficial respons\u00e1vel pela opera\u00e7\u00e3o agrediu fisicamente um estudante. A v\u00edtima do ataque, ali\u00e1s, como foi amplamente divulgado pela m\u00eddia e pela internet, era nada mais do que um rapaz negro, de dreads, e que, segundo a l\u00f3gica racista e preconceituosa do policial, parecia n\u00e3o ser um aluno da USP. No entanto, ainda que ele n\u00e3o fosse, nada justificaria a abordagem truculenta do policial que, ao se deparar com o rapaz, n\u00e3o hesitou sequer um momento em evitar a viol\u00eancia contra ele, mas, ao inv\u00e9s disso, empurrou-o com extrema agressividade e \u00e0 base de tapas, al\u00e9m de apontar-lhe a arma, amea\u00e7ando-o.<\/p>\n<p>Cabe lembrar ainda que, anteriormente, no dia 6, a pol\u00edcia j\u00e1 havia sido chamada para retirar os estudantes do seu pr\u00f3prio espa\u00e7o, por\u00e9m, naquela ocasi\u00e3o a agress\u00e3o foi desferida aos estudantes unicamente pela guarda universit\u00e1ria, apesar de contar com o apoio e cumplicidade da pol\u00edcia militar. A diferen\u00e7a, entretanto, daquela data para esta, \u00e9 que na segunda-feira, ocasi\u00e3o em que mais uma vez a pol\u00edcia foi chamada para intervir, a decis\u00e3o da reitoria e da PM foi estritamente a de que a retirada dos estudantes fosse levada a cabo, de maneira inexpugn\u00e1vel.<\/p>\n<p>N\u00e3o bastasse a torpeza destes acontecimentos, o que impressionou ainda mais foi ver o cinismo da PM com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 viol\u00eancia empregada contra os oprimidos de forma geral, como no caso do massacre perpetrado na regi\u00e3o de S\u00e3o Paulo denominada Cracol\u00e2ndia. Ali\u00e1s, sob este ponto de vista ainda, foi ris\u00edvel o argumento da PM ao declarar que o sargento estava tomado por um \u201cdesequil\u00edbrio emocional\u201d, mesmo porque as imagens divulgadas n\u00e3o revelavam nenhum acontecimento que pudesse, porventura, justificar qualquer altera\u00e7\u00e3o emocional no policial. Isto confirmou, assim, que a atitude do policial n\u00e3o se tratou de uma altera\u00e7\u00e3o emocional, e sim do esculacho, do amedrontamento e da viol\u00eancia f\u00edsica, pr\u00e1ticas cotidianas da PM e que, na ocasi\u00e3o, foram exercidas contra o movimento e o estudante. Mais ris\u00edvel ainda foi afirmar que, como o fez o Coronel Wellington Venezian ao jornal Estado de S\u00e3o Paulo, \u201ca atitude dos policiais, nesse momento, n\u00e3o recomenda que eles tenham perfil para tratar com esse tipo de p\u00fablico\u201d, referindo-se aos estudantes da USP. Ora, o que se depreendeu deste argumento foi que a pol\u00edcia deveria ter atitudes diferentes conforme o status social a quem se destina sua a\u00e7\u00e3o. Ou, dito de outra forma, de que a pol\u00edcia deveria empregar todos os meios brutais de que disp\u00f5e para impor o terror, como por exemplo, na Cracol\u00e2ndia, mas, que quando o \u201cp\u00fablico-alvo\u201d se tratava dos estudantes da USP, o perfil da repress\u00e3o deveria ser diferenciado.<\/p>\n<p>O argumento do Coronel Wellington, deste modo, deixou claro qual \u00e9 a mentalidade da institui\u00e7\u00e3o policial e o qu\u00e3o abstrata \u00e9 a norma liberal de igualdade perante a lei. Nesta concep\u00e7\u00e3o, a igualdade s\u00f3 existe para os que guardam a mesma rela\u00e7\u00e3o com a propriedade, ou seja, s\u00f3 existe igualdade, de fato, no interior da mesma classe social. E \u00e9 baseada nessa percep\u00e7\u00e3o que a pol\u00edcia atua cotidianamente. Ou seja, para a popula\u00e7\u00e3o pobre\/negra um tratamento, para a popula\u00e7\u00e3o rica\/branca outro. Isto ficou mais do que expl\u00edcito na abordagem do sargento, pois, ao aluno negar-se a se identificar, e sendo estudante universit\u00e1rio &#8211; o que poderia, por sua vez, segundo a l\u00f3gica do policial, configur\u00e1-lo dentro de uma abordagem diferenciada -, simplesmente pelo fato de ser negro e usar dreads, n\u00e3o poderia ser um aluno, e, por isto, recebeu o tratamento que a pol\u00edcia confere aos pobres\/negros dos bairros perif\u00e9ricos da cidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>N\u00facleo de Consci\u00eancia Negra<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O N\u00facleo de Consci\u00eancia Negra (NCN) foi criado em 1987 por funcion\u00e1rios, docentes e estudantes da gradua\u00e7\u00e3o e p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o da USP. Desde sua origem buscou como objetivo \u201cconstruir, pautar e provocar a discuss\u00e3o \u00e9tnico-racial\u201d, principalmente no interior da Universidade, onde estas quest\u00f5es n\u00e3o eram e n\u00e3o s\u00e3o contempladas pelos \u00f3rg\u00e3os da administra\u00e7\u00e3o da universidade de maneira a criar pol\u00edticas que visem a trazer \u00e0 tona a import\u00e2ncia hist\u00f3rica da luta contra a opress\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o negra ao longo dos s\u00e9culos. Desde sua funda\u00e7\u00e3o, portanto, o NCN se responsabilizou pela organiza\u00e7\u00e3o de debates, semin\u00e1rios e palestras sobre a quest\u00e3o racial, no intuito n\u00e3o apenas de resgatar a import\u00e2ncia do debate hist\u00f3rico da situa\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o negra no Brasil desde seus prim\u00f3rdios (que atualmente representa mais de 50% da popula\u00e7\u00e3o do pa\u00eds) at\u00e9 sua situa\u00e7\u00e3o atual, mas, sobretudo, para efetivar iniciativas de inclus\u00e3o, principalmente dentro do espa\u00e7o universit\u00e1rio.<\/p>\n<p>Por volta de 1994, ent\u00e3o, com o objetivo de ampliar ainda mais o seu campo de a\u00e7\u00e3o, o NCN ocupa o bloco 3 da \u00e1rea situada atr\u00e1s da FEA (\u00e1rea dos barrac\u00f5es). Neste local e desde ent\u00e3o, o NCN realiza in\u00fameras atividades que v\u00e3o desde um curso pr\u00e9-vestibular universit\u00e1rio para alunos de baixa renda, at\u00e9 um centro de estudos de idiomas (CEI) e uma Oficina de Teatro e Atividades, todas estas atividades sem fins lucrativos. A ocupa\u00e7\u00e3o permitiu ainda uma amplia\u00e7\u00e3o mais efetiva de atua\u00e7\u00e3o frente a organiza\u00e7\u00f5es do Movimento Negro, al\u00e9m de in\u00fameros Movimentos Sociais. Esta proximidade com movimentos sociais e a atua\u00e7\u00e3o que aprecia a popula\u00e7\u00e3o oprimida, por si s\u00f3 j\u00e1 seria um motivo para um ataque da reitoria, n\u00e3o apenas tendo em vista o passado \u201colig\u00e1rquico\u201d da USP (constitu\u00edda desde suas origens para atender uma pequena elite do estado de S\u00e3o Paulo)13, mas, tamb\u00e9m observando o atual momento, em que Rodas ataca n\u00e3o apenas os diversos espa\u00e7os de resist\u00eancia dentro da universidade (Moradia Retomada, Sintusp, etc.) como, al\u00e9m disso, busca implementar junto ao governo tucano (PSDB) do estado de S\u00e3o Paulo, um projeto para \u201creurbanizar\u201d (leia-se, higienizar) a S\u00e3o Remo, Carmine Louren\u00e7o e o Morro da USP, comunidades vizinhas a universidade e avessas ao projeto elitista de moderniza\u00e7\u00e3o da USP, visado pelo reitor. Consta no boletim da reitoria, USP Destaques No. 40 que \u201cEsta situa\u00e7\u00e3o [das comunidades], efetivamente, n\u00e3o \u00e9 compat\u00edvel com a import\u00e2ncia que tem a Universidade de S\u00e3o Paulo, com tudo que ela significa para o Estado e para o pa\u00eds &#8230;\u201d, disto \u00e9 f\u00e1cil concluir que semelhante \u00e0 desocupa\u00e7\u00e3o de Pinheirinhos ou da higieniza\u00e7\u00e3o da Cracol\u00e2ndia, o que a reitoria quer n\u00e3o \u00e9 criar uma melhor condi\u00e7\u00e3o de vida para estas comunidades, mas sim, desalojar o terreno para afastar da USP as pessoas que ali moram, e para favorecer possivelmente a especula\u00e7\u00e3o financeira de tal terreno.<\/p>\n<p>Dentro do ataque ainda n\u00e3o s\u00f3 a estas comunidades, mas ao livre acesso \u00e0 USP pela popula\u00e7\u00e3o, cabe incluir tamb\u00e9m a privatiza\u00e7\u00e3o pela burocracia acad\u00eamica da linha de \u00f4nibus provida pela universidade e da emiss\u00e3o de um bilhete restrito apenas para funcion\u00e1rios e alunos para o uso dos circulares (lembrando que a linha antes era gratuita e que, at\u00e9 ent\u00e3o, atendia toda a popula\u00e7\u00e3o que transitava pela USP). Mas, com este atual projeto, cria um abismo ainda maior na rela\u00e7\u00e3o entre a popula\u00e7\u00e3o de fora da universidade e a comunidade acad\u00eamica, criando privil\u00e9gios para esta \u00faltima, isolando ainda mais o acesso e circula\u00e7\u00e3o dentro do espa\u00e7o f\u00edsico e p\u00fablico da universidade e aprofundando o conflito de classe j\u00e1 presente entre a popula\u00e7\u00e3o e a comunidade acad\u00eamica. Assim, nesta perspectiva de uma ofensiva conservadora da reitoria, um espa\u00e7o aut\u00f4nomo e ideologicamente contr\u00e1rio aos interesses privatistas do reitor, que pauta, por exemplo, a quest\u00e3o do acesso \u00e0 popula\u00e7\u00e3o exclu\u00edda de maneira geral, por\u00e9m, sobretudo dentro do \u00e2mbito acad\u00eamico (lembrando que hoje a soma de alunos negros da USP atinge o inexpressivo \u00edndice de 10% do total da universidade), como \u00e9 o caso do NCN, s\u00f3 poderia, segundo a atual l\u00f3gica de retalia\u00e7\u00e3o adotada pela burocracia universit\u00e1ria, sofrer um ataque, tanto de ordem legalista, quanto no que se refere ao uso de seu espa\u00e7o f\u00edsico (os dados tanto da porcentagem da popula\u00e7\u00e3o negra do pa\u00eds, bem como da sua presen\u00e7a dentro da USP foram extra\u00eddos do boletim do Comit\u00ea Pr\u00f3-A\u00e7\u00f5es Afirmativas nas Universidades Paulistas: \u201cOs 100 T\u00edtulos de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o da USP s\u00e3o praticamente unicolores\u201d).<\/p>\n<p>Desta forma, apesar das in\u00fameras tentativas do N\u00facleo, ao longo de anos, de estabelecer um conv\u00eanio com a USP que preservasse, contudo, a sua l\u00eddima autonomia, a reitoria nunca se mostrou favor\u00e1vel \u00e0 presen\u00e7a deste espa\u00e7o. Dentre as in\u00fameras tentativas de di\u00e1logo, ali\u00e1s, a posi\u00e7\u00e3o da reitoria foi irredut\u00edvel com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 autonomia do espa\u00e7o, sendo que, inclusive, ela se valeu de mentiras \u2013 como afirmando que os problemas da regularidade do n\u00facleo de consci\u00eancia dependiam de seus dirigentes, ou que os diversos cursos gratuitos oferecidos pelo NCN eram, na verdade, pagos \u2013 ou de argumentos legalistas14 que visam deslegitimar o funcionamento org\u00e2nico do N\u00facleo, que resiste ao controle que a burocracia busca adquirir (atrav\u00e9s do aliciamento dos espa\u00e7os de resist\u00eancia)15 para calar qualquer entidade que possua um discurso politicamente opositor ao seu projeto de moderniza\u00e7\u00e3o elitista.<\/p>\n<p>N\u00e3o bastasse isso, o NCN vem sofrendo ataques constantes a sua estrutura f\u00edsica (o barrac\u00e3o 3), correndo o risco de perder o seu espa\u00e7o de atua\u00e7\u00e3o. Desde Setembro de 2009, segundo um boletim do NCN (\u201cO N\u00facleo de Consci\u00eancia Negra [NCN] na USP vive, resiste e continuar\u00e1 a lutar pela legitimidade de seu espa\u00e7o\u201d), a burocracia vem declarando uma ordem de despejo ao NCN. Em 2009 ainda, a COESF (Coordenadoria do Espa\u00e7o F\u00edsico da USP) mandara um of\u00edcio \u00e0 entidade informando que ela possu\u00eda apenas 15 dias para a desocupa\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o. J\u00e1 em 2010, sem ter sido avisado ou mesmo consultado (como \u00e9 de praxe dentro das \u201cpr\u00e1ticas modernizadoras\u201d exercidas pela burocracia acad\u00eamica), o NCN soube, por publica\u00e7\u00f5es oficiais da reitoria, sobre a demoli\u00e7\u00e3o prevista para seu espa\u00e7o, visando substitu\u00ed-lo por mais um dos empreendimentos da reitoria, a \u201cNova ECA\u201d (Escola de Comunica\u00e7\u00e3o e Artes).<\/p>\n<p>O projeto \u201cNova ECA\u201d foi planejado pela reitoria no intuito de \u201creformular a antiga \u201cBarracol\u00e2ndia\u201d, para retir\u00e1-la, segundo discurso da reitoria, de seu estado de degrada\u00e7\u00e3o.\u201d A reitoria afirmou tamb\u00e9m que, ap\u00f3s a \u201creformula\u00e7\u00e3o\u201d, os setores instalados nos barrac\u00f5es receberiam \u201cnovos espa\u00e7os definitivos na mesma \u00e1rea\u201d, no entanto, pelas poucas informa\u00e7\u00f5es divulgadas sobre o assunto, a \u00e1rea, na realidade, dever\u00e1 servir para a implementa\u00e7\u00e3o de um Centro de Difus\u00e3o Internacional e da nova sede da ECA. Cabe frisar, no entanto, que a verdadeira face deste projeto \u00e9 a de desalojar grande parte dos setores combativos da universidade que se localizam ali como, por exemplo, o NCN e o Sintusp, al\u00e9m de demolir importantes espa\u00e7os hist\u00f3ricos de organiza\u00e7\u00e3o estudantil como o Canil e a Prainha.<\/p>\n<p>Desta maneira, apesar destes ataques j\u00e1 figurados anteriormente, no final de 2011, depois do deflagrar da greve e num momento de relativa desmobiliza\u00e7\u00e3o do movimento estudantil, a reitoria iniciou a demoli\u00e7\u00e3o dos diversos barrac\u00f5es situados atr\u00e1s da FEA e imprimiu um brutal ataque ao NCN, que s\u00f3 n\u00e3o findou na demoli\u00e7\u00e3o total de seu barrac\u00e3o, porque seus dirigentes e alguns militantes do movimento intervieram a tempo. No entanto, o espa\u00e7o foi prejudicado, n\u00e3o podendo realizar as atividades de seu curso pr\u00e9-vestibular, pois o ataque impediu o fornecimento de \u00e1gua ao espa\u00e7o.<\/p>\n<p>Vale dizer ademais que, tendo em vista o papel que o N\u00facleo exerce dentro da universidade como uma c\u00e9lula combativa e promovedora de debates que n\u00e3o est\u00e3o na ordem do dia das pautas da burocracia, como, por exemplo, a quest\u00e3o do acesso e da perman\u00eancia dentro da universidade, principalmente pela popula\u00e7\u00e3o negra, e a cr\u00edtica do Inclusp (Programa de Inclus\u00e3o Social na USP)16 e, al\u00e9m disso, por ser uma entidade apoiadora dos diversos centros de resist\u00eancia como o SINTUSP e a Moradia Retomada, sua import\u00e2ncia para o movimento se mostra cabal e sua sobreviv\u00eancia aut\u00f4noma, mais ainda, uma vez que sem esta autonomia o NCN corre o risco de ou ser extinto ou de tornar-se apenas um N\u00facleo de Cultura e Extens\u00e3o da USP, submetido aos demandos da reitoria, sendo incapaz de atuar politicamente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Tropa de Choque \u00e9 usada para desalojar estudantes <\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Para os estudantes, e principalmente para aqueles de origem prolet\u00e1ria, as pol\u00edticas de perman\u00eancia s\u00e3o decisivas, sem elas a sua manuten\u00e7\u00e3o na universidade e a garantida de realiza\u00e7\u00e3o de um curso em condi\u00e7\u00f5es minimamente igualit\u00e1rias com os demais estudantes s\u00e3o imposs\u00edveis. Sem pol\u00edticas de perman\u00eancia estudantil, a democracia educacional n\u00e3o passa de conto de fadas. Hoje, cabe dizer, a USP conta com mais de oitenta mil estudantes e destina apenas 1800 vagas para a moradia estudantil, o que, em termos percentuais, n\u00e3o representa nem cerca de 2% do total de estudantes da universidade. \u00c9 claro que isso n\u00e3o se d\u00e1 por raz\u00f5es or\u00e7ament\u00e1rias, a falta de investimentos nessa \u00e1rea \u00e9 intencional e funciona como uma forma eficiente de manter os filhos dos trabalhadores fora da universidade.<\/p>\n<p>\u00c9 relevante resgatar que a Moradia Estudantil da USP (CRUSP) s\u00f3 existe devido h\u00e1 d\u00e9cadas de lutas. Desde 1964, quando houve a primeira ocupa\u00e7\u00e3o desse espa\u00e7o, passando pela retomada em 1979, ap\u00f3s a ditadura militar ter fechado este espa\u00e7o por 11 anos at\u00e9 os dias atuais, a moradia estudantil e as demais pol\u00edticas de perman\u00eancia s\u00f3 existem devido \u00e0 luta direta dos estudantes. A tradi\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica de luta por perman\u00eancia estudantil teve continuidade na reocupa\u00e7\u00e3o de parte do Bloco G. Este <strong>espa\u00e7o que era destinado \u00e0 moradia estudantil e vinha sendo utilizado pela burocracia universit\u00e1ria, com a ocupa\u00e7\u00e3o, voltou a ser ocupada pelos estudantes para fins de moradia <\/strong>em 18 de mar\u00e7o de 2010.<\/p>\n<p>Esta reocupa\u00e7\u00e3o ocorreu ap\u00f3s anos de demandas por vagas, nunca atendidas pela universidade. Fato que, ali\u00e1s, fazia e faz, a cada ano, centenas de estudantes se inscreverem em um processo obscuro de sele\u00e7\u00e3o que n\u00e3o privilegia o acesso, atrav\u00e9s de crit\u00e9rios socioecon\u00f4micos e, assim, n\u00e3o atende as reais necessidades dos estudantes por moradia. Diante dessa situa\u00e7\u00e3o intoler\u00e1vel, estudantes reunidos em assembl\u00e9ia decidiram por nada mais do que um direito: realizar um leg\u00edtimo movimento de ocupa\u00e7\u00e3o e instaurar nesse espa\u00e7o um regime aut\u00f4nomo de funcionamento, ou seja, uma moradia sem o controle burocr\u00e1tico e elitista da universidade.<\/p>\n<p>A ocupa\u00e7\u00e3o do t\u00e9rreo do bloco G, al\u00e9m de ser uma importante iniciativa independente dos estudantes, trouxe \u00e0 tona outro grande flagelo vivido no interior da USP. O grande d\u00e9ficit de vagas, a precariedade dos alojamentos e a pol\u00edtica de repress\u00e3o aos estudantes j\u00e1 eram conhecidos por todos. Al\u00e9m do mais revelou um esquema de espionagem da vida pessoal e pol\u00edtica dos estudantes, orquestrado pela COSEAS. Documentos encontrados revelaram um verdadeiro departamento de controle policial da vida e do dia-a-dia dos moradores do CRUSP. Durante quase dois anos, este espa\u00e7o abrigou dezenas de estudantes que, sem a Moradia Retomada, n\u00e3o poderiam dar continuidade aos seus estudos. \u00c9 por isso, inclusive, que esse espa\u00e7o, como tamb\u00e9m outros espa\u00e7os aut\u00f4nomos (ainda vigentes no interior da universidade), s\u00e3o duramente atacados.<\/p>\n<p>Depois de quase dois anos de ataques da parte da universidade e resist\u00eancia dos estudantes a policia militar cumpre no dia 19 fevereiro (domingo de carnaval) \u00e0s 5 horas da manh\u00e3 um mandato de reintegra\u00e7\u00e3o de posse. Aproximadamente 300 policiais da tropa de choque, for\u00e7a t\u00e1tica e GOE cercam toda a \u00e1rea do CRUSP, invadindo os blocos, obrigando os estudantes a ficarem detidos em seus apartamentos e, em alguns casos, revistando apartamentos vizinhos da ocupa\u00e7\u00e3o sem mandato legal, ou seja, a universidade, mais uma vez, foi sitiada pelo aparato repressivo do Estado de S\u00e3o Paulo. Os estudantes que se encontravam no local n\u00e3o tiveram nem a chance de se retirar, ou seja, a exemplo do que ocorreu com a reitoria, a pol\u00edcia invadiu a Moradia Retomada com o claro objetivo de prender e criminalizar os estudantes.<\/p>\n<p>Durante a reintegra\u00e7\u00e3o, a pol\u00edcia que sequer realizou o ritual de ler o mandato de reintegra\u00e7\u00e3o de posse, arrastou uma estudante gr\u00e1vida, apreendeu celulares e apagou imagens da invas\u00e3o policial no local. No 14\u00ba DP (Departamento de Pol\u00edcia) do Bairro de Pinheiros (Capital), os estudantes foram colocados e ficaram detidos durante 10 horas em celas de quatro metros quadrados e sem nenhuma ventila\u00e7\u00e3o, o que fez com que a estudante gr\u00e1vida passasse mal e fosse encaminhada para o hospital. Este ato representou mais um ataque brutal aos movimentos aut\u00f4nomos e leg\u00edtimos que agem dentro da Universidade como um n\u00facleo de resist\u00eancia ao projeto de moderniza\u00e7\u00e3o elitista e privatista de Rodas, que usa mais uma vez da for\u00e7a repressora do Estado &#8211; o Choque &#8211; ordenada pelo governador Alckmin, para coibir e eliminar quaisquer setores que sejam opositores a tal projeto. Defendemos em v\u00e1rios momentos que a luta em defesa da Moradia Retomada deveria ser encarada como um cerco t\u00e1tico fundamental para o movimento e para a greve que segue em 2012. Defender a Moradia Retomada era romper um cerco t\u00e1tico importante e avan\u00e7ar em outras frentes como no fim dos processos, do conv\u00eanio PM-USP e outras. Ou seja, repelir essa amea\u00e7a de Rodas significava acumular for\u00e7a para iniciarmos o ano e para construirmos uma poderosa greve capaz de reverter o conjunto das pol\u00edticas privatistas e dos ataques a livre organiza\u00e7\u00e3o dos estudantes e dos trabalhadores.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Um debate sobre concep\u00e7\u00e3o no movimento <\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ap\u00f3s a assembl\u00e9ia do dia 1 de novembro e a ocupa\u00e7\u00e3o da reitoria no dia 2 do mesmo m\u00eas, abriu-se uma importante pol\u00eamica sobre concep\u00e7\u00e3o no movimento estudantil na USP, discuss\u00e3o que, ali\u00e1s, tem repercuss\u00e3o internacional. Essa pol\u00eamica versa sobre temas como: vanguardismo, democracia de base, \u00e9tica &#8230; Em rela\u00e7\u00e3o a essas quest\u00f5es pensamos que \u00e9 fundamental tecer coment\u00e1rios cr\u00edticos para que possamos extrair li\u00e7\u00f5es que sirvam para enfrentarmos os desafios que est\u00e3o colocados para o pr\u00f3ximo per\u00edodo. Para isso, vamos nos utilizar de alguns textos escritos pelo PSTU. \u00c9 curioso notar que se ap\u00f3iam em textos cl\u00e1ssicos do marxismo para polemizar com os setores que est\u00e3o \u00e0 frente dos processos que vem mobilizando milhares de estudantes. Mas, fazem-no a partir de falsas premissas, falsifica\u00e7\u00f5es e de pr\u00e1ticas oportunistas. Com isso s\u00f3 podem chegar a conclus\u00f5es que servem apenas para justificar e refor\u00e7ar a linha oportunista que vem desenvolvendo no movimento, particularmente no movimento estudantil na universidade de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Come\u00e7ando com a quest\u00e3o \u00e9tica. Em suas notas e artigos escondem, descaradamente, qual foi a postura da dire\u00e7\u00e3o do DCE, setor com o qual faz chapa para a elei\u00e7\u00e3o do centro acad\u00eamico, nesse epis\u00f3dio. Quem fala em nome da \u00e9tica revolucion\u00e1ria n\u00e3o deveria se \u201cesquecer\u201d de dizer como as coisas realmente ocorreram. \u00c9 preciso perceber que as falsifica\u00e7\u00f5es constru\u00eddas pelo bloco oportunista, conformado pelo PSTU e PSOL, t\u00eam uma fun\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica muito clara: precisavam criar o mito de que os ocupantes da reitoria n\u00e3o passavam de uma minoria ressentida \u201cque n\u00e3o aceita perder vota\u00e7\u00f5es em assembl\u00e9ias, e uma vez perdendo-a, agem por conta pr\u00f3pria contra a democracia de base\u201d. O PSTU que, para justificar sua aus\u00eancia na din\u00e2mica urgente da luta de classes no seio da USP, se valeu do mesmo discurso direitista utilizado pela m\u00eddia marrom e pela pr\u00f3pria Reitoria, isto \u00e9, o discurso de que o setor mais combativo da USP era apenas uma minoria ressentida.<\/p>\n<p>Esse e outros mitos servem para anuviar qual \u00e9 a verdadeira posi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do bloco oportunista diante da realidade e dos seus desafios. Negam, para iniciar o debate, que enquanto centenas de estudantes espontaneamente se levantavam contra a pol\u00edcia fazendo o que resultou em v\u00e1rios estudantes feridos pela repress\u00e3o, o DCE atuou o tempo todo com a pol\u00edcia e a diretora da FFLCH (Sandra Nitrine) para levar os estudantes para a pris\u00e3o. Ao responder tal den\u00fancia, dizem que se \u201cfossem verdadeiras, n\u00e3o estar\u00edamos diante de \u201cpelegos\u201d, mas, sim de colaboradores diretos do reitor e da pol\u00edcia\u201d.<\/p>\n<p>A atitude de lutadores honestos e s\u00e9rios deveria ter sido esta, pois, como \u00e9 poss\u00edvel sequer discutir com agentes das for\u00e7as repressivas, do reitor; com traidores da luta?\u201d (para ver o descalabro do relato e dos argumentos do PSTU, ler: Os estudantes da USP precisam vencer!&#8230; apesar da LER\u2013QI. Uma pol\u00eamica com a ultraesquerda stalinizada. www.pstu.org.br).<\/p>\n<p>O fato \u00e9 que os militantes desse partido chegaram ao c\u00famulo de fazer um cord\u00e3o de isolamento para que os estudantes fossem encaminhados para a delegacia de pol\u00edcia e serem autuados, acusados por porte de maconha. E isso foi testemunhado por centenas de estudantes e, al\u00e9m de ter sido mat\u00e9ria de debate nas primeiras assembl\u00e9ias logo ap\u00f3s a ocupa\u00e7\u00e3o da FFLCH, inclusive resultando em uma resolu\u00e7\u00e3o que proibia que os Membros do DCE participassem de qualquer comiss\u00e3o interna da ocupa\u00e7\u00e3o. Mas as mentiras e falsifica\u00e7\u00f5es n\u00e3o param por ai. A justificativa utilizada para desqualificar o movimento de ocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 extremamente desonesta em rela\u00e7\u00e3o aos fatos e oportunista do ponto de vista pol\u00edtico, pois, a a\u00e7\u00e3o dos estudantes logo depois da repress\u00e3o policial no dia 27 de outubro e, depois, com a ocupa\u00e7\u00e3o da reitoria, na madrugada do dia 2 de novembro, n\u00e3o se configurou como uma a\u00e7\u00e3o ultra-esquerdista como querem fazer crer o PSTU. Numa frente com o PSOL, tentaram implodir a assembl\u00e9ia do dia 1 de novembro e realizaram uma campanha de cal\u00fania para desmoralizar os estudantes que participaram ativamente do processo de ocupa\u00e7\u00e3o da reitoria votada, apesar deles, democraticamente.<\/p>\n<p>Esse bloco oportunista, al\u00e9m de romper com a democracia da assembl\u00e9ia que decidiu pela ocupa\u00e7\u00e3o da reitoria, postura totalmente antidemocr\u00e1tica diante dos ataques da reitoria e da imprensa, participou ativamente da campanha para deslegitimar o movimento. Sobre isso, afirmam que a desocupa\u00e7\u00e3o da sede administrativa da FFLCH foi discutida democraticamente por mil estudantes e \u201cpor uma maioria de 559 contra 458, votou-se pela desocupa\u00e7\u00e3o dessa faculdade\u201d contam meias verdades para esconder sua pr\u00e1tica e concep\u00e7\u00e3o burocr\u00e1ticas. Dizer que \u201cdepois do hor\u00e1rio m\u00e1ximo marcado pela assembl\u00e9ia e a declara\u00e7\u00e3o de seu final, um grupo de estudantes, encabe\u00e7ado pela LER, resolveu ocupar outro pr\u00e9dio da USP, desta vez a pr\u00f3pria reitoria\u201d \u00e9 uma tentativa de desmoralizar o conjunto dos estudantes e correntes pol\u00edticas que resistiram corretamente contra as manobras do PSOL\/PSTU.<\/p>\n<p>H\u00e1 um crit\u00e9rio pol\u00edtico estrat\u00e9gico bastante claro que define que, mesmo que n\u00e3o tenhamos acordo com rela\u00e7\u00e3o aos encaminhamentos do movimento, temos que nos colocar claramente do lado dos trabalhadores e oprimidos. L\u00eanin, em <i>O Estado<\/i><i> e a revolu\u00e7\u00e3o,<\/i> d\u00e1 um bel\u00edssimo e cl\u00e1ssico exemplo de como devem se comportar os revolucion\u00e1rios diante dos processos de luta, mesmo que n\u00e3o tenham acordo com as t\u00e1ticas e os momentos para a a\u00e7\u00e3o, dizia que \u201c\u00e9 sabido que alguns meses antes da Comuna, no outono de 1870, Marx preveniu os oper\u00e1rios de Paris, alegando que a tentativa de derrubar o governo seria um disparate ditado pelo desespero. Mas quando, em mar\u00e7o de 1871, se imp\u00f4s aos oper\u00e1rios o combate decisivo e eles o aceitaram, quando a insurrei\u00e7\u00e3o se tornou um fato, Marx saudou a revolu\u00e7\u00e3o prolet\u00e1ria com o maior dos entusiasmos, apesar de todos os maus press\u00e1gios\u201d (<i>O Estado e a revolu\u00e7\u00e3o<\/i>, p. 81. S\u00e3o Paulo, Global, 1987).<\/p>\n<p>Esse crit\u00e9rio foi utilizado por Marx na Comuna de Paris. Mesmo considerando que aquele n\u00e3o era o momento para se realizar o levante e ter diferen\u00e7as t\u00e1ticas importantes com a Comuna, passou a apoi\u00e1-la imediatamente ap\u00f3s a sua instaura\u00e7\u00e3o, e fez ainda mais, soube tirar dessa experi\u00eancia hist\u00f3rica, apesar de derrotada, li\u00e7\u00f5es fundamentais para a luta de classes, sendo que a mais importante foi a da necessidade de destruir o Estado burgu\u00eas como um todo para se passar a constru\u00e7\u00e3o comunista da sociedade. Este exemplo, guardadas as propor\u00e7\u00f5es, serve como uma boa ilustra\u00e7\u00e3o para o caso em quest\u00e3o.<\/p>\n<p>Contudo, \u00e9 necess\u00e1rio dizer que, na verdade, houve sim na assembl\u00e9ia do dia 1\u00ba de novembro uma conflu\u00eancia antiburocr\u00e1tica que mobilizou a maioria da assembl\u00e9ia. Durante a vota\u00e7\u00e3o sobre qual seria o ponto de pauta seguinte, ap\u00f3s a vota\u00e7\u00e3o pela desocupa\u00e7\u00e3o da FFLCH, havia duas propostas: uma de apreciar a proposta de ocupar a reitoria e a outra de apreciar primeiro o calend\u00e1rio. Ao levantarem as m\u00e3os ficou claro que a maioria dos estudantes queria discutir primeiro a ocupa\u00e7\u00e3o da reitoria. Irrompeu-se disso, o golpe burocr\u00e1tico. Pois, sem que ao menos o resultado da vota\u00e7\u00e3o fosse declarado, porque perceberam que haviam perdido a vota\u00e7\u00e3o e que a assembl\u00e9ia poderia votar pela ocupa\u00e7\u00e3o da reitoria, a mesa declarou que a assembl\u00e9ia estava encerrada, o que evidentemente provocou grande confus\u00e3o e indigna\u00e7\u00e3o dos estudantes. Mesmo se retirando da assembl\u00e9ia, essa continuou com a presen\u00e7a de mais de quinhentos estudantes que aprovaram de forma quase un\u00e2nime ocupar a reitoria. O que assistimos durante a assembl\u00e9ia foi, da parte do PSTU, justamente o contr\u00e1rio de \u201cconfiar no poder criador das massas\u201d, pois, assim que perceberam que a massa de mil estudantes reunidos na assembl\u00e9ia poderiam votar algo diferente do que haviam planejando (isto \u00e9, a ocupa\u00e7\u00e3o da reitoria), demonstrando que estavam \u00e0 frente da linha entreguista, o bloco PSOL\/PSTU tentou implodir a assembl\u00e9ia.<\/p>\n<p>O que se pode constatar, em mais este epis\u00f3dio, n\u00e3o \u00e9 uma preocupa\u00e7\u00e3o que as massas sejam protagonistas dos processos de luta, independentemente se a sua a\u00e7\u00e3o foge aos esquemas previamente tra\u00e7ados, mas, que ela esteja submetida aos esquemas oportunistas dessas organiza\u00e7\u00f5es. Quando afirmam que \u201cesta ocupa\u00e7\u00e3o, decidida pelas costas das inst\u00e2ncias deliberativas e resolutivas leg\u00edtimas dos estudantes, n\u00e3o s\u00f3 permaneceu isolada como tamb\u00e9m dividiu o movimento estudantil. A reitoria, de maneira totalmente antidemocr\u00e1tica e autorit\u00e1ria, convocou novamente a PM para efetuar a desocupa\u00e7\u00e3o violenta, em que foram presos e processados 73 estudantes\u201d (PSTU: \u201cOs estudantes&#8230;\u201d, cit.), al\u00e9m de ser uma total falsifica\u00e7\u00e3o dos fatos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 decis\u00e3o de ocupar a reitoria \u00e9 uma aprecia\u00e7\u00e3o totalmente equivocada da conjuntura pol\u00edtica que se seguiu ap\u00f3s o dia 2 de novembro, com a reitoria ocupada. Dissimular, mentir para os patr\u00f5es, chantagear a classe dominante&#8230; s\u00e3o t\u00e1ticas necess\u00e1rias e que contribuem para o fim da opress\u00e3o e para a liberta\u00e7\u00e3o dos trabalhadores. J\u00e1, utilizar estes expedientes contra a classe trabalhadora e nos debates entre os setores que comp\u00f5em o movimento oper\u00e1rio ou estudantil, s\u00e3o parte de um processo de degenera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Esse n\u00e3o \u00e9 o crit\u00e9rio utilizado pelo melhor da tradi\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria. Em um texto, inclusive muito reivindicado pelo PSTU, de Trotsky (<i>A nossa moral e a moral deles<\/i>. http:\/\/www.marxists.org), no contexto dos processos de persegui\u00e7\u00e3o, cal\u00fania e assassinatos levados a cabo pela burocracia estalinista contra os seus opositores e no qual se dedica a analisar quest\u00f5es \u00e9ticas \u00e0 luz da luta de classes, o autor afirma que \u201cn\u00e3o h\u00e1, pois, crime pior do que enganar as massas, do que fazer passar as derrotas por vit\u00f3rias e os inimigos por amigos, do que corromper os chefes, do que inventar lendas do que fabricar processos judiciais de impostura \u2013 enfim, do que fazer o que fazem os stalinistas.\u201d<\/p>\n<p><i>O mais incr\u00edvel \u00e9 que esses \u201ccompanheiros\u201d s\u00e3o capazes de desenvolver um n\u00edvel de dissimula\u00e7\u00e3o que chegam, em nome da \u00e9tica revolucion\u00e1ria e do combate aos m\u00e9todos estalinistas, praticarem o contr\u00e1rio do que propagam<\/i>. Ap\u00f3s a ocupa\u00e7\u00e3o, PSTU e PSOL passaram \u00e0 campanha, junto com a reitoria e com a m\u00eddia burguesa, de sataniza\u00e7\u00e3o do movimento de ocupa\u00e7\u00e3o da reitoria. Ao dizer que se tratava de uma minoria descontente, que n\u00e3o aceitou as decis\u00f5es da assembl\u00e9ia e que era uma a\u00e7\u00e3o ultra-esquerdista, acabaram, assim, por facilitar o trabalho da reitoria e da m\u00eddia. A mesma postura adotou a ANEL e a CSP-Conlutas, bem como a esquerda da UNE e Intersindical, dirigidas pelo PSTU e pelo PSOL, respectivamente, n\u00e3o assumiram um posicionamento efetivo, postura inaceit\u00e1vel, principalmente, diante da amea\u00e7a de reintegra\u00e7\u00e3o de posse. Para essas entidades, que pretendem superar a UNE e a CUT, \u00e9 fundamental a disposi\u00e7\u00e3o de construir na luta pol\u00edtica e na pr\u00e1tica uma alternativa a essas antigas dire\u00e7\u00f5es falidas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Fraseologia contra a \u201cultra-esquerda\u201d para justificar uma pr\u00e1tica oportunista<\/b><\/p>\n<p><i>\u00a0<\/i><\/p>\n<p>O PSTU tenta se colocar como defensor da democracia de base afirmando que a l\u00f3gica daqueles que defenderam a ocupa\u00e7\u00e3o da reitoria parte de \u201cuma l\u00f3gica que, na pr\u00e1tica, busca substituir a a\u00e7\u00e3o das massas pela de uma pequena vanguarda dirigida por eles, que se acham conhecedores de todo o humano e o divino. Esta teoria, ainda que n\u00e3o o admitam, n\u00e3o tem a menor confian\u00e7a no poder criador das massas, pois as consideram muito atrasadas para poderem decidir seus destinos de forma soberana\u201d (ib\u00eddem). Com isso tentam colocar a pecha de ultra-esquerdista naqueles que souberam se colocar a frente de um leg\u00edtimo movimento que foi decidido em uma assembl\u00e9ia com a participa\u00e7\u00e3o de mais de quinhentos estudantes e que s\u00f3 n\u00e3o era maior porque os mesmos \u2013 PSTU e PSOL \u2013 tentaram implodi-la. Diante deste quadro e das acusa\u00e7\u00f5es proferidas, vale a pena tocar na quest\u00e3o do ultra-esquerdismo.<\/p>\n<p>O ultra-esquerdismo se configura como um m\u00e9todo que n\u00e3o procura ligar a a\u00e7\u00e3o da vanguarda com a a\u00e7\u00e3o e a consci\u00eancia de massas, e n\u00e3o se preocupa em estabelecer v\u00ednculos org\u00e2nicos entre elas. Mas, no caso analisado, a rela\u00e7\u00e3o org\u00e2nica entre a a\u00e7\u00e3o da vanguarda e das massas estava clara, mesmo contra a vontade do bloco PSOL-PSTU, pois, mesmo estes boicotando claramente o movimento e contribuindo com a propaganda contra o movimento de ocupa\u00e7\u00e3o, as assembl\u00e9ias e o apoio entre os estudantes ao movimento eram crescentes. \u00c9 claro que a democracia no movimento se faz pela participa\u00e7\u00e3o de setores de massa em assembl\u00e9ias, com representa\u00e7\u00e3o de delegados em congressos e outros f\u00f3runs. A democracia oper\u00e1ria \u00e9 composta tanto pela vanguarda dos processos, quanto pelos setores mais amplos, inclusive, essa \u00e9 uma diferencia\u00e7\u00e3o fundamental da democracia oper\u00e1ria em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 democracia burguesa, pois, a participa\u00e7\u00e3o direta nos f\u00f3runs garante a participa\u00e7\u00e3o direta de amplos setores dos trabalhadores, no caso aqui discutido, dos estudantes. Os \u201ccompanheiros\u201d se arrogam como aqueles que defendem \u201cfazer pol\u00edtica para as massas\u201d no seu debate com a LER-QI dizem desta \u00faltima que \u201co objetivo deixou de ser fazer pol\u00edtica para as massas, para centrar-nos exclusivamente na vanguarda mais radicalizada\u201d (ib\u00eddem). O problema \u00e9 que essa linha de argumenta\u00e7\u00e3o desconsidera que esse fazer pol\u00edtica deve responder claramente \u00e0s necessidades de um setor especifico das massas n\u00e3o para ela em geral, pois, a universidade e o movimento estudantil se caracterizam, respectivamente, por um espa\u00e7o e por um movimento poli-classista.<\/p>\n<p>O que chamaram de \u201cocupa\u00e7\u00e3o burocr\u00e1tica\u201d da reitoria, na verdade, era um movimento profundamente ligado a clareza de parte significativa dos estudantes e funcion\u00e1rios sobre a necessidade de dar uma resposta, n\u00e3o apenas ao Conv\u00eanio PM-USP, mas a toda a ofensiva privatizante\/elitista e repressiva contra o movimento dos estudantes e professores, que se manifesta tamb\u00e9m em processos, demiss\u00f5es e elimina\u00e7\u00f5es. O apoio de amplos setores dos estudantes n\u00e3o se fez apenas por declara\u00e7\u00f5es abstratas, mas por a\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas que se deram atrav\u00e9s da participa\u00e7\u00e3o direta nas assembl\u00e9ias antes da reintegra\u00e7\u00e3o de posse e na indigna\u00e7\u00e3o massiva durante o pr\u00f3prio processo de reintegra\u00e7\u00e3o. Se a ocupa\u00e7\u00e3o fosse um ato de uma vanguarda burocr\u00e1tica, sem liga\u00e7\u00e3o nenhuma com as massas, o efeito da viol\u00eancia policial na reintegra\u00e7\u00e3o n\u00e3o seria o mesmo. Na verdade, burocr\u00e1tica \u00e9 a leitura pol\u00edtica que n\u00e3o identificou que se tratava de um movimento que j\u00e1 demonstrava desde o in\u00edcio o seu dinamismo, crescente apoio e liga\u00e7\u00e3o com o setor das massas do qual devemos nos apoiar e lutar para mobilizar.<\/p>\n<p>A \u201can\u00e1lise\u201d \u00e9 realizada para justificar sua posi\u00e7\u00e3o e n\u00e3o para revelar quais s\u00e3o as condi\u00e7\u00f5es da luta. N\u00e3o pode captar justa e concretamente as condi\u00e7\u00f5es em que agiram os estudantes durante a ocupa\u00e7\u00e3o da reitoria, pois, desconsidera que a partir do dia 27 de outubro se colocou uma nova conjuntura na USP. A indigna\u00e7\u00e3o causada pela pris\u00e3o dos tr\u00eas estudantes e o conflito direto com a pol\u00edcia nesse dia significou um salto na consci\u00eancia das massas em rela\u00e7\u00e3o ao verdadeiro papel da PM no interior da universidade. Citam L\u00eanin, Trotsky e outros, mas, n\u00e3o podem captar o seu sentido mais profundo, pois, abandonaram uma premissa fundamental do marxismo que \u00e9 o corte de classe do movimento estudantil e de que a luta exige uma s\u00e9rie de t\u00e1ticas, legais e ilegais. No debate com o ultra-esquerdismo, L\u00eanin n\u00e3o concluiu apenas, que n\u00e3o se pode abandonar no curso da luta contra o capitalismo utilizando os meios legais e que se deveria constantemente procurar mobilizar as massas oper\u00e1rias. Tamb\u00e9m se tirou a li\u00e7\u00e3o de que \u201ctodos concordar\u00e3o em que seria insensata e at\u00e9 criminosa a conduta de um ex\u00e9rcito em que n\u00e3o se esteja preparado para dominar todos os tipo de armas, todos os meios e processos de luta que o inimigo possui ou possa possuir. Mas isso diz ainda mais respeito \u00e0 pol\u00edtica do que \u00e0 arte militar. Em pol\u00edtica \u00e9 ainda menos f\u00e1cil saber antecipadamente que meio de luta ser\u00e1 aplic\u00e1vel e vantajoso para n\u00f3s em tais ou tais condi\u00e7\u00f5es futuras. Sem dominar todos os meios de luta podemos sofrer derrota enorme \u2013 por vezes mesmo decisiva -, se mudan\u00e7as independentemente da nossa vontade na situa\u00e7\u00e3o das outras classes p\u00f5em na ordem do dia uma forma de a\u00e7\u00e3o na qual somos particularmente fracos\u201d (<i>A doen\u00e7a infantil do \u201cesquerdismo\u201d no comunismo<\/i>, in <i>Obras Escolhidas<\/i> de Lenin, p. 333. Editora progresso, Lisboa, 1979).<\/p>\n<p>A pol\u00eamica de L\u00eanin contra o ultra-esquerdismo tamb\u00e9m \u00e9 de forma indireta uma dura pol\u00eamica contra o oportunismo pol\u00edtico que n\u00e3o \u00e9 capaz de impulsionar atrav\u00e9s da agita\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e acompanhar o movimento quando esse assume a\u00e7\u00f5es mais radicalizadas, como as duas ocupa\u00e7\u00f5es. Leon Trotsky, analisando como ocorre a luta pol\u00edtica e a oscila\u00e7\u00e3o entre as tarefas afirma que \u201cuma greve \u00e9 inconceb\u00edvel sem propaganda e agita\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m sem piquetes que, onde puderem, atuem atrav\u00e9s da persuas\u00e3o, e onde se virem obrigados, recorram \u00e0 for\u00e7a f\u00edsica. A greve \u00e9 a forma mais elementar da luta de classes, na qual se combinam sempre, em propor\u00e7\u00f5es vari\u00e1veis, os procedimentos \u201cideol\u00f3gicos\u201d e os f\u00edsicos\u201d (<i>Aonde vai a Fran\u00e7a<\/i>, p. 48, Editora desafio, 1994). O dia 27 de outubro foi a gota de \u00e1gua para que a situa\u00e7\u00e3o de passividade dos estudantes se alterasse, a situa\u00e7\u00e3o rotineira e absolutamente defensiva que tomou a maior parte do ano de 2011 havia se transformado e exigia, principalmente dos setores que se colocam como dirigentes do movimento, uma adequa\u00e7\u00e3o \u00e0 altura do novo momento, mas n\u00e3o foi isso o que ocorreu. O DCE (dirigido pelo PSOL que \u00e9 apoiado pelo PSTU) desde o in\u00edcio de 2011, al\u00e9m de n\u00e3o ser capaz de dar nenhuma resposta pol\u00edtica aos ataques de Rodas e nem sequer convocar assembl\u00e9ias para discutir as quest\u00f5es quando o movimento, no dia 27 surge, e espontaneamente, trabalha criminosamente para destru\u00ed-lo. Quando nas assembl\u00e9ias perdem vota\u00e7\u00f5es, acabam por trabalhar constantemente para fazer o movimento refluir, mesmo quando d\u00e1 sinais claros que pode avan\u00e7ar. Estamos diante de um comportamento pol\u00edtico t\u00edpico das correntes mais oportunistas e burocr\u00e1ticas do movimento.<\/p>\n<p>Independente da compreens\u00e3o moment\u00e2nea, que evidentemente se altera ao depender da conjuntura pol\u00edtica, os estudantes na USP como em qualquer universidade n\u00e3o compartilham dos mesmos interesses materiais ou pol\u00edticos. Assim, fazer pol\u00edtica para todos os estudantes, significa tra\u00e7ar uma linha m\u00e9dia que n\u00e3o chega a atender aos interesses dos estudantes de origem prolet\u00e1ria. O PSTU deixa transparecer a sua adapta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica estrat\u00e9gica quando afirma que \u201cdefendemos que \u00e9 necess\u00e1rio acompanhar a disputa pol\u00edtico-ideol\u00f3gica dentro do conjunto dos estudantes, com a\u00e7\u00f5es que ajudem a elevar seu n\u00edvel de consci\u00eancia, levantando o sistema de palavras de ordem corretas, no momento correto\u201d (\u201cOs estudantes&#8230;\u201d, cit.). Como se v\u00ea, nessa argumenta\u00e7\u00e3o n\u00e3o aparece nenhuma distin\u00e7\u00e3o entre os setores sociais que comp\u00f5em as \u201cmassas\u201d no interior do movimento estudantil. Fazer a disputa ideol\u00f3gica entre os estudantes significa fazer uma clara escolha social, n\u00e3o se pode fazer a disputa \u201cpol\u00edtico-ideol\u00f3gica\u201d na massa estudantil como um todo, ou se atende aos interesses do setor mais ligado, pela origem ou por op\u00e7\u00e3o, ao proletariado e a classe m\u00e9dia ou, ao outro, isto \u00e9, ao setor burgu\u00eas dessa massa, principalmente em se tratando de uma universidade t\u00e3o elitizada como a USP.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 o problema de fundo que leva o bloco PSOL\/PSTU a ter permanentemente posi\u00e7\u00f5es \u00e0 direita e por nunca se colocarem a frente dos processos reais de mobiliza\u00e7\u00e3o. Est\u00e3o dedicados permanentemente a certo parlamentarismo estudantil e as disputas eleitoreiras das entidades. Na verdade, estes setores falam contra o vanguardismo e o ultra-esquerdismo n\u00e3o de uma posi\u00e7\u00e3o combativa, mas de uma posi\u00e7\u00e3o eleitoreira, pois para eles fazer pol\u00edtica na universidade \u00e9 se adaptar ao senso comum e desenvolver propostas e m\u00e9todos de luta palat\u00e1veis para todos os setores da universidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>An\u00e1lise de correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as para lutar ou para justificar o imobilismo?<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Tanto o debate sobre a assembl\u00e9ia do dia 1 de novembro e a ocupa\u00e7\u00e3o da reitoria, como a elimina\u00e7\u00e3o dos 8 estudantes, por participarem do movimento de ocupa\u00e7\u00e3o do bloco G e o fechamento do espa\u00e7o estudantil pela reitoria, foi permeado pelo conceito de correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as. \u00c9 interessante notar que o argumento de que falta correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as para agir foi utilizado por setores diversos e em contextos bastante diferenciados, mas com o fato em comum de usar esse argumento como meio para a ina\u00e7\u00e3o diante de ataques da reitoria nos \u00faltimos meses.<\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o ao PSTU, que se utilizaram do conceito de correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as, temos a vantagem de que a pol\u00eamica ocorra de forma documentada, j\u00e1 que suas posi\u00e7\u00f5es foram escritas e divulgadas publicamente. Para essa organiza\u00e7\u00e3o, \u201ctodo aquele que padece da doen\u00e7a do ultra-esquerdismo, baseia-se n\u00e3o s\u00f3 no desprezo pequeno-burgu\u00eas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s massas, como tamb\u00e9m em abstrair-se completamente da realidade objetiva e n\u00e3o levar em conta a an\u00e1lise rigorosa de algo que, na ci\u00eancia militar e no marxismo, chama-se correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as\u201d (ib\u00eddem). N\u00e3o houve da parte do PSOL\/PSTU, quando implodiram a assembl\u00e9ia e posteriormente passaram a fazer campanha contra a ocupa\u00e7\u00e3o (em unidade com a classe dominante), uma preocupa\u00e7\u00e3o de fazer uma an\u00e1lise concreta da realidade. O que se revelou foi um desespero burocr\u00e1tico quando se avistou que a linha de desmontar o movimento poderia \u2013 como de fato o foi \u2013 derrotada pelo reflexo e vontade de continuar lutando dos estudantes.<\/p>\n<p>A linha de acabar com a ocupa\u00e7\u00e3o da FFLCH (Faculdade de Filosofia Letras e Ci\u00eancias Humanas) n\u00e3o era o resultado de uma an\u00e1lise \u201cmilim\u00e9trica antes de propor uma t\u00e1tica ou de empreender qualquer tipo de a\u00e7\u00e3o\u201d, mesmo porque, qualquer an\u00e1lise minimante s\u00e9ria neste sentido, n\u00e3o poderia indicar o fim do movimento de ocupa\u00e7\u00e3o, pois, este estava em pleno desenvolvimento. O problema parece ser outro, o de que os setores que romperam com a assembl\u00e9ia do dia 1 de novembro estavam completamente desmoralizados no interior da ocupa\u00e7\u00e3o, por sua linha de colabora\u00e7\u00e3o (PSOL) com a pris\u00e3o dos 3 estudantes, da capitula\u00e7\u00e3o (PSTU) frente \u00e0 luta contra a militariza\u00e7\u00e3o da universidade etc. Ent\u00e3o, nessa l\u00f3gica burocr\u00e1tica era necess\u00e1rio matar esse movimento para que a situa\u00e7\u00e3o voltasse ao normal e o calend\u00e1rio eleitoral pudesse ser realizado da forma mais vantajosa para esses setores. E afirmam mais, que a ocupa\u00e7\u00e3o da reitoria n\u00e3o teve nada a ver com a onda de ocupa\u00e7\u00f5es de 2007 e que \u201cforam acompanhadas por uma verdadeira onda de ocupa\u00e7\u00f5es e greves em todo o pa\u00eds. Este processo de luta&#8230; envolveu, al\u00e9m de uma vanguarda numerosa, setores importantes da massa estudantil\u201d (ib\u00eddem).<\/p>\n<p>Primeiro devemos esclarecer que o PSTU, logo ap\u00f3s a ocupa\u00e7\u00e3o da reitoria em 2007, posicionou-se pela desocupa\u00e7\u00e3o, alegando que n\u00e3o havia condi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas para continuar com o movimento de ocupa\u00e7\u00e3o, o que como todos sabem se demonstrou um c\u00e1lculo pol\u00edtico totalmente equivocado. Para eles, mesmo em 2007, que teria sido um movimento massivo, n\u00e3o havia correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as para se manter a ocupa\u00e7\u00e3o. Fica evidente, portanto, que esse setor n\u00e3o pode se arrogar como campe\u00e3o da an\u00e1lise correta de correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as, pois, n\u00e3o foi capaz de identificar naquele momento tamb\u00e9m que a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as era favor\u00e1vel para o movimento. Al\u00e9m do mais, o c\u00e1lculo da correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as pol\u00edtica n\u00e3o est\u00e1 no campo matem\u00e1tica, em que se pode a partir de uma aritm\u00e9tica qualquer se definir que a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as esta favor\u00e1vel&#8230; \u201ce pronto! Pode-se agir!\u201d Existe uma s\u00e9rie de vari\u00e1veis e, no caso espec\u00edfico deste ano, podemos afirmar concretamente que a postura do bloco PSOL\/PSTU contribuiu para que a reitoria e o governo do estado de S\u00e3o Paulo tivessem condi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas para executar a ordem de reintegra\u00e7\u00e3o de posse. Em sua an\u00e1lise, afirmam tamb\u00e9m que \u201cn\u00e3o foi por acaso que esse movimento foi vitorioso e Serra n\u00e3o conseguiu que a PM (como Alckmin e Rodas conseguiram agora, gra\u00e7as ao isolamento) entrasse para reprimir essas ocupa\u00e7\u00f5es, n\u00e3o porque lhe faltasse vontade, mas porque \u2013 eles, sim, consideram este tipo de coisas \u2013 n\u00e3o tinham uma correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as favor\u00e1vel\u201d (ib\u00eddem).<\/p>\n<p>O que omitem \u00e9 que a constru\u00e7\u00e3o da correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as que permitiu a reintegra\u00e7\u00e3o de posse foi o resultado de um processo de ataques e contra-ataques do movimento desde 2007, onde a reitoria conseguiu criar condi\u00e7\u00f5es, utilizando-se inclusive da morte de um estudante como bode expiat\u00f3rio, para avan\u00e7ar no processo de militariza\u00e7\u00e3o da universidade. A correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as mais favor\u00e1vel em 2007 s\u00f3 foi poss\u00edvel pela iniciativa votada nas assembl\u00e9ias dos estudantes, contra a posi\u00e7\u00e3o do PSTU inclusive, que defendeu a desocupa\u00e7\u00e3o em quase todas assembl\u00e9ia, desde o segundo dia do movimento em diante, isto \u00e9, durante um total de 51 dias de ocupa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os \u201ccompanheiros\u201d afirmam que a ocupa\u00e7\u00e3o \u201cse deu em um momento em que um amplo setor dos estudantes n\u00e3o se posicionava a favor das pautas do movimento estudantil. A base de apoio desta luta ainda era bastante limitada e a reitoria contava com o respaldo da opini\u00e3o p\u00fablica dentro e fora da universidade. Neste contexto pol\u00edtico, a ocupa\u00e7\u00e3o unilateral da reitoria dividiu o movimento e acabou colocando-o ainda mais na defensiva\u201d e que \u201cdados do Datafolha publicados em 13 de novembro, 58% dos estudantes aprovam a presen\u00e7a da PM no campus e 57% t\u00eam mais confian\u00e7a do que medo desse corpo repressivo. Por outro lado, 73% dos estudantes estavam contra aquela ocupa\u00e7\u00e3o aventureira e 53% opinam que os estudantes que participaram devem ser punidos. Assim, fica evidente que o apoio \u00e0 PM dentro do campus ainda \u00e9 amplo. Inclusive entre aqueles que est\u00e3o contra a presen\u00e7a da PM na USP, um setor consider\u00e1vel era contra a t\u00e1tica da ocupa\u00e7\u00e3o. Realidade amarga, mas, no fim, realidade.\u201d Bom, de acordo com pesquisa feita pela folha de S\u00e3o Paulo, sempre question\u00e1vel pela sua obscura metodologia, ao menos 40 mil estudantes estavam contra a presen\u00e7a da PM no campus, o que na l\u00f3gica oportunista \u00e9 pouco, e por volta de 20 mil estudantes estavam a favor da ocupa\u00e7\u00e3o da reitoria. Considerando que houve uma campanha quase un\u00edssona da m\u00eddia, com o apoio do PSOL e do PSTU, contra a ocupa\u00e7\u00e3o, vinte mil estudantes a favor da ocupa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o se pode dizer que a ocupa\u00e7\u00e3o estava isolada e n\u00e3o tinha o respaldo de um importante setor das massas dos estudantes, apoio este que crescia \u00e0 olhos vistos em assembl\u00e9ias cada vez maiores, o que motivou sem d\u00favida a reintegra\u00e7\u00e3o de posse, de maneira \u00e1gil pelas for\u00e7as repressivas.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, estes partidos prosseguem em seu devaneio e tentam convencer o leitor de que o movimento estudantil na USP s\u00f3 cresceu depois da ocupa\u00e7\u00e3o devido aos \u201cexcessos\u201d e \u201cbrutalidade\u201d da reintegra\u00e7\u00e3o de posse e de que \u201cn\u00e3o foi a ocupa\u00e7\u00e3o burocr\u00e1tica dos \u201cestudantes combativos\u201d \u2013 que quase nos liquida \u2013, mas um erro pol\u00edtico do inimigo\u201d. N\u00e3o compartilhamos em absolutamente nada com essa an\u00e1lise. A brutalidade da reintegra\u00e7\u00e3o de posse n\u00e3o foi o elemento que criou por si s\u00f3 uma massifica\u00e7\u00e3o maior da luta contra a PM no campus. Esse processo j\u00e1 havia se iniciado e foi sim o elemento que contribuiu para acelerar um processo que j\u00e1 estava em curso. \u00c9 verdade que n\u00e3o conseguimos alterar a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as \u2013 e os \u00faltimos acontecimentos em rela\u00e7\u00e3o ao fechamento da DCE e a reintegra\u00e7\u00e3o de Posse da Moradia Retomada atestam isso -, mas, tamb\u00e9m \u00e9 verdade que n\u00e3o estamos em uma correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as menos favor\u00e1vel para os estudantes do que antes das ocupa\u00e7\u00f5es. Como explicar, que o movimento com a ocupa\u00e7\u00e3o e a greve ficou ainda mais na defensiva depois de assembl\u00e9ias e atos massivos, chegando a se realizar atos e assembl\u00e9ias com cerca de quatro mil estudantes, n\u00fameros s\u00f3 vistos durante a greve de 2007. O que o PSTU e o PSOL n\u00e3o podem reconhecer \u00e9 que, apesar deles, foi detonado um movimento que coloca a possibilidade de lutar diretamente contra a privatiza\u00e7\u00e3o da universidade, movimento que, inclusive, sistematicamente vem questionando a linha oportunista destes setores. Ainda h\u00e1 uma ofensiva de Rodas e Alckmin, \u00e9 verdade. Mas, o movimento de ocupa\u00e7\u00e3o e a greve colocaram a nu os ataques brutais que a reitoria esta desenvolvendo contra a universidade p\u00fablica e que, para garantir esses ataques, precisam tamb\u00e9m destruir com a capacidade de mobiliza\u00e7\u00e3o dos estudantes e trabalhadores da universidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Al\u00e9m do PSTU, outros setores tamb\u00e9m interpretam de forma enviesada os ensinamentos dos cl\u00e1ssicos<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mesmo \u00e0s v\u00e9speras do natal durante as f\u00e9rias, o ato contra as expuls\u00f5es dos estudantes contou com a participa\u00e7\u00e3o de 200 pessoas aproximadamente. Ap\u00f3s o ato, a reuni\u00e3o, que chegou a contar com 100 estudantes, foi marcada pela pol\u00eamica em torno do encaminhamento das propostas de atividades. Um dos setores, do qual fizemos parte, defendia que era necess\u00e1rio ainda no final do ano tomar medidas para dar uma reposta continuada a elimina\u00e7\u00e3o dos estudantes, o outro (PSTU, PSOL, LER-QI, MNN), afirmava que nenhuma medida poderia ser tomada em nome da greve sem que tal medida passasse pela reuni\u00e3o do comando ou da assembl\u00e9ia geral. Para tentar dialogar com esse setor prop\u00fanhamos que diante da emerg\u00eancia fosse antecipado a reuni\u00e3o do comando de greve para o dia 5 de janeiro, mas, nem essa proposta foi aceita.<\/p>\n<p>Num momento, portanto, em que as medidas repressivas da reitoria se tornam a cada dia mais brutais, \u00e9 fundamental a necessidade de uma luta que vise n\u00e3o s\u00f3 a dar respostas imediatas a cada um dos ataques desferidos, mas, que possa dar alento ao movimento num per\u00edodo de certa desmobiliza\u00e7\u00e3o, isto \u00e9, as f\u00e9rias. Assim, \u00e9 inaceit\u00e1vel a in\u00e9rcia desses setores, ao se colocarem naquele momento contra a efetiva\u00e7\u00e3o de qualquer proposta de mobiliza\u00e7\u00e3o (acampamento e antecipa\u00e7\u00e3o da reuni\u00e3o do comando de greve) na reuni\u00e3o ap\u00f3s o ato. No caso espec\u00edfico da interven\u00e7\u00e3o da reitoria no espa\u00e7o de viv\u00eancia, qualquer an\u00e1lise s\u00e9ria evidenciaria que as possibilidades de refutar a investida da PM e da Guarda Universit\u00e1ria a servi\u00e7o da reitoria eram remotas, por\u00e9m, isso n\u00e3o significa que n\u00e3o seria poss\u00edvel resistir dentro dos limites impostos pela correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as daquele momento. A correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as indicava concretamente que era poss\u00edvel, sim, realizar um processo de resist\u00eancia ao lacramento do espa\u00e7o estudantil, dando, por meio disso, visibilidade para as pautas da nossa luta e para o real car\u00e1ter da pol\u00edtica de Rodas. Foi, ent\u00e3o, exatamente o que ocorreu, gra\u00e7as \u00e0 clareza pol\u00edtica dos que resistiram at\u00e9 o final.<\/p>\n<p>Nesse sentido, no tocante \u00e0 correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as, cabe aqui esclarecer qual deve ser o papel da an\u00e1lise da correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as dentro da luta de classes. A quest\u00e3o \u00e9 que a caracteriza\u00e7\u00e3o da correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as \u00e9 o resultado da an\u00e1lise de um per\u00edodo dentro da realidade e serve para identificar as reais possibilidades da luta, bem como que m\u00e9todos, t\u00e1ticas e estrat\u00e9gias adotar dentro deste per\u00edodo. Vejamos como Trotsky encara a quest\u00e3o da correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as em um dos seus artigos contidos na colet\u00e2nea <i>Aonde vai a Fran\u00e7a?<\/i>: \u201cA rela\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de for\u00e7as esta determinada n\u00e3o somente pelos dados objetivos (papel da produ\u00e7\u00e3o, n\u00famero, etc.), mas tamb\u00e9m pelos subjetivos: <i>a consci\u00eancia da pr\u00f3pria for\u00e7a<\/i> \u00e9 o elemento mais importante da <i>for\u00e7a real<\/i>(&#8230;)<i> <\/i>Entre os fascistas e os pacifistas de todas as matizes se estabeleceu uma divis\u00e3o de trabalho: uns refor\u00e7am o capo da rea\u00e7\u00e3o; os outros enfraquecem o campo da revolu\u00e7\u00e3o. Esta \u00e9 uma verdade n\u00e3o camuflada!\u201d (<i>Aonde vai a Fran\u00e7a<\/i>, ed. cit., p. 115).<\/p>\n<p>O enfrentamento com a PM no dia 27 de outubro mudou significativamente os dados subjetivos da correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as na USP. N\u00e3o que o movimento tenha passado a ter uma correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as totalmente favor\u00e1vel em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 reitoria, mas que a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as anterior, que estava marcada por uma ofensiva por parte da reitoria e por nenhuma resposta da parte dos estudantes ou dos demais setores da universidade, havia mudado para uma situa\u00e7\u00e3o onde as ofensivas da reitoria come\u00e7aram a ser respondidas pelo movimento. E mais, mesmo quando a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as \u00e9 desfavor\u00e1vel, n\u00e3o significa que n\u00e3o devemos fazer a luta &#8211; principalmente quando se trata de um ataque direto do inimigo &#8211; mas, de que precisamos identificar quais s\u00e3o os meios que iremos empregar e qual ser\u00e1 o alcance da mobiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Enfim, a an\u00e1lise da correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as tem a fun\u00e7\u00e3o diferente da empregada pelos setores que foram citados acima; ela \u00e9 um instrumento para que o movimento tenha clareza de como ser\u00e1 a luta e n\u00e3o uma justifica\u00e7\u00e3o para que a luta n\u00e3o seja feita. Esse \u00e9 um crit\u00e9rio decisivo para a luta de classes e para a luta dos oprimidos de forma geral, mesmo para parte do setor (LER-QI e MNN) que acompanha a mobiliza\u00e7\u00e3o, ao contr\u00e1rio do PSOL e do PSTU, que se esmeram nas suas tentativas de refrear o movimento e v\u00eam se equivocando profundamente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>A constru\u00e7\u00e3o de uma greve geral na universidade \u00e9 a chave para derrotar o projeto privatista<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A interfer\u00eancia direta e indireta do governo estadual dentro da universidade atrav\u00e9s do seu representante, Jo\u00e3o Grandino Rodas, articula o mais brutal ataque contra as organiza\u00e7\u00f5es sindicais e estudantis desde a ditadura militar. A outra face dessa ofensiva se d\u00e1 atrav\u00e9s de pol\u00edticas &#8211; que precisamos desmistificar para mostrar o seu verdadeiro car\u00e1ter retr\u00f3grado &#8211; que objetivam dividir a opini\u00e3o da comunidade universit\u00e1ria.<\/p>\n<p>Como j\u00e1 digredimos anteriormente, ao contr\u00e1rio do que diz o bloco oportunista composto pelo PSOL e PSTU, a brava resist\u00eancia de centenas de estudantes que enfrentaram a pol\u00edcia contra a pris\u00e3o de 3 estudantes no dia 27 de outubro, a ocupa\u00e7\u00e3o da sede administrativa da FFLCH e, posteriormente, a ocupa\u00e7\u00e3o da Reitoria, coloca a luta contra o projeto de aprofundamento da privatiza\u00e7\u00e3o e elitiza\u00e7\u00e3o da universidade em um patamar totalmente distinto do que foi vivido durante quase todo o ano de 2011. Essas a\u00e7\u00f5es tiveram o grande m\u00e9rito de denunciar a repress\u00e3o contra as vozes cr\u00edticas no interior da universidade.<\/p>\n<p>\u00c9 fato que Rodas continua desferindo ataques contra o movimento, mas n\u00e3o podemos desconsiderar que o fez durante as f\u00e9rias estudantis e sem que o movimento pudesse ainda reagir a altura. No entanto, apesar da virulenta campanha da m\u00eddia alinhada com o governo do estado de S\u00e3o Paulo, as ocupa\u00e7\u00f5es e a greve estudantil foram fundamentais para que milhares de estudantes come\u00e7assem a refletir e se mobilizar. Isso colocou a possibilidade real de derrotarmos o projeto reacion\u00e1rio em curso. \u00c9 totalmente inveross\u00edmil afirmar que a correta resist\u00eancia estudantil, apoiada em assembl\u00e9ias de base, colocou o movimento em situa\u00e7\u00e3o mais desfavor\u00e1vel, como afirma textualmente o PSTU.<\/p>\n<p>Temos pela frente muitos desafios. Os ataques realizados durante as f\u00e9rias pela Reitoria, como parte de um processo mais amplo de repress\u00e3o preventiva17 contra os movimentos sociais, demonstram que \u00e9 necess\u00e1rio superar o isolamento interno e externo no qual se encontrava a greve estudantil no ano passado e a supera\u00e7\u00e3o desse isolamento \u00e9 a tarefa de todos os setores &#8211; estudantes, funcion\u00e1rios e professores. A nosso ver, a supera\u00e7\u00e3o desse isolamento passa pela estrat\u00e9gia de construir um movimento grevista generalizado no interior da universidade, que seja apoiado por amplos setores da classe trabalhadora e dos movimentos sociais.<\/p>\n<p>Para isso, colocam-se tarefas que combinam a disputa ideol\u00f3gica, demonstrando o quanto as medidas desse projeto, tanto em longo prazo quanto em curto prazo, n\u00e3o interessam a maioria. Elementos para demonstrar que as pol\u00edticas privatistas e repressivas de Rodas s\u00e3o nefastas para a universidade n\u00e3o faltam: improbidade administrativa, exclus\u00e3o dos trabalhadores do interior da universidade, precariza\u00e7\u00e3o e falta de funcion\u00e1rios, reformas curriculares e programas voltados para o interesse do mercado.<\/p>\n<p>A radicaliza\u00e7\u00e3o dos estudantes demonstra, pelas duas ocupa\u00e7\u00f5es, pela greve com piquetes, pelos atos e passeatas com milhares na universidade e fora dela &#8211; que j\u00e1 existe um importante movimento no qual temos que apostar a fundo para sua manuten\u00e7\u00e3o e amplia\u00e7\u00e3o. Essa aposta passa pela supera\u00e7\u00e3o de toda forma de corporativismo e burocratismo no interior do movimento e pelo convencimento em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 necessidade da unidade \u2013 que agora se concretiza na constru\u00e7\u00e3o de uma greve unificada &#8211; contra o atual projeto de universidade e pela sua refunda\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Enfim, temos insistido que aqueles que defendem uma universidade voltada para os interesses dos trabalhadores 18 devem, al\u00e9m de lutar contra a privatiza\u00e7\u00e3o e a repress\u00e3o no interior da universidade, lutar tamb\u00e9m por bandeiras que rompam e apontem para a ruptura com a sua hist\u00f3rica elitiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><b>Refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas<\/b><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>ADUSP, Associa\u00e7\u00e3o dos Docentes da USP. <i>O controle ideol\u00f3gico na USP (1962-1978)<\/i>, S\u00e3o Paulo, Adusp, 2004. <b><\/b><\/p>\n<p>Fav\u00e9ro, Maria de Lourdes de A. (1980) <i>Universidade &amp; poder; an\u00e1lise cr\u00edtica\/fundamentos hist\u00f3ricos: 1930-45<\/i>.Rio de Janeiro, Achiam\u00e9.<\/p>\n<p>Revista <i>Forum<\/i> 106. Janeiro de 2012.<\/p>\n<p>Karady, Victor. \u201cLes Universit\u00e9s de la III\u00e8me R\u00e9publique\u201d. In: VERGER Jacques, <i>L\u2019histoire des Universit\u00e9s en France<\/i>. Toulouse, Privat, 1986.<\/p>\n<p>L\u00eanin,VI. <i>A doen\u00e7a infatil do \u201cesquerdismo\u201d no comunismo<\/i>, in <i>Obras Escolhidas<\/i>, p. 333. Editora progresso, Lisboa, 1979.<\/p>\n<p>L\u00eanin,VI. <i>O estado e a revolu\u00e7\u00e3o<\/i>.Editora Global, 1987.<\/p>\n<p>Ribeiro, Darcy. (1975) <i>A universidade necess\u00e1ria<\/i>. 2\u00aa edi\u00e7\u00e3o. Rio de Janeiro, Paz e Terra. <b><\/b><\/p>\n<p>Trotsky, Leon. <i>Aonde vai a Fran\u00e7a<\/i>. Editora Desafio, 1994.<\/p>\n<p>Trotsky, Leon. <i>A nossa moral e a deles<\/i>. http:\/\/www.marxists.org<\/p>\n<p>Trotsky, Leon. <i>Escritos sobre Espa\u00f1a<\/i>. http:\/\/www.marxists.org<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>* Agradecemos a colabora\u00e7\u00e3o de Carlos Ranea pela elabora\u00e7\u00e3o de algumas partes desse trabalho, principalmente no subt\u00edtulo \u201cN\u00facleo de Consci\u00eancia Negra\u201d, al\u00e9m da revis\u00e3o geral deste artigo. Tamb\u00e9m agradecemos a importante contribui\u00e7\u00e3o de Augusto Rolim Saraiva na revis\u00e3o do mesmo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>1. O que se evidencia, portanto, deste contexto, \u00e9 que parte significativa dos estudantes das universidades percebe que n\u00e3o adianta esperar pela boa vontade do governo federal e da burocracia universit\u00e1ria (a \u00faltima sustentada pelas funda\u00e7\u00f5es privadas) para terem condi\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas de perman\u00eancia estudantil e direito \u00e0 participa\u00e7\u00e3o nos rumos da universidade. O meio que os estudantes, diante da pol\u00edtica de expans\u00e3o prec\u00e1ria da universidade no Brasil, v\u00eam adotando para tentar resolver os problemas que encontram s\u00e3o as greves, passeatas e ocupa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>2. O Reitor Jo\u00e3o Grandino Rodas tentou inaugurar um monumento em homenagem \u00e0s v\u00edtimas da ditadura militar, com o nome de Revolu\u00e7\u00e3o de 1964, e foi obrigado a corrigir o \u201cerro\u201d. No Brasil, para a maioria da popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o resta d\u00favidas de que este per\u00edodo se tratou de um golpe militar, uma ditadura que vitimou centenas de pessoas. Assim, n\u00e3o encaremos este ato da reitoria como um erro, mas, um ato falho, uma caracteriza\u00e7\u00e3o consciente do que foi todo processo da ditadura.<\/p>\n<p>3. Rodas, por descaso, destruiu grande parte da biblioteca da Faculdade de Direito, armazenando livros raros em local exposto a sol e chuva. Os danos, segundo intelectuais da \u00e1rea, foram imensos e irrepar\u00e1veis.<\/p>\n<p>4. A quest\u00e3o dos dois decretos 51.460 e 51.461, de 1\u00ba de janeiro de 2007, que feriam a autonomia universit\u00e1ria, surgiu a partir da den\u00fancia feita por 2 professores da Unicamp ao jornal Folha do Estado de S\u00e3o Paulo, no dia 24 de janeiro (\u201cTend\u00eancias e Debates\u201d, p.3). Segundo os professores (Alcir P\u00e9cora e Francisco Foot Hardman), o problema central era que os decretos constitu\u00edam uma nova poss\u00edvel composi\u00e7\u00e3o do Cruesp (Conselho de Reitores das Universidades Estaduais de S\u00e3o Paulo), com presid\u00eancia vital\u00edcia para o novo Secret\u00e1rio de Ensino Superior, e com centraliza\u00e7\u00e3o pelo aparelho estatal dos recursos materiais e humanos, o que deixaria o controle das tr\u00eas universidades estaduais de S\u00e3o Paulo (Unicamp, Unesp, USP) nas m\u00e3os do governo do estado de S\u00e3o Paulo e da gest\u00e3o daquele momento, isto \u00e9, do PSDB e de Jos\u00e9 Serra, ferindo assim, de maneira fulminante a autonomia universit\u00e1ria das tr\u00eas institui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>5. A greve da UNICAMP (Universidade Estadual de Campinas) teve in\u00edcio no dia 13 de maio e foi encabe\u00e7ada pelo STU (Sindicato dos Trabalhadores da Unicamp) para que fosse atendida a reivindica\u00e7\u00e3o de aumento salarial de 16%, mais R$ 200 fixos, reivindica\u00e7\u00e3o esta que, ap\u00f3s os 49 dias de greve, n\u00e3o foi atendida.<\/p>\n<p>6. A demiss\u00e3o destes trabalhadores se deu pelo fato de serem funcion\u00e1rios aposentados que, contudo, permaneciam em servi\u00e7o e que, por isto, podiam receber separadamente aposentadoria e sal\u00e1rio, pois, uma senten\u00e7a do Supremo Tribunal Federal permitiu a qualquer funcion\u00e1rio a obten\u00e7\u00e3o de duas remunera\u00e7\u00f5es como fonte de renda, uma vez que sal\u00e1rio e aposentadoria, a partir desta senten\u00e7a transformaram-se em conceitos separados. Assim, segundo o artigo do Jornal do Campus de 28\/03\/2011, intitulado \u201cA legalidade e a moralidade da demiss\u00e3o de funcion\u00e1rios aposentados da USP\u201d, a partir desta senten\u00e7a, em 2007, a USP baixou portaria dizendo que o aposentado teria o direito de optar se continua trabalhando ou n\u00e3o e, por isto, muitos prosseguiram trabalhando, com aposentadoria e sal\u00e1rio. Por\u00e9m, na gest\u00e3o Rodas, que visa a cortar gastos a todo custo, isto \u00e9, dos trabalhadores (e n\u00e3o dos tapetes de mais de 30.000 reais de seu gabinete), as 270 demiss\u00f5es ocorreram e sem qualquer aviso pr\u00e9vio aos docentes. O \u00faltimo ataque, dando continuidade \u00e0 onda de ataques aos trabalhadores, agora \u00e9 o PROADE (\u201cPrograma de Acompanhamento de Desenvolvimento Funcional dos Servidores T\u00e9cnico-administrativos da USP\u201d) que \u00e9 um programa que institucionaliza o ass\u00e9dio moral na universidade, por meio de avalia\u00e7\u00f5es que visam conferir o \u201cdesempenho\u201d do trabalhador (desempenho segundo os n\u00edveis produtivistas da reitoria), podendo, ainda que este esteja em regime celetista, despedi-lo por \u201cjusta causa\u201d, caso n\u00e3o preencha aos crit\u00e9rios de avalia\u00e7\u00e3o estabelecidos pela reitoria.<\/p>\n<p>7. Um reflexo deste projeto que tem por finalidade o lucro para o fundo de pesquisas e para empresas privadas pode ser aludido na reforma do regimento geral da p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o da USP, que foi proposta para o fim do m\u00eas de mar\u00e7o de 2012, mas adiada por tempo ainda indeterminado pela atua\u00e7\u00e3o bem a tempo dos estudantes da p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o. Esta reforma visa: transferir para os n\u00edveis b\u00e1sicos da hierarquia as decis\u00f5es burocr\u00e1ticas e concentrar na pr\u00f3-reitoria o poder de avalia\u00e7\u00e3o e interven\u00e7\u00e3o nos programas o que significa que a burocracia acad\u00eamica poder\u00e1, caso este projeto se d\u00ea, encerrar\/desativar programas que julgarem de m\u00e1 qualidade; por for\u00e7a no mestrado profissionalizante (leia-se, voltado para o mercado de trabalho e para os interesses do capital); diminuir o poder do orientador na banca do orientando, fazendo com que a banca seja externa e impedindo que o orientador vote; criar uma esp\u00e9cie de ciclo b\u00e1sico de 12 meses ao final do qual o aluno passar\u00e1 por uma avalia\u00e7\u00e3o que decidir\u00e1 se ele est\u00e1 no mestrado, no doutorado ou se ser\u00e1 desligado com o certificado de cumprimento das disciplinas; Instituir uma pr\u00e9-avalia\u00e7\u00e3o da tese em que o aluno poder\u00e1 ser reprovado., sendo que essa comiss\u00e3o julgadora ser\u00e1 tamb\u00e9m externa; aumentar o poder da \u201ccomunidade externa\u201d e de \u201cprofissionais\u201d da \u00e1rea, permitindo o credenciamento de orientadores n\u00e3o-doutores e a participa\u00e7\u00e3o de n\u00e3o-doutores em bancas; e, finalmente, permitir defesas em ingl\u00eas e\/ou outras l\u00ednguas.<\/p>\n<p>8. Segundo a mat\u00e9ria do Jornal do Campus denominada \u201cE quem garante os direitos dos Terceirizados?\u201d, a assessora da Reitoria, ao ser consultada sobre a terceiriza\u00e7\u00e3o na USP afirmou que a \u201cterceiriza\u00e7\u00e3o traz vantagens para a administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica porque reduz o custo da folha de pagamento e permite flexibilidade, j\u00e1 que contratos com as empresas s\u00e3o modificados ou substitu\u00eddos de forma mais simples do que quando se trata de quadro pr\u00f3prio\u201d e, al\u00e9m disso, que a terceiriza\u00e7\u00e3o \u201cfacilita o processo de gest\u00e3o de pessoas, pois se compra o servi\u00e7o e a inefic\u00e1cia do mesmo deve ser solucionada pela contratada, de quem s\u00e3o os empregados\u201d. Esta declara\u00e7\u00e3o deixa mais que evidente a total indiferen\u00e7a da Reitoria para com os terceirizados, pois ao deix\u00e1-los nas m\u00e3os de empresas, que n\u00e3o lhes conferem os direitos que a esfera p\u00fablica poderia conceder, acaba por piorar sua explora\u00e7\u00e3o, deixando-os em um regime de escravid\u00e3o, seguindo aquele princ\u00edpio que Marx j\u00e1 demonstrava em seus Manuscritos econ\u00f4micos-filos\u00f3ficos, isto \u00e9, de que \u201co trabalhador \u00e9 mais pobre quanto mais riqueza produz, quanto mais incrementa sua produ\u00e7\u00e3o em pot\u00eancia e em volume\u201d. (Marx, Karl: <i>Manuscritos econ\u00f4micos-filos\u00f3ficos<\/i>, Ant\u00eddoto. Tradu\u00e7\u00e3o livre.)<\/p>\n<p>9. A pauta que defend\u00edamos com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 EACH era contra o fechamento de v\u00e1rios cursos,principalmente o de obstret\u00edcia, que na \u00e9poca era o que estava mais pr\u00f3ximo de um ataque iminente. Al\u00e9m disso, defend\u00edamos tamb\u00e9m a n\u00e3o diminui\u00e7\u00e3o de vagas para os diversos cursos da EACH, em que muitos corriam o risco de diminuir pela metade o seu n\u00famero de vagas.<\/p>\n<p>10. Dentro da luta dos trabalhadores terceirizados \u00e9 importante colocar ainda o caso dos trabalhadores da BKM, que no dia 20 Setembro ocuparam uma sala da Cocesp (Coordenadoria do Campus da Capital) por 24 horas, ap\u00f3s ficarem sem receber seus sal\u00e1rios, atrasados em 15 dias. O Movimento Estudantil e o Sintusp, al\u00e9m de participarem da ocupa\u00e7\u00e3o, garantiram um ato em apoio aos trabalhadores, no dia seguinte.<\/p>\n<p>11. J\u00e1 na \u00e9poca do estabelecimento do conv\u00eanio, question\u00e1vamos n\u00e3o s\u00f3 o oportunismo da reitoria com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 morte do estudante como tamb\u00e9m o sil\u00eancio do DCE, cuja gest\u00e3o do PSOL n\u00e3o convocou sequer uma assembl\u00e9ia ou qualquer outra iniciativa para mobilizar os estudantes contra este conv\u00eanio. Para mais detalhes, vide a mat\u00e9ria de Rosi Santos, de nosso jornal de Setembro de 2011, \u201cMovimento Estudantil deve barrar projeto PSDBista\u201d.<\/p>\n<p>12. Com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pris\u00e3o dos tr\u00eas estudantes o DCE, dirigido pela gest\u00e3o do PSOL, mais uma vez deu prova de seu peleguismo t\u00e1cito ao, em primeiro lugar, proceder de maneira a favorecer a pris\u00e3o dos estudantes. Segundo o Jornal do Campus, edi\u00e7\u00e3o de outubro, n\u00famero 388, as reivindica\u00e7\u00f5es do DCE eram consoantes a da diretora da FFLCH, Sandra Nitrini, e defenderam a pol\u00edtica de que \u201cos estudantes deveriam ser encaminhados para a delegacia, pois os procedimentos n\u00e3o poderiam acontecer na pr\u00f3pria universidade\u201d. Tudo isso porque \u201cbuscavam preservar a integridade dos estudantes\u201d. Ora, a pergunta \u00f3bvia que fazemos \u00e9 que n\u00e3o seria melhor para buscar a integridade dos estudantes, defend\u00ea-los de serem levados \u00e0 delegacia para serem fichados por um suposto porte de droga? Ap\u00f3s isto, ainda na mesma mat\u00e9ria, vemos um relato de um diretor do DCE, do PSOL, dizendo que acreditava ser muito ruim que os estudantes tomassem \u201cdecis\u00f5es radicalizadas\u201d. Nisto, questionamos mais uma vez ao PSOL, se consideram que a pris\u00e3o de 3 estudantes n\u00e3o \u00e9 motivo para decis\u00f5es radicalizadas, ainda mais num contexto em que j\u00e1 vinham sendo abordados in\u00fameros estudantes na universidade por uma pol\u00edcia, que sabemos que n\u00e3o oferece qualquer seguran\u00e7a aos alunos ou funcion\u00e1rios. Mas, os dirigentes do DCE da gest\u00e3o PSOL n\u00e3o param por a\u00ed e, ainda, na mesma mat\u00e9ria, um deles declara que \u201co que aconteceu na assembl\u00e9ia que decidiu a ocupa\u00e7\u00e3o foi o convencimento de uma maioria conjuntural moment\u00e2nea, o que \u00e9 diferente de uma maioria significativa\u201d. Perguntamos, ent\u00e3o, ao PSOL, o que seria e, ainda mais para um <i>partido que se diz socialista<\/i>, uma <i>conjuntura significativa<\/i>, sen\u00e3o os <i>in\u00fameros<\/i> estudantes que ali se encontravam para <i>defender seus colegas<\/i> (coisa que o PSOL se recusou a fazer) e, mais do que isso, indagamos aos mesmos por que num momento que exigia, sim, uma resposta radical ao ataque proporcionado pelo conv\u00eanio Reitor-PM, fugiram da luta?<\/p>\n<p>13. Para entender um pouco melhor o passado olig\u00e1rquico da USP, seu refinamento ap\u00f3s a golpe de 1964 e os seus desdobramentos at\u00e9 hoje, desenvolvimento hist\u00f3rico que cria toda a pol\u00edtica olig\u00e1rquica, hier\u00e1rquica e anti-democr\u00e1tica da USP, regida at\u00e9 hoje ainda, apenas por uma c\u00fapula de livre-docentes, o Conselho Universit\u00e1rio (CO), e o pr\u00f3prio reitor, sem a participa\u00e7\u00e3o dos funcion\u00e1rios, professores e estudantes; ler o j\u00e1 mencionado libreto publicado pela Adusp (Associa\u00e7\u00e3o dos docentes da USP): \u201cO controle ideol\u00f3gico na USP (1964 -1978)\u201d.<\/p>\n<p>14. Em seu boletim USP <i>Destaques<\/i> No. 50, a reitoria, al\u00e9m de exigir o veto da utiliza\u00e7\u00e3o do nome USP do NCN, que anteriormente tinha por nome N\u00facleo de Consci\u00eancia Negra na USP (o que j\u00e1 mostra o a falta de interesse da burocracia de firmar um conv\u00eanio com o espa\u00e7o), alega que o plano de trabalho enviado pelo NCN para viabilizar sua \u201cregularidade\u201d no espa\u00e7o acad\u00eamico, segundo os \u00f3rg\u00e3os t\u00e9cnicos da Reitoria, ap\u00f3s uma an\u00e1lise, \u201cn\u00e3o condizia com a legisla\u00e7\u00e3o vigente\u201d. Cabe aqui uma reflex\u00e3o se a legalidade deveria ser o crit\u00e9rio para tal an\u00e1lise, ou se, em verdade, n\u00e3o deveria ser a legitimidade do espa\u00e7o, que h\u00e1 anos vem refletindo e atuando em favor da sociedade e, principalmente, da parte mais oprimida desta sociedade.<\/p>\n<p>15. Al\u00e9m do aliciamento dos espa\u00e7os, agora a l\u00f3gica \u00e9 a de aliciar at\u00e9 mesmo os professores e de um modo rid\u00edculo. Segundo o jornal Estado de S\u00e3o Paulo do dia 25 de fevereiro de 2012, no artigo \u201cA USP e seus desafios\u201d, na semana anterior a data de publica\u00e7\u00e3o deste artigo, o Conselho de Gradua\u00e7\u00e3o (CoG) \u201caprovou a proposta da pr\u00f3-reitora Telma Zorn de premiar docentes mais bem avaliados com equipamentos eletr\u00f4nicos e at\u00e9 financiamento de viagens para participa\u00e7\u00e3o em congressos internacionais. Pela decis\u00e3o, os professores que lecionavam nos 240 cursos de gradua\u00e7\u00e3o da USP ficam sujeitos a um regime de pontua\u00e7\u00e3o que leva em conta, entre outros itens, a \u201cempatia\u201d com alunos, n\u00famero de livros did\u00e1ticos escritos, as atividades de orienta\u00e7\u00e3o de trabalhos de conclus\u00e3o de curso aprovados com louvor e de trabalhos de inicia\u00e7\u00e3o cient\u00edfica premiados , a oferta de disciplinas optativas livres e a coordena\u00e7\u00e3o de turmas\u201d. O que este projeto esconde na verdade \u00e9 a precariedade dos cursos da USP que, j\u00e1 em sua Gradua\u00e7\u00e3o, apresentam um enorme n\u00famero de desist\u00eancias, justificadas pelo fato de que o CoG \u201ctransformou em esc\u00e1rnio a discuss\u00e3o sobre a reforma dos cursos de gradua\u00e7\u00e3o da USP, que, em sua maioria, est\u00e3o com curr\u00edculos ultrapassados\u201d, al\u00e9m, \u00e9 claro, de ser um \u201ccavalo de tr\u00f3ia\u201d que busca comprar os professores para faz\u00ea-los esquecer de que a burocracia deveria melhorar as condi\u00e7\u00f5es de trabalho, com menos classes lotadas e com equipamentos b\u00e1sicos para a sala de aula.<\/p>\n<p>16. Segundo a \u201cCarta-Den\u00fancia sobre o Programa de Inclus\u00e3o Social na Usp (Inclusp), publicada em 2010 pelo NCN, este programa de suposta \u201cinclus\u00e3o\u201d promovido pela reitoria, n\u00e3o inclui em nada, na verdade. O programa perdura desde 2006 at\u00e9 os dias atuais, sendo que obteve leve modifica\u00e7\u00e3o por volta de 2010, quando se tornou ainda mais elitista do que outrora. Desde sua implementa\u00e7\u00e3o, o Inclusp se baseia em 3 tipos de A\u00e7\u00f5es: Antes do Ingresso (na universidade), Durante o ingresso e Ap\u00f3s o Ingresso, sendo que no que se refere \u00e0s a\u00e7\u00f5es Antes do Ingresso, que supostamente deveriam estimular o ingresso de alunos de escolas p\u00fablicas (colaborando, inclusive,com a presen\u00e7a e expans\u00e3o de cursinhos populares na USP), simplesmente n\u00e3o foram executadas e o PASUSP (avalia\u00e7\u00e3o seriada promovida pela reitoria para aumentar a nota dos alunos de ensino p\u00fablico, tornando-os mais \u201cfavoravelmente competitivos\u201d contra os alunos de ensino privado, supostamente facilitando assim seu acesso ao ensino superior), que obteve menos de 20.000 alunos em seus 3 anos de exist\u00eancia, incluiu apenas 377 alunos da escola p\u00fablica. J\u00e1 o b\u00f4nus proposto como a\u00e7\u00e3o durante o ingresso, quase n\u00e3o gerou inclus\u00e3o nos seus 4 anos de funcionamento e, mesmo assim, a Pr\u00f3-Reitoria de Gradua\u00e7\u00e3o da USP, fascinoramente prop\u00f4s retirar os 3% do b\u00f4nus universal e diminuir o total de bonifica\u00e7\u00e3o de at\u00e9 12% para 11% e, ainda, com restri\u00e7\u00e3o de participa\u00e7\u00e3o de alunos. J\u00e1 as a\u00e7\u00f5es ap\u00f3s ingressos s\u00e3o ainda mais rid\u00edculas, pois o que se v\u00ea dentro do ambiente universit\u00e1rio \u00e9 a falta de informa\u00e7\u00e3o, de moradia estudantil e de pol\u00edticas de perman\u00eancia estudantil. N\u00f3s, do Pr\u00e1xis, entendemos ser mais do que urgente a amplia\u00e7\u00e3o do acesso \u00e0 universidade, principalmente pelos setores mais oprimidos da popula\u00e7\u00e3o, contudo, n\u00e3o acreditamos que isso seja fact\u00edvel apenas com projetos reformistas de qualquer ordem no \u00e2mbito da educa\u00e7\u00e3o. Acreditamos, ao contr\u00e1rio que a \u00fanica maneira real de se alcan\u00e7ar os setores da popula\u00e7\u00e3o exclu\u00eddos do acesso \u00e0 universidade \u00e9 pela extin\u00e7\u00e3o do filtro elitista que impede tal acesso, isto \u00e9, o vestibular, exame que s\u00f3 serve como ferramenta para potencializar a exclus\u00e3o social.<\/p>\n<p>17. A classe dominante se prepara, devido ao acirramento da crise econ\u00f4mica &#8211; a previs\u00e3o menos sombria \u00e9 que a Europa s\u00f3 vai voltar a crescer em 2014 &#8211; para tempos de maior polariza\u00e7\u00e3o e luta entre as classes.<\/p>\n<p>18. Neste sentido, a discuss\u00e3o do fim do vestibular e do investimento massivo para a constru\u00e7\u00e3o de uma estrutura que atenda a todos, para sermos conseq\u00fcentes na cr\u00edtica ao seu atual car\u00e1ter, \u00e9 fundamental.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Brasil: Uma pol\u00eamica contra o oportunismo e o burocratismo no movimento estudantil\u00a0 Antonio Soler e Rosi Santos* Desde 2008, a realidade mundial vem sendo marcada pela crise econ\u00f4mica. 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