{"id":4734,"date":"2015-05-02T11:51:44","date_gmt":"2015-05-02T14:51:44","guid":{"rendered":"https:\/\/www.socialismoobarbarie.org\/?p=4734"},"modified":"2015-09-25T15:19:13","modified_gmt":"2015-09-25T18:19:13","slug":"a-crise-do-lulismo-ascensao-e-queda-de-um-pacto-social","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.socialismoobarbarie.org\/?p=4734","title":{"rendered":"A crise do lulismo \u2013 Ascens\u00e3o e queda de um pacto social"},"content":{"rendered":"<p>.<\/p>\n<ol>\n<li style=\"text-align: left;\"><strong>APRESENTA\u00c7\u00c3O<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: left;\">A expectativa alimentada de que um governo do Partido dos Trabalhadores (PT) pudesse combater as profundas desigualdades sociais, fazer reformas estruturais ou, ao menos, abrir caminhos neste sentido, foi durante estes doze \u00faltimos anos frustrada. No entanto, estes governos n\u00e3o foram de pura e simples continuidade dos governos neoliberais de Fernando Henrique Cardoso (FHC), pois apesar de manterem o balizamento neoliberal, ampliaram pol\u00edticas de compensa\u00e7\u00e3o social que amenizaram a mis\u00e9ria de milh\u00f5es de pessoas. De outra forma, n\u00e3o poder\u00edamos entender a raz\u00e3o pela qual o pa\u00eds foi mergulhado na mais profunda estabilidade pol\u00edtica. Por\u00e9m, os benef\u00edcios que o capital obteve em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s pol\u00edticas de compensa\u00e7\u00e3o social s\u00e3o muito maiores.<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><sup><sup>[1]<\/sup><\/sup><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Durante uma d\u00e9cada a pol\u00edtica saiu das ruas e foi transferida para o interior dos gabinetes nos quais os operadores pol\u00edticos do <em>lulismo <\/em>foram os protagonistas. Mesmo em momentos de crise pol\u00edtica que questionaram a legitimidade do governo \u2013 como foi o caso do \u201cmensal\u00e3o\u201d \u2013 as massas populares se resignaram a acompanhar a movimenta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica pela televis\u00e3o. Vivemos, ao menos, dez anos em uma situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que contou com elementos reacion\u00e1rios. Este cen\u00e1rio ir\u00e1 se alterar totalmente a partir das intensas mobiliza\u00e7\u00f5es no m\u00eas de junho de 2013 <em>(Jornadas de Junho)<\/em> na qual a repress\u00e3o \u00e0 luta da juventude pelo passe livre detonou uma gigantesca onda de indigna\u00e7\u00e3o popular que foi capaz de alterar a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as entre as classes, abrir caminho para a radicaliza\u00e7\u00e3o de outros setores sociais com outras bandeiras e que, a partir da disputa eleitoral de 2014, conseguiu estabelecer uma polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica n\u00e3o vista desde os anos 1990.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">At\u00e9 a explos\u00e3o de indigna\u00e7\u00e3o popular vivida em junho de 2013, este jogo pol\u00edtico foi extremamente eficiente para arrefecer a disposi\u00e7\u00e3o de luta dos trabalhadores, finalizar o processo de degenera\u00e7\u00e3o dos aparatos sindicais e populares constru\u00eddos na d\u00e9cada de 1980, tirar, de certa forma, da cena pol\u00edtica tanto a classe oper\u00e1ria (e seus m\u00e9todos de luta), quanto a perspectiva de que s\u00f3 se pode pensar em transforma\u00e7\u00e3o social enfrentando os interesses da classe dominante. Ou seja, o <em>lulismo,<\/em> o<em> PT, a CUT <\/em>e cong\u00eaneres cumpriram papel decisivo no retrocesso da consci\u00eancia de classe que foi largamente constru\u00edda durante as d\u00e9cadas anteriores.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Buscaremos polemizar neste trabalho com os autores que caracterizam o <em>lulismo <\/em>como governo de <em>frente popular<\/em> ou como uma forma qualquer de <em>revolu\u00e7\u00e3o passiva<\/em>. Esse olhar enviesado que perpassa v\u00e1rias correntes \u2013 dentro e fora da academia \u2013 tem levado um leque grande delas a se equivocarem politicamente, equ\u00edvocos que tem trazido uma s\u00e9rie de preju\u00edzos \u00e0 esquerda. Ao contr\u00e1rio de pa\u00edses como Bol\u00edvia ou Venezuela, que no in\u00edcio do s\u00e9culo XXI passaram por grandes ondas de lutas contra o neoliberalismo e que geraram governos aos quais podemos considerar como de <em>frente popular <\/em>ou similares a <em>revolu\u00e7\u00f5es passivas, <\/em>houve no Brasil um arranjo pol\u00edtico entre o PT e um setor da burguesia para arquitetar um pacto pol\u00edtico que servisse como uma manobra preventiva a um poss\u00edvel processo de levante popular.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">A perda de uma tomada anal\u00edtica mais abrangente deste fen\u00f4meno, ou seja, de que o <em>lulismo<\/em> seria uma esp\u00e9cie de governo <em>p\u00f3s-neoliberal<\/em>, de <em>frente popular<\/em> ou <em>revolu\u00e7\u00e3o passiva <\/em>tem gerado caracteriza\u00e7\u00f5es que consideramos afastadas da realidade e que t\u00eam influenciado de forma negativa na linha pol\u00edtica de muitas correntes. Neste sentido, faremos um percurso anal\u00edtico de demonstra\u00e7\u00e3o deste aspecto de apontamentos cr\u00edticos de que o <em>lulismo <\/em>n\u00e3o se trata de uma frente popular e nem de uma revolu\u00e7\u00e3o passiva. Em que significaria, para tanto, uma forma de governo extremamente inst\u00e1vel, no primeiro caso, ou de um governo que levasse a cabo por cima mudan\u00e7as estruturais, no segundo caso.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">A nossa hip\u00f3tese \u00e9 a de que estamos diante de um <strong><em>governo de coaliz\u00e3o preventivo<\/em><\/strong>, ou seja, um governo burgu\u00eas que tinha no seu n\u00facleo principal um setor da burguesia nacional, isto \u00e9: a burocracia <em>lulista, seu aparato partid\u00e1rio, sindical e popular e o apoio eleitoral das massas mais pauperizadas<\/em>. Governo de coalis\u00e3o preventivo, pois se antecipa ante \u00e0 possibilidade de uma onda de indigna\u00e7\u00e3o popular similar conforme ocorrida em pa\u00edses vizinhos. Nesse sentido, articula as pol\u00edticas neoliberais com pol\u00edticas de compensa\u00e7\u00e3o social, o que lhe aufere enorme popularidade e garante um longo per\u00edodo de estabilidade pol\u00edtica. Estamos agora em um momento onde o pacto social constru\u00eddo a partir de 2002 entrou em crise org\u00e2nica. Ademais, porque a alian\u00e7a governamental com a burguesia nacional passa a ter o apoio progressivo dos demais setores dessa classe, do apoio da classe trabalhadora industrial e, a partir de 2006, do apoio expl\u00edcito do <em>subproletarado<\/em> (setor mais empobrecido do proletariado) que votava tradicionalmente nos partidos tradicionais da burguesia.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Com o advento da crise econ\u00f4mica de 2008, com o fim do ciclo mundial da alta de commodities e a retomada do movimento de massas a partir de junho de 2013, esse pacto entrou em crise terminal. Isso se manifestou na reelei\u00e7\u00e3o apertad\u00edssima de Dilma (PT), que ganhou por uma margem estreita de votos, superior em 3,28% com rela\u00e7\u00e3o a A\u00e9cio Neves (PSDB). Nesta elei\u00e7\u00e3o ainda, perdeu parte significativa de sua base eleitoral, os trabalhadores assalariados das regi\u00f5es prolet\u00e1rias de todo pa\u00eds. Desta maneira, a crise profunda do <em>pacto lulista <\/em>se manifesta n\u00e3o apenas de forma eleitoral, pois existe uma crescente polariza\u00e7\u00e3o social na qual a burguesia quer construir outro patamar de governabilidade, que lhe permita retomar as margens de lucro obtidas no \u00faltimo per\u00edodo, enquanto, por outro lado, a classe trabalhadora e os setores m\u00e9dios da sociedade n\u00e3o querem perder conquistas como o baixo \u00edndice de desemprego, o aumento da renda do sal\u00e1rio e as pol\u00edticas p\u00fablicas de compensa\u00e7\u00e3o social. Por isso, entramos em uma fase na qual a polariza\u00e7\u00e3o de classe vista nas manifesta\u00e7\u00f5es de junho de 2013 tende a voltar \u00e0 tona. \u00c9 isso o que indica as recentes greves contra demiss\u00f5es em massa em importantes montadoras do Brasil como a Volkswagen, em S\u00e3o Bernardo do Campo, e a General Motors, em S\u00e3o Jos\u00e9 dos Campos.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">A t\u00edtulo de apresenta\u00e7\u00e3o, este artigo est\u00e1 organizado da seguinte forma: (2) relato da configura\u00e7\u00e3o do <em>lulismo<\/em>; (3) o pacto e principais pol\u00edticas; (4) cr\u00edticas as caracteriza\u00e7\u00f5es correntes; (5) a defini\u00e7\u00e3o do <em>lulismo<\/em>; (6) luta de classes neste per\u00edodo; (7) pol\u00edticas da esquerda frente \u00e0 fal\u00eancia do <em>pacto lulista<\/em>.<\/p>\n<ol style=\"text-align: left;\" start=\"2\">\n<li><strong> DA LUTA CONTRA A DITADURA MILITAR \u00c0 CONSTRU\u00c7\u00c3O DO PT<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: left;\">O Brasil, bem como os pa\u00edses Am\u00e9rica Latina, \u00e9 \u00abfundado\u00bb sob o signo do trabalho escravo a servi\u00e7o da acumula\u00e7\u00e3o estrangeira.<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><sup><sup>[2]<\/sup><\/sup><\/a> Intercalaram-se ciclos econ\u00f4micos, como o do ouro, da pecu\u00e1ria, da minera\u00e7\u00e3o, do caf\u00e9, da borracha, voltados para a exporta\u00e7\u00e3o, mas a estrutura produtiva continuou a mesma at\u00e9 o final do s\u00e9culo XIX. A ruptura com esse modo de produ\u00e7\u00e3o se estendeu at\u00e9 o final do s\u00e9culo XIX e foi abolida de forma a manter um imenso contingente na situa\u00e7\u00e3o de marginalidade social, o que para a ind\u00fastria nascente que se dedicava ao processo de beneficia\u00e7\u00e3o do caf\u00e9 para exporta\u00e7\u00e3o foi extremamente vantajoso. A industrializa\u00e7\u00e3o deve-se tamb\u00e9m a fatores ex\u00f3genos, tais como a primeira guerra mundial em 1914 e a crise econ\u00f4mica de 1929. A guerra afetou a produ\u00e7\u00e3o de bens, pois a ind\u00fastria na Europa volta-se para a produ\u00e7\u00e3o militar, o que obriga o Brasil a substituir as importa\u00e7\u00f5es pela produ\u00e7\u00e3o local. Depois o crash de 1929 derruba brutalmente o pre\u00e7o do caf\u00e9, que era o principal produto de exporta\u00e7\u00e3o no mercado mundial.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">O Brasil passa por intensa industrializa\u00e7\u00e3o e urbaniza\u00e7\u00e3o no per\u00edodo de 40 anos. A industrializa\u00e7\u00e3o, a forma\u00e7\u00e3o do estado moderno e a urbaniza\u00e7\u00e3o mudam velozmente a fisionomia das cidades de S\u00e3o Paulo e Rio de Janeiro. O per\u00edodo de 1940 a 1980 foi marcado por uma profunda transforma\u00e7\u00e3o na qual o emprego industrial e na m\u00e1quina p\u00fablica cresceram 423% e 526%, respectivamente. O crescimento ou a industrializa\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o fatores que em si atenuam a pobreza ou a desigualdade, mas podem, por outro lado, at\u00e9 ser fatores de amplia\u00e7\u00e3o das mesmas, conforme observado por pensadores como Celso Furtado. O dito subdesenvolvimento brasileiro e suas desigualdades regionais, longe de ser uma etapa necess\u00e1ria para o pleno desenvolvimento capitalista, reflete o lugar do Brasil na divis\u00e3o internacional do trabalho e os interesses das classes dominantes locais.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Essa desigualdade sempre foi funcional para o capitalismo semicolonial brasileiro. A lavoura arcaica amplamente presente em nosso territ\u00f3rio contribu\u00eda para baixar o custo da for\u00e7a de trabalho urbana que, por sua vez, era revertido em lucro e transfer\u00eancia de lucro no caso das empresas transnacionais (Oliveira, 2013). No mesmo sentido, podemos destacar que o emprego na ind\u00fastria, servi\u00e7os e administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica beneficiava o lado patronal e estatal pela aus\u00eancia de formalidade no v\u00ednculo empregat\u00edcio, e esta informalidade evidentemente significava uma redu\u00e7\u00e3o significativa no custo dessa m\u00e3o de obra empregada.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Isto corroborava, portanto, que na economia do mundo existem padr\u00f5es de desenvolvimento distintos entre os \u00abpa\u00edses centrais\u00bb e os \u00abpa\u00edses perif\u00e9ricos\u00bb e uma divis\u00e3o mundial do trabalho que insiste em manter o grupo dos pa\u00edses perif\u00e9ricos como produtores e exportadores de mercadorias de baixo valor agregado. E \u00e9 desta constata\u00e7\u00e3o que decorre a import\u00e2ncia de pensarmos brevemente a hist\u00f3ria do movimento oper\u00e1rio a partir da d\u00e9cada de 1940.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Assim sendo, podemos come\u00e7ar nossa exposi\u00e7\u00e3o a partir da migra\u00e7\u00e3o nordestina, que povoou a ind\u00fastria da constru\u00e7\u00e3o civil e que, dada a industrializa\u00e7\u00e3o acelerada e a falta de m\u00e3o de obra especializada, acabou em parte tentando se inserir na ind\u00fastria metal\u00fargica e qu\u00edmica.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Ap\u00f3s isto, j\u00e1 na d\u00e9cada de 1940, ocorre um processo de urbaniza\u00e7\u00e3o acelerado. Este \u00e9 o per\u00edodo de forma\u00e7\u00e3o do nosso \u00abfordismo tardio\u00bb, constitu\u00eddo pela acelerada e ca\u00f3tica urbaniza\u00e7\u00e3o e pelo grande fluxo migrat\u00f3rio. Tal per\u00edodo pode ser caracterizado, al\u00e9m disso, por uma forma de controle pol\u00edtico em que se destaca o populismo, que vai at\u00e9 1964, quando essa forma de controle pol\u00edtico d\u00e1 lugar ao controle autorit\u00e1rio inaugurado pelo golpe militar.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">A nova classe oper\u00e1ria que se estabelece nesse per\u00edodo, por sua vez, \u00e9 plasmada no processo de industrializa\u00e7\u00e3o e urbaniza\u00e7\u00e3o acelerada. Esse jovem operariado industrial, devido \u00e0s terr\u00edveis condi\u00e7\u00f5es de trabalho e tamb\u00e9m pelas novas condi\u00e7\u00f5es de trabalho coletivo, n\u00e3o tardou em demonstrar a sua inclina\u00e7\u00e3o para a luta sindical e em desafiar a estrutura pol\u00edtica fundada no populismo (Braga, 2012).<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">As condi\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias de exist\u00eancia fora e dentro das f\u00e1bricas foram as bases do descontentamento que impulsionou setores da classe oper\u00e1ria, que tendiam a se enfrentar com o regime, da luta sindical para a luta pol\u00edtica. Os oper\u00e1rios mais precarizados n\u00e3o ficaram prostrados frente ao populismo, demonstraram capacidade de organiza\u00e7\u00e3o e articula\u00e7\u00e3o com os oper\u00e1rios especializados. O jovem prolet\u00e1rio migrante, muitas vezes oriundo da constru\u00e7\u00e3o civil, demonstra grande capacidade de adapta\u00e7\u00e3o social, articula\u00e7\u00e3o sindical e compreens\u00e3o pol\u00edtica. O proletariado fabril, ent\u00e3o, a partir dos anos 1950, come\u00e7a a desenvolver suas primeiras experi\u00eancias de \u00abauto-organiza\u00e7\u00e3o sindical\u00bb. Essa organiza\u00e7\u00e3o de base \u00e9 que foi respons\u00e1vel pela onda de greves que assolou S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u00c9 conatural a forma\u00e7\u00e3o da nova classe oper\u00e1ria a predisposi\u00e7\u00e3o para a sua organiza\u00e7\u00e3o de base, terreno f\u00e9rtil tamb\u00e9m para o desenvolvimento da conscientiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Nesse per\u00edodo, o sindicalismo conviveu com uma crise que se expressava no ativismo de base, na \u00abinquieta\u00e7\u00e3o social\u00bb com as dire\u00e7\u00f5es sindicais varguistas o que, apesar das dificuldades institucionais, \u2013 como a legisla\u00e7\u00e3o trabalhista \u2013 proporcionou um ciclo de lutas e auto-organiza\u00e7\u00e3o nos anos 1950. A forma\u00e7\u00e3o do chamado <em>novo sindicalismo<\/em> ocorre em um dos momentos mais radicalizados da luta oper\u00e1ria no pa\u00eds (Braga, 2012). Assim, durante a ditadura militar, que ca\u00e7ou as organiza\u00e7\u00f5es sindicais, prendeu, torturou, matou dirigentes e ativistas, apresenta-se um processo radicalizado de lutas.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><strong>2.1 Ascenso e derrota do movimento oper\u00e1rio<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Nos primeiros dois anos de ditadura militar, devido a dura repress\u00e3o (interven\u00e7\u00e3o nos sindicatos e persegui\u00e7\u00e3o dos dirigentes), houve grande retrocesso do movimento oper\u00e1rio e da luta de classes como um todo. O golpe militar no Brasil ocorreu no interior do ciclo expansivo do capitalismo mundial, que vai at\u00e9 a crise do petr\u00f3leo. Esse elemento, combinado com a repress\u00e3o ao movimento oper\u00e1rio, permitiu o crescimento econ\u00f4mico capitalista (o chamado \u00abmilagre econ\u00f4mico\u00bb), que vai at\u00e9 1973 (Sader, 2013).<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Mas, o movimento oper\u00e1rio n\u00e3o tardou a retomar suas lutas ap\u00f3s o golpe em 1964. O arrocho salarial, a infla\u00e7\u00e3o e a opress\u00e3o no interior das f\u00e1bricas foram o combust\u00edvel material para que os trabalhadores retomassem as suas lutas no final de 1966. Esse movimento ganha impulso definitivo com a entrada em cena do movimento estudantil em 1968. A recupera\u00e7\u00e3o da economia com o crescimento econ\u00f4mico e a entrada em cena do movimento estudantil proporciona uma nova onda de lutas do movimento oper\u00e1rio. A ditadura militar reagiu diante da possibilidade de aprofundamento da alian\u00e7a entre oper\u00e1rios e estudantes com uma forte repress\u00e3o que levou ao ex\u00edlio e \u00e0 pris\u00e3o diversos ativistas.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">De 66 a 68 houve, de alguma forma, um pren\u00fancio do que seria o final da d\u00e9cada de 70. Apesar das dific\u00edlimas condi\u00e7\u00f5es, surge um processo de organiza\u00e7\u00e3o de base que conta com a forma\u00e7\u00e3o de comiss\u00f5es de f\u00e1brica que se organizaram de forma independente das dire\u00e7\u00f5es pelegas. Per\u00edodo que conta com a greve vitoriosa de Contagem(MG) e de Osasco(SP), lutas realizadas em novos polos industriais e por um proletariado igualmente novo. Preocupado com o crescimento do descontentamento oriundo da ditadura e das greves radicalizadas, o governo golpista institui medidas que significam o fechamento total do regime. O AI-5 significou o fechamento do congresso com o objetivo de sufocar a alian\u00e7a popular que poderia se formar em torno da classe oper\u00e1ria. A ditadura militar \u2013 principalmente ap\u00f3s 1968 \u2013 coloca condi\u00e7\u00f5es de organiza\u00e7\u00e3o e resist\u00eancia muito mais dif\u00edceis dos que as anteriores.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Depois de d\u00e9cadas de repress\u00e3o militar sobre as for\u00e7as transformadoras da sociedade, a ditatura d\u00e1 sinais de esgotamento. O \u00abmilagre econ\u00f4mico\u00bb se esgota, a infla\u00e7\u00e3o come\u00e7a a fugir do controle, a d\u00edvida p\u00fablica chega \u00e0 estratosfera e o estado perde capacidade de interven\u00e7\u00e3o na economia. Na segunda metade da d\u00e9cada de 1970, o proletariado volta a lutar contra a alta no custo de vida, por melhores condi\u00e7\u00f5es de trabalho e pelo direito de livre organiza\u00e7\u00e3o e de greve, para isso \u00e9 obrigado a enfrentar no cotidiano a repress\u00e3o promovida pela patronal e pelos militares. A classe m\u00e9dia rompe progressivamente com o regime e surge um poderoso movimento oper\u00e1rio grevista que tende a transitar das reivindica\u00e7\u00f5es imediatas \u00e0s pol\u00edticas.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Combinado ao novo ascenso oper\u00e1rio inicia-se o reerguimento do movimento estudantil em 1977, que come\u00e7a rearticular a refunda\u00e7\u00e3o das organiza\u00e7\u00f5es estudantis. Em seguida, o movimento sindical de 1978 consegue concess\u00f5es econ\u00f4micas da patronal, mas o principal ganho foi ter conseguido se organizar depois de dez anos de forma independente da \u00abalian\u00e7a empresarial-militar\u00bb e garantir na pr\u00e1tica o direito de greve. A partir da\u00ed a burguesia e os ide\u00f3logos do regime percebem que o melhor caminho \u00e9 realizar uma lenta transi\u00e7\u00e3o que n\u00e3o colocasse em perigo nenhum dos ganhos econ\u00f4micos da classe dominante e muito menos as for\u00e7as armadas e seus chefes -respons\u00e1veis pela tortura, assassinato, desaparecimentos e outros crimes.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Apesar da generaliza\u00e7\u00e3o do processo de lutas oper\u00e1rias, a vanguarda deste per\u00edodo foram os oper\u00e1rios do ABC Paulista. No ano de 1979 houve um processo de lutas oper\u00e1rias \u2013 com um enfrentamento f\u00edsico que levou \u00e0 morte diversos oper\u00e1rios. Esse processo de luta teve um componente espont\u00e2neo mas n\u00e3o podemos deixar de notar que contou tamb\u00e9m com a agita\u00e7\u00e3o de setores da esquerda organizada no interior das f\u00e1bricas, como os grupos ligados \u00e0 teologia da liberta\u00e7\u00e3o, grupos e orienta\u00e7\u00e3o guerrilheira e trotskistas.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">No ano seguinte \u2013 mar\u00e7o de 1980 \u2013 mais uma onda de greves se realiza. Desta vez a ditadura age de forma mais coordenada. Decreta a greve dos metal\u00fargicos do ABC como ilegal, prende a dire\u00e7\u00e3o e interv\u00e9m sobre o sindicato. Mas, mesmo com a dire\u00e7\u00e3o presa, os trabalhadores organizam um comando de greve e mant\u00eam o movimento por 23 dias. Houve nesse per\u00edodo um levante generalizado que, uma vez coordenado politicamente, poderia ter causado a queda da ditadura militar. Mas, este processo foi obstaculizado pela burocracia sindical ligada diretamente ao regime e principalmente \u00e0 dire\u00e7\u00e3o <em>lulista<\/em>, que se negou sistematicamente em unificar a luta dos metal\u00fargicos do ABC e das demais cidades.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">O governo militar, diante da resist\u00eancia dos trabalhadores, libertou os presos pol\u00edticos ligados ao movimento oper\u00e1rio, mas uma vez soltos, Lula e a nova burocracia preferiram o caminho da concilia\u00e7\u00e3o com a patronal e com o regime. Esse movimento pol\u00edtico feito pela burocracia do sindicato dos metal\u00fargicos de S\u00e3o Bernardo do Campo, corta a possibilidade de que a greve metal\u00fargica pudesse ser a locomotiva de uma mobiliza\u00e7\u00e3o radical contra a ditadura. E isso n\u00e3o se deu por falta de combatividade dos metal\u00fargicos do ABC, S\u00e3o Paulo e de outras regi\u00f5es. Como se v\u00ea, a nova dire\u00e7\u00e3o da burocracia, que veio a substituir os dirigentes varguistas, inicia a sua trajet\u00f3ria como dirigente de uma das principais ondas grevistas da hist\u00f3ria do Brasil sob o signo da trai\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da classe trabalhadora. Tal fato ir\u00e1 se refletir como uma consequ\u00eancia negativa sobre a luta contra a ditadura militar na d\u00e9cada de 1980, uma vez que esta luta perde o seu car\u00e1ter radicalizado e passa a ser dirigida pelas correntes burguesas de oposi\u00e7\u00e3o ao regime.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Apesar de todas as adapta\u00e7\u00f5es que houve durante as pr\u00f3ximas d\u00e9cadas, \u00e0 medida que o PT deixa deliberadamente de defender o socialismo e estabelece alian\u00e7as eleitorais com setores da burguesia, a estrat\u00e9gia de colabora\u00e7\u00e3o de classes que vai ser posta em pr\u00e1tica em 2002 surge j\u00e1 nesse per\u00edodo, ainda que de maneira inconclusa, por\u00e9m, j\u00e1 matizada. Nesse momento estava se esbo\u00e7ando o que viria a ser o <em>lulismo<\/em> \u2013 a representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que est\u00e1 \u00e0 frente da m\u00e1quina p\u00fablica federal \u2013 doze anos depois. Temos aqui de forma panor\u00e2mica a origem da lideran\u00e7a de Lula e da burocracia sindical metal\u00fargica que vai se estender para a classe trabalhadora em todo o territ\u00f3rio nacional. Lideran\u00e7a essa que ap\u00f3s um processo de pacifica\u00e7\u00e3o das bases durante a d\u00e9cada de 80 vai sufocando a auto atividade experimentada durante o final da d\u00e9cada de 1970.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><strong>2.4. A contra\u2013ofensiva patronal<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">A forma pela qual ocorreu o fim da ditadura no Brasil acabou repercutindo de maneira negativa sobre a consci\u00eancia da vanguarda. A maioria dela foi ganha para a ideia de que a democracia burguesa poderia garantir as mudan\u00e7as estruturais, mudar a natureza do estado burgu\u00eas, atrav\u00e9s de pol\u00edticas como o or\u00e7amento participativo ou da press\u00e3o da sociedade civil sobre os governos. Os setores organizados do movimento sindical, juventude estudantil e parte da classe m\u00e9dia se inclinaram para a defesa da democracia burguesa como valor universal. Parte dessa ideologia era de que se poderia, atrav\u00e9s do voto, mudar a natureza do estado e que sem o enfrentamento contra o capital se poderia realizar as reformas que viriam a democratizar o acesso \u00e0 terra, sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o e etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">A constru\u00e7\u00e3o de gigantescos aparatos sindicais e pol\u00edticos na d\u00e9cada de 80 proporcionaram aos trabalhadores, durante a transi\u00e7\u00e3o \u00e0 democracia, poderosas ferramentas de luta. Essas lutas, por sua vez, garantiram conquistas durante a d\u00e9cada de 80, mas ao mesmo tempo as dire\u00e7\u00f5es desses aparatos foram se incorporando ao estado atrav\u00e9s de mandatos e cargos de confian\u00e7a. Operou\u2013se assim uma brutal mudan\u00e7a de perspectiva, isto \u00e9, de que se regulado de maneira correta, o estado poderia ser fonte de melhoria gradual na vida das pessoas sem que as oligarquias patronais fossem enfrentadas. D\u00e1-se, por conseguinte, um fen\u00f4meno no qual a burocracia sindical se adequa e passa a operar a m\u00e1quina p\u00fablica. Como parte da nova situa\u00e7\u00e3o, o n\u00famero de greves caiu brutalmente.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Vivemos nos anos 80 a incorpora\u00e7\u00e3o paulatina do PT \u00e0 m\u00e1quina do estado atrav\u00e9s de administra\u00e7\u00f5es municipais e estaduais abertamente burguesas. Postos parlamentares e no executivo por todo pa\u00eds foram conquistados em pouco tempo, o que fez do PT uma m\u00e1quina pol\u00edtica eleitoral poderosa e promissora. O PT nesse per\u00edodo ainda era express\u00e3o das lutas e se colocava no campo do \u00abclassismo\u00bb. Defendeu a emenda Dante de Oliveira que previa a elei\u00e7\u00e3o direta para presidente da rep\u00fablica, n\u00e3o votou no col\u00e9gio eleitoral para apoiar a elei\u00e7\u00e3o indireta de Tancredo Neves, n\u00e3o votou a favor da constitui\u00e7\u00e3o, apesar de assinar o seu texto.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Durante a Constitui\u00e7\u00e3o de 1988, defendeu a institui\u00e7\u00e3o de uma carta que buscava garantir acesso ao trabalho, previd\u00eancia social, propriedade da terra, sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o. Contudo, n\u00e3o se tratava de uma Constituinte feita sob uma clara vit\u00f3ria do movimento social contra o regime, e sim de uma democratiza\u00e7\u00e3o controlada pela classe dominante e dentro dos estreitos limites do estado. Depois das experi\u00eancias pol\u00edtico-econ\u00f4micas de instabilidade do governo Sarney<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\"><sup><sup>[3]<\/sup><\/sup><\/a> e do governo Fernando Collor, a classe dominante consegue se rearticular. Com a derrota de Lula para Fernando Collor de Melo o processo pol\u00edtico se inverte. As for\u00e7as conservadoras acabam retomando a iniciativa e come\u00e7a a era do neoliberalismo no Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">No front pol\u00edtico, a derrota eleitoral de Lula nesse momento tem muito peso, pois o movimento sindical e popular organizado tinha uma rela\u00e7\u00e3o direta com a sua candidatura. Essa derrota pol\u00edtica eleitoral foi um dos fatores que facilitaram que, na d\u00e9cada de 90, houvesse um conjunto de ofensivas da classe dominante visando impor a retirada de direitos e recuo das conquistas democr\u00e1ticas da constitui\u00e7\u00e3o de 88. Esse processo de implementa\u00e7\u00e3o do projeto neoliberal no Brasil \u2013com a colabora\u00e7\u00e3o de PT e da CUT \u2013 significou a derrota pol\u00edtica da poderosa onda de mobiliza\u00e7\u00e3o oper\u00e1ria iniciada no final da d\u00e9cada de 70 e estruturada institucionalmente na d\u00e9cada de 1980 que, al\u00e9m do mais, significou \u00abo aborto de um Estado de bem-estar social nacional e, acima de tudo, a vit\u00f3ria da burguesia liderada por sua fra\u00e7\u00e3o rentista internacionalizada\u00bb<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\"><sup><sup>[4]<\/sup><\/sup><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">A ofensiva econ\u00f4mica do imperialismo, com a derrota das experi\u00eancias dos estados burocr\u00e1ticos e a reconvers\u00e3o capitalista em todo o globo, havia dado condi\u00e7\u00f5es para o dom\u00ednio absoluto das rela\u00e7\u00f5es capitalistas, na qual os pa\u00edses perif\u00e9ricos deveriam participar de maneira subordinadas, abrindo sem reservas os seus mercados para os produtos dos pa\u00edses centrais e adequando o seu mercado de trabalho para a explora\u00e7\u00e3o mais direta. No entanto, a hegemonia neoliberal entrou em um franco processo de crise, elemento importante para que praticamente todos os pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina entrassem em processos de rebeli\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Collor aplicou medidas estabanadas como a do sequestro da poupan\u00e7a e iniciou uma abertura dr\u00e1stica do mercado interno para o capital. Com o descontrole da infla\u00e7\u00e3o, confiscou as poupan\u00e7as de forma indiscriminada de toda a popula\u00e7\u00e3o. \u00c9 evidente que setores dominantes pr\u00f3ximos ao governo foram avisados do confisco e tiraram o dinheiro da poupan\u00e7a ou resgataram posteriormente os valores, coisa que n\u00e3o ocorreu com os trabalhadores. Al\u00e9m disso, foi respons\u00e1vel por uma \u201cabertura\u201d econ\u00f4mica que causou uma quebradeira nunca vista na ind\u00fastria nacional e tamb\u00e9m pelo desemprego de ao menos 20% da for\u00e7a de trabalho. Ap\u00f3s den\u00fancias de corrup\u00e7\u00e3o, sofreu um processo de impeachment. Este governo, portanto, al\u00e9m de n\u00e3o ter tido \u00eaxito no controle inflacion\u00e1rio, e somadas tamb\u00e9m as in\u00fameras den\u00fancias de corrup\u00e7\u00e3o, acabou sendo derrubado por via institucional em 1992.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Em 1993, a economia brasileira passava por momentos de recess\u00e3o prolongada, infla\u00e7\u00e3o aguda e cr\u00f4nica e desemprego. A crise econ\u00f4mica (at\u00e9 a\u00ed quase cr\u00f4nica no Brasil) atingiu seu ponto m\u00e1ximo, e o \u00edndice IGP (\u00cdndice Geral de Pre\u00e7os) chegou a estrondosos 2,851% ao ano. Itamar Franco, vice-presidente de Collor, via ren\u00fancia, \u00e9 empossado em dezembro de 1992, tendo como desafio trazer \u201cestabilidade a economia\u201d em um quadro de infla\u00e7\u00e3o alt\u00edssima. A alta da infla\u00e7\u00e3o chegava a 2.851%, em janeiro de 1994 e a sua popularidade ainda mantinha-se baixa.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Depois de v\u00e1rias iniciativas para \u201csanar\u201d a economia, Itamar Franco monta uma nova equipe na \u00e1rea econ\u00f4mica e chama Fernando Henrique Cardoso (FHC) para o minist\u00e9rio da economia. \u00c9 elaborado o Plano Real que em resumo significou transferir o custo do controle inflacion\u00e1rio para a massa de trabalhadores que (atrav\u00e9s de um mecanismo chamado tablita respons\u00e1vel por converter a moeda anterior ao real), fez com que tremendas perdas inflacion\u00e1rias n\u00e3o fossem repassadas aos trabalhadores. A partir da\u00ed, a infla\u00e7\u00e3o caiu e Itamar Franco acabou seu mandato com altos \u00edndices de aprova\u00e7\u00e3o, o que possibilitou levar FHC ao Pal\u00e1cio do Planalto. Ap\u00f3s a elei\u00e7\u00e3o de 1994 foi arquitetada definitivamente \u2013 depois do fracasso de Collor \u2013 a inser\u00e7\u00e3o subordinada do Brasil na nova divis\u00e3o internacional do trabalho, parte org\u00e2nica do circuito global da acumula\u00e7\u00e3o transnacional do trabalho. Para isso, foi realizada uma reforma gerencial do estado adequando-o para que se subordinasse aos ditames do capital financeiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Durante os dois mandatos de FHC uma s\u00e9rie de transforma\u00e7\u00f5es na produ\u00e7\u00e3o foi incorporada ao \u00abfordismo brasileiro\u00bb. As plantas foram reorganizadas, setores foram desmontados, fun\u00e7\u00f5es foram sobrepostas, novas tecnologias informacionais foram incorporadas diretamente aos processos produtivos para intensificar a explora\u00e7\u00e3o sobre a for\u00e7a de trabalho. Al\u00e9m disso, com as terceiriza\u00e7\u00f5es se estabeleceu maior diversidade nas formas de contrata\u00e7\u00e3o do trabalho, aumento de rotatividade, flexibiliza\u00e7\u00e3o da jornada de trabalho e maior diferencia\u00e7\u00e3o entre os trabalhadores. Setores da ind\u00fastria que forneciam componentes para as montadoras passaram ao controle direto do capital transnacional ou foram substitu\u00eddos pela importa\u00e7\u00e3o massiva. Isso, somado as privatiza\u00e7\u00f5es da segunda metade da d\u00e9cada de 90, acabou por integrar de maneira subordinada o Brasil no ciclo de acumula\u00e7\u00e3o do capital financeiro. Em suma, houve uma intensa transforma\u00e7\u00e3o no processo produtivo para impor a l\u00f3gica da financeiriza\u00e7\u00e3o \u00e0 ind\u00fastria, com\u00e9rcio e setores de servi\u00e7os.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">O neoliberalismo no Brasil tem presente dois fen\u00f4menos centrais: financeiriza\u00e7\u00e3o da economia e precariza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es de trabalho. Desdobramentos de interesse do capital, que lhe tirou todas as amarras para buscar investimentos que lhe permitisse maior lucratividade. No final do segundo mandato de FHC, a estabiliza\u00e7\u00e3o monet\u00e1ria conseguida com o plano real do governo Itamar Franco j\u00e1 havia dado sinais de esgotamento.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><strong>2.5 PT: concilia\u00e7\u00e3o e defesa da ordem<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">A luta contra a ditadura militar dos anos 1970 e 1980 teve influ\u00eancia pol\u00edtica decisiva na constru\u00e7\u00e3o do PT. Este partido surge no caldeir\u00e3o das lutas oper\u00e1rias, populares e contra o regime no final da d\u00e9cada de 1970, como uma express\u00e3o do movimento, mas tamb\u00e9m como entidade capaz de dar organicidade a essas lutas.<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\"><sup><sup>[5]<\/sup><\/sup><\/a> Durante a d\u00e9cada de 1990, por\u00e9m, deu passos program\u00e1ticos, organizativos e pol\u00edticos que resultaram na perda do seu car\u00e1ter oper\u00e1rio e popular.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Do ponto de vista da constru\u00e7\u00e3o do seu projeto, este teve na sua origem como pano de fundo a nega\u00e7\u00e3o de alguns aspectos do que eram as sociedades n\u00e3o capitalistas e claro a experi\u00eancia com o regime militar. Este momento foi grande catalizador pol\u00edtico-construtivo ao ser respons\u00e1vel pela forma\u00e7\u00e3o das maiores organiza\u00e7\u00f5es oper\u00e1rias do Brasil: o PT e a CUT. Essas organiza\u00e7\u00f5es souberam aproveitar o empuxo da radicaliza\u00e7\u00e3o oper\u00e1ria contra a patronal no final da d\u00e9cada de 1970 e pela mobiliza\u00e7\u00e3o de car\u00e1ter amplamente democr\u00e1tico durante a primeira metade da d\u00e9cada de 1980. A sua cria\u00e7\u00e3o ocorreu a partir de um am\u00e1lgama entre for\u00e7as progressistas composto pela intelectualidade cr\u00edtica, pelo cristianismo que fez a op\u00e7\u00e3o pelos pobres e, principalmente, por uma nova gera\u00e7\u00e3o de dirigentes burocr\u00e1ticos que souberam \u2013 para n\u00e3o serem ultrapassados pelos fatos \u2013 acompanhar com representa\u00e7\u00e3o, primeiro sindical depois pol\u00edtica, o novo movimento oper\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">No entanto, sem a vontade que brotou dos enfrentamentos contra a ditadura militar, origin\u00e1rios especialmente das lutas salariais, n\u00e3o se poderia formar um partido com a envergadura do PT. Esse movimento de consci\u00eancia s\u00f3 foi poss\u00edvel pela interven\u00e7\u00e3o dos setores de esquerda que atuavam no interior daquele movimento. O PT, ent\u00e3o, se origina como um partido \u00abanticapitalista\u00bb e isso se pode ser verificado a partir dos documentos de funda\u00e7\u00e3o. A partir da experi\u00eancia com as greves se percebe que n\u00e3o se pode avan\u00e7ar sem uma organiza\u00e7\u00e3o que unifique politicamente os trabalhadores para fazer frente aos patr\u00f5es e ao estado.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">A composi\u00e7\u00e3o oper\u00e1ria desde o in\u00edcio tem \u00e0 cabe\u00e7a um grupo de dirigentes que s\u00e3o parte da burocracia sindical dos metal\u00fargicos, docentes, banc\u00e1ria etc., influenciados por lideran\u00e7as religiosas e intelectuais de esquerda. N\u00e3o s\u00e3o dirigentes que foram simplesmente improvisados no calor da luta ou de um forte agrupamento da esquerda radical que pudesse determinar rumos pol\u00edticos do partido ou do movimento social. Se o seu programa inicialmente \u00e9 anticapitalista e de um socialismo difuso, n\u00e3o havia, por outro lado, a defesa aberta da revolu\u00e7\u00e3o socialista desde baixo. O car\u00e1ter burocr\u00e1tico da sua dire\u00e7\u00e3o, a ilus\u00e3o no processo de democratiza\u00e7\u00e3o e a fragilidade das correntes revolucion\u00e1rias no seu interior resultaram em um projeto reformista. Esse fator \u00e9 uma importante media\u00e7\u00e3o para entender por que, apesar de inicialmente socialista, o PT segue uma din\u00e2mica ascendente de concilia\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">A luta radicalizada contra o regime foi contida pela alian\u00e7a entre a nova dire\u00e7\u00e3o oper\u00e1ria (Lula e a nova burocracia sindical) e os dirigentes das organiza\u00e7\u00f5es burguesas de oposi\u00e7\u00e3o ao regime que trataram de levar a luta contra a ditadura de maneira a n\u00e3o apostar no enfrentamento radicalizado. Guardando a gigantesca diferen\u00e7a de contexto, de alguma forma, essa alian\u00e7a durante a d\u00e9cada de 80 para lutar contra o golpe prefigurou a alian\u00e7a do PT com a burguesia nacional na primeira vit\u00f3ria presidencial do PT em 2002, no sentido de que na d\u00e9cada de 80 o PT j\u00e1 se consolidava como resultado de v\u00e1rias for\u00e7as em seu interior, ainda que n\u00e3o tenha conseguido formular uma linha ou programa claro pol\u00edtico-ideol\u00f3gico e sequer uma teoria de revolu\u00e7\u00e3o neste per\u00edodo t\u00e3o f\u00e9rtil.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Depois da forma\u00e7\u00e3o da CUT e do PT no in\u00edcio dos anos 1980 e da transi\u00e7\u00e3o negociada ao regime democr\u00e1tico burgu\u00eas, uma intensa transforma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e social foi realizada no interior desses aparatos. De defensores de um socialismo difuso e de reformas democratizantes estas organiza\u00e7\u00f5es passaram para a defesa direta do mercado. Houve um elemento que perpassou todo esse <em>transformismo <\/em>pol\u00edtico que se mant\u00e9m at\u00e9 hoje. E esse fio condutor foi o controle burocr\u00e1tico, mesmo nos momentos de maior democratiza\u00e7\u00e3o, sobre a vida desses aparatos e, outrossim, a estrat\u00e9gia gradualista que engessou qualquer possibilidade de enfrentamento radical ao capitalismo no Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">O PT passa de uma organiza\u00e7\u00e3o que foi fruto direto de um dos per\u00edodos mais radicalizados da luta da classe trabalhadora, particularmente da classe oper\u00e1ria, a uma organiza\u00e7\u00e3o que se coloca \u00e0 frente de uma coalis\u00e3o governamental que cumpre o papel pol\u00edtico de desmobilizar a classe trabalhadora diante da possibilidade de que essa pudesse seguir o caminho da rebeli\u00e3o social vivida por toda a Am\u00e9rica Latina. Foi justamente para evitar este cen\u00e1rio de \u00abcrise org\u00e2nica\u00bb j\u00e1 em curso em v\u00e1rios pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina que uma parte da classe dominante se inclina para a possibilidade de recompor a estabilidade que estava sendo perdida atrav\u00e9s de um governo do PT.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Diante da p\u00f3s-queda do muro de Berlin, o PT come\u00e7a a realizar inflex\u00f5es imprimindo um car\u00e1ter cada vez mais conciliador (Iasi, 2012). No final da d\u00e9cada de 1980 passa a rever a sua pol\u00edtica de alian\u00e7as, contudo sem realizar altera\u00e7\u00f5es significativas em seu programa. Altera sua t\u00e1tica de alian\u00e7a eleitoral e abre a possibilidade de estabelecer frentes com partidos burgueses. Em 1998, faz uma alian\u00e7a com o PDT, entretanto tal alian\u00e7a n\u00e3o se traduziu em uma revis\u00e3o program\u00e1tica profunda. Durante o congresso de 1991, o partido \u00abelabora estrat\u00e9gia que busca ampliar o espa\u00e7o para a luta institucional, uma vez que o movimento social entra em descenso\u00bb<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\"><sup><sup>[6]<\/sup><\/sup><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Os governos do PT frente aos estados e prefeituras t\u00eam uma hist\u00f3ria consider\u00e1vel de servi\u00e7os prestados ao sistema. Em v\u00e1rios momentos o PT no governo se colocou como uma for\u00e7a reacion\u00e1rio contra o movimento de massas e contra os funcion\u00e1rios p\u00fablicos em \u00e2mbito municipal e estadual. O mito de uma originalidade \u00abaut\u00eantica\u00bb, de representantes leg\u00edtimos da classe trabalhadora e seus interesses cai por terra quando comparados \u00e0 hist\u00f3ria pol\u00edtica dessa dire\u00e7\u00e3o. \u00c9 fato que o PT tem sido refer\u00eancia pol\u00edtica para a classe trabalhadora desde o seu surgimento e que o PT tamb\u00e9m possui o respaldo dessa mesma classe nesse processo. Em realidade, o PT tem sido refer\u00eancia para o mais substancial da classe trabalhadora, os setores mais organizados da ind\u00fastria, os trabalhadores sem-terra, as fra\u00e7\u00f5es mais intelectualizadas da classe m\u00e9dia. Mas tamb\u00e9m \u00e9 verdade que nessa rec\u00edproca entre o movimento de adapta\u00e7\u00e3o do PT e o respaldo que recebe de fra\u00e7\u00f5es da classe trabalhadora a formula\u00e7\u00e3o pode induzir ao erro de se pensar que h\u00e1 uma corresponsabilidade ou equival\u00eancia entre as partes envolvidas.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Para Iasi \u00aba base social do influxo moderado do PT, e que torna poss\u00edvel a preval\u00eancia de um horizonte pequeno-burgu\u00eas no projeto desse partido, est\u00e1 na <em>burocracia partid\u00e1ria e sindical<\/em> formada neste processo.\u00bb<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\"><sup><sup>[7]<\/sup><\/sup><\/a> Vale a pena ressaltar que essa burocracia n\u00e3o surgiu espontaneamente no interior do PT. Esta tem origem na burocracia sindical que fundou o partido e da qual forneceu muitos quadros para a sua dire\u00e7\u00e3o. O que acontece com o PT \u00e9 que a inicial diferencia\u00e7\u00e3o funcional se converteu em diferencia\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e social.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">H\u00e1 uma coincid\u00eancia clara e necess\u00e1ria entre o processo de modera\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do PT e o fortalecimento em seu interior da burocracia partid\u00e1ria, assim: \u00abo processo de inflex\u00e3o moderada coincide com o amadurecimento desta camada, por isso n\u00e3o nos estranha a correla\u00e7\u00e3o precisa entre a lenta transforma\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia expressa nas formula\u00e7\u00f5es partid\u00e1rias ir assumindo os contornos de um projeto democr\u00e1tico pequeno-burgu\u00eas, ou &#8216;popular&#8217; se preferirem\u00bb.<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\"><sup><sup>[8]<\/sup><\/sup><\/a> O fortalecimento dessa burocracia \u2013 que tem uma base social \u2013 no interior do PT sem d\u00favida foi decisiva para o processo de modera\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica, pois as press\u00f5es da base foram se arrefecendo por conta do desgaste e das pol\u00edticas ativas desse setor no sentido de enfraquecer a disposi\u00e7\u00e3o de combate dos trabalhadores. N\u00e3o houve um \u201csemireformismo\u201d do PT e de seus quadros, mas sim um transformismo total, uma vez que tais quadros, ao chegar ao poder central, j\u00e1 traziam na bagagem v\u00e1rias experi\u00eancias de gest\u00e3o burguesa \u2013 e corrupta \u2013 a frente de governos estaduais e prefeituras. Al\u00e9m disso, os quadros de origem sindical eram respons\u00e1veis pelo trabalho de transformar a CUT e os sindicatos que dirigem em aparatos que rotineiramente sufocavam oposi\u00e7\u00f5es, mobiliza\u00e7\u00f5es ou tra\u00edam diretamente greves e outros movimentos.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">O PT \u2013 diferentemente dos partidos social democratas &#8216;cl\u00e1ssicos&#8217; que, mesmo eleitoralistas, tinham uma base que se mobilizava frente aos grandes perigos da luta de classes \u2013 n\u00e3o \u00e9 um partido que mobiliza mais a classe trabalhadora; isso ficou perdido nos anos 80. Esse ponto \u00e9 interessante para polemizar com Braga (2012) quando este faz quase que um paralelo direito entre a burocracia sindical e a burocracia <em>lulista<\/em> governamental, pois lhe escapa o salto de qualidade que deu essa burocracia. N\u00e3o se percebe que houve um tremendo processo de incorpora\u00e7\u00e3o das lideran\u00e7as sindicais aos aparatos do estado e de cria\u00e7\u00e3o das novas lideran\u00e7as partid\u00e1rias diretamente ligadas ao aparato petistas.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Ao tratar da sua hist\u00f3ria Iasi diz que \u00aba experi\u00eancia do PT \u00e9 um excelente exemplo do movimento de constitui\u00e7\u00e3o de uma classe contra a ordem do capital que acaba por se amoldar aos limites da ordem que queria superar\u00bb,<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\"><sup><sup>[9]<\/sup><\/sup><\/a> afirma\u00e7\u00e3o que, acaba retendo uma vis\u00e3o um tanto quanto unilateral desse processo. Primeiro n\u00e3o podemos subvalorizar o movimento que fez a classe trabalhadora para que o PT pudesse ser posto como partido devidamente socialista. Foi um movimento oper\u00e1rio massivo que come\u00e7ou com as lutas contra as condi\u00e7\u00f5es de exist\u00eancia prec\u00e1ria, tendo se politizado no percurso dessa luta, sendo dilu\u00eddo posteriormente na luta pelas \u00abDiretas J\u00e1\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u00c9 fato que existe uma liga\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica entre a consci\u00eancia da classe e a evolu\u00e7\u00e3o dos partidos que a representam, mas o caso \u00e9 que o <em>lulismo<\/em> passou da defesa da estrat\u00e9gia socialista gradualista pela via eleitoral para a defesa direta da ordem, de pol\u00edticas neoliberais e de contra reformas. Para isso, esteve \u00e0 frente por mais de uma d\u00e9cada de governos burgueses que atacaram o movimento dos trabalhadores nos governos estaduais e municipais. Quando o PT chega ao governo federal j\u00e1 havia se processado uma transforma\u00e7\u00e3o radical em seu programa. J\u00e1 havia um profundo recuo na consci\u00eancia de classe e, nestas \u00faltimas d\u00e9cadas, o PT trabalhou deliberadamente para o manter.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Hoje, o PT n\u00e3o \u00e9 mais um partido oper\u00e1rio com uma dire\u00e7\u00e3o burocr\u00e1tica e um programa reformista.<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\"><sup><sup>[10]<\/sup><\/sup><\/a> Trata-se de um partido no qual n\u00e3o h\u00e1 mais liga\u00e7\u00e3o org\u00e2nica com a classe trabalhadora, sua dire\u00e7\u00e3o se aburguesou e seu programa passou a defesa do capitalismo. N\u00e3o podemos abstrair o importante processo que foi a capitula\u00e7\u00e3o\/transformismo do PT e de seus dirigentes iniciado j\u00e1 no come\u00e7o da d\u00e9cada de 1990 e completado durante a administra\u00e7\u00e3o federal a partir de 2002. O que acontece com o <em>lulismo \u00e9 o <\/em>observado por Christian Rakovski<a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\"><sup><sup>[11]<\/sup><\/sup><\/a> em rela\u00e7\u00e3o ao processo de burocratiza\u00e7\u00e3o da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica depois da Revolu\u00e7\u00e3o Russa de 1917. Esse autor \u00e9 um dos primeiros a identificar na burocratiza\u00e7\u00e3o do partido e na centraliza\u00e7\u00e3o excessiva das decis\u00f5es o fio condutor do processo de burocratiza\u00e7\u00e3o do Estado, pois a diferencia\u00e7\u00e3o funcional entre dirigentes e dirigidos vai se convertendo aos poucos em diferencia\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Esse recuo s\u00f3 pode ser compreendido se n\u00e3o perdermos de vista que a consci\u00eancia de classe que contribui para consubstanciar o PT desde o in\u00edcio e no seu percurso teve uma clara delimita\u00e7\u00e3o reformista. O que n\u00e3o nos autoriza a afirmar que essa consci\u00eancia se colocou diretamente contra o capital. N\u00e3o foi simplesmente um movimento abstrato de consci\u00eancia que acabou se moldando \u00abaos limites da ordem\u00bb por fora da luta (Iasi, 2012). Essa abordagem incorre em dois problemas, um supra hist\u00f3rico, que acaba identificando um movimento contra a ordem do capital sem determina\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica ou pol\u00edtica, o que no caso d\u00e1 ao respectivo movimento um alcance que n\u00e3o tinha, e por outro lado, tira a responsabilidade da dire\u00e7\u00e3o no sentido de refrear esse mesmo movimento. Ou seja, trata-se de uma vis\u00e3o <em>objetivista,<\/em> que escamoteia o papel de freio que cumpriu o <em>lulismo <\/em>no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1980, perdendo assim o fio condutor do processo para a compreens\u00e3o de sua posterior evolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Assim, o PT passou por uma metamorfose pol\u00edtica completa desde sua funda\u00e7\u00e3o at\u00e9 a vit\u00f3ria eleitoral em 2002. De um partido oper\u00e1rio reformista na d\u00e9cada de 1980, passa a ser partido oper\u00e1rio-burgu\u00eas na d\u00e9cada de 1990 e, finalmente, em 2000 se estabelece com um partido burgu\u00eas de car\u00e1ter populista. De uma dire\u00e7\u00e3o que estava aqu\u00e9m da radicaliza\u00e7\u00e3o nas d\u00e9cadas de 70 e 80, o PT passou na d\u00e9cada de 90 a ser agente direto de colabora\u00e7\u00e3o do capital. Estabeleceu-se, por conseguinte, como uma nova burocracia que contribuiu de forma decisiva para sufocar a autoatividade dos trabalhadores durante duas d\u00e9cadas e apostou sistematicamente no processo de concilia\u00e7\u00e3o de classes e, uma vez frente a cargos, foi agente direto da ordem. De partido oper\u00e1rio reformista dirigido por uma burocracia de origem sindical passou a partido totalmente integrado \u00e0 ordem e ao servi\u00e7o direto das pol\u00edticas neoliberais, de maior lideran\u00e7a oper\u00e1ria da hist\u00f3ria nacional &#8211; representada na figura de Lula &#8211; passou a chefe do poder executivo, valendo-se de todo o seu carisma para contribuir para a constru\u00e7\u00e3o de um pacto social que, por sua vez, tirou a classe oper\u00e1ria de cena durante praticamente uma d\u00e9cada.<\/p>\n<ol style=\"text-align: left;\" start=\"3\">\n<li><strong> A CONSTRU\u00c7\u00c3O DO<em> PACTO SOCIAL<\/em><\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: left;\">Nas economias centrais nas quais o neoliberalismo foi implementado na d\u00e9cada anterior, j\u00e1 se iniciava um processo de revis\u00e3o. Esta revis\u00e3o passa pela manuten\u00e7\u00e3o dos pilares do neoliberalismo sobre os quais s\u00e3o inseridas pol\u00edticas de compensa\u00e7\u00e3o social sem que o or\u00e7amento do estado destinado ao pagamento de taxas de juros seja afetado.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Em 1999, ap\u00f3s mais uma derrota eleitoral de Lula em 1988, uma nova inflex\u00e3o foi realizada \u00e0 direita pelo PT como forma de ganhar ainda mais a confian\u00e7a de setores-chave da burguesia nacional, assim, o partido vetou a campanha que estava sendo chamada pela CUT e MST pelo Fora FHC, a qual parecia promissora.<a href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref12\"><sup><sup>[12]<\/sup><\/sup><\/a> Por outro lado, est\u00e1vamos diante de uma Am\u00e9rica Latina convulsionada por rebeli\u00f5es contra governos neoliberais e a continuidade do arranjo pol\u00edtico baseado no neoliberalismo puro e duro de FHC poderia causar um choque de classe que n\u00e3o interessava a burguesia local e nem ao imperialismo, da\u00ed Lula aparece como alternativa de governo preventivo.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Nas pesquisas pr\u00e9vias \u00e0 elei\u00e7\u00e3o de 2002 Lula n\u00e3o superava o seu patamar eleitoral hist\u00f3rico, ou seja, 30% das inten\u00e7\u00f5es de voto. Mas, com a crise da candidatura de Ciro Gomes, que estava em primeiro lugar nas pesquisas, foi identificada uma possibilidade de conquistar parte desses votos. A partir da\u00ed, a campanha foi reestruturada e aspectos decisivos do programa neoliberal foram incorporados, tais como a estabilidade monet\u00e1ria, o respeito aos contratos e compromissos com a burguesia. Ser\u00e1, por\u00e9m, com a \u00abCarta ao povo Brasileiro\u00bb, de 22 de junho de 2002, que o processo de adapta\u00e7\u00e3o program\u00e1tica encontra a forma mais acabada. A carta ao Povo Brasileiro declarava que respeitaria todos os contratos estabelecidos com o capital. Esse posicionamento foi por alguns interpretado como uma t\u00e1tica para arrefecer resist\u00eancias \u00e0 candidatura de Lula, mas depois daria lugar a reformas que interessavam os de baixo.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Em julho \u00e9 divulgado o programa da Coliga\u00e7\u00e3o Lula Presidente no qual a concilia\u00e7\u00e3o com o capital financeira se faz de maneira ainda mais aberta. Neste programa se faz a defesa do capital transnacional em todas as suas formas e de que os pilares do neoliberalismo (super\u00e1vit prim\u00e1rio, controle da d\u00edvida p\u00fablica em rela\u00e7\u00e3o ao PIB) seriam mantidos e os compromissos anteriores honrados.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u00c0 guisa de compara\u00e7\u00e3o com o contexto pol\u00edtico do governo anterior no intuito de demonstrar o processo adaptativo do PT, podemos dizer brevemente que, apesar dos crescentes descontentamentos com o governo FHC, no final de seu mandato n\u00e3o ocorre uma <em>crise org\u00e2nica<\/em>, a qual se pudesse ter vivido nos momentos que antecederam a elei\u00e7\u00e3o de Lula em 2002. Pois, para tanto, faltava uma crise de descolamento entre a economia e a superestrutura pol\u00edtica. Na realidade, portanto, a chegada ao governo central foi um marco decisivo para o coroamento de um processo de adapta\u00e7\u00e3o total ao status quo, mas tamb\u00e9m o abandono da perspectiva dos trabalhadores na luta de classes que j\u00e1 vinha se processando de forma radical na d\u00e9cada de 90. Processo no qual o PT e a CUT assumem definitivamente a perspectiva do capital frente a luta de classes.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">A elei\u00e7\u00e3o de Lula em 2002 foi um acontecimento hist\u00f3rico. Foi a primeira vez que na hist\u00f3ria do Brasil um l\u00edder pol\u00edtico de origem oper\u00e1ria foi eleito sob a bandeira de um partido de origem oper\u00e1ria para o cargo de presidente da rep\u00fablica. Havia, de maneira geral, in\u00fameras expectativas (criadas, ali\u00e1s, desde a funda\u00e7\u00e3o do PT em 1980) de que um governo de Lula e do PT poderiam abrir um per\u00edodo de transforma\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e sociais que mudasse os rumos de uma sociedade t\u00e3o marcada pela desigualdade social, explora\u00e7\u00e3o e opress\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Este evento poderia, ap\u00f3s os duros anos de rea\u00e7\u00e3o que foram os 1990, ser um momento de viragem na correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as t\u00e3o desfavor\u00e1vel aos trabalhadores, abrindo caminho para uma transforma\u00e7\u00e3o socialista. Havia, na realidade, no espectro ideol\u00f3gico da esquerda basicamente os que acreditavam que se poderia construir no Brasil algo semelhante a um Estado de Bem-estar Social parecido aos moldes europeus. J\u00e1 em uma perspectiva mais radical, os que alimentavam o esquema da <em>frente popular<\/em> pensavam que governo, ao alimentar as esperan\u00e7as nas massas sem as atender, abriria automaticamente um caminho para uma transforma\u00e7\u00e3o socialista.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Assim, ao contr\u00e1rio do que pensavam alguns, o recuo program\u00e1tico do PT n\u00e3o se tratava apenas de uma t\u00e1tica para amenizar a restri\u00e7\u00e3o dos setores da burguesia mais arredios \u00e0 candidatura de Lula. O que era aparentemente uma t\u00e1tica moment\u00e2nea para se chegar ao poder, acabou sendo parte insepar\u00e1vel da estrat\u00e9gia pol\u00edtica. Essa foi a t\u00e1tica que o PT e um setor da burguesia nacional encontrou para arquitetar a coaliza\u00e7\u00e3o eleitoral que levasse Lula \u00e0 Presid\u00eancia da Rep\u00fablica.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><strong>3.1 O bloco pol\u00edtico no poder<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Quando chega com seu candidato \u00e0 Presid\u00eancia da Rep\u00fablica, o PT n\u00e3o era sombra do que havia sido na d\u00e9cada de 1980. O programa deste partido j\u00e1 estava totalmente adaptado aos interesses do mercado, do capital e do seu setor mais parasit\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Como um partido de origem oper\u00e1ria, que se forjou em um dos per\u00edodos mais radicais da luta de classes no pa\u00eds e portador de um programa socialista &#8211; mesmo que reformista &#8211; ao chegar ao governo federal desenvolve pol\u00edticas que guardam uma linha de continuidade com tudo o que antes supostamente criticava. Compreender esse \u00abparadoxo\u00bb tem sido um dos mais importantes desafios para os analistas da realidade pol\u00edtica nacional.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">O <em>lulismo <\/em>que assume o governo federal em 2002 guarda elementos de continuidade e descontinuidade com a burocracia sindical que traiu a greve metal\u00fargica radicalizada de 1980. Naquele momento se tratava de um n\u00facleo pol\u00edtico composto por dirigentes oper\u00e1rios que romperam com a burocracia varguista, religiosos ligados \u00e0 teologia da liberta\u00e7\u00e3o, ex-militantes da guerrilha e intelectuais acad\u00eamicos. Agora, trata-se de uma coaliza\u00e7\u00e3o com a grande burguesia nacional. O PT n\u00e3o \u00e9 mais a express\u00e3o de um movimento de consci\u00eancia feito pela classe trabalhadora a partir da sua experi\u00eancia pol\u00edtica nas \u00faltimas d\u00e9cadas. Ao impor contrarreformas neoliberais e pol\u00edticas de compensa\u00e7\u00e3o social rompe com parte de sua base tradicional (funcionalismo p\u00fablico) e se aproxima e ganha apoio massivo do <em>subproletariado<\/em> no primeiro mandato de Lula.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Como parte dessa estrat\u00e9gia, nas elei\u00e7\u00f5es de 2002 se estabelece a alian\u00e7a com o Partido Liberal (PL) de Jos\u00e9 Alencar (grande empres\u00e1rio do ramo t\u00eaxtil), que cumpre o papel de estabelecer a alian\u00e7a simb\u00f3lica entre trabalho e capital produtivo. No entanto, a pol\u00edtica de alian\u00e7as se estende para o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) e at\u00e9 para o ex-arquiinimigo Partido Progressista (PP) de Paulo Maluf. O PT, no af\u00e3 de chegar ao poder central desenvolveu neg\u00f3cios escusos e fez acordos com partidos abertamente fisiol\u00f3gicos. Tais a\u00e7\u00f5es, no primeiro caso, envolveram dinheiro p\u00fablico para financiar a campanha eleitoral de 2002 e, no segundo, foram necess\u00e1rias para comprar votos a favor de \u00abreformas\u00bb na legisla\u00e7\u00e3o. Consequentemente, o projeto de governo para ser imposto requeria, de um lado, construir consenso com as elites tradicionais e, de outro, extirpar do partido o que restava de cr\u00edtica.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Lula chega ao poder atrav\u00e9s de uma alian\u00e7a entre setores empresariais, burocracia sindical, camadas amplas da classe m\u00e9dia e dos trabalhadores e, como resultados de suas pol\u00edticas e posturas, perde o apoio da classe m\u00e9dia. Contudo, afasta-se desse \u00faltimo e ganha a simpatia e a lealdade do setor que historicamente vota na direita e, assim, os trabalhadores mais pauperizados aderem ao governo por suas pol\u00edticas de redu\u00e7\u00e3o da pobreza monet\u00e1ria. O apoio de determinadas fra\u00e7\u00f5es sindicais, como a For\u00e7a Sindical, por exemplo, ao governo n\u00e3o foi conseguido por ades\u00e3o program\u00e1tica, mas sim pela coopta\u00e7\u00e3o financeira das centrais e aparatos, e pelo recrutamento de dirigentes pela m\u00e1quina administrativa.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">O governo Lula &#8211; comparado a Get\u00falio Vargas nesse quesito &#8211; colocou sob seu comando todas as organiza\u00e7\u00f5es tradicionais dos trabalhadores e estudantis com pol\u00edticas de concess\u00e3o \u00e0 burocracia sindical, como foi o repasse para as centrais de toda a contribui\u00e7\u00e3o sindical, valor monet\u00e1rio que gira em torno de R$100 bilh\u00f5es a cada ano. A mesma pol\u00edtica foi dirigida \u00e0 Uni\u00e3o Nacional dos Estudantes (UNE), que desde sempre esteve alinhada com o governo, recebendo um cheque de R$ 30 milh\u00f5es. Trata-se da primeira parcela de um total de R$ 44, 6 milh\u00f5es que ser\u00e3o pagos pela Comiss\u00e3o de Anistia para a reconstru\u00e7\u00e3o da sede, destru\u00edda por um inc\u00eandio provocado por milicos da ditadura. Esse enquadramento pol\u00edtico ideol\u00f3gico das organiza\u00e7\u00f5es tradicionais contribuiu enormemente para que as mobiliza\u00e7\u00f5es durante os dois primeiros mandatos presidenciais do <em>lulismo <\/em>n\u00e3o al\u00e7assem dimens\u00f5es nacionais ou obtivessem a solidariedade de outros setores, inviabilizando, assim, que esses processos ganhassem um car\u00e1ter pol\u00edtico mais abrangente, facilitando o isolamento e os ataques do estado por meio do judici\u00e1rio ou da repress\u00e3o policial direta aos movimentos.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Esse pacto contou tamb\u00e9m com uma poderosa manobra ideol\u00f3gica, pois foi capaz de manipular categorias sociais como pobreza, mis\u00e9ria, extrema pobreza, classe m\u00e9dia. A manipula\u00e7\u00e3o pol\u00edtica destes \u00absignificantes\u00bb foi extremamente eficiente para criar a aura de prosperidade que cobriu o cen\u00e1rio nacional, elemento fundamental para a constru\u00e7\u00e3o da ideologia que vem justificando &#8211; se bem que de forma cada vez mais fr\u00e1gil &#8211; a exist\u00eancia do governo e das suas pol\u00edticas (AB\u2019S\u00e1ber, 2011).<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Esse pacto social, apoiado por um amplo leque de partidos e grupos sociais, dos mais ricos aos mais pobres, foi extremamente eficiente no sentido de pacificar politicamente o pa\u00eds at\u00e9 os dois primeiros anos do primeiro mandato de Dilma. O <em>lulismo <\/em>seria umamalgamaque hipoteticamente atenderia \u00e0s demandas dos setores mais empobrecidos da popula\u00e7\u00e3o e, por outro lado, a dos capitalistas de todas as estirpes. Mas, no que tange o <em>modus operandi<\/em> de fazer pol\u00edtica, Lula teria reproduzido o patrimonialismo t\u00edpico que foi herdado da forma\u00e7\u00e3o nacional e cujo processo de democratiza\u00e7\u00e3o controlado pelas elites n\u00e3o foi capaz de superar. Assim, representantes da burguesia \u2013 e at\u00e9 o imperialismo \u2013 apostaram em uma frente com o PT que pudesse pacificar o pa\u00eds e realizar uma inflex\u00e3o no neoliberalismo puro e duro dos dois mandatos de FHC.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><strong>3.2 Aplicando a cartilha neoliberal<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">O PT revigora o neoliberalismo por meio da ideol\u00f3gica \u00absocial-liberal\u00bb. Lula\/Dilma nada fizeram para que o Brasil al\u00e7asse condi\u00e7\u00e3o distinta em rela\u00e7\u00e3o ao seu lugar na cadeia econ\u00f4mica mundial. Apesar de ter alcan\u00e7ado \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de sexto PIB mundial, a economia brasileira n\u00e3o alterou nenhuma das condi\u00e7\u00f5es que a tirasse da condi\u00e7\u00e3o de exportadora de commodities que participa da divis\u00e3o internacional do trabalho como entreposto para a valoriza\u00e7\u00e3o do capital financeira internacional.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Do ponto de vista da pol\u00edtica econ\u00f4mica, o governo Lula, manteve-se totalmente no campo da libera\u00e7\u00e3o do mercado e a favor das grandes corpora\u00e7\u00f5es financeiras. O Banco Central foi entregue para um leg\u00edtimo representante dos bancos e com isso as alavancas macroecon\u00f4micas foram operadas segundo os interesses do mercado. Assim, no <em>lulismo<\/em> a economia se coloca sempre a servi\u00e7o do capital financeiro de forma ainda mais intensa do que na era FHC.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">A abertura do mercado financeiro, a facilita\u00e7\u00e3o de remessas de capital, as altas taxas de juros s\u00e3o como cl\u00e1usulas p\u00e9treas da economia e fizeram a alegria do capital transnacional desde 2002, o que torna os investimentos na produ\u00e7\u00e3o industrial local muito menos atrativos. No entanto, o <em>lulismo<\/em> fez mais pelo capital atrav\u00e9s da \u00abfacilita\u00e7\u00e3o do envio de recursos ao exterior, a nova lei de fal\u00eancias que d\u00e1 primazia aos cr\u00e9ditos financeiros em rela\u00e7\u00e3o aos cr\u00e9ditos trabalhistas\u00bb.<a href=\"#_ftn13\" name=\"_ftnref13\"><sup><sup>[13]<\/sup><\/sup><\/a> Lula, a partir de 2002, utilizou sua capacidade de lideran\u00e7a para convencer os trabalhadores de que era necess\u00e1rio tomar medidas antipopulares, pois n\u00e3o havia alternativa diante do \u00abestado de emerg\u00eancia\u00bb.<a href=\"#_ftn14\" name=\"_ftnref14\"><sup><sup>[14]<\/sup><\/sup><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">A reforma da previd\u00eancia espoliou o funcionalismo p\u00fablico e fortaleceu o capital financeiro, com o aporte de bilh\u00f5es de ingresso atrav\u00e9s dos fundos de pens\u00e3o. Esse ato inaugural de Lula para se alinhar definitivamente com a burguesia n\u00e3o deixa de ser a continuidade com o <em>lulismo <\/em>que, durante a sua escalada ao governo federal, tomou uma s\u00e9rie de posi\u00e7\u00f5es contr\u00e1rias aos interesses dos trabalhadores.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">O primeiro mandato de Lula pode ser sumariamente resumido atrav\u00e9s das pol\u00edticas neoliberais. Desta forma, foram feitos contingenciamentos nos gastos p\u00fablicos, eleva\u00e7\u00e3o na taxa de juros, arrocho do sal\u00e1rio m\u00ednimo e a contrarreforma da previd\u00eancia. No segundo mandato a economia brasileira foi beneficiada pelo aumento das exporta\u00e7\u00f5es, a valoriza\u00e7\u00e3o das commodities, e pela amplia\u00e7\u00e3o do mercado interno de massas tamb\u00e9m foi determinante para o crescimento. Em 2008, o Brasil foi pego pela crise internacional. O governo desenvolveu pol\u00edticas antic\u00edclicas que momentaneamente foram eficientes para recuperar o crescimento econ\u00f4mico, mas a longo prazo significaram o aumento do endividamento p\u00fablico e privado e a redu\u00e7\u00e3o da arrecada\u00e7\u00e3o do estado.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Com a elei\u00e7\u00e3o de Dilma Rousseff em outubro do 2010, o <em>lulismo <\/em>obteve sobrevida para al\u00e9m da persona de Lula. Dilma foi eleita praticamente sem nenhum capital eleitoral, pois se tratava de uma militante pol\u00edtica que nunca teve nenhum mandato parlamentar ou executivo. Foi eleita em 2010 a partir exclusivamente da popularidade transferida pela figura de Lula. A transi\u00e7\u00e3o do segundo mandato de Lula para Dilma em 2010 ocorreu, do ponto de vista pol\u00edtico, sem grandes altera\u00e7\u00f5es. No in\u00edcio do seu mandato manteve basicamente a mesma orienta\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica econ\u00f4mica de Lula, fez um ajuste fiscal de 1,2% do PIB e manteve e ampliou a pol\u00edtica de isen\u00e7\u00e3o fiscal de setores da ind\u00fastria. O seu primeiro mandato parecia c\u00f3pia do mandato de Lula e apesar da crise econ\u00f4mica que em 2009 fez o PIB ter despencado, no ano seguinte houve forte recupera\u00e7\u00e3o e Dilma parecia voar em c\u00e9u de brigadeiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">A partir de uma r\u00e1pida recupera\u00e7\u00e3o da crise econ\u00f4mica internacional procurou desenvolver uma pol\u00edtica na qual o governo tivesse maior poder de indu\u00e7\u00e3o da atividade econ\u00f4mica atrav\u00e9s do Programa de Acelera\u00e7\u00e3o do Crescimento (PAC). Esse programa procurava colocar sobre o mesmo teto a maior parte das Parcerias P\u00fablico Privadas (PPPs). Como parte desse projeto, tivemos o marco regulat\u00f3rio da extra\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo que obriga a Petrobras assumir a condi\u00e7\u00e3o de s\u00f3cia em todas as opera\u00e7\u00f5es de extra\u00e7\u00e3o do combust\u00edvel \u2013garantindo a seguran\u00e7a do capital privado &#8211; e a pol\u00edtica de concess\u00e3o privada para portos e aeroportos.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Dilma tentou realizar uma pol\u00edtica econ\u00f4mica de orienta\u00e7\u00e3o desenvolvimentista burguesa: reduziu a taxa de juros, quis estabelecer certo controle sobre o ganho do capital e desenvolver uma pol\u00edtica de indu\u00e7\u00e3o da economia atrav\u00e9s do PAC, mas diante da rea\u00e7\u00e3o do capital financeiro, retrocedeu por completo do seu nacional desenvolvimentismo. A bo\u00e7a nacional desenvolvimentista de Dilma n\u00e3o durou muito. Retrocedeu no limite, embora as condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas e pol\u00edtica vividas de 2006 a 2010 j\u00e1 n\u00e3o existissem mais.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Estamos diante da crise terminal do <em>pacto lulista. <\/em>As manifesta\u00e7\u00f5es de junho de 2013 mudaram a situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica nacional, deixando para traz um longo per\u00edodo de ofensiva pol\u00edtica absoluta contra o movimento dos trabalhadores e da juventude. Uma nova situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que demonstra vigor mobiliza\u00e7\u00f5es radicalizadas por todo o pa\u00eds e que com fim do ciclo mundial de alta de commodities tende a se retroalimentar e criar um n\u00edvel ainda maior de polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><strong>3.3 <em>Lulismo <\/em>e corrup\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">O <em>lulismo <\/em>se configura como uma coalis\u00e3o burguesa. Isso se pode verificar na forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica institucional interna e externa, na pol\u00edtica econ\u00f4mica, na rela\u00e7\u00e3o com o movimento de massa e na \u00e9tica da rela\u00e7\u00e3o entre o p\u00fablico e o privado. Quest\u00e3o que corrobora a ideia de que nenhuma forma de estado burgu\u00eas ou de governo pode resolver a corrup\u00e7\u00e3o e a apropria\u00e7\u00e3o privada sistem\u00e1tica dos bens p\u00fablicos. Problema intr\u00ednseco ao capitalismo e a todas formas de estado que alijam a classe trabalhadora da sua condu\u00e7\u00e3o e que s\u00f3 pode ser resolvido colocando abaixo o estado burgu\u00eas e construindo um aut\u00eantico estado oper\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Durante os doze anos \u00e0 frente do governo federal uma s\u00e9rie de den\u00fancias pol\u00edticas atingiram em cheio aos partidos da base aliada, particularmente ao PT. No per\u00edodo p\u00f3s-ditadura militar o governo Lula foi o que mais sofreu den\u00fancias de corrup\u00e7\u00e3o e o que mais se safou das mesmas. Foram aproximadamente 60 den\u00fancias de corrup\u00e7\u00e3o. O primeiro grande esc\u00e2ndalo do governo ocorreu em 2004, depois que o assessor parlamentar da Casa Civil, Waldomiro Diniz,foi visto em uma fita de v\u00eddeo pedindo propina para Carlos Cachoeira, homem forte da m\u00e1fia dos ca\u00e7a-n\u00edqueis. Isso causou um descolamento pol\u00edtico-eleitoral de muitos setores das classes m\u00e9dias, pois o PT tinha constru\u00eddo uma hist\u00f3ria ligada \u00e0 bandeira de \u201c\u00e9tica na pol\u00edtica\u201d durante a d\u00e9cada de 1990.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">As crises pol\u00edticas em decorr\u00eancias da corrup\u00e7\u00e3o, apesar de n\u00e3o terem se desdobrado, at\u00e9 o momento, em mobiliza\u00e7\u00f5es que redundassem em crises pol\u00edticas de repercuss\u00f5es que levassem a processos de descontinuidade institucional (como o \u201cFora Collor\u201d de 1992), foram respons\u00e1veis por ajustes importantes na pol\u00edtica nacional. Como exemplo do que estamos falando, temos o realinhamento eleitoral verificado na elei\u00e7\u00e3o de 2006. A partir desse momento, parte importante da classe m\u00e9dia deixa de votar no PT e, por outro lado, o setor mais empobrecido do proletariado (subproletariado) passa a votar nesse partido depois de historicamente rejeitar o PT como op\u00e7\u00e3o pol\u00edtica eleitoral.<a href=\"#_ftn15\" name=\"_ftnref15\"><sup><sup>[15]<\/sup><\/sup><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Em 2005, o ex-diretor da Administra\u00e7\u00e3o dos correios (Mauricio Marinho) \u00e9 mostrado embolsando propina e relatando como era a estrutura de corrup\u00e7\u00e3o nos correios. Ao ser indiciado comochefedo esquema, Roberto Jefferson, deputado federal e presidente do PTB, delatou todo o esquema de corrup\u00e7\u00e3o que veio a ser conhecido como mensal\u00e3o. Empresas que prestavam servi\u00e7os ao governo faziam pagamento de mesadas aos deputados para que esses votassem nas propostas do governo. Ainda em 2005, veio \u00e0 tona a \u201copera\u00e7\u00e3o vampiros\u201d da Pol\u00edcia Federal que revelou esquema de corrup\u00e7\u00e3o e fraude na compra de hemoderivados, o que levou a queda de Humberto Costa (PT-PE), que acabou se reelegendo senador da rep\u00fablica.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Essa crise ocorreu nas alturas. N\u00e3o houve rea\u00e7\u00e3o do movimento de massas como a da crise pol\u00edtica desencadeou em 1992 ap\u00f3s a den\u00fancia de corrup\u00e7\u00e3o no governo Collor. N\u00e3o se produziu uma irrup\u00e7\u00e3o do movimento de massas, dos trabalhadores e do movimento popular por uma sa\u00edda independente do governo. Os \u00fanicos que tiveram a palavra foram os parlamentares, ministros e presidentes e tamb\u00e9m a grande imprensa. Esse fato possibilitou que houvesse uma r\u00e1pida acomoda\u00e7\u00e3o no cen\u00e1rio pol\u00edtico. E como se dizia tudo \u00abacabou e<em>m pizza\u201d<\/em> mediante acordos por cima, realizados n\u00e3o apenas nas costas do povo, mas contra ele. A crise foi abafada, contudo, e se voltou \u00e0 normalidade depois de uma limpeza dos mais envolvidos.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">N\u00e3o houve uma resposta unificada da vanguarda diante da crise institucional. Mobiliza\u00e7\u00f5es como as que ocorreram em Bras\u00edlia no dia 17 de agosto ca\u00edram no isolamento, n\u00e3o tiveram continuidade nem foram parte de um plano de a\u00e7\u00e3o, e nem mesmo de um esfor\u00e7o unit\u00e1rio da vanguarda para tratar de colocar em movimento setores de massas, \u00fanica forma de intervir de forma efetiva na crise. Ent\u00e3o, a crise, como n\u00e3o passou por uma irrup\u00e7\u00e3o do movimento, acabou sendo reabsorvida de maneira relativamente f\u00e1cil. O que ficou foi uma perda de \u00abcredibilidade\u00bb das institui\u00e7\u00f5es, que se manifesta de maneira desigual, no que se refere o governo, o parlamento, PT e os demais partidos.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Com a fragiliza\u00e7\u00e3o do PT, que teve os seus principais quadros (Jos\u00e9 Dirceu e Geno\u00edno) atingidos pelas den\u00fancias do \u201cmensal\u00e3o\u201d, o PMDB v\u00ea a oportunidade de retomar o seu lugar privilegiado no Estado e resolve fazer parte da base aliada do governo. Ao ser atingido o n\u00facleo duro do governo e do PT, obrigou Lula a tomar a frente do comando da m\u00e1quina. A desmoraliza\u00e7\u00e3o dos seus principais quadros e a pol\u00edtica da oposi\u00e7\u00e3o de \u00absangrar, mas n\u00e3o matar\u00bb contribuiu para preservar Lula e tamb\u00e9m para que este assumisse ainda mais centralidade no interior do governo.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Apenas um ano ap\u00f3s a crise gerada pela den\u00fancia do \u201cmensal\u00e3o\u201d, uma s\u00e9rie de novas den\u00fancias vieram \u00e0 tona. Em 2006, Antonio Palocci, ent\u00e3o Ministro da Fazenda, foi denunciado como mandante de um esquema de corrup\u00e7\u00e3o em Ribeir\u00e3o Preto, cidade que Palocci havia sido prefeito. Mas n\u00e3o parou por a\u00ed. Os cart\u00f5es corporativos, cart\u00f5es de cr\u00e9dito de pagamentos de contas em viagens e com alimenta\u00e7\u00e3o eram usados sem o menor controle.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Poucos meses antes da elei\u00e7\u00e3o de 2010, outra den\u00fancia atinge o governo. Uma assessora direta de Dilma Rousseff, quando ministra da Casa Civil, Erenice Guerra, \u00e9 denunciada por tr\u00e1fico de influ\u00eancia de empresas junto ao governo. Depois veio a crise das passagens a\u00e9reas que envolveram todo o Congresso, onde se constatou que passagens a\u00e9reas que deveriam servir para atividade pol\u00edtica dos Senadores, estavam sendo usadas por familiares, apadrinhados pol\u00edticos, namoradas, etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Ap\u00f3s a primeira elei\u00e7\u00e3o de Dilma, mais uma s\u00e9rie de den\u00fancias contra ministros rec\u00e9m empossados irrompeu. Apenas 13 meses depois da elei\u00e7\u00e3o de Dilma sete ministros caem por den\u00fancias de corrup\u00e7\u00e3o, dentre eles velhos conhecidos do fisiologismo nacional: Antonio Palocci, Ministro da Casa Civil, por tr\u00e1fico de influ\u00eancia em favor de sua empresa de consultoria; Alfredo nascimento, por esquema de corrup\u00e7\u00e3o dentro do minist\u00e9rio dos transportes; Wagner Rossi por permitir lobby dentro do pr\u00f3prio Minist\u00e9rio da Agricultura; Pedro Novais, por den\u00fancias de mau uso do dinheiro p\u00fablico no Minist\u00e9rio do Turismo; Orlando Silva, por esquema de propinas ligadas aos preparativos da copa do mundo cai do Minist\u00e9rio dos Transportes; e, finalmente, Carlos Lupi, Minist\u00e9rio do Trabalho, por conv\u00eanios irregulares e desvio de verba p\u00fablica no Minist\u00e9rio do Trabalho.<a href=\"#_ftn16\" name=\"_ftnref16\"><sup><sup>[16]<\/sup><\/sup><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Agora estamos diante de uma outra crise pol\u00edtica que pode ter repercuss\u00f5es diluvianas ligada ao tema da corrup\u00e7\u00e3o estatal. O esquema veio \u00e0 tona a partir da pris\u00e3o de Paulo Roberto Costa, Diretor de Abastecimento e Refino da Petrobras de 2004 a 2014, pela Policia Federal. A partir de acordo de dela\u00e7\u00e3o premiada, o esquema de propinas (que movimentou cerca de 10 bilh\u00f5es) \u00e0 base aliada do governo em troca de contratos com as maiores empreiteiras e fornecedoras do Brasil \u00e9 denunciado.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Nesse esquema havia um clube das empreiteiras que combinavam a distribui\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os que seriam prestados a petroleira de forma a burlar totalmente a legisla\u00e7\u00e3o p\u00fablica de presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os. Uma determinada porcentagem dos contratos era passada para os partidos pol\u00edticos e outra para altos funcion\u00e1rios da estatal, da seguinte forma: o PT ficava com 3% dos contratos, o PMDB com 2% e o PP com 1%.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">O esc\u00e2ndalo da Petrobras tem desdobramentos pol\u00edticos e econ\u00f4micos profundos. Do ponto de vista da economia &#8211; com altos executivos presos e as empresas sendo consideradas id\u00f4neas &#8211; tem significado a interrup\u00e7\u00e3o de obras p\u00fablicas, a demiss\u00e3o de trabalhadores e a interrup\u00e7\u00e3o de toda uma cadeia produtiva. Do ponto de vista pol\u00edtico (apesar de haver den\u00fancias contra o PSDB) coloca sob suspeita chefes parlamentares dos principais partidos da base aliada, bem como a pr\u00f3pria legalidade destes partidos e mesmo a validade do \u00faltimo pleito. Situa\u00e7\u00e3o que retroalimenta a crise pol\u00edtica vivida desde o in\u00edcio das den\u00fancias ainda antes da elei\u00e7\u00e3o presidencial de 2014 e pode jogar \u00e1gua no moinho da movimenta\u00e7\u00e3o de oposi\u00e7\u00e3o ao governo &#8211; pela esquerda e pela direita &#8211; que come\u00e7a lentamente a ganhar repercuss\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Parece que a oposi\u00e7\u00e3o burguesa majoritariamente tende a repetir a pol\u00edtica de \u201csangrar sem matar\u201d. Por\u00e9m, devido \u00e0 situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de maior polariza\u00e7\u00e3o social e \u00e0 fal\u00eancia do <em>pactolulista,<\/em> as atuais den\u00fancias podem ter desdobramentos mais graves do que as de 2005, pois afetam diretamente toda a base de sustenta\u00e7\u00e3o do governo em uma situa\u00e7\u00e3o que pipocam greves em todo o pa\u00eds e a oposi\u00e7\u00e3o burguesa se fortalecesse. Claro que se n\u00e3o houver uma interven\u00e7\u00e3o da classe trabalhadora nesse processo o mais prov\u00e1vel \u00e9 que haja a mesma acomoda\u00e7\u00e3o, como a vista em 2005, s\u00f3 que agora o mais prov\u00e1vel \u00e9 que o governo siga enfraquecido at\u00e9 o final do seu mandato. Desta forma, o governo Dilma tende a se tornar cada vez mais um governo sem bases de sustenta\u00e7\u00e3o sem que isso signifique a perda de seu mandato.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><strong>3.4 Compensa\u00e7\u00e3o social e desigualdade<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Em setembro de 2003, o governo come\u00e7ava articular a sua pol\u00edtica social atrav\u00e9s do Programa Bolsa Fam\u00edlia, expans\u00e3o do cr\u00e9dito popular. Esse conjunto de medidas diante da \u00abdesertifica\u00e7\u00e3o\u00bb da d\u00e9cada de 90 foi sentido pelos mais pobres como um al\u00edvio nas suas condi\u00e7\u00f5es de exist\u00eancia. Esta pol\u00edtica teve efeito tamb\u00e9m no mercado interno, que estava em depress\u00e3o devido ao cen\u00e1rio recessivo mundial, e nas pol\u00edticas neoliberais de governos anteriores.<a href=\"#_ftn17\" name=\"_ftnref17\"><sup><sup>[17]<\/sup><\/sup><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">As an\u00e1lises que colocavam o Brasil como para\u00edso da estabilidade econ\u00f4mica, de infla\u00e7\u00e3o baixa e dos avan\u00e7os sociais que levariam o pa\u00eds para o rol dos mais desenvolvidos n\u00e3o davam conta de que, de acordo mesmo com os dados do governo federal, temos 16 milh\u00f5es de pessoas vivendo na pobreza extrema, n\u00famero equivalente a toda popula\u00e7\u00e3o da Holanda(Barbosa, 2012).<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Assim sendo, \u00e9 preciso cautela ao caracterizar a \u00abenvergadura\u00bb das pol\u00edticas de compensa\u00e7\u00e3o social em rela\u00e7\u00e3o ao custo para o Estado, pois se partia de um alto \u00edndice de pobreza absoluta. Como resultado da n\u00e3o interven\u00e7\u00e3o nas causas estruturais da desigualdade nacional, na Am\u00e9rica do Sul, o Brasil \u00e9 o terceiro pais com maior desigualdade da Am\u00e9rica Latina, perde apenas para Col\u00f4mbia e Bol\u00edvia. No que tange a composi\u00e7\u00e3o percentual de pobres na popula\u00e7\u00e3o, \u00abo indicador brasileiro \u00e9 pelo menos duas vezes superior ao de Argentina, Chile e Uruguai.\u00bb<a href=\"#_ftn18\" name=\"_ftnref18\"><sup><sup>[18]<\/sup><\/sup><\/a> O Brasil continua entre os dez pa\u00edses mais desiguais do mundo. Apesar de a desigualdade ser inferior a 1980, atualmente o \u00edndice de desigualdade \u00e9 semelhante a 1960, mesmo a economia brasileira tendo crescido oito vezes nos \u00faltimos cinquenta anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Durante o segundo mandato do governo Lula houve uma recupera\u00e7\u00e3o do dinamismo econ\u00f4mico com crescimento do rendimento familiar. Este n\u00e3o \u00e9 um fen\u00f4meno in\u00e9dito na hist\u00f3ria econ\u00f4mica brasileira, tamb\u00e9m ocorreu durante os anos 70 sem que isso significasse a redu\u00e7\u00e3o estrutural da pobreza e da desigualdade social. O rendimento do trabalho na renda nacional subiu 4,8% no per\u00edodo de 2004 a 2010. A \u00abm\u00e1gica\u00bb do <em>lulismo<\/em> come\u00e7a a ser desvendada quando se verifica que a um custo or\u00e7ament\u00e1rio bem reduzido o desemprego<a href=\"#_ftn19\" name=\"_ftnref19\"><sup><sup>[19]<\/sup><\/sup><\/a> e aumento do poder de compra ocorrem atrav\u00e9s de pol\u00edticas de incentivo ao consumo de massas.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">A desigualdade chegou a se ampliar durante o per\u00edodo de 2004 a 2010, pois se a renda do trabalho teve um crescimento de 10,3%, a da propriedade foi de 12,8%. O que provocou o aumento da desigualdade da renda nacional entre trabalho e propriedade em 2010, voltando a patamares de 1995. Durante esse per\u00edodo o governo Lula recupera a situa\u00e7\u00e3o pr\u00e9-FHC. Mas, a \u00abevolu\u00e7\u00e3o\u00bb do mercado de trabalho n\u00e3o \u00e9 apenas cruel do ponto de vista da remunera\u00e7\u00e3o em si, tamb\u00e9m \u00e9 em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s condi\u00e7\u00f5es de trabalho. De 1996 a 2010 o trabalho terceirizado cresceu 11,1%, ao passo que o aumento das empresas foi de 16,4% em m\u00e9dia. A rotatividade da for\u00e7a de trabalho \u00e9 outro indicador que piorou nos anos de auge do <em>lulismo<\/em>, em 2010 a taxa era de 63% no Estado de S\u00e3o Paulo, em 1995 era de 50,5%.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Na verdade, longe de reduzir a desigualdade social com suas pol\u00edticas de compensa\u00e7\u00e3o social ou criar uma nova classe m\u00e9dia no pais, o governo lula fez com que diferen\u00e7a na rela\u00e7\u00e3o da renda populacional entre ricos e pobres fosse ampliada, a classe social \u201cque mais cresceu proporcionalmente, de 2003 a 2008, n\u00e3o foi a classe C, nem a D. Foi, isso sim, as classes A e B, que t\u00eam renda familiar acima de 4.807 reais &#8211; e o dado n\u00e3o leva em conta a valoriza\u00e7\u00e3o da propriedade, a\u00e7\u00f5es e investimentos financeiros.\u00bb<a href=\"#_ftn20\" name=\"_ftnref20\"><sup><sup>[20]<\/sup><\/sup><\/a> A redu\u00e7\u00e3o da desigualdade n\u00e3o depende apenas da capacidade de consumo imediato, pois o aumento do consumo n\u00e3o diz respeito a redu\u00e7\u00e3o da desigualdade social ou mesmo sobre a melhora das condi\u00e7\u00f5es gerais de vida, como acesso a sa\u00fade, transporte, saneamento b\u00e1sico.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Na tradi\u00e7\u00e3o te\u00f3rica dos economistas do subdesenvolvimento o principal respons\u00e1vel pela desigualdade e pobreza era a incapacidade da economia exportadora em assimilar a m\u00e3o de obra dispon\u00edvel no mercado de trabalho, o que a obrigava a viver em condi\u00e7\u00f5es de subsist\u00eancia, \u00aba sa\u00edda apontada, ent\u00e3o, era a industrializa\u00e7\u00e3o.\u00bb<a href=\"#_ftn21\" name=\"_ftnref21\"><sup><sup>[21]<\/sup><\/sup><\/a> N\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio dizer que mesmo ap\u00f3s o processo de industrializa\u00e7\u00e3o a desigualdade e a pobreza permaneceram e se recriaram sob distintas formas. Mas, no processo acelerado de industrializa\u00e7\u00e3o as massas n\u00e3o foram absorvidas ao mercado formal de trabalho apesar da industrializa\u00e7\u00e3o crescente da economia a partir da d\u00e9cada de 50.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">As pol\u00edticas do <em>lulismo<\/em> s\u00e3o tribut\u00e1rias da ideologia desenvolvimentista por considerar que o desenvolvimento capitalista em condi\u00e7\u00f5es de subordina\u00e7\u00e3o ao capital internacional pode combater as desigualdades sociais, assim essa pol\u00edtica se focou em incentivar as atividades econ\u00f4micas e pol\u00edticas de compensa\u00e7\u00e3o social a uma parcela gigantesca da popula\u00e7\u00e3o. Se compararmos o rendimento do trabalho em rela\u00e7\u00e3o a produtividade da ind\u00fastria que no governo do PT cresce sem interrup\u00e7\u00e3o, verificamos que essa n\u00e3o acompanha os ganhos de produtividade. Da\u00ed a conclus\u00e3o de que a pobreza relativa cresceu na \u00faltima d\u00e9cada.<\/p>\n<ol style=\"text-align: left;\" start=\"4\">\n<li><strong> NATUREZA DO <em>LULISMO: <\/em>DA <em>REVOLU\u00c7\u00c3O PASSIVA<\/em> \u00c0 <em>FRENTE POPULAR<\/em><\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: left;\">As principais correntes de opini\u00e3o apresentam formula\u00e7\u00f5es distintas sobre os governos petistas. Nosso objetivo \u00e9 encontrar uma chave anal\u00edtica que permita construir uma caracteriza\u00e7\u00e3o mais totalizante, que passe pela governabilidade, e o fator social, pelas movimenta\u00e7\u00f5es da superestrutura \u00e0 base da sociedade, fazendo todas as media\u00e7\u00f5es poss\u00edveis entre hist\u00f3ria, pr\u00e1ticas e objetivos deste \u201corganismo\u201d chamado <em>Lulismo.<\/em> A partir da elei\u00e7\u00e3o de Lula em 2002, esfor\u00e7os interpretativos t\u00eam sido desenvolvidos e ap\u00f3s 12 anos \u00e0 frente da administra\u00e7\u00e3o central ainda se debate a natureza dos governos petistas.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Os dois mandatos de Lula e o primeiro de Dilma &#8211; at\u00e9 Junho de 2013 &#8211; foram marcados por grande estabilidade pol\u00edtica. A reelei\u00e7\u00e3o de Lula em 2006 ocorre a partir de um realinhamento no qual os setores mais pauperizados da classe trabalhadora rompem com os partidos tradicionais e passam a votar no PT e durante um per\u00edodo o crescimento econ\u00f4mico capitalista e o consumo de massa permitiu ao PT a constru\u00e7\u00e3o da ideologia de que mais de 30 milh\u00f5es de pessoas haviam entrado para a classe m\u00e9dia, fal\u00e1cia que n\u00e3o demorou para ser desmascarada pelos analistas s\u00e9rios, pela crise econ\u00f4mica mundial e pela luta de classes no final do primeiro mandato de Dilma.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><strong>4.1 <em>Lulismo<\/em> como fen\u00f4meno progressivo<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Nesta parte do trabalho vamos apresentar as categoriza\u00e7\u00f5es sobre o <em>lulismo <\/em>em duas grandes vertentes. Na primeira o governo surge como fen\u00f4meno progressista e na segunda como um fen\u00f4meno regressivo.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><em>4.1.2 O p\u00f3s-neoliberalismo<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Vamos come\u00e7ar apresentando elabora\u00e7\u00f5es n\u00e3o-cr\u00edticas, as que notadamente buscam justificar as pol\u00edticas do governo a partir de chaves como p\u00f3s-neoliberalismo (Emir Sader) ou reformismo fraco (Andr\u00e9 Singer). Para o primeiro autor, as pol\u00edticas do PT teriam superado as orienta\u00e7\u00f5es neoliberais e para o segundo, o <em>lulismo<\/em> seria um reformismo fraco porque o <em>subproletariado<\/em> que deu a vit\u00f3ria a Lula em 2006 seria avesso a enfrentamentos com a ordem.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Para Sader \u201cos governos de Lula e Dilma podem ser caracterizados como p\u00f3s-neoliberais pelos elementos centrais de ruptura com o modelo neoliberal \u2013 de Collor, Itamar e FHC \u2013 e pelos elementos que t\u00eam em comum com outros governos da regi\u00e3o, como os Kirchners na Argentina, da Frente Ampla no Uruguai, de Hugo Ch\u00e1vez na Venezuela, de Evo Morales na Bol\u00edvia e de Rafael Correa no Equador\u201d<a href=\"#_ftn22\" name=\"_ftnref22\"><sup><sup>[22]<\/sup><\/sup><\/a>. Os governos da Am\u00e9rica Latina citados podem de fato ser considerados como uma descontinuidade com o neoliberalismo puro e duro implementado na regi\u00e3o durante os anos 1990 a partir de uma ruptura imposta pelo movimento de massas, o que de conjunto os faz guardar imensa dist\u00e2ncia com o <em>lulismo<\/em> no Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Para efeito de esclarecimento, o governo de Evo Morales teve no seu in\u00edcio caracter\u00edsticas de governo de <em>Frente Popular<\/em> porque foi composto no calor de um tremendo movimento popular que derrubou governos, mudou drasticamente pol\u00edticas econ\u00f4micas e imp\u00f4s um governo de coaliza\u00e7\u00e3o inst\u00e1vel com o Movimento ao Socialismo que era dirigido por Morales no seu centro. J\u00e1 o processo venezuelano tem caracter\u00edsticas um tanto diferentes pois, al\u00e9m do elemento comum da onda de indigna\u00e7\u00e3o popular que o antecedeu e da instabilidade, Ch\u00e1vez aparece desde o in\u00edcio muito mais como figura bonapartista do que Morales.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Em todos os pa\u00edses citados por Sader a forma\u00e7\u00e3o dos governos foi antecedida por rebeli\u00f5es populares que desestabilizaram por completo o cen\u00e1rio pol\u00edtico e formaram governos que na sua maioria conviveram desde o in\u00edcio com instabilidade decorrente da press\u00e3o pol\u00edtica exercida diretamente pela luta de classes. E este definitivamente n\u00e3o foi o processo pelo qual o <em>lulismo<\/em> chegou ao governo federal. No Brasil, n\u00e3o vivemos uma rebeli\u00e3o popular que precedeu as elei\u00e7\u00f5es de 2002 e, apesar da CUT ocupar um espa\u00e7o importante no governo, n\u00e3o convivemos com instabilidade decorrente do choque direto entre as classes sociais trabalhadores x patr\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Sader atribui a <em>hegemonia lulista<\/em> as suas qualidades enquanto lideran\u00e7a pol\u00edtica, a sua intui\u00e7\u00e3o e o pragmatismo de Lula, pois \u00abcombinou estabilidade monet\u00e1ria e retomada do desenvolvimento econ\u00f4mico e pol\u00edticas de distribui\u00e7\u00e3o de renda, que assumiram centralidade nas pol\u00edticas do governo. Essa combina\u00e7\u00e3o \u00e9 a chave do enigma Lula\u00bb<a href=\"#_ftn23\" name=\"_ftnref23\"><sup><sup>[23]<\/sup><\/sup><\/a> O relato apresentado parece, \u00e0 primeira vista, razo\u00e1vel, por\u00e9m apresenta muitas porosidades. A domina\u00e7\u00e3o em quest\u00e3o tem no carisma de lula um componente importante de ligamento por\u00e9m n\u00e3o poderia se sustentar sem o consentimento (apoio) ativo de setores da classe dominante, da burocracia sindical e dos setores mais empobrecidos da classe trabalhadora que passam a votar em lula a partir de 2006.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Essa forma de hegemonia seria um p\u00f3s-neoliberalismo devido \u00e0 \u00abdecis\u00e3o do governo de priorizar as pol\u00edticas sociais e a reinser\u00e7\u00e3o internacional do Brasil. O primeiro aspecto mudou a fisionomia social do pa\u00eds, o segundo, nosso lugar no mundo. A crise de 2008 consolidou o papel ativo do Estado, da ind\u00fastria, com pol\u00edtica antic\u00edclicas, que permitiram resistir os influxos recessivos que vieram dos pa\u00edses do centro do sistema\u00bb.<a href=\"#_ftn24\" name=\"_ftnref24\"><sup><sup>[24]<\/sup><\/sup><\/a> O autor apresenta orienta\u00e7\u00f5es comuns a todos os pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina que teriam rompido com o neoliberalismo, essas orienta\u00e7\u00f5es estariam baseadas nas seguintes prioridades: pol\u00edticas sociais e n\u00e3o o ajuste fiscal; processos de integra\u00e7\u00e3o regional e o papel do estado como indutor do crescimento econ\u00f4mico e distribui\u00e7\u00e3o de renda. A lista de itens apresentada pelo autor teria concretizado a ruptura e constitu\u00eddo o p\u00f3s-neoliberalismo na Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Nos limites deste texto n\u00e3o podemos nos debru\u00e7ar sobre as pol\u00edticas dos governos latino-americanos na \u00faltima d\u00e9cada, isto seria objeto de outro trabalho, por\u00e9m podemos verificar se essas prioridades se aplicam ao <em>pacto lulista.<\/em> No entanto<em>, <\/em>pensamos que nenhuma destas supostas prioridades se aplica ao Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Em primeiro lugar, uma das primeiras medidas de Lula foi aplicar um ajuste fiscal, aumentar a taxa de juros e depois realizar a contrarreforma da previd\u00eancia, tudo isso somente no primeiro mandato. Depois, apoiou-se no boom das commodities o que, portanto, fez com que o crescimento econ\u00f4mico ampliasse as pol\u00edticas de compensa\u00e7\u00e3o social. Dilma, por\u00e9m, j\u00e1 em seu primeiro mandato recuou rapidamente diante do alarido do capital, especialmente quando sinalizou pol\u00edticas de indu\u00e7\u00e3o da economia pelo estado. No segundo mandato, contudo, quer impor um duro ajuste fiscal que tem como alvo direitos os trabalhadores e investimentos p\u00fablicos.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Que a fisionomia social do pa\u00eds tenha mudado durante os governos <em>lulistas<\/em> \u00e9 uma afirma\u00e7\u00e3o que merece ser analisada, pois as politicagens do governo conseguiram reduzir durante um per\u00edodo pobreza monet\u00e1ria de parte da popula\u00e7\u00e3o, mas isso est\u00e1 longe de significar a eclos\u00e3o de uma nova classe social ou uma nova classe m\u00e9dia (Pochmann, 2012). Por outro lado, apesar da renda do trabalho ter alcan\u00e7ado uma porcentagem maior em rela\u00e7\u00e3o a renda total do pa\u00eds, n\u00e3o significa a redu\u00e7\u00e3o da desigualdade social mas sim que mais trabalhadores ingressaram oficialmente no mercado de trabalho.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Sobre as condi\u00e7\u00f5es de infraestrutura, educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade e transporte nenhum apresentou mudan\u00e7a significativa. A resposta ao agravamento da crise econ\u00f4mica \u00e9 guiada pelas diretrizes do neoliberalismo na medida em que Dilma responde com a mais dura receita neoliberal: aumento da taxa de juros, ajuste fiscal, redu\u00e7\u00e3o de direitos e demiss\u00e3o. Podemos chegar \u00e0 conclus\u00e3o que as pol\u00edticas sociais do <em>lulismo, <\/em>com Lula ou com Dilma,na verdade n\u00e3o s\u00e3o as pol\u00edticas priorit\u00e1rias desta forma\u00e7\u00e3o governamental, ou seja, mais se assemelham como ap\u00eandices das grandes coordenadas macroecon\u00f4micas ditadas pelo neoliberalismo que diante de qualquer crise &#8211; econ\u00f4mica ou pol\u00edtica- passam imediatamente para o terceiro plano. Assim, caracterizar as diretrizes desses governos como de continuidade do neoliberalismo acopladas \u00e0s pol\u00edticas sociais ampliadas e focadas nos setores mais pobres parece atender de forma mais precisa o que se estabeleceu no Brasil a partir de 2002.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><em>4.1.3 O governo em disputa<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Durante anos discutiu-se internamente no PT e na CUT a possibilidade de disputar a dire\u00e7\u00e3o do partido com as correntes majorit\u00e1rias para que pudesse voltar ao seu car\u00e1ter original e para uma linha de classe. Estas correntes em uma opera\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica, que n\u00e3o se sustenta em dado algum da realidade, passam a afirmar que os governos petistas a partir da elei\u00e7\u00e3o de Lula em 2002 tamb\u00e9m s\u00e3o <em>governos em disputa<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">A caracteriza\u00e7\u00e3o de que nestes governos a orienta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica pode ser disputada pelo movimento social \u00e9 defendida por correntes internas do PT, como O Trabalho (corrente lambertista), Democracia Socialista (corrente mandelista), Esquerda Marxista (ruptura do O Trabalho) e dirigentes de movimentos sociais, como o MST. Essa caracteriza\u00e7\u00e3o \u00e9 um exemplo de <em>teoria-justifica\u00e7\u00e3o<\/em>. Feita por essas correntes para se manterem, preservando uma apar\u00eancia de esquerda, no interior do partido. H\u00e1 d\u00e9cadas afirmam que a dire\u00e7\u00e3o do PT pode ser disputada pela esquerda, entretanto, essa caracteriza\u00e7\u00e3o tem como fundamento, por um lado, justificar a total adapta\u00e7\u00e3o as correntes oportunistas\/burocr\u00e1ticas e \u00e0 depend\u00eancia material destas correntes aos aparatos e ao Estado.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Nessa tese Lula\/Dilma s\u00f3 n\u00e3o foram mais \u00e0 esquerda porque faltou ao PT e ao movimento de massas for\u00e7a para empurra-lo (sic). Essa \u00e9 claramente uma caracteriza\u00e7\u00e3o que n\u00e3o responde ao fen\u00f4meno pol\u00edtico e sua anatomia espec\u00edfica, mas \u00e0 depend\u00eancia material em rela\u00e7\u00e3o aos aparatos &#8211; do PT, da CUT e do Estado -, vide a pol\u00edtica que teve o MTST em S\u00e3o Paulo as v\u00e9speras da abertura da copa do mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">A postura de capitula\u00e7\u00e3o da \u201cesquerda petista\u201d (DS e O Trabalho) n\u00e3o \u00e9 exatamente uma novidade. Historicamente essas correntes capitularam politicamente a todas dire\u00e7\u00f5es burocr\u00e1ticas que se colocavam na frente de processos pol\u00edticos importantes no p\u00f3s-guerra, pois consideraram-nas revolucion\u00e1rias. Orienta\u00e7\u00e3o oportunista estrat\u00e9gica que influenciou decididamente as correntes que hoje desenvolvem a linha de que o PT, a CUT e o governo est\u00e3o em disputa. Do ponto de vista organizativo estes <em>seguidistas<\/em> deram a linha da dilui\u00e7\u00e3o no interior dos aparatos. Este \u00e9 o exemplo da DS,ou de depend\u00eancia quase que total \u00e0 estrutura burocr\u00e1tica, como \u00e9 o caso do O Trabalho.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Uma demonstra\u00e7\u00e3o que a dire\u00e7\u00e3o deste movimento continua operando com a mesma caracteriza\u00e7\u00e3o foi a fala do grande dirigente do MST em um evento em defesa de Dilma no Rio Grande do Sul ap\u00f3s as manifesta\u00e7\u00f5es massivas pelo seu impeachment no dia 15 de mar\u00e7o. St\u00e9dile, em seu discurso contra o impeachment, afirma categoricamente que o ataque ao governo \u00e9 um ataque direto ao povo brasileiro e ao movimento, chama o governo a discutir as medidas econ\u00f4micas e para ir para rua: \u201ccompanheira Dilma, n\u00e3o se assuste. Deixe o (Miguel) Rossetto cuidando do Pal\u00e1cio e venha para as ruas, que \u00e9 onde vamos derrotar a direita e seu plano diab\u00f3lico.\u201d Assim, a caracteriza\u00e7\u00e3o de \u201cgoverno em disputa\u201d \u00e9 o que se denomina como teoria-justifica\u00e7\u00e3o, uma opera\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica que tem como objetivo n\u00e3o revelar o <em>real,<\/em> mas justificar uma pol\u00edtica indefens\u00e1vel. A chamada \u201cesquerda petista\u201d nunca deu uma batalha real contra a dire\u00e7\u00e3o destes aparatos, sempre capitulou \u00e0s pol\u00edticas da maioria da dire\u00e7\u00e3o sem dar uma verdadeira batalha pol\u00edtica, isso porque desde cedo condicionou a sua exist\u00eancia material e pol\u00edtica ao aparato partid\u00e1rio e sindical.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">J\u00e1 a dire\u00e7\u00e3o de importantes movimentos corporativos como o MST tem outras determina\u00e7\u00f5es pol\u00edticas para sustentar essa caracteriza\u00e7\u00e3o de que o governo est\u00e1 em disputa. A queda do Muro de Berlim acabou quase que por completo com a perspectiva de uma transforma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e social profunda, ou seja, revolucion\u00e1ria. A partir da\u00ed, a dire\u00e7\u00e3o destes movimentos, ao inv\u00e9s de a partir de um balan\u00e7o das experi\u00eancias hist\u00f3ricas das revolu\u00e7\u00f5es do s\u00e9culo XX e da necessidade de construir uma verdadeira revolu\u00e7\u00e3o socialista, elaboram que governos progressistas e at\u00e9 o Estado burgu\u00eas s\u00e3o espa\u00e7os de disputa para o atendimento de suas demandas especificas (Ram\u00edrez, 2004).<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><em>4.1.4 O reformismo fraco<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Dentro do campo que podemos considerar como n\u00e3o-cr\u00edtico temos Andr\u00e9 Singer como um dos principais formuladores. Para esse autor, o <em>lulismo<\/em> seria uma esp\u00e9cie de <em>varguismo<\/em> que atrav\u00e9s da industrializa\u00e7\u00e3o teria integrado os migrantes camponeses \u00e0 classe trabalhadora urbana. Isso seria poss\u00edvel pelo realinhamento pol\u00edtico no qual o <em>subproletariado<\/em>, cerca de 40 milh\u00f5es de pessoas, teria se inclinado eleitoralmente para eleger Lula a partir de 2006. Esse realinhamento pol\u00edtico foi o que permitiu que pol\u00edticas de combate \u00e0 pobreza e a desigualdade pudessem ser desenvolvidas de maneira ampla e prolongada durante os dois mandatos de Lula.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">O <em>lulismo<\/em> seria uma <em>revolu\u00e7\u00e3o passiva.<\/em> Um fen\u00f4meno amb\u00edguo, em que a estabilidade econ\u00f4mica tem reservada no interior do governo o mesmo espa\u00e7o que pol\u00edticas de distribui\u00e7\u00e3o de renda. Assim, o \u201crealinhamento eleitoral\u00bb que contou com o apoio massivo do <em>subproletariado<\/em> a partir de 2006 determinaria o grau de sua pol\u00edtica reformista (reformismo fraco), pois este grupo social seria avesso ao enfrentamento com o capital. O realinhamento pol\u00edtico eleitoral foi poss\u00edvel porque Lula proporcionou o que o <em>subproletariado<\/em> sempre desejou, \u00abum Estado suficientemente forte para diminuir a desigualdade sem amea\u00e7a \u00e0 ordem estabelecida.\u00bb<a href=\"#_ftn25\" name=\"_ftnref25\"><sup><sup>[25]<\/sup><\/sup><\/a> Essa \u00e9 a tese forte do autor, o <em>lulismo<\/em> \u00e9 a nova representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de uma parte do proletariado que ontologicamente seria reformista, pois nunca ter\u00e1 como perspectiva de transforma\u00e7\u00e3o a via do conflito de classes. Fen\u00f4meno ocorrido a partir de 2006, quando os mais pobres passam a votar em Lula, significou uma politiza\u00e7\u00e3o pela separa\u00e7\u00e3o entre ricos e pobres. Mas, segundo os mesmos dados que levanta o autor e os dados da \u00faltima elei\u00e7\u00e3o n\u00e3o se pode dizer que o montante total da chamada classe m\u00e9dia n\u00e3o vote em Lula, ou que todos os pobres n\u00e3o votem na oposi\u00e7\u00e3o tucana.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">H\u00e1 outra premissa problem\u00e1tica que permeia toda a an\u00e1lise do autor. A de que o <em>subproletariado <\/em>teria como perspectiva pol\u00edtica estrutural a n\u00e3o confronta\u00e7\u00e3o com o capital. Segundo Singer, Lula foi eleito para aplicar um programa de combate \u00e0 pobreza sem que isso significasse um confronto com o capital. Ao relatar o lento realinhamento pol\u00edtico, o autor se trai. Desconsidera, pois, que a fra\u00e7\u00e3o mais pobre da popula\u00e7\u00e3o trabalhadora n\u00e3o \u00e9 homog\u00eanea, sendo composta de sub-fra\u00e7\u00f5es que tem comportamentos distintos, podendo ser parte da organiza\u00e7\u00e3o de movimentos populares na cidade e no campo e, por conseguinte, assumindo posi\u00e7\u00f5es de enfrentamento direito \u00e0 repress\u00e3o, como foi em junho de 2013, ou podendo ainda, de outra maneira, ser base eleitoral para a oligarquia pol\u00edtica, como foi em parte nas elei\u00e7\u00f5es de 2014.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Singer apresenta o <em>subproletariado<\/em> como um setor que tem uma estrat\u00e9gia pol\u00edtica voltada para a constru\u00e7\u00e3o de um Estado que atenda \u00e0s suas reivindica\u00e7\u00f5es sem que que para isso se indisponha com a ordem estabelecida. Assim, esse setor, que viu em Lula o \u00abinventor\u00bb de um estado que atendesse os mais pobres sem enfrentar o capital, \u00abdeu-lhe suporte para avan\u00e7ar, acelerando o crescimento com redu\u00e7\u00e3o da desigualdade no segundo mandato, e, assim, garantindo a vit\u00f3ria de Dilma em 2010 e a continuidade do projeto ao menos at\u00e9 2014.\u00bb<a href=\"#_ftn26\" name=\"_ftnref26\"><sup><sup>[26]<\/sup><\/sup><\/a> Segundo o autor, pela condi\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica e social desse setor, a exemplo dos camponeses, este n\u00e3o possui homogeneidade social para construir ideologia e organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas pr\u00f3prias que representem os seus interesses. Assertiva esta que \u00e9 apenas uma hip\u00f3tese e que, ainda assim, n\u00e3o determina ou nos faz inferir que este setor tenha como perspectiva ou estrat\u00e9gia o estabelecimento de uma pol\u00edtica de concep\u00e7\u00f5es sem enfrentamento \u00e0 ordem.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Essa constru\u00e7\u00e3o,ali\u00e1s, na qual a fra\u00e7\u00e3o mais pobre, prec\u00e1ria, vulner\u00e1vel da classe trabalhadora tem uma psicologia pol\u00edtica pac\u00edfica precisa ser desmistificada, pois \u00e9 sobre ela que se assenta todo o edif\u00edcio que d\u00e1 justifica\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica para o governo. A conclus\u00e3o pol\u00edtica de Singer se assenta na ideia de que o capitalismo brasileiro tem na pobreza de um grande contingente de trabalhadores o principal entrave para o seu desenvolvimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Sob essa \u00f3tica, portanto, para que possamos desenvolver o pa\u00eds autonomamente seria preciso superar a condi\u00e7\u00e3o de empobrecimento do proletariado, pois \u00aba mis\u00e9ria anulava a possibilidade de surgir um setor industrial voltado para o mercado interno\u00bb<a href=\"#_ftn27\" name=\"_ftnref27\"><sup><sup>[27]<\/sup><\/sup><\/a>. Ent\u00e3o se tivermos um mercado interno consumidor podemos desenvolver uma produ\u00e7\u00e3o com maior valor agregado e assim diminuir ou acabar com o capitalismo dependente no Brasil. Dentro dessa perspectiva nacional-desenvolvimentista &#8211; da qual n\u00e3o compartilhamos &#8211; n\u00e3o parece que a quest\u00e3o se resolve de maneira satisfat\u00f3ria, pois \u00e9 como se pud\u00e9ssemos superar a forma\u00e7\u00e3o econ\u00f4mico-social sem romper com os elementos estruturais do capitalismo local.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Para o autor, esse realinhamento eleitoral pode estabelecer uma perspectiva de transforma\u00e7\u00e3o radical da situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e social do pa\u00eds, outro lugar na divis\u00e3o internacional do trabalho, uma melhora estrutural das condi\u00e7\u00f5es de vida das massas. Assim \u00abo sonho rooseveltiano tornar-se-\u00e1 regulat\u00f3rio da pol\u00edtica brasileira por per\u00edodo extenso\u00bb<a href=\"#_ftn28\" name=\"_ftnref28\"><sup><sup>[28]<\/sup><\/sup><\/a>. N\u00e3o podemos concordar que as pol\u00edticas de bolsa tenham resolvido essa quest\u00e3o e nem aberto o caminho para uma solu\u00e7\u00e3o estrutural. Pelo contr\u00e1rio, essas pol\u00edticas se n\u00e3o superadas podem significar a perpetua\u00e7\u00e3o dessa condi\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Singer tamb\u00e9m quer sustentar que a partir do governo Lula se estabeleceu uma polariza\u00e7\u00e3o entre ricos e pobres, pois n\u00e3o se pode dizer que as pol\u00edticas desse governo s\u00e3o continuidade das pol\u00edticas sociais desenvolvida pelos governos tucanos anteriores. Mas, a nosso ver n\u00e3o parece que essa seja uma polariza\u00e7\u00e3o que se sustente perante as pol\u00edticas &#8211; processo de privatiza\u00e7\u00e3o dos portos, aeroportos, PPPs e outras &#8211; adotadas pelos sucessivos governos petistas.Claro que os eleitores de Lula e agora Dilma tem na mem\u00f3ria &#8211; ou na transmiss\u00e3o desta pela propaganda governamental &#8211; o neoliberalismo puro e duro da era FHC e n\u00e3o querem abrir m\u00e3o da amplia\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas sociais e de acesso ao cr\u00e9dito experimentadas nos \u00faltimos doze anos, por\u00e9m isso est\u00e1 longe de opor estatistas contra defensores das solu\u00e7\u00f5es mercantis.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">O autor ao descrever essas medidas e sua correspond\u00eancia ideol\u00f3gica realiza uma troca de sujeitos, porque ao falar dessas medidas deveria dizer que, em verdade, foram as que serviram para ganhar a confian\u00e7a de setores da classe dominante, embora n\u00e3o como se Lula tivesse usado pol\u00edticas neoliberais como um <em>jogo de cena<\/em> para iludir a classe dominante para, com isso, criar condi\u00e7\u00f5es para desenvolver pol\u00edticas a favor dos pobres sem se enfrentar com o capital. Na realidade, portanto, o programa do subproletariado seria o de garantir uma lucratividade ao capital financeiro e \u00e0s transnacionais nunca antes vista em troca de pol\u00edticas que n\u00e3o passam de paliativos \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de pobreza.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Outrossim, o autor n\u00e3o se det\u00e9m em identificar esse setor como fundamental na composi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que est\u00e1 \u00e0 frente do governo devido a sua capacidade de definir pleitos eleitorais e afirma que o subproletariado teria influ\u00eancia decisiva na luta de classes. Aqui temos um malabarismo pol\u00edtico que precisamos descortinar, pois o autor faz uma extens\u00e3o descabida da import\u00e2ncia pol\u00edtica do <em>subproletariado<\/em>, transforma mecanicamente o volume eleitoral desse setor em capacidade de definir a luta de classes. A caracteriza\u00e7\u00e3o que arredonda esse corpo anal\u00edtico \u00e9 a da que o <em>lulismo <\/em>a partir da sua \u00abvirada program\u00e1tica que come\u00e7ara em 2002\u00bb (ponto b\u00e1sico de an\u00e1lise que coincide com a an\u00e1lise empreendida quando afirma que Lula havia tra\u00eddo os trabalhadores ao imprimir contrarreformas) constitui um governo que arbitre entre as classes e que se caracterize por um \u00abreformismo fraco\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Ao conquistar o apoio da massa de trabalhadores pauperizados, Singer(2012) compara Lula com Luis Bonaparte ao conquistar o apoio dos camponeses em 1848. Para Singer, o governo, a partir do ponto de vista da sua base de sustenta\u00e7\u00e3o, realiza uma arbitragem entre as classes de acordo com a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as de cada momento, ora aplicando pol\u00edticas conservadoras, ora pol\u00edticas progressivas. O que n\u00e3o diz \u00e9 que, al\u00e9m do <em>subproletariado <\/em>ter sido conquistado como base pol\u00edtica eleitoral (parte do consentimento passivo) do <em>lulismo <\/em>a partir de 2006, h\u00e1 outra base pol\u00edtica &#8211; a classe dominante &#8211; que tem muito claro ideologicamente o porqu\u00ea apoia o governo. Tamb\u00e9m escapa a esse esquema interpretativo que houve outras contrarreformas neoliberais no governo Lula como a reforma da previd\u00eancia e outras, que s\u00f3 n\u00e3o foram levadas a cabo, porque o esc\u00e2ndalo do mensal\u00e3o colocou o governo na defensiva. O mesmo vem acontecendo no atual governo Dilma.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Para Singer, o <em>lulismo<\/em> se configura em uma hegemonia baseada na arbitragem entre as classes sociais na qual existe equil\u00edbrio entre as partes e nenhuma delas t\u00eam condi\u00e7\u00f5es de impor suas \u00absolu\u00e7\u00f5es\u00bb. O efeito embelezador da interpreta\u00e7\u00e3o do <em>lulismo <\/em>\u00e9 bastante consider\u00e1vel. \u00c9 fato que as pol\u00edticas do governo significaram, em um cen\u00e1rio de crescimento econ\u00f4mico, a redu\u00e7\u00e3o da pobreza absoluta, por\u00e9m dizer que houve uma redu\u00e7\u00e3o da desigualdade \u00e9 exagerar na an\u00e1lise.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">A hip\u00f3tese de que o <em>lulismo <\/em>\u00e9 um reformismo fraco exige primeiramente uma discuss\u00e3o sobre o conceito reforma. Para o autor, o \u00abreformismo fraco\u00bb deste governo se n\u00e3o empata a explora\u00e7\u00e3o capitalista, ou seja, o \u00abmoinho diab\u00f3lico\u00bb, atua para ameniz\u00e1-lo. Este seria um reformismo que se colocaria a favor dos trabalhadores, e se daria conforme um processo progressista, mas lento. E n\u00e3o poderia ser de outra forma, uma vez que este se caracterizaria como o setor que daria sustenta\u00e7\u00e3o ao governo.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Desta forma, Singer n\u00e3o incorpora a sua an\u00e1lise que a maior parte dos empregos conquistados est\u00e3o na base da pir\u00e2mide salarial e s\u00e3o prec\u00e1rios. Confunde, assim, o realinhamento eleitoral do setor mais empobrecido da classe trabalhadora com pertencimento org\u00e2nico.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Para o autor o <em>lulismo <\/em>seria a frui\u00e7\u00e3o do reino da ambiguidade onde pol\u00edticas d\u00edspares convivem harmonicamente: \u00abpagam-se altos juros aos donos do dinheiro e ao mesmo tempo aumenta-se a transfer\u00eancia de renda para os mais pobres. Remunera-se o capital especulativo internacional e se subestimam as empresas industriais prejudicadas pelo c\u00e2mbio sobrevalorizado. Aumenta-se o sal\u00e1rio m\u00ednimo e se cont\u00e9m o aumento de pre\u00e7os com produtos importados. Financia-se, simultaneamente, o agroneg\u00f3cio e a agricultura familiar\u00bb<a href=\"#_ftn29\" name=\"_ftnref29\"><sup><sup>[29]<\/sup><\/sup><\/a>. Essa an\u00e1lise peca pela total falta de propor\u00e7\u00e3o entre as pol\u00edticas que beneficiam o capital e as que as beneficiam a classe trabalhadora.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><strong>4.2 As abordagens cr\u00edticas<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Agora trataremos de apresentar as caracteriza\u00e7\u00f5es do <em>lulismo <\/em>como fen\u00f4meno pol\u00edtico regressivo. Nesta perspectiva vamos nos deparar com a formula\u00e7\u00e3o de que o <em>lulismo <\/em>seria uma forma de hegemonia que se assemelharia a um <em>frente popular<\/em>, uma <em>revolu\u00e7\u00e3o passiva<\/em> ou uma <em>hegemonia da pequena pol\u00edtica<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><em>4.2.1 O governo de frente popular<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">A caracteriza\u00e7\u00e3o de governo de frente popular feito por alguns setores da esquerda, notadamente pelo PSTU, a partir dessa d\u00e9cada e meia de experi\u00eancia, n\u00e3o resistiu ao tempo e muito menos \u00e0 realidade. No entanto, este problema n\u00e3o se d\u00e1 apenas na medida em que este setor mant\u00e9m praticamente a mesma caracteriza\u00e7\u00e3o, apesar de todo o material para a an\u00e1lise pol\u00edtica de que dispomos. Tal problema decorre de erros te\u00f3ricos, delineados em diversos contextos, situa\u00e7\u00f5es e acontecimentos hist\u00f3ricos (vide a caracteriza\u00e7\u00e3o sobre Cuba, ou mais recente sobre a Cro\u00e1cia), que, por sua vez, prejudicam a rela\u00e7\u00e3o dial\u00e9tica entre teoria e pr\u00e1tica, caracteriza\u00e7\u00e3o e pol\u00edtica, como parte de uma interpenetra\u00e7\u00e3o din\u00e2mica, gerando portanto, problemas n\u00e3o s\u00f3 te\u00f3ricos, mas pr\u00e1ticos e t\u00e1ticos, especialmente diante da luta de classes, uma vez que uma caracteriza\u00e7\u00e3o inadequada pode levar a uma linha pol\u00edtica incapaz de comportar as demandas dos processos pol\u00edticos e suas devidas estrat\u00e9gias.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Caracterizar, por conseguinte, o governo lula como um governo reformista sem reformas, ou de frente popular, a nosso ver \u00e9 um equ\u00edvoco, pois implica na forma que se estabelece para o combate ao governo e na organiza\u00e7\u00e3o da classe em rela\u00e7\u00e3o a ele. Val\u00e9rio Arcary (militante do PSTU) afirma que o governo Lula \u00abfoi um governo quase sem reformas progressivas e muitas reformas reacion\u00e1rias, por\u00e9m, com uma governabilidade maior que seus antecessores\u00bb<a href=\"#_ftn30\" name=\"_ftnref30\"><sup><sup>[30]<\/sup><\/sup><\/a> Nesse balan\u00e7o entre contrarreformas e reformas do autor, sem preju\u00edzo das contradi\u00e7\u00f5es e totalidade, qual \u00e9 o signo que predomina? \u00c9 verdade que esse governo teve mais governabilidade que governos burgueses anteriores, como FHC, por exemplo, mas esse elemento n\u00e3o pode determinar o seu perfil pol\u00edtico ou car\u00e1ter de classe. Governos burgueses autorit\u00e1rios ou mesmo reacion\u00e1rios experimentaram durante per\u00edodos relativamente longos estabilidade pol\u00edtica \u00e0s custas de processos repressivos ou coopta\u00e7\u00e3o dos principais dirigentes dos trabalhadores.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Esta proposi\u00e7\u00e3o, assim, \u00e9 uma esp\u00e9cie de \u00abremasteriza\u00e7\u00e3o\u00bb do conceito de <em>frente popular <\/em>usado por Trotsky para explicar processos nos quais setores e governos s\u00e3o constitu\u00eddos a partir da coaliz\u00e3o de partidos que representam classes antag\u00f4nicas. Val\u00e9rio pondera quando diz que \u201cn\u00e3o h\u00e1 muitas d\u00favidas de que o governo Lula foi um governo de colabora\u00e7\u00e3o de classes, ou seja, um governo burgu\u00eas at\u00edpico ou sui generis, porque dirigido pelo PT.\u00bb<a href=\"#_ftn31\" name=\"_ftnref31\"><sup><sup>[31]<\/sup><\/sup><\/a> Mais uma vez aparece de forma diferente a tese de um governo de <em>frente popular<\/em>. O fato de ser dirigido pelo PT torna um governo burgu\u00eas at\u00edpico? Aqui o fen\u00f4meno do transformismo petista foi desconsiderado na an\u00e1lise.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u00c9 certo que Lula foi fundamental para estabilizar a situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que vinha se perfilando no final do governo FHC e que se polarizava. Mas \u00e9 preciso identificar outro prop\u00f3sito. Al\u00e9m do elemento antecipador de um poss\u00edvel processo de levante popular que poderia reproduzir as rebeli\u00f5es vividas em v\u00e1rios pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina, os governos Lula\/Dilma cumpriram o papel de aprofundar o processo de financeiriza\u00e7\u00e3o do capitalismo no Brasil e de o estabelecer como principal representante do neoliberalismo na Am\u00e9rica do Sul.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Arcary considera que a novidade hist\u00f3rica de Lula \u00e9 que esse foi o primeiro governo de \u00abcolabora\u00e7\u00e3o de classes, em um pa\u00eds perif\u00e9rico, que n\u00e3o foi hostilizado pelos governos das pot\u00eancias que dominavam o sistema internacional de Estados.\u00bb<a href=\"#_ftn32\" name=\"_ftnref32\"><sup><sup>[32]<\/sup><\/sup><\/a>. Essa caracteriza\u00e7\u00e3o \u00e9 correta, mas \u00e9 preciso dizer que o fato n\u00e3o \u00e9 de que o governo n\u00e3o seja atacado pelo imperialismo, ao contr\u00e1rio, para ser mais preciso nesta caracteriza\u00e7\u00e3o, ele tem colaborado diretamente com o imperialismo no campo internacional, vide a ocupa\u00e7\u00e3o do Haiti e a pseudoneutralidade frente aos problemas que relacionam seus vizinhos e a burguesia estrangeira, como no caso das Ilhas Malvinas.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u00c9 preciso que fique claro que a alta popularidade do <em>lulismo<\/em> durante a \u00faltima d\u00e9cada se apoia nas pol\u00edticas de compensa\u00e7\u00e3o social, n\u00e3o exatamente em reformas. Da mesma maneira, \u00e9 necess\u00e1rio estabelecer uma distin\u00e7\u00e3o entre as pol\u00edticas de compensa\u00e7\u00e3o social e as reformas estruturais. As pol\u00edticas de compensa\u00e7\u00e3o social n\u00e3o s\u00e3o exatamente reformas que mudam estruturalmente a din\u00e2mica social, mas podem, ao inv\u00e9s disso, culminar em condi\u00e7\u00f5es para se agudizar a desigualdade social.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">A partir de uma premissa equivocada se chega dentro dessa l\u00f3gica a formar conclus\u00f5es n\u00e3o menos falsas. Se assim, vejamos. Arcary coloca a seguinte quest\u00e3o: \u00abPor que reformista? Por que foi um governo de colabora\u00e7\u00e3o de classes. O tema n\u00e3o \u00e9 controverso. Por que quase sem reformas?\u00bb. A premissa de que o governo \u00e9 de colabora\u00e7\u00e3o de classes segundo a perspectiva do autor leva a conclus\u00e3o mec\u00e2nica de que seria ent\u00e3o um governo reformista. Nesta l\u00f3gica, apesar de ser um governo que aplica mais contrarreformas do que reformas, esse continua sendo um governo reformista porque \u00e9 de colabora\u00e7\u00e3o de classes? Os fatos acabam sendo anuviados em nome de um esquema mental que considera que se o governo \u00e9 um governo do PT, um partido oper\u00e1rio, \u00e9 um governo de colabora\u00e7\u00e3o de classes e portanto e, necessariamente, um governo de frente popular.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Nesse sentido,h\u00e1 dois aspectos a serem considerados. O primeiro \u00e9 que o PT foi decisivo para que o movimento da consci\u00eancia de classe dos trabalhadores na d\u00e9cada de 80 ganhasse uma express\u00e3o pol\u00edtica reformista, mas a experi\u00eancia e as derrotas da d\u00e9cada de 90 foram o ch\u00e3o para que mesmo esse classismo prim\u00e1rio reflu\u00edsse. Nesse caso o PT tamb\u00e9m teve papel decisivo como elemento consciente da \u00abcorrup\u00e7\u00e3o\u00bb desse ganho de consci\u00eancia da d\u00e9cada de 80 e, dessa forma, ele foi express\u00e3o de um ganho na consci\u00eancia, mas durante a d\u00e9cada de 90 atuou para corromp\u00ea-la.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Verdade que as \u00abmassas populares\u00bb precisam de pontos de apoio para realizar as suas lutas, por\u00e9m muitas vezes o fazem sem contar com organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas j\u00e1 institu\u00eddas e tamb\u00e9m podem fazer a luta sem que suas pautas sejam express\u00e3o direta dos efeitos mais duros da crise econ\u00f4mica. Esse foi o caso da rebeli\u00e3o juvenil de Junho de 2013. Um setor das massas tomou as ruas em reposta \u00e0s condi\u00e7\u00f5es de exist\u00eancia de todo um setor urbano da popula\u00e7\u00e3o, particularmente o que vive nas periferias das grandes cidades. Esta mobiliza\u00e7\u00e3o nacional sacudiu a situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e fez a popularidade do governo despencar, demonstrando que a a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica das massas \u00e9 fundamental para limpar o terreno anal\u00edtico, ou seja, para se estabelecer uma clara distin\u00e7\u00e3o entre a propaganda governista e a realidade social e pol\u00edtica.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Ao dialogar com os setores que argumentam que o governo n\u00e3o tinha correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as para desenvolver pol\u00edticas pr\u00f3-trabalhadores, Arcary coloca que a quest\u00e3o chave \u00e9 saber se \u00abdurante os \u00faltimos anos, o governo lula esteve ou n\u00e3o disposto a desafiar o dom\u00ednio capitalista sobre a sociedade brasileira.\u00bb<a href=\"#_ftn33\" name=\"_ftnref33\"><sup><sup>[33]<\/sup><\/sup><\/a> A nosso ver, essa n\u00e3o parece ser uma quest\u00e3o real, se for considerado o movimento pol\u00edtico que o PT fez nas \u00faltimas d\u00e9cadas, e parece um impressionismo em rela\u00e7\u00e3o ao n\u00edvel de consci\u00eancia e capacidade de revolta das massas. \u00c9 como se houvesse atrav\u00e9s da elei\u00e7\u00e3o de Lula em si a possibilidade de um desbloqueio da luta de classes na medida que as massas iriam se sentir tra\u00eddas pela n\u00e3o realiza\u00e7\u00e3o de um programa mudan\u00e7as estruturais.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Apesar de estar em uma perspectiva pol\u00edtica distinta, Luiz Werneck Vianna<a href=\"#_ftn34\" name=\"_ftnref34\"><sup><sup>[34]<\/sup><\/sup><\/a> sustenta que o <em>lulismo <\/em>seria uma frente de classes no qual conviveriam for\u00e7as contradit\u00f3rias, mas que os conflitos, em \u00faltima inst\u00e2ncia, seriam decididos pelo presidente. Nesse sentido, o parlamento teria perdido poder de media\u00e7\u00e3o com a sociedade, pois esse teria sido absorvido por conselhos, como o do desenvolvimento econ\u00f4mico e social. O Estado (e governo) teria um certo elemento bonapartista, criando uma esp\u00e9cie de rela\u00e7\u00e3o direta com a sociedade ao trazer para o seu interior representantes diretos de v\u00e1rios setores e, al\u00e9m de absorver politicamente representantes da sociedade civil, tamb\u00e9m criou v\u00e1rias formas de depend\u00eancia financeira atrav\u00e9s de ongs, doa\u00e7\u00f5es, transfer\u00eancias do FAT, bolsas e etc. Vianna(2011) observa que h\u00e1 um processo generalizado de centraliza\u00e7\u00e3o administrativa que \u00e9 puxado por pol\u00edticas p\u00fablicas de justi\u00e7a social, o que requer racionaliza\u00e7\u00e3o das a\u00e7\u00f5es, o que leva racionalidade administrativa. Como exemplo utiliza o Conselho Nacional de Justi\u00e7a que tem estabelecido um forte controle e centraliza\u00e7\u00e3o sobre o poder judici\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Demandas democr\u00e1ticas contraditoriamente estariam refor\u00e7ando ou instituindo mecanismos nos quais se \u00abprescinde da participa\u00e7\u00e3o dos cidad\u00e3os, uma vez que decorre da a\u00e7\u00e3o das elites ilustradas(&#8230;)elites que encontram no governo a oportunidade de realiza\u00e7\u00e3o das suas agendas de democratiza\u00e7\u00e3o social\u00bb.<a href=\"#_ftn35\" name=\"_ftnref35\"><sup><sup>[35]<\/sup><\/sup><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Vianna acerta quando diz que o governo desde o in\u00edcio rompeu com o seu programa e estabeleceu continuidade com o governo anterior em rela\u00e7\u00e3o a pol\u00edtica econ\u00f4mica. Vemos aqui dois equ\u00edvocos. Em primeiro lugar porque n\u00e3o \u00e9 verdade que houve uma ruptura abrupta com um programa radical, n\u00e3o foi exatamente uma surpresa para o campo da esquerda o que ocorreu com o PT; em segundo lugar, um estado que abrigasse todas as classes sociais parece colocar uma situa\u00e7\u00e3o de igualdade que n\u00e3o havia no interior do governo devido \u00e0s media\u00e7\u00f5es causadas pelas distintas representa\u00e7\u00f5es no interior desse \u00abcondom\u00ednio presidencial\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Como express\u00e3o desse encontro de classes sociais distintas ter\u00edamos a presen\u00e7a de representantes do \u00abcapitalismo agr\u00e1rio e os trabalhadores do campo, ai inclu\u00eddo o MST, ambos ocupando, pelas suas representa\u00e7\u00f5es, posi\u00e7\u00f5es fortes na Administra\u00e7\u00e3o\u00bb<a href=\"#_ftn36\" name=\"_ftnref36\"><sup><sup>[36]<\/sup><\/sup><\/a> Para o autor, o governo Lula n\u00e3o estaria sen\u00e3o que repetindo a tradi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica nacional a realizar um movimento sem supera\u00e7\u00e3o, uma \u00abdial\u00e9tica sem s\u00edntese\u00bb, pois depois de v\u00e1rias elei\u00e7\u00f5es superaram eleitoralmente o PSDB para logo ap\u00f3s reintegr\u00e1-lo ao poder atrav\u00e9s da presid\u00eancia do banco central. Aqui se comete o mesmo equ\u00edvoco que muitos analistas em rela\u00e7\u00e3o a defini\u00e7\u00e3o do governo Lula como uma forma de revolu\u00e7\u00e3o passiva, apesar de todo o rastro pol\u00edtico de conservadorismo deixado pelo PT durante o seu movimento at\u00e9 chegar a vit\u00f3ria eleitoral de 2002. Perde-se a dimens\u00e3o de que n\u00e3o se trata mais de uma forma de transforma\u00e7\u00e3o e que assume, com efeito, o programa das \u00abfor\u00e7as de conserva\u00e7\u00e3o\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><em>4.2.2 A hegemonia \u00e0s avessas<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Dentro do quadro de autores cr\u00edticos ao <em>lulismo<\/em> se encontra o renomado soci\u00f3logo Francisco de Oliveira. Este considera que o <em>lulismo<\/em> \u00e9 um fen\u00f4meno pol\u00edtico regressivo, que cumpriu o papel de desmobilizar e despolitizar o pa\u00eds e aplicou um programa contra os interesses dos trabalhadores. Esse renomado soci\u00f3logo, re\u00fane em torno de suas teses pesquisadores que compartilham da mesma compreens\u00e3o \u2013 com adequa\u00e7\u00f5es aqui e ali \u2013 de suas quest\u00f5es e hip\u00f3teses centrais. Apesar deste setor da intelectualidade acad\u00eamica apresentar uma cr\u00edtica um pouco mais contumaz e dialogar com organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas que est\u00e3o na oposi\u00e7\u00e3o de esquerda ao governo, pensamos que tamb\u00e9m apresentam como resultado de sua pesquisa uma vis\u00e3o que n\u00e3o compartilhamos.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Na elabora\u00e7\u00e3o de Oliveira: \u00bb esse curioso fen\u00f4meno em que parte \u2018dos de baixo\u2019 dirige o Estado por interm\u00e9dio do programa \u2018dos de cima\u2019<a href=\"#_ftn37\" name=\"_ftnref37\"><sup><sup>[37]<\/sup><\/sup><\/a>, desconsidera-se a trajet\u00f3ria pol\u00edtica que faz o PT na d\u00e9cada de 90 e o seu profundo \u00abtransformismo\u00bb que n\u00e3o nos permite afirmar que \u00abparte dos de baixo\u00bb dirige o Estado. A burocracia sindical <em>lulista<\/em> quando chega ao governo j\u00e1 fez um movimento pol\u00edtico-social de incorpora\u00e7\u00e3o tanto social quanto program\u00e1tica \u00e0 classe dominante.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">O autor afirma que o mandato era \u00abintensamente reformista no sentido cl\u00e1ssico do termo\u00bb no qual se esperava o \u00abalargamento dos espa\u00e7os de participa\u00e7\u00e3o nas decis\u00f5es da grande massa popular, intensa distribui\u00e7\u00e3o de renda\u00bb e finalmente uma reforma pol\u00edtica e da pol\u00edtica que desse fim a longa persist\u00eancia do patrimonialismo\u00bb<a href=\"#_ftn38\" name=\"_ftnref38\"><sup><sup>[38]<\/sup><\/sup><\/a> Mas, n\u00e3o chega a estas conclus\u00f5es a partir da configura\u00e7\u00e3o pol\u00edtico-social do governo e do conjunto de suas medidas nesses 12 anos e, desta forma, n\u00e3o conclui que o profundo transformismo petista e <em>lulista <\/em>n\u00e3o nos permite dizer que h\u00e1 uma \u201chegemonia \u00e0s avessas\u201d e que n\u00e3o houve uma inflex\u00e3o total das propostas petistas e sim um longo processo de adapta\u00e7\u00e3o desse partido ao programa social-liberal. Sobra a Oliveira uma rea\u00e7\u00e3o at\u00f4nita e infelizmente pouco interpretativa em rela\u00e7\u00e3o ao o que \u00e9 o <em>pacto lulista<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><em>4.2.3 A revolu\u00e7\u00e3o passiva \u00e0 brasileira<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Vamos a an\u00e1lise do que estamos chamando de falsas premissas que comp\u00f5em o corpo te\u00f3rico que traduz de maneira equivocada o conceito gramsciano de revolu\u00e7\u00e3o passiva aplicado ao <em>lulismo<\/em> como movimento pol\u00edtico. Al\u00e9m disso, existe um alinhamento te\u00f3rico em torno das interpreta\u00e7\u00f5es de Oliveira sobre o qual teremos que tecer alguns coment\u00e1rios.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Nas palavras de Ruy Braga: \u00aba esse curioso fen\u00f4meno \u00abtransformista\u00bb em que parte \u00abdos de baixo\u00bb dirige o Estado por interm\u00e9dio do programa \u00abdos de cima\u00bb, Chico chamou \u00abhegemonia \u00e0s avessas\u00bb: vit\u00f3rias pol\u00edticas, intelectuais e morais \u00abdos de baixo\u00bb fortalecem dialeticamente as rela\u00e7\u00f5es sociais de explora\u00e7\u00e3o em benef\u00edcio \u00abdos de cima\u00bb.<a href=\"#_ftn39\" name=\"_ftnref39\"><sup><sup>[39]<\/sup><\/sup><\/a> O governo Lula,ent\u00e3o, foi um dos mais est\u00e1veis da hist\u00f3ria do pa\u00eds e isso se deve a constru\u00e7\u00e3o de um governo de coaliza\u00e7\u00e3o que contava com o apoio dos sindicatos e dos principais movimentos sociais. Al\u00e9m disso, foram criadas uma s\u00e9rie de expectativas em torno de um presidente que tinha origem oper\u00e1ria e foi lideran\u00e7a do grande movimento oper\u00e1rio que surgiu no final da d\u00e9cada de 1970.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">N\u00e3o podemos concordar com a an\u00e1lise de que Lula, a burocracia sindical, o seu governo de alian\u00e7a com Jos\u00e9 Alencar e toda banca possam ser considerados com \u00abparte dos de baixo\u00bb e nem que aplicavam uma \u00abhegemonia \u00e0s avessas\u00bb ao aplicar um programa que n\u00e3o lhes era comum. O deslocamento eleitoral do <em>subproletariado<\/em>, setor de classe que soma mais de 40 milh\u00f5es de pessoas, portanto um <em>peso<\/em> eleitoral important\u00edssimo, foi um fen\u00f4meno decisivo na reelei\u00e7\u00e3o de Lula, ap\u00f3s o afastamento de grandes contingentes da classe m\u00e9dia a partir da den\u00fancia do \u00abmensal\u00e3o\u00bb em 2005, o que lhe permitiu derrotar o PSDB em 2006, eleger Dilma em 2010 e reeleg\u00ea-la agora em 2014.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Assim, nesta perspectiva, o programa Bolsa Fam\u00edlia \u201cteria garantido a maci\u00e7a ades\u00e3o dos setores pauperizados das classes subalternas brasileiras ao projeto do governo, jogando no campo do seu advers\u00e1rio eleitoral, isto \u00e9, da instrumentaliza\u00e7\u00e3o da pobreza e da gest\u00e3o burocr\u00e1tica dos conflitos sociais, o governo Lula soube derrotar o \u00abPartido da Social Democracia Brasileira (PSDB), mas ao pre\u00e7o da despolitiza\u00e7\u00e3o generalizada das lutas sociais.\u00bb<a href=\"#_ftn40\" name=\"_ftnref40\"><sup><sup>[40]<\/sup><\/sup><\/a> Que o governo Lula tenha utilizado do mesmo expediente de conceder pol\u00edticas de compensa\u00e7\u00e3o social que os seus advers\u00e1rios eleitorais \u00e9 uma quest\u00e3o que parece estar fora do debate aqui. Mas, aqui entra em cena a identidade estabelecida por Oliveira e seguida por Braga entre redu\u00e7\u00e3o da pobreza monet\u00e1ria &#8211; at\u00e9 Singer reconhece isso &#8211; e combate \u00e0 desigualdade social.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Braga est\u00e1 correto quando refuta a tese de que o <em>subproletariado<\/em> n\u00e3o pode ser confinado apenas a \u00abparticipa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica eleitoral\u00bb e que esse setor de classe tamb\u00e9m foi o respons\u00e1vel pela constru\u00e7\u00e3o do PT, da CUT e tamb\u00e9m pela elei\u00e7\u00e3o de Lula, pois \u00aba reconstru\u00e7\u00e3o sociol\u00f3gica da forma\u00e7\u00e3o da trajet\u00f3ria dessa fra\u00e7\u00e3o de classe mostrar\u00e1 que apesar da atual estabilidade do modo de regula\u00e7\u00e3o proporcionada pelo \u00abtransformismo\u00bb petista, a <em>hegemonia lulista<\/em> encontra-se assentada em um terreno historicamente movedi\u00e7o.\u00bb<a href=\"#_ftn41\" name=\"_ftnref41\"><sup><sup>[41]<\/sup><\/sup><\/a> Isso \u00e9 correto, pois o <em>subproletariado <\/em>tem sido um setor que demonstra grande dinamismo social, e nesse dinamismo, ao se incorporar a classe trabalhadora, acaba por se transformar no setor jovem e mais din\u00e2mico dessa classe.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Apesar dos seus limites sociais e pol\u00edticos dos camponeses sem terra ou do movimento dos trabalhadores sem-terra, que n\u00e3o podem como o fez a classe oper\u00e1ria na d\u00e9cada de 80, formar um partido ou uma central sindical da envergadura da CUT, tamb\u00e9m podemos presenciar que o <em>subproletariado<\/em> \u00e9 respons\u00e1vel por in\u00fameros exemplos de combatividade e politiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">A dial\u00e9tica do <em>lulismo <\/em>\u00e9 composta pela combina\u00e7\u00e3o entre consentimento passivo das massas e consentimento ativo das dire\u00e7\u00f5es sindicais. Dessa forma, essa forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica tem como ess\u00eancia \u00abo consentimento passivo das massas(&#8230;)com o consentimento ativo das dire\u00e7\u00f5es sindicais\u00bb. N\u00e3o parece que o lulismo seja apenas a jun\u00e7\u00e3o da lideran\u00e7a sindical, enriquecida pelos cargos p\u00fablicos, fundos de pens\u00e3o e outros \u00abneg\u00f3cios\u00bb com a massa do <em>subproletariado<\/em> que est\u00e1 seduzida pelas pol\u00edticas de compensa\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Por isso \u00e9 certo afirmar que que o <em>subproletariado<\/em> pode passar da inatividade pol\u00edtica a atividade como em outros momentos da hist\u00f3ria pol\u00edtica brasileira. Por\u00e9m, n\u00e3o se pode transpor de maneira mec\u00e2nica a rela\u00e7\u00e3o entre a burocracia sindical da d\u00e9cada de 1970 com o setor mais prec\u00e1rio da classe trabalhadora que ao combater a pauperiza\u00e7\u00e3o se politizou e acabou construindo as maiores organiza\u00e7\u00f5es oper\u00e1rias da hist\u00f3ria do Brasil, como faz Braga. Importantes revoltas do<em> subproletariado<\/em> contra as condi\u00e7\u00f5es de exist\u00eancia &#8211; como as dos trabalhadores nas obras do PAC em Belo Monte, por exemplo &#8211; j\u00e1 estavam ocorrendo desde 2011.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Para o autor, a dial\u00e9tica do <em>lulismo<\/em> seria composta da seguinte forma: \u00abo momento negativo deve ser buscado no amadurecimento da experi\u00eancia oper\u00e1ria ao longo do clico grevista de 1978-80, o conservador na reconcilia\u00e7\u00e3o da burocracia de S\u00e3o Bernardo com a estrutura sindical oficial e, consequentemente, com o Estado capitalista &#8211; coroada pela transforma\u00e7\u00e3o, ao longo dos anos 1990, do PT em not\u00e1vel m\u00e1quina eleitoral -, e a eleva\u00e7\u00e3o, na conquista do governo federal em 2002, que possibilitou aquela burocracia sindical converter-se, definitivamente, em gestora da poupan\u00e7a dos trabalhadores\u00bb<a href=\"#_ftn42\" name=\"_ftnref42\"><sup><sup>[42]<\/sup><\/sup><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Compartilhamos a ideia de que a burocracia <em>lulista<\/em> tem sua genealogia ligada ao grande ascenso sindical do final da d\u00e9cada de 70 que foi parte da nega\u00e7\u00e3o da estrutura sindical e da ditadura militar, luta sindical que ao romper com o oficialismo se colocou como dire\u00e7\u00e3o, entretanto, j\u00e1 na greve de 1980, ela cumpriu o papel de freio da necess\u00e1ria unifica\u00e7\u00e3o metal\u00fargica, \u00fanica forma de criar a for\u00e7a necess\u00e1ria para impor as reivindica\u00e7\u00f5es oper\u00e1rias, enfrentar a patronal e os militares e a partir da\u00ed criar as condi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para reagir \u00e0 ditadura de forma cabal.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">A hip\u00f3tese de o <em>lulismo <\/em>ser uma esp\u00e9cie de <em>revolu\u00e7\u00e3o passiva<\/em> n\u00e3o se sustenta, pois seria um processo no qual conserva\u00e7\u00e3o e transforma\u00e7\u00e3o ocorrem de forma combinada &#8211; como todo movimento dial\u00e9tico, \u00e9 composto por uma dada combina\u00e7\u00e3o de mudan\u00e7a e conserva\u00e7\u00e3o que pode ser quantitativa ou qualitativa &#8211; no qual um elemento n\u00e3o neutraliza o outro, ao contr\u00e1rio predomina sendo que, no caso da <em>revolu\u00e7\u00e3o passiva<\/em>, a transforma\u00e7\u00e3o \u00e9 predominante.<\/p>\n<ol style=\"text-align: left;\" start=\"5\">\n<li><strong> UMA DEFINI\u00c7\u00c3O DA HEGEMONIA LULISTA<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: left;\">Procuramos interpretar o fen\u00f4meno em quest\u00e3o utilizando ferramentas conceituais consagradas pelo marxismo revolucion\u00e1rio durante o s\u00e9culo XX. Ferramentas estas que est\u00e3o sendo usadas em larga escala, mas de forma equ\u00edvoca a nosso ver.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><strong>5.1 As contribui\u00e7\u00f5es te\u00f3ricas de Trotsky e de Gramsci<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Pensamos que existem duas contribui\u00e7\u00f5es para interpretar o fen\u00f4meno pol\u00edtico em quest\u00e3o que, guardadas as suas especificidades, podem ser encaradas de forma complementar. Estamos falando das categorias pol\u00edticas elaboradas por Leon Trotsky e Antonio Gramsci para interpretar os processos pol\u00edticos do s\u00e9culo XX. Estes dois autores t\u00eam como crit\u00e9rio encontrar a l\u00f3gica pr\u00f3pria dos processos pol\u00edticos. Assim, n\u00e3o se trata de inven\u00e7\u00f5es categoriais que se sobrep\u00f5em aos fen\u00f4menos, ao contr\u00e1rio, buscam na realidade o seu movimento l\u00f3gico, n\u00e3o \u00e9 a coisa da l\u00f3gica, mas a l\u00f3gica da coisa que est\u00e1 em quest\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Esse \u00e9 o caso da an\u00e1lise que Trotsky faz da <em>Frente Popular <\/em>na Fran\u00e7a durante a d\u00e9cada de 1930. A an\u00e1lise sobre um movimento pol\u00edtico de esquerda que acaba como governo de concilia\u00e7\u00e3o de classes, deixou-nos li\u00e7\u00f5es preciosas sobre o fazer pol\u00edtico. Gramsci, por sua vez, analisa o processo de moderniza\u00e7\u00e3o italiano no s\u00e9culo XIX e tamb\u00e9m deixa um ferramental conceitual decisivo atrav\u00e9s da \u00abrevolu\u00e7\u00e3o passiva\u00bb (predom\u00ednio da transforma\u00e7\u00e3o na dial\u00e9tica rea\u00e7\u00e3o-transforma\u00e7\u00e3o) e da \u00abcontrarrevolu\u00e7\u00e3o\u00bb (predom\u00ednio da rea\u00e7\u00e3o) para compreendermos o desenvolvimento hist\u00f3rico que nem sempre ocorre por rupturas revolucion\u00e1rias, principalmente se levamos em conta o percurso hist\u00f3rico brasileiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">H\u00e1 entre os dois autores significativos pontos de encontro sobre essas respectivas formula\u00e7\u00f5es &#8211; principalmente em rela\u00e7\u00e3o aos conceitos de <em>bonapartismo sui generis<\/em> e <em>revolu\u00e7\u00e3o passiva<\/em> &#8211; para explicar a forma\u00e7\u00e3o dos estados modernos e a composi\u00e7\u00e3o de governos no interior do desigual desenvolvimento econ\u00f4mico e pol\u00edtico vivido no Brasil. Da mesma forma que a categoria de \u201cfrente popular\u201d, o conceito de \u00abrevolu\u00e7\u00e3o passiva\u00bb em absoluto n\u00e3o se aplica ao Brasil da era <em>lulista<\/em>. No Brasil n\u00e3o assistimos nem a sombra do que poderia ser uma revolu\u00e7\u00e3o passiva. Por aqui as condi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas que levaram Lula ao governo n\u00e3o contavam com uma luta generalizada de descontentamento popular espont\u00e2nea ou de forma organizada, o que havia sim era o descontentamento com a pol\u00edtica neoliberal de FHC que tendia sim a uma rebeli\u00e3o, mas apenas tendia. Da\u00ed a pol\u00edtica do PT e da maioria da burguesia de montar um governo de coaliza\u00e7\u00e3o. Tudo isso como uma forma de prevenir a necessidade de uma rea\u00e7\u00e3o direta \u00e0 insatisfa\u00e7\u00e3o popular.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Quais seriam as condi\u00e7\u00f5es para a realiza\u00e7\u00e3o da <em>frente popula<\/em>r? Segundo Trotsky nessa alian\u00e7a do proletariado com a burguesia imperialista, ou melhor em \u00abuma alian\u00e7a do proletariado com a burguesia imperialista, representada pelo partido radical, e outros despojos da mesma esp\u00e9cie e menor envergadura. Essa alian\u00e7a se estende ao terreno parlamentar.\u00bb<a href=\"#_ftn43\" name=\"_ftnref43\"><sup><sup>[43]<\/sup><\/sup><\/a> Ou seja, para que aja uma alian\u00e7a do proletariado com a burguesia imperialista isso s\u00f3 pode ocorrer atrav\u00e9s de um partido oper\u00e1rio, que no caso da Fran\u00e7a est\u00e1 representado pelo Partido Comunista Franc\u00eas (PCF) que, apesar de reformista, ainda poderia ser considerado como oper\u00e1rio. Por outro lado, a burguesia imperialista tem no Partido Radical a sua representa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Nessa composi\u00e7\u00e3o de classes, n\u00e3o h\u00e1 um equil\u00edbrio, pelo contr\u00e1rio, a burguesia \u00abconserva toda a sua liberdade de a\u00e7\u00e3o\u00bb e \u00ablimita brutalmente a liberdade de a\u00e7\u00e3o do proletariado\u00bb<a href=\"#_ftn44\" name=\"_ftnref44\"><sup><sup>[44]<\/sup><\/sup><\/a>. O governo de <em>Frente Popular<\/em> comporta um elemento que muitas vezes \u00e9 desconsiderado por aqueles que enquadram o <em>lulismo<\/em> nessa categoria, mas que \u00e9 indispens\u00e1vel para a composi\u00e7\u00e3o dessa forma de governo burgu\u00eas. \u00c9 o elemento da instabilidade: a atividade pol\u00edtica do movimento de massas. Fator que ficou mais evidente no governo de Dilma, mas que esteve presente em alguns momentos do governo de Lula.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">A <em>frente popular<\/em> conta com uma participa\u00e7\u00e3o ativa das massas, que \u00abmostram, por seu voto e por sua luta, que querem derrubar o partido radical, os chefes da Frente \u00danica, ao contr\u00e1rio, aspiram a salv\u00e1-lo.\u00bb<a href=\"#_ftn45\" name=\"_ftnref45\"><sup><sup>[45]<\/sup><\/sup><\/a> Ou seja, as massas mostram pelo voto e pela luta que querem derrubar os elementos burgueses dessa frente, mas os dirigentes, atuam no sentido de preserv\u00e1-los. Portanto h\u00e1 um latente descompasso entre a vontade pol\u00edtica das massas e a a\u00e7\u00e3o dos partidos que representam os prolet\u00e1rios.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Trotsky descreve a opera\u00e7\u00e3o na qual os dirigentes dos partidos oper\u00e1rios ganham a confian\u00e7a das massas por interm\u00e9dio de um programa \u00absocialista\u00bb, mas somente para entregar \u00abvoluntariamente a parte do le\u00e3o desta confian\u00e7a aos radicais, nos quais as massas n\u00e3o tem confian\u00e7a alguma\u00bb<a href=\"#_ftn46\" name=\"_ftnref46\"><sup><sup>[46]<\/sup><\/sup><\/a> Opera-se uma esp\u00e9cie de \u00abtransformismo\u00bb pol\u00edtico cujos dirigentes oper\u00e1rios em quem as massas depositam sua confian\u00e7a, no curso do processo de seu enfrentamento com a burguesia, se transformam em dirigentes que, ao ascender ao governo, traem imediatamente a confian\u00e7a das mesmas.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Com a \u00abevolu\u00e7\u00e3o\u00bb da <em>Frente Popular<\/em> na Fran\u00e7a n\u00e3o restou muito mais do que a colabora\u00e7\u00e3o de classes entre pseudorepresentantes do proletariado (reformistas e stalinistas) e da pequena burguesia (radicais), n\u00e3o uma alian\u00e7a entre prolet\u00e1rios e a pequena burguesia. Na verdade, o partido da pequena burguesia representa os interesses do capital financeiro no interior da frente popular. A <em>Frente Popular<\/em> vive um drama pol\u00edtico de repercuss\u00f5es hist\u00f3ricas, e n\u00e3o consegue superar o impasse hist\u00f3rico porque teme a debandada da classe m\u00e9dia, assim fica a meio caminho para n\u00e3o amea\u00e7ar a ordem social.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Trotsky como agudo analista pol\u00edtico prev\u00ea que o impasse n\u00e3o pode durar ad aeternum e, apoiada pelo capital financeiro, a pequena burguesia tende \u00e0 direita. Assim, a exemplo de outros pa\u00edses da Europa, uma nova configura\u00e7\u00e3o pol\u00edtica se estabelecer\u00e1, significar\u00e1 \u00abo come\u00e7o do fascismo na Fran\u00e7a, n\u00e3o somente como organiza\u00e7\u00e3o semimilitar dos filhos de boa fam\u00edlia, com autom\u00f3veis e avi\u00f5es, mas tamb\u00e9m como verdadeiro movimento de massas\u00bb<a href=\"#_ftn47\" name=\"_ftnref47\"><sup><sup>[47]<\/sup><\/sup><\/a>. Aqui vemos que a Frente Popular de maneira \u00abcl\u00e1ssica\u00bb configura uma situa\u00e7\u00e3o &#8211; inclusive mundial &#8211; de polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que tende a levar a situa\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1rias ou contrarrevolucion\u00e1rias, estamos no meio da era dos extremos.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">A constru\u00e7\u00e3o do <em>pacto lulista <\/em>que se efetivou na elei\u00e7\u00e3o de 2002 se deu em um momento antes da possiblidade de eclos\u00e3o de uma \u00abrevolu\u00e7\u00e3o passiva\u00bb. Por outro lado, as demandas populares n\u00e3o foram atendidas por essa forma de domina\u00e7\u00e3o. Aqui parece que n\u00e3o cabe muito esfor\u00e7o conceitual, basta descrever quais foram as pol\u00edticas do <em>lulismo <\/em>at\u00e9 hoje que d\u00e3o conta de afirmar que as pol\u00edticas de compensa\u00e7\u00e3o social n\u00e3o s\u00e3o exatamente o atendimento das demandas dos de \u00abbaixo\u00bb. Em Gramsci a <em>revolu\u00e7\u00e3o passiva<\/em> \u00e9 um conceito que se aplica quando estamos diante de grandes acontecimentos e desafios hist\u00f3ricos, tais como as reformas na Europa durante o s\u00e9culo XIX que foram respons\u00e1veis pela centraliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e a passagem de regimes mon\u00e1rquicos para rep\u00fablica, na qual a classe dominante respondeu \u201cpelo alto\u201d as tarefas que a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa exigia, ou seja, foi um caminho de transforma\u00e7\u00e3o que anulou a &#8211; perigosa &#8211; possibilidade de mobiliza\u00e7\u00e3o das massas populares.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">A desigualdade no desenvolvimento capitalista na Europa e em outros continentes proporcionou forma\u00e7\u00f5es sociais distintas. Convivem com os processos cl\u00e1ssicos (mesmo estes cont\u00eam uma s\u00e9rie de movimentos contradit\u00f3rios) de forma\u00e7\u00e3o capitalista e do estado moderno com vias \u00abtardias\u00bb como a alem\u00e3, italiana e japonesa, al\u00e9m das \u00abhipertardias\u00bb como as da am\u00e9rica latina. S\u00e3o processos de moderniza\u00e7\u00e3o n\u00e3o cl\u00e1ssicos porque n\u00e3o contaram com revolu\u00e7\u00f5es que bloquearam a mobiliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica das massas populares e n\u00e3o significaram uma ruptura radical com o antigo regime, como a revolu\u00e7\u00e3o francesa do final do s\u00e9culo XVIII, maior exemplo disso.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">O conceito de \u00abrevolu\u00e7\u00e3o passiva\u00bb por Gramsci se d\u00e1 a partir da observa\u00e7\u00e3o de experi\u00eancias hist\u00f3ricas concretas, como a transi\u00e7\u00e3o na It\u00e1lia do regime feudal para o capitalismo, a restaura\u00e7\u00e3o p\u00f3s-napole\u00f4nica na Fran\u00e7a da d\u00e9cada de 1840 ou a unifica\u00e7\u00e3o alem\u00e3 sob Bismarck. Esses processos ocorreram sem a participa\u00e7\u00e3o das massas camponesas, os seus partidos foram neutralizados pois n\u00e3o conseguiram formular projetos hegem\u00f4nicos para atender aos interesses do povo, o que significou a marginaliza\u00e7\u00e3o destes partidos.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Para se compreender a \u00abrevolu\u00e7\u00e3o passiva\u00bb \u00e9 \u00fatil o conhecimento do conceito de \u00abcrise org\u00e2nica\u00bb, pois quando essa ocorre h\u00e1 um \u00ababalo das estruturas e superestruturas de um bloco hist\u00f3rico, abrindo-se a possibilidade de surgimento de novas formas de organiza\u00e7\u00e3o social\u00bb<a href=\"#_ftn48\" name=\"_ftnref48\"><sup><sup>[48]<\/sup><\/sup><\/a> Desta maneira, diante das crises org\u00e2nicas as antigas classes dominantes temem que novas revolu\u00e7\u00f5es populares como as jacobinas ( na qual a classe dominante poderia perder o controle pol\u00edtico) se realizem e, assim, procura construir processos que incorporem as reivindica\u00e7\u00f5es dos de baixo de forma moderada, sem participa\u00e7\u00e3o popular, tal como foi a transi\u00e7\u00e3o do feudalismo para o capitalismo na It\u00e1lia.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">O <em>lulismo<\/em> frente ao governo federal parece longe da categoria de <em>revolu\u00e7\u00e3o passiva<\/em>. Trata-se de um governo de coaliza\u00e7\u00e3o que acabou, por conting\u00eancias pol\u00edticas, findando num refor\u00e7o do papel do chefe em seu interior. Gramsci diz que \u00abcada governo de coalis\u00e3o \u00e9 um grau inicial de cesarismo, que pode ou n\u00e3o se desenvolver at\u00e9 graus mais significativos.<a href=\"#_ftn49\" name=\"_ftnref49\"><sup><sup>[49]<\/sup><\/sup><\/a> Nessa forma de governo \u00abse exprime sempre a solu\u00e7\u00e3o &#8216;arbitri&#8217;, confiada a uma grande personalidade, de uma situa\u00e7\u00e3o hist\u00f3rico-pol\u00edtica caracterizada por um equil\u00edbrio de for\u00e7as de perspectiva catastr\u00f3fica.\u00bb<a href=\"#_ftn50\" name=\"_ftnref50\"><sup><sup>[50]<\/sup><\/sup><\/a> Ou seja, d\u00e1-se uma situa\u00e7\u00e3o em que uma personalidade pol\u00edtica forte assume o poder a partir de um ponto de equil\u00edbrio entre as classes, evento sem o qual se enveredaria possivelmente a uma situa\u00e7\u00e3o de crise generalizada, vazio tempor\u00e1rio de poder. Uma vez consolidada, contudo, a assun\u00e7\u00e3o ao comando pode levar a uma solu\u00e7\u00e3o progressista ou regressiva, mas novamente contamos com a presen\u00e7a de for\u00e7as pol\u00edticas ativamente contr\u00e1rias.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Para se caracterizar se a sa\u00edda pelo alto \u2013 cesarista \u2013, atrav\u00e9s de um golpe de estado ou de uma elei\u00e7\u00e3o, trata-se de uma \u00abrevolu\u00e7\u00e3o passiva\u00bb, segundo Gramsci, \u00e9 necess\u00e1rio considerar dentro desse processo se na \u00abdial\u00e9tica &#8216;revolu\u00e7\u00e3o-restaura\u00e7\u00e3o&#8217; \u00e9 o elemento da revolu\u00e7\u00e3o ou o elemento da restaura\u00e7\u00e3o que prevalece\u00bb.<a href=\"#_ftn51\" name=\"_ftnref51\"><sup><sup>[51]<\/sup><\/sup><\/a> A <em>revolu\u00e7\u00e3o passiva<\/em> n\u00e3o \u00e9 uma revolu\u00e7\u00e3o desde baixo, feita pelas massas, uma revolu\u00e7\u00e3o jacobina e isso determina que se d\u00ea um processo combinado entre os elementos de restaura\u00e7\u00e3o e revolu\u00e7\u00e3o, mas no qual predomina o elemento revolu\u00e7\u00e3o. Tal fato s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel, por\u00e9m, porque a classe trabalhadora n\u00e3o disp\u00f5e de organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas que possam construir uma contra hegemonia capaz de dirigi-la para revolu\u00e7\u00f5es em que ela esteja na cabe\u00e7a e realize o seu pr\u00f3prio programa.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">As crises econ\u00f4micas em Gramsci, bem como para outros autores cl\u00e1ssicos, n\u00e3o significam imediatamente uma crise pol\u00edtica e, muito menos, favor\u00e1vel ao socialismo. A crise pol\u00edtica, conforme surja, pode levar a fen\u00f4menos pol\u00edticos regressivos como \u00abgolpes de Estado por parte das classes dominantes\u00bb.<a href=\"#_ftn52\" name=\"_ftnref52\"><sup><sup>[52]<\/sup><\/sup><\/a> Assim,da defini\u00e7\u00e3o de <em>revolu\u00e7\u00e3o passiva<\/em> \u00e9 necess\u00e1rio fazer as an\u00e1lises pol\u00edticas mais concretas poss\u00edveis para se poder identificar do que se tratam os fen\u00f4menos estudados, pois no processo de enfrentamento a uma forma ou outra de domina\u00e7\u00e3o existem distintos desdobramentos e tamb\u00e9m cabem diferentes pol\u00edticas de enfrentamento.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Apesar de ser uma transforma\u00e7\u00e3o por cima, a <em>revolu\u00e7\u00e3o passiva<\/em> provoca mudan\u00e7as moleculares na correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as e se transforma \u00abem matriz de novas modifica\u00e7\u00f5es.\u00bb<a href=\"#_ftn53\" name=\"_ftnref53\"><sup><sup>[53]<\/sup><\/sup><\/a>. Parece que nesse crit\u00e9rio a revolu\u00e7\u00e3o passiva daria lugar a possibilidades de transforma\u00e7\u00f5es desde baixo. Em uma compara\u00e7\u00e3o com Trotsky, seria um quadro similar \u00e0s <em>frentes populares, <\/em>que dariam lugar a um processo de radicaliza\u00e7\u00e3o, abrindo possibilidades para avan\u00e7os ou retrocessos hist\u00f3ricos.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">O esquema te\u00f3rico de que o <em>lulismo <\/em>seria um arranjo pol\u00edtico entre a burocracia sindical\/pol\u00edtica e o \u201cprecariado\u201d(Braga, 2012) como fulcro da \u00abrevolu\u00e7\u00e3o passiva \u00e0 brasileira\u00bb nos parece tamb\u00e9m um equ\u00edvoco. No interior do governo a burocracia cutista cumpre o papel de administrar diretamente os neg\u00f3cios da burguesia. Mas, o governo n\u00e3o \u00e9 definido apenas pelo \u201cconsentimento ativo\u201d dos dirigentes do PT e da CUT, \u00e9 tamb\u00e9m composto por representantes pol\u00edticos diretos da burguesia em suas v\u00e1rias fra\u00e7\u00f5es dentro do governo.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Afirmar que o Brasil \u00e9 um caso de <em>revolu\u00e7\u00e3o passiva<\/em> devido ao \u201cconsentimento passivo\u201d das massas \u00e9 abstrair um dos elementos dessa forma de hegemonia (domina\u00e7\u00e3o) burguesa. Falta ao <em>lulismo<\/em> e \u00e0s suas pol\u00edticas um alcance estrat\u00e9gico que provoque mudan\u00e7as reais na superestrutura ou mesmo nas rela\u00e7\u00f5es entre as classes. Essas pol\u00edticas, al\u00e9m de serem um paliativo, acabam por reproduzir a pobreza entre as massas.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Gramsci diferencia a \u00abgrande pol\u00edtica\u00bb da \u00abpol\u00edtica menor\u00bb. A grande pol\u00edtica est\u00e1 voltada aos grandes projetos, para defesa ou destrui\u00e7\u00e3o de \u00abdeterminadas estruturas org\u00e2nicas econ\u00f4mico-sociais.\u00bb<a href=\"#_ftn54\" name=\"_ftnref54\"><sup><sup>[54]<\/sup><\/sup><\/a> A \u00abgrande pol\u00edtica\u00bb portanto n\u00e3o se faz sem o conflito aberto entre classes sociais ou entre setores de classe, conflito este que de alguma forma muda a fisionomia da sociedade na qual ocorre essa disputa. O autor italiano acrescenta que \u00ab\u00e9 grande pol\u00edtica tentar excluir a grande pol\u00edtica do \u00e2mbito interno da vida estatal e reduzir tudo a pequena pol\u00edtica\u00bb<a href=\"#_ftn55\" name=\"_ftnref55\"><sup><sup>[55]<\/sup><\/sup><\/a> Assim, a \u00abgrande pol\u00edtica\u00bb pode, de alguma forma, ser traduzida em uma manobra pol\u00edtica que tire a a\u00e7\u00e3o das massas da vida pol\u00edtica da sociedade.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">A \u00abpol\u00edtica menor\u00bb \u00e9 a pol\u00edtica do cotidiano, das quest\u00f5es parciais, parlamentares ou palacianas, ou seja, das disputas \u00abque se apresentam no interior de uma estrutura j\u00e1 estabelecida, em virtude de lutas pela predomin\u00e2ncia entre as diversas fra\u00e7\u00f5es de uma mesma classe pol\u00edtica. \u00ab<a href=\"#_ftn56\" name=\"_ftnref56\"><sup><sup>[56]<\/sup><\/sup><\/a> Como n\u00e3o existe hegemonia sem consenso, a hegemonia da pequena pol\u00edtica ocorre sobre o <em>consentimento passivo<\/em>. No <em>consentimento passivo<\/em> n\u00e3o h\u00e1 auto-organiza\u00e7\u00e3o das massas, o que predomina \u00e9 a aceita\u00e7\u00e3o resignada do poder como est\u00e1 posto. Para Coutinho (2010), quando se naturaliza que o fazer pol\u00edtico n\u00e3o passa de uma disputa pelo poder no interior da classe dominante ou entre as elites, ocorre hegemonia da pequena pol\u00edtica<a href=\"#_ftn57\" name=\"_ftnref57\"><sup><sup>[57]<\/sup><\/sup><\/a> Assim, as batalhas hegem\u00f4nicas podem ocorrer n\u00e3o apenas no meio da disputa de projetos hegem\u00f4nicos de sociedade, apesar desta ter sido uma forma bastante presente na hist\u00f3ria. Atualmente, as disputas n\u00e3o t\u00eam ocorrido em torno de posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas realmente divergentes, pois \u00abque diferen\u00e7a substantiva existe atualmente, por exemplo, entre conservadores e trabalhistas na Inglaterra? Ou entre o governo de FHC e o governo de Lula?\u00bb<a href=\"#_ftn58\" name=\"_ftnref58\"><sup><sup>[58]<\/sup><\/sup><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><strong>5.2 A pol\u00edtica social-liberal<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">As expectativas em rela\u00e7\u00e3o ao governo do PT tinham algumas variantes. Havia aqueles que acreditavam que poderia ser constru\u00eddo no Brasil algo semelhante a um Estado de Bem-estar Social e aqueles que acreditavam que as esperan\u00e7as nas massas e a frustra\u00e7\u00e3o da\u00ed advinda iriam abrir um caminho para uma transforma\u00e7\u00e3o radical no Brasil.<a href=\"#_ftn59\" name=\"_ftnref59\"><sup><sup>[59]<\/sup><\/sup><\/a> Quando de sua elei\u00e7\u00e3o, Lula j\u00e1 era tribut\u00e1rio de mais de uma d\u00e9cada de adapta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e o PT j\u00e1 era respons\u00e1vel pela gest\u00e3o de dezena de governos estaduais e municipais com perfil liberal. Assim o neoliberalismo da d\u00e9cada de 1990 pode ter continuidade com os governos do PT, mesmo que dentro de uma nova forma pol\u00edtica que se legitimava por uma composi\u00e7\u00e3o governamental que inclu\u00eda um l\u00edder carism\u00e1tico, os aparatos sindicais e representantes da burguesia.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">O PT montou uma coalis\u00e3o para governar sem enfrentar os interesses de nenhum setor da burguesia. O que fez foi por vezes privilegiar esse ou aquele setor com isen\u00e7\u00e3o fiscal ou pol\u00edticas de incentivo, mas nada que pudesse colocar em quest\u00e3o o predom\u00ednio do capital financeiro ou do capital internacional sobre a economia brasileira. Ou seja, a ideologia de governo de enfrentamento ao capital financeiro ou ao capital internacional n\u00e3o se sustenta nem mesmo pela estrutura do capitalismo, que n\u00e3o pode separar nas condi\u00e7\u00f5es atuais o setor \u00abfinanceiro\u00bb do \u00abprodutivo\u00bb.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">N\u00e3o tardou para que o projeto mostrasse realmente a que veio. J\u00e1 nos primeiros anos de governo Lula, tivemos a aplica\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas abertamente contra os interesses dos trabalhadores. Leda Paulani faz uma considera\u00e7\u00e3o correta quando afirma que as pol\u00edticas compensat\u00f3rias \u00abao inv\u00e9s de integrar os exclu\u00eddos, elas consagram a fratura social: distribuem uns poucos recursos \u00e0queles que jamais conseguir\u00e3o se integrar, para que se possa dar andamento tranquilo \u00e0 usual pol\u00edtica concentradora e excludente (n\u00e3o por acaso, o criador desse tipo de instrumento \u00e9 um indiv\u00edduo de cujo credo liberal ningu\u00e9m duvida, o economista monetarista norte-americano Milton Friedman)\u00bb<a href=\"#_ftn60\" name=\"_ftnref60\"><sup><sup>[60]<\/sup><\/sup><\/a> Na mesma linha da autora podemos medir o governo, ou seja, mais pelo programa que coloca em pr\u00e1tica do que pelo que fala, e nesse caso o maior beneficiado \u00e9 o setor financeiro, a agroind\u00fastria exportadora de soja principalmente. Lula e Dilma tem realizado gest\u00f5es abertamente burguesas \u00e0 frente do governo federal, sobretudo, a manuten\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas econ\u00f4micas neoliberais nos primeiros anos do governo Lula, altas taxas de juros e reforma da previd\u00eancia<a href=\"#_ftn61\" name=\"_ftnref61\"><sup><sup>[61]<\/sup><\/sup><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Para usar as categorias utilizadas pelos defensores de que o Brasil seria um caso de <em>revolu\u00e7\u00e3o passiva,<\/em> a partir de 2002 ter\u00edamos que encontrar nesse fen\u00f4meno uma dial\u00e9tica entre \u201crestaura\u00e7\u00e3o\u201d (rea\u00e7\u00e3o conservadora \u00e0 possibilidade de mudan\u00e7a) e \u00abrenova\u00e7\u00e3o\u00bb. Ou seja, a revolu\u00e7\u00e3o passiva come\u00e7a com uma rea\u00e7\u00e3o conservadora (para que se preserve as estruturais pol\u00edtico-sociais) \u00e0 possibilidade de mudan\u00e7a e depois vem a renova\u00e7\u00e3o &#8211; momento em que as demandas populares s\u00e3o satisfeitas sob controle.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">O fen\u00f4meno do <em>lulismo<\/em> frente ao governo federal se aproxima mais de um processo de <em>contrarreforma<\/em> do que de <em>revolu\u00e7\u00e3o passiva<\/em>, pois enquanto que em uma revolu\u00e7\u00e3o passiva se atende parte das reivindica\u00e7\u00f5es populares em uma contrarreforma \u00ab\u00e9 preponderante n\u00e3o o momento do novo, mas precisamente o do velho.\u00bb<a href=\"#_ftn62\" name=\"_ftnref62\"><sup><sup>[62]<\/sup><\/sup><\/a> Estamos diante de um processo mundial de destrui\u00e7\u00e3o de direitos sociais, de destrui\u00e7\u00e3o do Estado de Bem Estar Social, que ocorre apesar da resist\u00eancia dos trabalhadores em toda a parte do mundo. A tens\u00e3o entre conserva\u00e7\u00e3o e mudan\u00e7a reflete conceitualmente de forma muito mais concreta a realidade pol\u00edtica do que o conceito de revolu\u00e7\u00e3o passiva. Ou seja, no Brasil temos assistido a imposi\u00e7\u00e3o muito maior de elementos conservadores do que de elementos inovadores.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><strong>5.3 Um <em>governo de coaliz\u00e3o preventivo<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Para n\u00f3s, a aproxima\u00e7\u00e3o sobre a forma hegem\u00f4nica de domina\u00e7\u00e3o que se estabeleceu a partir de 2002 est\u00e1 a servi\u00e7o de encontrar estrat\u00e9gias pol\u00edticas de combate ao capitalismo. A atualidade dos debates sobre o <em>lulismo <\/em>se explica porque o estabelecimento dessa forma de governo e a sua atual crise tem\/teve grande repercuss\u00e3o na luta de classes. O seu estabelecimento causou rupturas &#8211; ainda que de vanguarda -, cooptou as principais lideran\u00e7as e tirou as massas das ruas. Agora, finalmente, a sua crise abre uma situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica mais favor\u00e1vel para a luta da classe trabalhadora, para a recomposi\u00e7\u00e3o do movimento oper\u00e1rio e da esquerda socialista.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">A domina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica burguesa nos governos do PT tem sua singularidade, pois n\u00e3o se trata da simples continuidade do governo anterior. Do contr\u00e1rio, seria dif\u00edcil explicar mais de uma d\u00e9cada de estabilidade pol\u00edtico-social vivida desde 2002, \u00e0 medida que crescia a agita\u00e7\u00e3o pol\u00edtica contra o neoliberalismo no in\u00edcio dos anos 2000 e ocorriam na Am\u00e9rica Latina Rebeli\u00f5es Populares em v\u00e1rios pa\u00edses. Nesse momento, a classe dominante percebe que o Brasil poderia ser o pr\u00f3ximo pa\u00eds a explodir politicamente, por essa raz\u00e3o se inclina majoritariamente para a candidatura de Lula. Esse por sua vez assume todos os acordos necess\u00e1rios para ter o apoio da classe dominante, e o ponto central deste acordo era n\u00e3o tocar nos pilares do edif\u00edcio neoliberal constru\u00eddo na d\u00e9cada anterior.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">O <em>lulismo<\/em> surge em 2002 como resultado de uma coalis\u00e3o com um setor da burguesia, a burocracia sindical e a partir de 2006 do <em>subproletariado<\/em>, que em um movimento de realinhamento eleitoral passa a votar no PT(Singer, 2012).<a href=\"#_ftn63\" name=\"_ftnref63\"><sup><sup>[63]<\/sup><\/sup><\/a> Da mesma forma, essa composi\u00e7\u00e3o termina com o afastamento de amplos setores da classe m\u00e9dia em decorr\u00eancia do \u00abmensal\u00e3o\u00bb em 2005. Al\u00e9m disso, setores importantes da burguesia nacional fazem parte desse realinhamento eleitoral, e por raz\u00f5es pol\u00edticas e econ\u00f4micas bancam a elei\u00e7\u00e3o dos mandatos do PT.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">A escolha de Jos\u00e9 Alencar(PL)para o cargo de vice-presidente tem uma fun\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica muito importante, esse representaria o setor produtivo dos empres\u00e1rios no governo, aquela fra\u00e7\u00e3o do capital que se liberto do capital financeiro pode contribuir para trazer soberania, emprego, renda para os trabalhadores. Foram montados minist\u00e9rios com representantes direitos das fra\u00e7\u00f5es burguesas. Tivemos a presen\u00e7a no comando do Banco Central um representante \u201cpuro sangue\u201d do capital financeiro, do agroneg\u00f3cio e dos exportadores e da burguesia industrial. Por fim, temos as lideran\u00e7as sindicais que ocuparam minist\u00e9rios, milhares de cargos no governo e nas estatais. Lula cooptou a burocracia sindical <em>n\u00e3o-lulista<\/em> com uma reforma sindical que aumentou o imposto sindical, transferindo para os sindicatos cerca de R$ 100 milh\u00f5es anuais. Estes dirigentes n\u00e3o dependem mais dos ingressos por via dos aparatos sindicais ou partid\u00e1rios, pois est\u00e3o integrados a burguesia por via da ger\u00eancia dos fundos de pens\u00e3o, da alta administra\u00e7\u00e3o das estatais, etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">O <em>lulismo<\/em> foi um pacto feito por cima &#8211; assistido pelas massas &#8211; entre o PT e a burguesia que tratou de construir a <em>hegemonia da pequena pol\u00edtica<\/em> brasileira \u00e0s custas de colocar em baixo do tapete as reais demandas da classe trabalhadora e de criar a ilus\u00e3o de que as quest\u00f5es sociais poderiam ser resolvidas por fora da <em>grande pol\u00edtica<\/em>. Essa manobra pol\u00edtica teve grande efic\u00e1cia, pois se apoiou em anos de valoriza\u00e7\u00e3o e crescimento das exporta\u00e7\u00f5es de commodities.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">O conceito gramsciano de <em>pequena pol\u00edtica<\/em><a href=\"#_ftn64\" name=\"_ftnref64\"><sup><sup>[64]<\/sup><\/sup><\/a> parece mais adequado para identificar a abordagem pol\u00edtica da composi\u00e7\u00e3o eleitoral da qual estamos tratando. Nunca esteve em jogo a luta por projeto distintos de sociedade, a pol\u00edtica passa por fora da vida cotidiana e \u00e9 entregue a administra\u00e7\u00e3o pura e simples do que est\u00e1 posto.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Aqui se apresenta uma quest\u00e3o chave para o debate com todas as linhas interpretativas sobre o <em>pacto lulista<\/em>. Ou seja, que esse pacto significou continuidade e descontinuidade em rela\u00e7\u00e3o aos governos anteriores de FHC. De outra forma n\u00e3o podemos explicar por que o <em>lulismo <\/em>foi capaz de estabelecer a pacifica\u00e7\u00e3o pol\u00edtica nacional por praticamente uma d\u00e9cada. Por\u00e9m, nessa dial\u00e9tica entre continuidade e descontinuidade sabemos que &#8211; apesar da efici\u00eancia das pol\u00edticas que levaram \u00e0 redu\u00e7\u00e3o da pobreza monet\u00e1ria \u2013 o que predomina s\u00e3o os elementos de continuidade das grandes linhas macroecon\u00f4micas ou sociais.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">A justa compreens\u00e3o sobre esse tema permite aprecia\u00e7\u00e3o concreta sobre as pol\u00edticas desenvolvidas pelos governos petistas durante esses \u00faltimos doze anos, o que tamb\u00e9m joga luz sobre a composi\u00e7\u00e3o sociopol\u00edtica dessa forma de governo. A quest\u00e3o da perman\u00eancia e at\u00e9 aprofundamento do neoliberalismo \u00e9 fundamental para fazer a pol\u00eamica com toda sorte de analistas de um amplo leque ideol\u00f3gico &#8211; de Emir Sader a Ruy Braga &#8211; pois em todos eles o pacto <em>lulista<\/em> \u00e9 uma forma de domina\u00e7\u00e3o burguesa similar a uma <em>frente popular<\/em> ou a uma <em>revolu\u00e7\u00e3o passiva<\/em> que ao contr\u00e1rio de outras experi\u00eancias &#8211; como a de Allende, por exemplo &#8211; acabou tendo vida longa.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Deu-se, pois, um caminho de transforma\u00e7\u00e3o que anulou a &#8211; perigosa &#8211; possibilidade de mobiliza\u00e7\u00e3o das massas populares. No neoliberalismo <em>lulista <\/em>\u00abn\u00e3o est\u00e1 em jogo nenhuma op\u00e7\u00e3o entre diferentes modelos de sociedade. Podemos assim dizer que h\u00e1, na era da contrarreforma neoliberal, sem grande contraste a hegemonia da pequena pol\u00edtica\u00bb<a href=\"#_ftn65\" name=\"_ftnref65\"><sup><sup>[65]<\/sup><\/sup><\/a><sup>.<\/sup> A moderniza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e a mobilidade social n\u00e3o s\u00e3o elementos que em si n\u00e3o garantem a redu\u00e7\u00e3o da desigualdade social. Ou seja, sem processos de ruptura com a ordem neoliberal e com o capitalismo n\u00e3o se pode realizar combates efetivos e duradouros contra a desigualdade social, foi isto o que demonstrou mais uma vez a crise econ\u00f4mica aberta em 2008. Por outro lado, a composi\u00e7\u00e3o do governo na qual participam as principais lideran\u00e7as do movimento de massas, as pol\u00edticas sociais-liberais que centralizam e focalizam as pol\u00edticas sociais para os mais pobres e a alta das commodities permitiram o estabelecimento de uma s\u00f3lida hegemonia que durou uma d\u00e9cada.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Levando-se tudo isso em considera\u00e7\u00e3o, a nosso ver uma defini\u00e7\u00e3o que capta essa totalidade de fen\u00f4menos e que nos permite fazer a luta pol\u00edtica pela mobiliza\u00e7\u00e3o independente dos trabalhadores no Brasil \u00e9 a de que o <em>lulismo<\/em> configura-se como um <strong><em>governo de coaliz\u00e3o preventivo<\/em><\/strong>, no qual predomina estruturalmente a <em>contrarreforma, <\/em>a nosso ver \u00e9 esta a vis\u00e3o que se ajusta de maneira mais adequada \u00e0 forma de domina\u00e7\u00e3o burguesa aberta em 2002.<\/p>\n<ol style=\"text-align: left;\" start=\"6\">\n<li><strong> A LUTA DOS TRABALHADORES E DA JUVENTUDE<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: left;\">Na hist\u00f3ria recente do Brasil o <em>pacto lulista<\/em> foi um dos arranjos pol\u00edticos mais eficientes para apaziguar a luta de classes e deslocar a pol\u00edtica e seus encaminhamentos para os gabinetes palacianos. Durante os dois mandatos presidenciais de Lula\/Dilma assistimos mobiliza\u00e7\u00f5es contra a reforma da previd\u00eancia, por melhores condi\u00e7\u00f5es de ensino, salariais, em defesa do emprego, por demarca\u00e7\u00e3o de terra e etc. Protagonizaram lutas importantes, banc\u00e1rios, trabalhadores dos correios, funcionalismo federal, metal\u00fargicos, professores, oper\u00e1rios da constru\u00e7\u00e3o civil das redes p\u00fablicas estaduais. Contudo, a integra\u00e7\u00e3o dos aparatos ao bloco governante, desde a luta de resist\u00eancia contra a reforma da previd\u00eancia, somado a aus\u00eancia de instrumentos alternativos de organiza\u00e7\u00e3o das massas trabalhadoras e juvenis, cumpre um papel de prevenir e conter o movimento de massas.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Nesta parte do artigo iremos descrever alguns momentos desse processo de resist\u00eancia enquanto o <em>pacto lulilsta<\/em> se impunha na manuten\u00e7\u00e3o da correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as desfavor\u00e1vel para a luta. S\u00e3o estes a reforma da previd\u00eancia, a crise do mensal\u00e3o e a radicaliza\u00e7\u00e3o estudantil a partir de ocupa\u00e7\u00e3o da reitoria da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP) com uma repress\u00e3o nunca vista desde o per\u00edodo militar. Em seguida, trataremos de outro momento referente ao <em>pacto lulista<\/em> e a crise econ\u00f4mica mundial, e tamb\u00e9m do fim do ciclo de alta das commodities, que j\u00e1 d\u00e1 os primeiros sinais de esgotamento pol\u00edtico com a greve dos funcion\u00e1rios p\u00fablicos federais, as greves dos oper\u00e1rios das obras do PAC, a luta ind\u00edgena pela demarca\u00e7\u00e3o de terras e finalmente a onda de indigna\u00e7\u00e3o popular a partir de Junho\/2013.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><strong>6.2 Luta de classes em uma situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica desfavor\u00e1vel<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">De 2002 a 2013 estivemos sob uma correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as bastante desfavor\u00e1vel. As lutas ocorreram em um ambiente pol\u00edtico no qual o <em>lulismo<\/em> exercia uma hegemonia quase que inconteste, o que fazia com que os processos de resist\u00eancia dos trabalhadores e da juventude acabassem isolados em seu pr\u00f3prio \u00e2mbito. Isso ocorreu em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 reforma da previd\u00eancia, aos esc\u00e2ndalos de corrup\u00e7\u00e3o, \u00e0s lutas oper\u00e1rias por demandas salariais e em defesa do emprego e \u00e0s lutas estudantis e populares.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">A luta contra a reforma da previd\u00eancia no in\u00edcio do governo lula foi a primeira experi\u00eancia de parte da classe trabalhadora no enfrentamento com o governo. A Proposta de Emenda Constitucional n\u00famero 40(PEC 40) era basicamente uma proposta de reforma. Em junho de 2003 foi enviada pelo governo e consistia basicamente em cobrar contribui\u00e7\u00e3o previdenci\u00e1ria aos aposentados, com o fim da aposentadoria integral para os servidores p\u00fablicos, o fim da paridade entre ativos e inativos e o estabelecimento da idade que se associa ao tempo de servi\u00e7o para a aposentadoria.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">No dia 11 de junho um ato em Bras\u00edlia contra a reforma da previd\u00eancia reuniu cerca de 20 mil funcion\u00e1rios p\u00fablicos e trabalhadores de outra categoria. No entanto, a mobiliza\u00e7\u00e3o que tamb\u00e9m ocorreu nos estados n\u00e3o foi suficiente para impor a retirada da PEC 40 da pauta do Congresso, pois o projeto contou com apoio popular, com a trai\u00e7\u00e3o da CUT e com o empenho pessoal de Lula que usou todo o seu prest\u00edgio para impor a reforma.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Apesar da vit\u00f3ria do governo, a resist\u00eancia a reforma da previd\u00eancia causou uma crise no interior do PT e da CUT. Um ataque t\u00e3o duro a um setor da classe trabalhadora \u2013 uma verdadeira contrarreforma &#8211; por um governo rec\u00e9m eleito com a promessa de realizar reformas sociais, n\u00e3o poderia passar sem crises e rupturas. Esse processo teve como manifesta\u00e7\u00e3o concreta a expuls\u00e3o de quatro parlamentares do PT que votaram contra a reforma a PEC 40 e o in\u00edcio de um processo de recomposi\u00e7\u00e3o do movimento de massas que iremos discutir em outra se\u00e7\u00e3o deste texto.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">No final do primeiro mandato de Lula, a den\u00fancia do mensal\u00e3o \u2013 esquema de desvio de dinheiro p\u00fablico para financiar campanhas eleitorais do PT e de sua base aliada e tamb\u00e9m para pagar para que parlamentares votassem nas propostas do governo \u2013 causou uma grave crise pol\u00edtica no governo e no PT. Contudo, essa crise ocorreu nas alturas e os trabalhadores e o povo ficaram como espectadores.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">O bloco composto pela classe dominante, as transnacionais, a banca financeira e a oposi\u00e7\u00e3o burguesa quiseram que Lula permanecesse no governo, pois lula e seu ministro da fazenda, Antonio Palocci, aplicavam um plano econ\u00f4mico neoliberal bem ao gosto da maior parte da burguesia. A pol\u00edtica da oposi\u00e7\u00e3o burguesa ao governo foi de \u201csangrar mas n\u00e3o matar\u201d com o objetivo de colher os frutos eleitorais em 2006, t\u00e1tica essa que n\u00e3o funcionou, pois tanto Lula quanto o PT se recuperaram. Lula ganhou no primeiro turno e o PT ampliou sua base parlamentar.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Da parte do movimento n\u00e3o houve explos\u00e3o do movimento de massas, como a crise pol\u00edtica que se desencadeou em 1992 ap\u00f3s a den\u00fancia de corrup\u00e7\u00e3o no governo Collor. N\u00e3o houve uma resposta unificada da vanguarda diante da crise institucional e algumas mobiliza\u00e7\u00f5es, como as que ocorreram em Bras\u00edlia em agosto, ca\u00edram no isolamento. N\u00e3o se produziu uma irrup\u00e7\u00e3o do movimento de massas, dos trabalhadores e do movimento popular por uma sa\u00edda independente do governo. A crise teve como resultado um enfraquecimento do PT frente ao governo e frente \u00e0 vanguarda lutadora, por\u00e9m essa combina\u00e7\u00e3o de desmobiliza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores e de uma linha de preserva\u00e7\u00e3o da institucionalidade possibilitou que houvesse uma r\u00e1pida acomoda\u00e7\u00e3o no front pol\u00edtico e a crise foi reabsorvida totalmente no processo eleitoral de 2006.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Nos anos seguintes, o movimento estudantil universit\u00e1rio protagonizou as lutas mais radicalizadas durante o per\u00edodo \u00e1ureo do <em>lulismo<\/em>. Na verdade, desde a ocupa\u00e7\u00e3o da Reitoria da USP em 2007, este setor vem se enfrentando com governos estaduais e com o governo federal. Por todo o pa\u00eds assistimos a lutas radicalizadas contra as pol\u00edticas de extens\u00e3o\/precariza\u00e7\u00e3o das universidades federais, lutas estas que foram duramente reprimidas pelas for\u00e7as federais e estaduais. O movimento universit\u00e1rio resistiu durante anos a uma dura repress\u00e3o movida pelos governos estaduais e federal, que colocou em pr\u00e1tica uma sanha repressiva que contou com a repress\u00e3o violenta da pol\u00edcia contra manifesta\u00e7\u00f5es, pris\u00f5es, processamento e expuls\u00e3o das universidades de centenas de ativistas. Entretanto, estas lutas n\u00e3o foram suficientemente fortes para colocar em quest\u00e3o a <em>coaliza\u00e7\u00e3o lulista <\/em>e a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as desfavor\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Durante anos a juventude e a classe trabalhadora brasileira pareciam estar adormecidas frente aos sucessivos governos e suas pol\u00edticas neoliberais. Mesmo ocorrendo importantes lutas, principalmente nas universidades p\u00fablicas, como USP e Universidades Federais, ou nas obras de infraestrutura e nas periferias das grandes cidades por moradia e outras demandas, o momento pol\u00edtico anterior a repress\u00e3o desses processos n\u00e3o foi detonante para uma rea\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Dentro deste contexto no qual as lutas de categorias e setores da juventude e do movimento popular n\u00e3o conseguem transcender a sua singularidade e ganhar ares de mobiliza\u00e7\u00e3o nacional, o movimento oper\u00e1rio industrial tamb\u00e9m deu o ar da gra\u00e7a a partir da crise econ\u00f4mica mundial, momento que coincide com final do segundo mandato de Lula. Uma s\u00e9rie de f\u00e1bricas em todo o territ\u00f3rio nacional nos anos 2008 e 2009 se mobilizam contra o arrocho salarial e as demiss\u00f5es massivas que tinham como causa os efeitos da crise mundial, a partir dos primeiros efeitos da crise econ\u00f4mica mundial, especialmente com a queda as exporta\u00e7\u00f5es e a pol\u00edtica do capital, que queria aproveitar o momento e passar a operar com um quadro reduzido de trabalhadores, o que promoveu a demiss\u00e3o em massa em algumas empresas.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Os casos mais impactantes neste momento foram as demiss\u00f5es de 800 trabalhadores na General Motors (GM) e de 2400 trabalhadores na Embraer em S\u00e3o Jos\u00e9 dos Campos. O intrigante \u00e9 que um ano antes o Sindicato dos Metal\u00fargicos de S\u00e3o Jos\u00e9 dos Campos (SMSJC &#8211; ligado \u00e0 CSP-Conlutas) anunciou uma grande vit\u00f3ria por ter evitado demiss\u00f5es em massa atrav\u00e9s do afastamento remunerado de centenas de trabalhadores da empresa. Quando estes trabalhadores em 2009 foram desligados n\u00e3o houve resist\u00eancia alguma \u00e0s 800 demiss\u00f5es e o SMSJC n\u00e3o chegou nem a propor uma resist\u00eancia grevista.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">No segundo semestre, a luta contra os efeitos da crise sobre os trabalhadores continuou animando lutas contra o desemprego e o arrocho salarial. Foi um movimento por reivindica\u00e7\u00f5es salariais que mobilizou categorias que se organizam em \u00e2mbito nacional, como banc\u00e1rios e correios, e categoriais-chave para o processo produtivo industrial, como os metal\u00fargicos em n\u00edvel nacional.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Importantes lutas no segundo semestre se deram como a campanha salarial dos metal\u00fargicos da Volkswagen e Renaut, de S\u00e3o Jos\u00e9 dos Pinhais, no Estado do Paran\u00e1 (em greve por tempo indeterminado); Volkswagen, Ford e mais seis autope\u00e7as, em Taubat\u00e9, interior do Estado de S\u00e3o Paulo e no ABC paulista. A maior parte destas lutas conseguiram reposi\u00e7\u00e3o salarial, mas n\u00e3o romperam com a \u201cnormalidade\u201d das campanhas salariais que ocorrem anualmente, ou seja, foram greves salariais que n\u00e3o se enfrentaram politicamente com o governo e nem utilizaram m\u00e9todos radicalizados. Com o fim dos anos de crescimento econ\u00f4mico e com a chegada da crise no Brasil em uma segunda onda, a partir de 2012, a situa\u00e7\u00e3o come\u00e7a a mudar. Greves que ao enfrentaram a dura repress\u00e3o do governo chegando a militariza\u00e7\u00e3o completa dos canteiros de obras, como foi o caso de Belo Monte, no qual houve pris\u00e3o de trabalhadores e interven\u00e7\u00e3o direta do ex\u00e9rcito. Mas o que predominou foram lutas isoladas e a a\u00e7\u00e3o reacion\u00e1ria do estado.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><strong>6.3 Junho 2013: a onda de indigna\u00e7\u00e3o popular<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">A onda de mobiliza\u00e7\u00e3o estudantil em junho de 2013 contra o aumento das passagens abriu uma nova situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica nacional. Essa nova situa\u00e7\u00e3o teve at\u00e9 agora ao menos 5 conjunturas. A primeira foi a da eclos\u00e3o do movimento estudantil que se enfrentou diretamente com as for\u00e7as de repress\u00e3o. A segunda se estabelece pela intensa repress\u00e3o de todas as esferas administrativas contra a radicaliza\u00e7\u00e3o do movimento. A terceira foi greve radicalizada dos garis, professores e condutores. A quarta se estabelece com a unifica\u00e7\u00e3o da burguesia em torno da realiza\u00e7\u00e3o da copa, a derrota da greve dos metrovi\u00e1rios e as elei\u00e7\u00f5es presidenciais de 2014.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Atualmente estamos em outra conjuntura, marcada pela crise org\u00e2nica do <em>pacto lulista<\/em>, a radicaliza\u00e7\u00e3o de setores chave da classe trabalhadora contra o desemprego e o sequestro, at\u00e9 o momento, da indigna\u00e7\u00e3o pol\u00edtica contra o governo pela burguesia que, desde 2013, vem disputando politicamente a onda popular de indigna\u00e7\u00e3o. Tudo isso sem que a esquerda independente apresente uma plataforma de luta contra o ajuste e um f\u00f3rum unificado de luta diante da crise pol\u00edtica.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Em um primeiro momento da crise econ\u00f4mica mundial as pol\u00edticas antic\u00edclicas e posteriormente o fluxo de capitais externos na busca de melhores condi\u00e7\u00f5es de lucratividade se estabeleceram. Isso permitiu, ap\u00f3s uma intensa queda do PIB em 2009, uma n\u00e3o menos intensa recupera\u00e7\u00e3o no ano seguinte. Nos anos posteriores, a crise econ\u00f4mica mundial come\u00e7a a deslocar o seu centro para a periferia do sistema, fen\u00f4meno que com a perda de arrecada\u00e7\u00e3o do governo federal, devido \u00e0s medidas de isen\u00e7\u00e3o fiscal, provoca a redu\u00e7\u00e3o da capacidade de expans\u00e3o das pol\u00edticas sociais do governo. Por outro lado, somado a deteriora\u00e7\u00e3o dos ganhos com as pol\u00edticas de redu\u00e7\u00e3o da pobreza monet\u00e1ria devido \u00e0 alta inflacion\u00e1ria, principalmente de alimentos, as terr\u00edveis condi\u00e7\u00f5es estruturais na qual est\u00e3o submetidos os trabalhadores come\u00e7am a emergir de forma explosiva atrav\u00e9s de violentos enfrentamentos entre os trabalhadores das obras do PAC de um lado e patr\u00f5es e governo de outro.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">As greves nas obras do PAC (Programa de Acelera\u00e7\u00e3o do Crescimento) foram os primeiros sinais de que o <em>pacto lulista<\/em> estava por se esgotar. Afinal, as condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas e pol\u00edticas que o sustentaram por uma d\u00e9cada estavam se exaurindo. Ocorreram greves e manifesta\u00e7\u00f5es na constru\u00e7\u00e3o da hidrel\u00e9trica de Jirau e Santo Ant\u00f4nio, em Rond\u00f4nia, na constru\u00e7\u00e3o da refinaria de Pecem, no Cear\u00e1, na constru\u00e7\u00e3o da Refinaria de Abreu e Lima, no Estado de Pernambuco, na Unidade de Tratamento de G\u00e1s de Caraguatatuba, e nas obras da Hidrel\u00e9trica de Mato Grosso do Sul. Entretanto, essa onda de greves continuou no ano seguinte. Em mar\u00e7o de 2012 os trabalhadores das obras das hidrel\u00e9tricas de Jirau e Santo Ant\u00f4nio em Rond\u00f4nia entraram em greve.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Al\u00e9m destes se mobilizaram oper\u00e1rios nas obras da Plataforma da Petrobras, na Bahia, na obra do est\u00e1dio das Dunas, no Rio Grande do Norte, e do Complexo Petroqu\u00edmico do Rio de Janeiro (Comperj). Houve uma alian\u00e7a com o governo e a patronal para reprimir essa onda de greves. Esta alian\u00e7a colocou em pr\u00e1tica desde a repress\u00e3o policial, a criminaliza\u00e7\u00e3o do movimento, passando por pris\u00f5es e demiss\u00e3o pol\u00edtica de ativistas. Trata-se de uma onda de manifesta\u00e7\u00f5es que come\u00e7ou em 2011 e se estendeu at\u00e9 2013.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Trabalhadores dos canteiros de obra lutaram contra baixos sal\u00e1rios, acidentes fatais de trabalho, condi\u00e7\u00f5es totalmente insalubres de trabalho com acidentes fatais, distanciamento das fam\u00edlias. Na realidade, os oper\u00e1rios chegavam a ficar mais de seis meses sem poder deixar os canteiros de obra. Uma onda de indigna\u00e7\u00e3o enfrentou a dura repress\u00e3o da patronal que contou com a cumplicidade do governo federal e a concilia\u00e7\u00e3o e o entreguismo dos dirigentes sindicais, em sua ampla maioria ligados a CUT.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Mas n\u00e3o era apenas nas cidades ou na constru\u00e7\u00e3o civil que a situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica mudava. Os povos ind\u00edgenas chegaram a ocupar simultaneamente mais de 75 fazendas na luta pela demarca\u00e7\u00e3o de territ\u00f3rio ind\u00edgena (Dilma foi uma das presidentes que menos assentamentos e demarca\u00e7\u00f5es de terra realizou). Um dos epis\u00f3dios mais escandalosos da repress\u00e3o do estado que tem Dilma Rousseff (PT) como cabe\u00e7a foi o assassinato do \u00edndio terena no Mato Grosso do Sul em uma reintegra\u00e7\u00e3o de posse em benef\u00edcio do latif\u00fandio, em que atuaram na repress\u00e3o a pol\u00edcia militar do estado e a pol\u00edcia federal.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">E assim e por outras raz\u00f5es, o <em>pacto lulista <\/em>perde lentamente a sua sustenta\u00e7\u00e3o at\u00e9 que a onda de indigna\u00e7\u00e3o de junho\/2013 inaugura um per\u00edodo de questionamento aberto a essa forma de domina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">O governo enfrentou, em Junho de 2013, uma onda gigantesca de rebeldia protagonizada pela juventude organizada pelo Movimento Passe Livre na luta contra o aumento das passagens. A luta contra o aumento das passagens parecia repetir a din\u00e2mica dos anos anteriores. Passeatas pela cidade que mobilizavam algumas centenas de pessoas mas que depois de algumas semanas de dissipavam por completo. Contudo, desta vez j\u00e1 havia no cen\u00e1rio pol\u00edtico nacional uma acumula\u00e7\u00e3o de descontentamento pol\u00edtico e social que foi base para que a repress\u00e3o policial e a resist\u00eancia da juventude fossem estopim de uma onda gigante de protestos.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Os atos que se iniciaram no dia 6 de junho de 2013 tinham como pauta os aumentos da passagem e a luta pela tarifa zero. Ap\u00f3s a dura repress\u00e3o, as manifesta\u00e7\u00f5es ganharam a ades\u00e3o de massas e o movimento passa a incorporar diretamente amplos setores sociais e reivindica\u00e7\u00f5es diversas. A repress\u00e3o policial ao ato contra o aumento das passagens no dia 13 de junho em S\u00e3o Paulo, Rio de Janeiro e outras capitais serviu como estopim para a explos\u00e3o do maior processo de massas visto desde o Fora Collor de 1992, n\u00e3o apenas em tamanho, mas tamb\u00e9m em politiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Mesmo ap\u00f3s a vit\u00f3ria da redu\u00e7\u00e3o das tarifas de passagens em 23 cidades, 1,5 milh\u00f5es de pessoas se manifestaram por todo o pa\u00eds, em capitais, cidades de m\u00e9dio e pequeno porte. As maiores manifesta\u00e7\u00f5es ocorreram no Rio de Janeiro (RJ), com aproximadamente 300 mil, e em S\u00e3o Paulo (SP), com mais de 400 mil pessoas. O cen\u00e1rio pol\u00edtico mudou radicalmente. Mudan\u00e7a que, apesar de deixar os governantes e analistas de gabinete \u201cat\u00f4nitos\u201d, teve motiva\u00e7\u00f5es bem concretas, tais como: crescimento do custo de vida causado pela infla\u00e7\u00e3o, queda do rendimento dos trabalhadores, precariza\u00e7\u00e3o do trabalho e carestia dos servi\u00e7os p\u00fablicos.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Em um primeiro momento, o movimento sai vitorioso com a redu\u00e7\u00e3o das passagens em mais de 13 capitais. O governo tentou absorver a onda de protestos com a pol\u00edtica diversionista do plebiscito sobre a reforma pol\u00edtica, de reformas cosm\u00e9ticas no legislativo e da destina\u00e7\u00e3o do royalty do pr\u00e9-sal para educa\u00e7\u00e3o e sa\u00fade. Mas, a onda de indigna\u00e7\u00e3o n\u00e3o se deteve e seguiu durante a copa das confedera\u00e7\u00f5es com atos gigantescos, realizados nos arredores das arenas, que chegavam a ter quase a mesma quantidade de pessoas que estavam assistindo os jogos.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">No m\u00eas de Julho, as centrais sindicais governistas e n\u00e3o governistas convocaram um dia de manifesta\u00e7\u00f5es em todo o pa\u00eds tentando pegar carona na onda de manifesta\u00e7\u00f5es de junho. N\u00e3o houve da parte dos organizadores destes atos, nem dos setores n\u00e3o governistas, a preocupa\u00e7\u00e3o de construir a unidade com a juventude que protagonizou junho. Conseguiram mobilizar algumas centenas de trabalhadores, mas faltaram a estas manifesta\u00e7\u00f5es a massifica\u00e7\u00e3o e a radicalidade verificada em junho.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">A grande onda massiva de indigna\u00e7\u00e3o de Junho n\u00e3o teve grande durabilidade, logo ap\u00f3s a Copa das Confedera\u00e7\u00f5es as manifesta\u00e7\u00f5es continuaram a ocorrer quase que cotidianamente por\u00e9m sem a mesma quantidade de pessoas. Fator que favoreceu toda a movimenta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica dos governos para reprimir as manifesta\u00e7\u00f5es que ocorreram no segundo semestre de 2013.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">A conjuntura de p\u00f3s-junho foi de endurecimento. Manifestantes presos nos conflitos passam a ser enquadrados como formadores de quadrilha e o uso de m\u00e1scaras nas manifesta\u00e7\u00f5es no Rio de Janeiro \u00e9 proibido. O governo federal, por sua vez, passa a atuar em sincronia total com o paulista e fluminense para reprimir manifesta\u00e7\u00f5es juvenis, tais como as ocorridas em S\u00e3o Paulo e Rio de Janeiro no dia 15 de outubro, repress\u00e3o esta que resultou em centenas de detidos, autuados como participantes do crime organizado e uso de armamento letal, e um endurecimento maior no c\u00f3digo penal para criminaliza\u00e7\u00e3o dos movimentos sociais, bem maior fortalecimento da institui\u00e7\u00e3o policial com a possibilidade de unifica\u00e7\u00e3o entre todas as for\u00e7as repressivas, inclusive o ex\u00e9rcito, contra grandes manifesta\u00e7\u00f5es. Por\u00e9m, apesar da repress\u00e3o, as manifesta\u00e7\u00f5es seguem praticamente cotidianas durante o segundo semestre do ano de 2013 e seguem perigosamente para o decisivo primeiro semestre de 2014.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">As jornadas de junho de 2013 abriram um novo momento pol\u00edtico no qual a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as entre as classes, que era totalmente desfavor\u00e1vel para os trabalhadores com os pactos conservadores dos sucessivos governos petistas, mudou. Caracterizamos esse processo como uma onda de indigna\u00e7\u00e3o popular, uma rebeli\u00e3o estudantil e popular que incialmente n\u00e3o havia atingido os setores fundamentais da classe trabalhadora, n\u00e3o podendo assim mudar por completo a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as entre as classes sociais. Apesar de conjunturas duras contra ofensivas, como no caso da repress\u00e3o no final de 2013 e durante a Copa, a pacifica\u00e7\u00e3o pol\u00edtica das massas foi deixada para traz nessa nova situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Junho de 2013 trouxe como resultado indel\u00e9vel uma situa\u00e7\u00e3o prop\u00edcia para processos de radicaliza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores, descolamento dos aparatos burocr\u00e1ticos, maior polariza\u00e7\u00e3o social e pol\u00edtica.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Uma s\u00e9rie de novos fen\u00f4menos pol\u00edticos ocorreram a partir dessa eclos\u00e3o da onda de indigna\u00e7\u00e3o popular iniciada em junho de 2013. O ano de 2014 se iniciou com a greve dos garis da cidade do Rio de Janeiro. Este setor ultraprecarizado enfrentou aguerridamente &#8211; apesar da pouca tradi\u00e7\u00e3o de luta &#8211; a burocracia sindical que se colocou abertamente contra a greve, o prefeito peemedebista do Rio de Janeiro (Eduardo Paes), a repress\u00e3o policial a mando do governador tamb\u00e9m peemedebista (Sergio Cabral), a justi\u00e7a do trabalho que decretou a greve ilegal, e a amea\u00e7a de demiss\u00e3o. Apesar disso,os garis do Rio de Janeiro voltaram ao trabalho ap\u00f3s uma greve que conquistou uma reposi\u00e7\u00e3o salarial de 37%.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">As t\u00e1ticas da greve eram discutidas e decididas durante as assembleias e quando a primeira comiss\u00e3o de negocia\u00e7\u00e3o n\u00e3o se demonstrou a altura da luta, foi substitu\u00edda tamb\u00e9m em assembleia. Por outro lado, a for\u00e7a do movimento impactou o cen\u00e1rio pol\u00edtico nacional, colocando a greve no centro das aten\u00e7\u00f5es. N\u00e3o se pode deixar de considerar que a solidariedade nacional ao movimento e o apoio expl\u00edcito da popula\u00e7\u00e3o do Rio de Janeiro (em pleno carnaval) tamb\u00e9m contribuiu para a vit\u00f3ria inconteste dos garis. Essa foi a greve de trabalhadores que depois da onda de indigna\u00e7\u00e3o da juventude, em junho de 2013, mais chamou a aten\u00e7\u00e3o por sua radicaliza\u00e7\u00e3o e auto-organiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Mas o movimento dos trabalhadores nesta nova situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica n\u00e3o parou. Com a proximidade da Copa do Mundo que se realizaria em junho, uma s\u00e9rie de categorias, como professores da rede estadual do Rio de Janeiro, Condutores e Metrovi\u00e1rios, al\u00e9m de movimentos sociais como o de moradia e os sem-terra, que t\u00eam <em>Data Base <\/em>no primeiro semestre, viram a possibilidade de efetivar campanhas salariais que pudessem conquistar ajustes acima da infla\u00e7\u00e3o. No m\u00eas de maio os condutores protagonizaram uma onda de greves radicalizadas. Essa onda iniciada no Rio de Janeiro, Baixada Fluminense, se estendeu para S\u00e3o Paulo, Grande S\u00e3o Paulo, Salvador, Recife, Florian\u00f3polis. Esses movimentos grevistas, particularmente no Rio e em S\u00e3o Paulo, contaram com dois novos e explosivos ingredientes em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s campanhas salariais anteriores.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Os trabalhadores n\u00e3o aceitaram a pol\u00edtica de concilia\u00e7\u00e3o da burocracia sindical com os patr\u00f5es e a justi\u00e7a do trabalho e a partir da\u00ed colocaram em pr\u00e1tica m\u00e9todos radicalizados de luta. Piquetes auto organizados foram realizados nas garagens, \u00f4nibus tiveram os pneus furados e foram abandonados nos corredores de \u00f4nibus. A perda de controle do movimento pela burocracia sindical chegou a tal ponto que em S\u00e3o Paulo obrigou o tribunal regional do trabalho a ir at\u00e9 as garagens em busca de algu\u00e9m da base que tivesse legitimidade para negociar em nome dos trabalhadores. Assistimos a um furac\u00e3o grevista \u00e0 revelia da burocracia sindical e, apesar dos tribunais regionais do trabalho decretarem as greves ilegais, essas greves foram vitoriosas na maioria dos casos.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Os professores da rede municipal de ensino de S\u00e3o Paulo realizaram uma greve que durou mais de 40 dias que derrotou a trucul\u00eancia do governo Haddad e conquistou um reajuste salarial acima da infla\u00e7\u00e3o. Soma-se a este processo a greve dos funcion\u00e1rios, professores e estudantes das universidades p\u00fablicas que fizeram a greve em resposta \u00e0 trucul\u00eancia do Conselho de Reitores das Universidades Estatuais Paulistas que teimou em n\u00e3o conceder absolutamente porcentagem alguma de reposi\u00e7\u00e3o salarial.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Parte importante tamb\u00e9m deste momento foi a mobiliza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores sem teto dirigidos pelo MTST. Esse movimento protagonizou passeatas com a participa\u00e7\u00e3o de milhares de trabalhadores em defesa da \u00e1rea denominada Copa do Povo em Itaquera. Movimento que acabou negociando com o governo essa \u00e1rea e a inclus\u00e3o no programa minha casa minha vida do governo federal em troca de n\u00e3o realizarem nenhuma manifesta\u00e7\u00e3o na abertura da copa.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Os metrovi\u00e1rios de S\u00e3o Paulo realizaram uma greve entre os dias 5 e 9 de junho. O governo do estado se negou sistematicamente em negociar as reivindica\u00e7\u00f5es da categoria e utilizou amplamente a for\u00e7a repressiva contra os trabalhadores e o Tribunal Regional do Trabalho (TRT) imp\u00f4s dur\u00edssimas resolu\u00e7\u00f5es para quebrar o movimento como as multas de 100 mil reais por dia de greve, al\u00e9m de decretar a greve abusiva, impondo, a partir da\u00ed, multa di\u00e1ria de 500 mil reais di\u00e1rios. Essa greve, ao contr\u00e1rio da maioria das mobiliza\u00e7\u00f5es anteriores acabou sendo derrotada, pois parte dos bens do sindicato foi confiscada e 42 trabalhadores, dentre estes diretores do sindicato, <em>cipeiros<\/em> e ativistas em geral, foram demitidos.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">A luta acabou sendo um ponto fora da curva, pois a dire\u00e7\u00e3o do sindicato dos metrovi\u00e1rios, ao atrasar a greve, perdeu a conjuntura mais favor\u00e1vel. Perdeu o momento de radicaliza\u00e7\u00e3o da greve dos condutores no m\u00eas de maio, a greve dos trabalhadores da educa\u00e7\u00e3o do munic\u00edpio de S\u00e3o Paulo que fizeram uma greve de mais de 40 dias e as mobiliza\u00e7\u00f5es massivas dos sem teto. A dire\u00e7\u00e3o do sindicato ficou em uma encruzilhada pol\u00edtica, pois n\u00e3o aproveitou o melhor momento em maio para fazer a greve de forma unit\u00e1ria com os rodovi\u00e1rios e com os professores, em uma conjuntura em que ainda n\u00e3o havia tanta unidade patronal-governamental.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Ap\u00f3s a derrota da greve dos metrovi\u00e1rios de S\u00e3o Paulo e um intenso processo de repress\u00e3o contra os ativistas, a conjuntura que se colocava \u00e0s v\u00e9speras do in\u00edcio do mundial se modificou e deu-se a constitui\u00e7\u00e3o de uma unidade total entre a patronal e o governo para garantir a realiza\u00e7\u00e3o do evento. Assim, devido \u00e0 derrota da greve dos metrovi\u00e1rios, que terminou na demiss\u00e3o de 42 trabalhadores, e a decis\u00e3o na assembleia do dia 11 de junho de n\u00e3o manter a greve, esvaziaram-se as condi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas para que se pudesse realizar a\u00e7\u00f5es mais contundentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Por um lado, o movimento contra a Copa teve grande perda num\u00e9rica com a capitula\u00e7\u00e3o da dire\u00e7\u00e3o do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) de S\u00e3o Paulo. Dias antes da realiza\u00e7\u00e3o da abertura do evento, o ministro da Secretaria Geral da Presid\u00eancia da Rep\u00fablica, Gilberto Carvalho, viajou at\u00e9 S\u00e3o Paulo para fazer um acordo pessoalmente com a dire\u00e7\u00e3o do MTST. Em troca do da \u00e1rea em Itaquera (Zona Leste da Capital) e da inclus\u00e3o desta \u00e1rea no programa Minha Casa Minha Vida do governo federal, a lideran\u00e7a do movimento se comprometeu com o governo em tirar os manifestantes da rua durante a Copa. Como esse era o movimento que ainda estava (naquele momento de endurecimento total com greves e manifesta\u00e7\u00f5es) colocando um grande n\u00famero de manifestantes na rua, a luta na abertura da Copa, no dia 12 de junho em S\u00e3o Paulo, foi esvaziada.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">A decis\u00e3o pol\u00edtica de Dilma e Alckmin era de impedir a qualquer custo que as vias de acesso ao est\u00e1dio da abertura da Copa fossem tomadas pelos manifestantes e impor um clima de terror para que a manifesta\u00e7\u00e3o durante o dia n\u00e3o se ampliasse. Assim, os setores que se atreveram a ir \u00e0s ruas se manifestar contra os gastos e a realiza\u00e7\u00e3o do evento foram duramente reprimidas pela Tropa de Choque e pelo Ex\u00e9rcito, como parte do esquema nacional de repress\u00e3o. A manifesta\u00e7\u00e3o convocada pelo movimento \u201cN\u00e3o vai ter copa\u201d n\u00e3o pode nem se instalar em frente ao metro Vila Carr\u00e3o, pois imediatamente \u00e0 chegada dos ativistas, estes foram recebidos com uma chuva de g\u00e1s lacrimog\u00eaneo. O ato convocado em frente ao Sindicato dos Metrovi\u00e1rios, nas proximidades do metr\u00f4 Tatuap\u00e9, p\u00f4de se instalar, mas foi impedido pela pol\u00edcia de seguir em passeata. A partir da chegada dos manifestantes que estavam no Vila Carr\u00e3o e a provoca\u00e7\u00e3o Black Bloc, a pol\u00edcia come\u00e7ou a atacar a manifesta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Ap\u00f3s a abertura da Copa do Mundo, manifesta\u00e7\u00f5es &#8211; apesar de seu car\u00e1ter de vanguarda &#8211; ocorreram em todo pais. Protestos que re\u00fanem algumas centenas de pessoas ocorrem em todas as cidades-sede (Natal, Rio Grande do Norte, Rio de Janeiro, Manaus e etc.) da Copa. Em S\u00e3o Paulo, uma manifesta\u00e7\u00e3o do MPL (Movimento Passe Livre) em comemora\u00e7\u00e3o h\u00e1 um ano das manifesta\u00e7\u00f5es massivas que contiveram o aumento das passagens reuniu, no dia 20 de junho, mais de 2 mil pessoas. Entretanto, a unidade quase total entre a burguesia e o governo, que imp\u00f4s uma conjuntura de Estado de S\u00edtio contra os movimentos sociais durante a Copa, n\u00e3o logrou recuperar em termos da correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as vivida na situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do pr\u00e9junho, quando a <em>hegemonia lulista <\/em>se encontrava em pleno vigor. Assim, mediante uma nova situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e a deteriora\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas, o cen\u00e1rio nacional n\u00e3o demoraria em criar fissuras entre a classe dominante e contradi\u00e7\u00f5es desta com o governo que permitissem que o movimento dos trabalhadores e da juventude voltasse a ser protagonista.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Depois da Copa, como era de se esperar, o segundo semestre foi polarizado pela quest\u00e3o eleitoral e as poucas lutas que ocorreram ficaram a margem do cen\u00e1rio nacional. O processo eleitoral de 2014 contou com elementos totalmente inesperados como a morte de Eduardo Campos, candidato a presidente pelo PSB e a elei\u00e7\u00e3o passou por v\u00e1rios revezes. Marina Silva (assumiu o lugar de Campos na disputa) passou rapidamente para o segundo lugar, chegando a figurar e se aproximar de Dilma. Depois, com os ataques sofridos pela campanha de Dilma, caiu irremediavelmente para o terceiro lugar e no segundo turno passou a apoiar a candidatura de A\u00e9cio Neves (PSDB) Dilma acabou vencendo a elei\u00e7\u00e3o no segundo turno com uma diferen\u00e7a de apenas 3%, a menor verificada desde a elei\u00e7\u00e3o presidencial de 1989.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Houve nessa elei\u00e7\u00e3o, al\u00e9m da \u00f3bvia polariza\u00e7\u00e3o entre as duas principais candidaturas, o aprofundamento da tend\u00eancia verificada desde 2006, ou seja, o aprofundamento de um fen\u00f4meno que se iniciou em 2006, quando Lula passa a contar com o voto dos trabalhadores mais pobres e da regi\u00e3o nordeste, e a perda de base eleitoral nas regi\u00f5es mais industrializadas. Dilma \u00e9 eleita com uma vota\u00e7\u00e3o esmagadora nas regi\u00f5es norte e nordeste e fragorosamente derrotada nas regi\u00f5es sul e sudeste. Verifica-se o mesmo nas regi\u00f5es perif\u00e9ricas das grandes cidades e nos cintur\u00f5es industriais de S\u00e3o Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Ou seja, a vota\u00e7\u00e3o de Dilma nos grandes cintur\u00f5es industriais demonstra que o <em>lulismo <\/em>perde apoio eleitoral e pol\u00edtico entre setores da burguesia, mais notadamente entre os importadores e financistas, na classe m\u00e9dia das regi\u00f5es sudeste e sul, mas tamb\u00e9m entre o proletariado de todas as regi\u00f5es do pa\u00eds.<\/p>\n<ol style=\"text-align: left;\" start=\"7\">\n<li><strong> A POL\u00cdTICA DA ESQUERDA: SUPERAR <em>SECTARISMO<\/em> E <em>ECONOMICISMO<\/em><\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: left;\">Para finalizar \u00e9 preciso ao analisar a pol\u00edtica da esquerda independente diante do governo que caracterizamos como de coalis\u00e3o preventivo. Na sequ\u00eancia, iremos discutir as quest\u00f5es ligadas \u00e0s pol\u00edticas deste setor e os desafios da atualidade diante da crise do <em>pacto lulista<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">N\u00e3o existe uma rela\u00e7\u00e3o mec\u00e2nica entre caracteriza\u00e7\u00f5es de determinados fen\u00f4menos pol\u00edticos e pol\u00edticas para este fen\u00f4meno, pois a pol\u00edtica de uma organiza\u00e7\u00e3o vai depender da situa\u00e7\u00e3o para poder ganhar certa autonomia. Por\u00e9m, \u00e9 ineg\u00e1vel que as caracteriza\u00e7\u00f5es d\u00e3o os balizamentos e acabam por enquadrar a linha pol\u00edtica de qualquer organiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">A caracteriza\u00e7\u00e3o de \u201cgoverno em disputa\u201d, \u201cfrente popular\u201d ou mesmo \u201crevolu\u00e7\u00e3o passiva\u201d tem correlatos bastante evidentes na pol\u00edtica das organiza\u00e7\u00f5es menos ou mais atuantes no campo da esquerda.As correntes que analisam o governo como em disputa, MST, O Trabalho, DS, pensam que Dilma (ou a CUT) pode se inclinar a esquerda e desenvolver uma pol\u00edtica de reformas a favor dos trabalhadores; as que pensam que se trata de uma frente popular, PSTU e Socialismo e Liberdade (PSOL),alimentam um esquema de que essa forma de governo carrega uma contradi\u00e7\u00e3o latente que pode a qualquer momento gerar uma crise em seu interior, assim as exig\u00eancias de que tome medidas progressistas seria central em sua pol\u00edtica. Al\u00e9m das pol\u00edticas que derivam diretamente da caracteriza\u00e7\u00e3o equivocada do governo, de outra forma, temos tamb\u00e9m presente uma concep\u00e7\u00e3o marcada pelo processo de superestrutura\u00e7\u00e3o, que atinge a totalidade da esquerda inserida nos aparatos sindicais, populares e estudantis, na medida em que esses aparatos estiveram nos \u00faltimos anos envolvidos na mobiliza\u00e7\u00e3o efetiva dos trabalhadores. Complementar a esse problema, \u00e9 o fen\u00f4meno do <em>economicismo<\/em>, postura que adv\u00e9m de uma adapta\u00e7\u00e3o da linha pol\u00edtica das correntes pol\u00edticas ao n\u00edvel de consci\u00eancia imediato dos trabalhadores, estes \u00faltimos que tendem a lutar em um primeiro momento por suas demandas especificas.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Cabe \u00e0s correntes revolucion\u00e1rias permanentemente elaborar, a partir do n\u00edvel de consci\u00eancia e das demandas imediatas, sa\u00eddas pol\u00edticas e apresent\u00e1-las aos trabalhadores, embora n\u00e3o tenha sido essa a pr\u00e1tica que temos assistido. N\u00e3o se apresentam sa\u00eddas pol\u00edticas como forma de educar politicamente camadas mais amplas dos trabalhadores no cotidiano e nem em momentos de crise, na qual as plataformas pol\u00edticas s\u00e3o decisivas para abrir caminhos mais avan\u00e7ados de luta. Vamos nos dedicar \u00e0 an\u00e1lise sobre a pol\u00edtica do PSTU, porque dentre as correntes da esquerda independente hoje figura como o agrupamento que tem mais influ\u00eancia sobre o conjunto da vanguarda e em alguns setores do movimento de massas. Nesse sentido, vamos nos dedicar a analisar a abordagem equivocada dessa organiza\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao processo de reorganiza\u00e7\u00e3o do movimento no primeiro mandato do governo Lula; a crise pol\u00edtica do \u201cmensala\u00e7\u00e3o\u201d e a crise do Senado; ao processo de resist\u00eancia dos trabalhadores diante dos ataques patronais a partir da crise econ\u00f4mica mundial; e a sua postura em rela\u00e7\u00e3o as manifesta\u00e7\u00f5es de junho e sua pol\u00edtica eleitoral.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><strong>7.1 A recomposi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e o partido revolucion\u00e1rio<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Apesar da chegada de Lula ao planalto ter iniciado uma experi\u00eancia de desilus\u00e3o entre os trabalhadores, ela abre as condi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para a constru\u00e7\u00e3o de alternativas de massas opostas ao projeto petista.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">O PT, a priori, enquanto agrupamento pol\u00edtico, mesmo ap\u00f3s a expuls\u00e3o de correntes minorit\u00e1rias no final na virada da d\u00e9cada de 1980 e o processo de adapta\u00e7\u00e3o a ordem do capital durante os anos 90, n\u00e3o significou perda de base de sustenta\u00e7\u00e3o eleitoral ou pol\u00edtica no interior da classe trabalhadora. Mas, essa capacidade de aglutina\u00e7\u00e3o come\u00e7a a mudar com a elei\u00e7\u00e3o de Lula em 2002.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Esse fato encerra na pr\u00e1tica a expectativa de que um governo do PT pudesse realizar reformas sociais, econ\u00f4mica ou pol\u00edticas. Claro que existe uma dist\u00e2ncia significativa entre esse fato pol\u00edtico e a percep\u00e7\u00e3o subjetiva da ampla vanguarda e das massas de que \u00e9 necess\u00e1rio construir outros instrumentos de luta superando o PT e a CUT. Isso depende, inclusive, de um processo de experi\u00eancia real que conte dentre outros fatores com a capacidade de constru\u00e7\u00e3o de alternativas da parte dos setores da esquerda que se mant\u00eam independentes.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">A reforma da previd\u00eancia logo no in\u00edcio do primeiro mandato de Lula colocou objetivamente um setor da classe trabalhadora em rota direta de colis\u00e3o com o governo. O que,por sua vez, provocou um processo de recomposi\u00e7\u00e3o que, apesar de limitado, ocorreu em duas frentes: um processo de reorganiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtico e um processo de reorganiza\u00e7\u00e3o sindical. Contudo, este processo de recomposi\u00e7\u00e3o foi limitado por raz\u00f5es objetivas e subjetivas. A reforma da previd\u00eancia n\u00e3o atingiu o conjunto dos trabalhadores, uma vez que essa reforma veio completar o processo iniciado por FHC. Assim quem ficou na al\u00e7a de mira foram os funcion\u00e1rios p\u00fablicos federais, mesmo porque a reforma do funcionalismo estadual ficou a cargo dos seus respectivos governos, o que possibilitou a Lula dividir o \u00f4nus da reforma da previd\u00eancia com os governos estaduais.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Os funcion\u00e1rios p\u00fablicos passam a ter a necessidade de apresentar n\u00e3o apenas o tempo de servi\u00e7o para se aposentar, bem como o tempo de servi\u00e7o \u00e9 substitu\u00eddo pelo tempo de contribui\u00e7\u00e3o e se acrescenta como fator obrigat\u00f3rio a idade m\u00ednima. Como os trabalhadores do setor privado j\u00e1 haviam passado por este processo, a luta contra a reforma acabou limitada aos funcion\u00e1rios p\u00fablicos federais. A reforma colocou o funcionalismo p\u00fablico em p\u00e9 de igualdade com os demais setores dos trabalhadores, percep\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que acabou sendo fator de conten\u00e7\u00e3o de um poss\u00edvel processo de irrita\u00e7\u00e3o generalizada, deixando os funcion\u00e1rios p\u00fablicos federais isolados.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Do ponto de vista da ruptura com o governo essa luta ocorreu em apenas um setor do funcionalismo p\u00fablico, sobre o conjunto da classe trabalhadora, e sem que houvesse um enfrentamento pol\u00edtico radicalizado. Ent\u00e3o, a ruptura pol\u00edtica com o governo ocorreu apenas em um setor do funcionalismo p\u00fablico, isto \u00e9, aquele que foi diretamente atacado durante a reforma da previd\u00eancia. Os batalh\u00f5es pesados do movimento oper\u00e1rio e o movimento popular, por outro lado, continuaram como base do governo. Como desdobramento imediato dessa situa\u00e7\u00e3o, tivemos a ruptura de um setor do funcionalismo p\u00fablico com o governo, o PT e a CUT.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">A expuls\u00e3o dos parlamentares petistas que votaram contra a reforma no Congresso poderia ter se desdobrado em um processo de reorganiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e sindical que pudesse &#8211; apesar de n\u00e3o se tratar de raz\u00f5es objetivas de um deslocamento de massas &#8211; ter organizado sindicalmente um amplo setor de vanguarda e poderia ter politicamente reagrupado em uma mesma organiza\u00e7\u00e3o as principais correntes revolucion\u00e1rias. No entanto, por decis\u00f5es pol\u00edticas equivocadas esse processo tem sido atrasado desde ent\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Com a expuls\u00e3o dos chamados \u201cradicais do PT\u201d se abriu uma discuss\u00e3o em toda a vanguarda sobre a possibilidade de construir uma organiza\u00e7\u00e3o comum da esquerda n\u00e3o governista. Isso n\u00e3o se concretizou, todavia, principalmente por uma linha sect\u00e1ria levada a cabo pela dire\u00e7\u00e3o do PSTU. As discuss\u00f5es em torno da constru\u00e7\u00e3o do novo partido foram interrompidas a partir da exig\u00eancia deste partido de que as discuss\u00f5es program\u00e1ticas em torno do novo partido tivessem como condi\u00e7\u00e3o pr\u00e9via a garantia de que o novo partido seria organizado necessariamente em torno do centralismo democr\u00e1tico.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Evidentemente que as correntes e os ex-parlamentares que tinham acabado de romper com o PT n\u00e3o aceitaram essa proposta e come\u00e7aram a imediatamente coletar assinaturas para legalizar um novo partido sem o PSTU. Assim surge o PSOL, que contou desde o in\u00edcio com correntes pol\u00edticas trotskistas, como o MES, CST, uma ruptura da DS e correntes que acabavam de romper com o PSTU como Socialismo e Liberdade e o MTL (Movimento Terra Trabalho e Liberdade), al\u00e9m de intelectuais renomados como Carlos Nelson Coutinho, Ricardo Antunes, Milton Temer e etc. Diante da recente ruptura com o PT e tendo pela frente um fen\u00f4meno pol\u00edtico totalmente novo para a vanguarda \u00e9 evidente que uma s\u00e9rie de discuss\u00f5es em torno do programa e dos crit\u00e9rios de funcionamento deveriam ser feitos com mais cuidado.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">A principal responsabilidade sobre n\u00e3o termos conseguido avan\u00e7ar na constru\u00e7\u00e3o de uma alternativa para o conjunto da vanguarda neste momento foi da dire\u00e7\u00e3o do PSTU. Pois, ao querer impor o centralismo democr\u00e1tico para um recente processo de reagrupamento da esquerda socialista, acabou perdendo a oportunidade de se credenciar politicamente em um setor mais amplo de militantes. Isso porque essa corrente tem uma vis\u00e3o um tanto quanto esquem\u00e1tica sobre a quest\u00e3o do \u201ccentralismo democr\u00e1tico\u201d e do \u201cpartido leninista\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Um partido que come\u00e7ava a se organizar n\u00e3o poderia ser desde o in\u00edcio mais que um partido-movimento com correntes pol\u00edticas internas, este \u00e9, em muitos casos, o caminho natural de diversos partidos que se formaram durante as \u00faltimas d\u00e9cadas, e como estamos vendo atualmente na Europa. Outro fator \u00e9 que como seria nesse partido a corrente majorit\u00e1ria, poderia dar a batalha no seu interior para que esse partido fosse ganhando um perfil revolucion\u00e1rio mais claro, com isso os setores mais oportunistas perderiam espa\u00e7o no seu interior. Mas, ao inv\u00e9s disso, quis impor com um ultimato o regime interno do partido. Fez duas exig\u00eancias inaceit\u00e1veis: a de que as discuss\u00f5es program\u00e1ticas tivessem como condi\u00e7\u00e3o inicial o centralismo democr\u00e1tico e de que o processo de legaliza\u00e7\u00e3o s\u00f3 ocorresse a partir de 2005. Aceitando-se a segunda exig\u00eancia, se por ventura o processo de discuss\u00e3o program\u00e1tica n\u00e3o avan\u00e7asse at\u00e9 o final de 2005, as demais correntes que ao serem expulsas do PT ficariam sem legalidade para disputar as elei\u00e7\u00f5es do pr\u00f3ximo ano, e isto as obrigaria necessariamente a pedir legenda para o PSTU, uma situa\u00e7\u00e3o de fragiliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que ningu\u00e9m poderia aceitar.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">A quest\u00e3o central \u00e9 que a dire\u00e7\u00e3o do PSTU queria usar a condi\u00e7\u00e3o de maior corrente da esquerda e a legalidade para impor \u00e0s demais correntes a sua hegemonia sem que fosse para isso necess\u00e1rio um processo paciente de experi\u00eancia na luta de classes, constru\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e organizativa comum com os demais. A partir da\u00ed, a ruptura dos setores que acabavam de romper com o PT com o f\u00f3rum destinado a discutir a constru\u00e7\u00e3o do novo partido foi inevit\u00e1vel. O PSTU ao mesmo tempo que impunha na pr\u00e1tica a ruptura com as correntes que haviam sido expulsas do PT tentou impulsionar um \u201cmovimento por um Novo Partido\u201d. Essa pol\u00edtica foi um fracasso para o PSTU e a avers\u00e3o dos setores mais amplos da vanguarda a essa organiza\u00e7\u00e3o cresceu. O sectarismo continuou se manifestando em medidas inacredit\u00e1veis, tal como a de orientar os seus militantes e simpatizantes em n\u00e3o apoiarem a legaliza\u00e7\u00e3o do PSOL, um crime pol\u00edtico, considerando-se a necessidade e a possibilidade de construir um espa\u00e7o de unifica\u00e7\u00e3o da esquerda.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Todavia, sem um setor que pudesse contrabalancear as tend\u00eancias mais oportunistas, manifestadas inicialmente pelo setor ligado \u00e0 Heloisa Helena no interior do PSOL, o partido foi constru\u00eddo desde a origem com a perspectiva de se construir um novo PT das origens, partido amplo que pudesse se equilibrar entre reforma e revolu\u00e7\u00e3o. Sem a coluna de militantes do PSTU que, por in\u00e9pcia da sua dire\u00e7\u00e3o, ficou fora desse processo e da disputa em seu interior para que o partido se inclinasse a esquerda, este processo ocorreu de maneira muito d\u00e9bil. A partir de um programa pol\u00edtico rebaixado, foi estabelecido um regime interno federalista no qual os mandatos parlamentares tivesse mais poder dos que os organismos partid\u00e1rios (candidatos descumprem abertamente decis\u00f5es congressuais) e uma estrat\u00e9gia pol\u00edtica na qual o parlamentarismo \u00e9 o centro da vida pol\u00edtica.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Um instrumento que unificasse a esquerda \u00e9 fundamental em um cen\u00e1rio mundial marcado por rebeli\u00f5es populares em v\u00e1rias partes do mundo (com forte incid\u00eancia na Europa) e, da mesma maneira, o debate sobre a necessidade de trabalhar pelo reagrupamento da esquerda revolucion\u00e1ria come\u00e7a a ser reconhecido por v\u00e1rias correntes pol\u00edticas. Agora, no Brasil, a partir da crise do <em>pacto lulista<\/em> se redobra a necessidade de colocar de p\u00e9 um partido revolucion\u00e1rio que possa disputar a hegemonia de setores da classe trabalhadora e da juventude. No entanto, ao contr\u00e1rio do que pensa a dire\u00e7\u00e3o do PSTU, a constru\u00e7\u00e3o de um partido revolucion\u00e1rio n\u00e3o decorre de medidas administrativas, como a exig\u00eancia pr\u00e9via de funcionamento inicial em torno do \u201ccentralismo democr\u00e1tico\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">A experi\u00eancia hist\u00f3rica ligada \u00e0 constru\u00e7\u00e3o demonstra que a constru\u00e7\u00e3o de um partido revolucion\u00e1rio depende da capacidade do partido e de sua dire\u00e7\u00e3o de compreender politicamente as tarefas postas, construir estrat\u00e9gias de luta, ligar-se aos setores mais din\u00e2micos da classe oper\u00e1ria e da juventude e com eles realizar experi\u00eancias pol\u00edticas de luta. \u00c9 claro que um partido revolucion\u00e1rio estabelecido tem a necessidade de se organizar em torno desse crit\u00e9rio \u2013 que pode assumir v\u00e1rias formas, dependendo da luta de classes e da etapa de constru\u00e7\u00e3o desse partido &#8211; e possa colocar em pr\u00e1tica a sua linha pol\u00edtica, mas essa n\u00e3o \u00e9 a condi\u00e7\u00e3o quando se trata do in\u00edcio do reagrupamento de correntes revolucion\u00e1rias.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Pela necessidade premente diante de desafios no Brasil e no mundo cada vez maiores e imediatos da esquerda revolucion\u00e1ria, pensamos que \u00e9 necess\u00e1rio que as principais organiza\u00e7\u00f5es da esquerda independente, como o PSTU e as correntes marxistas do PSOL, assumam a tarefa de abrir na vanguarda a discuss\u00e3o sobre a necessidade de iniciar a construir de f\u00f3runs voltados para a constru\u00e7\u00e3o de um partido marxista revolucion\u00e1rio &#8211; e n\u00e3o se trata de construir outro guarda-chuvas oportunista como o PSOL. Esse partido desde o in\u00edcio tem que ser constru\u00eddo a partir de um programa socialista e uma concep\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria de transforma\u00e7\u00e3o social &#8211; com direito de tend\u00eancia que supere a pulveriza\u00e7\u00e3o que vive a esquerda revolucion\u00e1ria hoje.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><strong>7.2 A recomposi\u00e7\u00e3o e unifica\u00e7\u00e3o do sindicalismo classista<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Do ponto de vista sindical, a reforma da previd\u00eancia de Lula foi o maior ataque direto aos servidores p\u00fablicos, o que evidentemente gerou uma onda de desilus\u00e3o deste setor com o governo, surgindo ai um setor que pudesse ser a base social para o lan\u00e7amento de uma central oper\u00e1ria alternativa. Esse fen\u00f4meno foi identificado por todos os setores, mas foi o PSTU que teve o m\u00e9rito de levar \u00e0 frente a constru\u00e7\u00e3o dessa alternativa sindical quando a CUT apoiou o governo na reforma da previd\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Em rela\u00e7\u00e3o a linha de construir a Conlutas \u00e0 esquerda do PSOL, isto provocou uma divis\u00e3o. Um setor apostou na constru\u00e7\u00e3o da nova central e outro em formar a Intersindical como uma frente de sindicatos para realizar uma media\u00e7\u00e3o entre os que j\u00e1 haviam rompido com a CUT\/UNE e os setores que ainda n\u00e3o tinham dado esse passo. No entanto, apesar do acerto pol\u00edtico em apostar na constru\u00e7\u00e3o de uma alternativa \u00e0 burocracia governista, a dire\u00e7\u00e3o do PSTU dirigiu esse processo como uma estrat\u00e9gia novamente sect\u00e1ria e ultimatista. Pois, da mesma forma que na discuss\u00e3o sobre a constru\u00e7\u00e3o de um novo partido, a linha de constru\u00e7\u00e3o dessa alternativa sindical esteve marcada desde o in\u00edcio por uma linha ultimatista. Em vez de criar as condi\u00e7\u00f5es para se aproximar desse setor a pol\u00edtica da dire\u00e7\u00e3o do PSTU foi a de realizar uma campanha no sentido de que quem estava na CUT deveria ser considerado governista. O PSTU chegou a defender que n\u00e3o poderia haver unidade de a\u00e7\u00e3o com os setores que n\u00e3o haviam rompido com a CUT.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">A outra oportunidade perdida de unifica\u00e7\u00e3o sindical da esquerda independente deu-se por motivos de orienta\u00e7\u00e3o sect\u00e1ria e foi a do Congresso da Classe Trabalhadora (CONCLAT) ocorrido na cidade de Santos (SP), em 2010. Os debates principais em torno desse Congresso de Unifica\u00e7\u00e3o entre Conlutas, Intersindical e agrupamentos menores era sobre o car\u00e1ter da nova central, se organizaria apenas trabalhadores ou trabalhadores e movimentos populares. Da outra parte estava novamente o PSTU com o debate de que o congresso deveria funcionar a partir do \u201ccentralismo democr\u00e1tico\u201d, no qual as vota\u00e7\u00f5es deveriam ser resolvidas por vota\u00e7\u00e3o de maioria e minoria.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">J\u00e1 no final dos trabalhos, foi a vota\u00e7\u00e3o sobre qual seria o nome da nova central que rompeu o Congresso. O PSTU queria garantir que o nome da nova central tivesse \u201cConlutas\u201d em sua composi\u00e7\u00e3o, assim a nova central deveria se chamar CSP-Conlutas, por ser uma marca que n\u00e3o poderia se perder, de acordo com o argumento dos dirigentes desse partido. Mas o que se queria de fato era deixar no nome do novo agrupamento sindical a marca de uma hegemonia que n\u00e3o tinha sustenta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica efetiva. Durante essa vota\u00e7\u00e3o os delegados das demais correntes se levantaram e se retiraram da plen\u00e1ria. A partir da\u00ed houve a implos\u00e3o efetiva do congresso que se dividiu ao menos em tr\u00eas partes. A Conlutas se manteve com o acr\u00e9scimo de CSP no nome, a Intersindical se manteve e a CST formou o Juntos para lutar. Ou seja, um congresso que era para unificar a esquerda independente acabou por refor\u00e7ar a fragmenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Do ponto de vista sindical, o PSTU repetiu o mesmo erro cometido durante a possibilidade de unifica\u00e7\u00e3o pol\u00edtica a partir da expuls\u00e3o dos parlamentares radicais do PT em 2003. Mais uma vez o crit\u00e9rio do \u201ccentralismo democr\u00e1tico\u201d foi utilizado de maneira equ\u00edvoca, pois da mesma forma que na unifica\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria a constru\u00e7\u00e3o do regime de funcionamento n\u00e3o pode se dar de maneira externa a experi\u00eancia comum.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u00c9 verdade que temas de princ\u00edpio, tais como a independ\u00eancia com rela\u00e7\u00e3o aos patr\u00f5es e com o governo, a mobiliza\u00e7\u00e3o e a democracia de base, por exemplo, n\u00e3o se pode abrir m\u00e3o. Por\u00e9m, o esquematismo da dire\u00e7\u00e3o do PSTU ao querer impor de forma brutal todos os temas &#8211; e provocar uma ruptura pelo nome da organiza\u00e7\u00e3o -, para as demais correntes se demonstrou um erro pol\u00edtico sem precedentes e atrasou por muitos anos a unifica\u00e7\u00e3o das correntes pol\u00edticas independentes em torno de um \u00fanico agrupamento que possa come\u00e7ar a fazer frente a hegemonia da CUT em um momento em que as lutas dos trabalhadores diante da crise org\u00e2nica da <em>hegemonia lulista <\/em>se estabelece de maneira incontorn\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Estamos agora em um momento em que o governo e os patr\u00f5es diante da crise econ\u00f4mica voltam a carga contra os trabalhadores atrav\u00e9s de ajustes que tiram direitos, e promovem demiss\u00f5es e arrocho salarial. Por outro lado, estamos em um momento em que os trabalhadores e a juventude est\u00e3o resistindo aos ataques. Por isso, \u00e9 necess\u00e1rio que o movimento sindical independente desenvolva uma estrat\u00e9gia de unifica\u00e7\u00e3o que re\u00fana em um mesmo f\u00f3rum sindical todos os setores para a partir da\u00ed poder disputar a hegemonia da dire\u00e7\u00e3o do movimento dos trabalhadores com a CUT que no novo cen\u00e1rio de polariza\u00e7\u00e3o da crise ter\u00e1 cada vez mais dificuldades em controlar a luta.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><strong>7.3 A pol\u00edtica ante cr\u00edses institucionais<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Diante das crises pol\u00edticas ligadas a corrup\u00e7\u00e3o &#8211; \u201cmensal\u00e3o\u201d, corrup\u00e7\u00e3o no congresso e agora o esquema de corrup\u00e7\u00e3o nos contratos da Petrobr\u00e1s &#8211; as sa\u00eddas proposta n\u00e3o levaram em considera\u00e7\u00e3o a necessidade de construir uma sa\u00edda socialista transicional. Durante a crise do \u201cmensal\u00e3o\u201d, em 2005, o PSTU, defendeu um sistema de consignas que ia dos \u201cFora todos\u201d at\u00e9 \u201cPor um Brasil socialista\u201d. Nessa formula\u00e7\u00e3o se perdia o timbre da situa\u00e7\u00e3o mais geral da luta de classes, pois se desconsidera a expectativa dos trabalhadores na democracia burguesa e que durante a crise do \u201cmensal\u00e3o\u201d n\u00e3o houve nenhuma mobiliza\u00e7\u00e3o popular ou dos trabalhadores.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">J\u00e1 em meio \u00e0 crise do Senado Federal, em 2009, devido aos \u201catos secretos\u201d (medidas tomadas pela Presid\u00eancia do Senado para contratar para o Congresso filiados pol\u00edticos e parentes). A postura do PSTU mudou de forma dr\u00e1stica. Diferentemente do epis\u00f3dio do mensal\u00e3o, na qual o PSTU apresentou uma proposta maximalista para a quest\u00e3o, na crise do Senado a formula\u00e7\u00e3o apresentada foi de \u201cFim do Senado, por uma C\u00e2mara \u00fanica\u201d. Formula\u00e7\u00e3o essa que mal arranhava o problema. O \u201cFim do Senado&#8230;\u201d n\u00e3o pode ser uma bandeira em si, deve encontrar uma s\u00e9rie de reivindica\u00e7\u00f5es que conduzam a uma perspectiva de ruptura revolucion\u00e1ria, ao contr\u00e1rio disto o programa para este momento fica restrito aos marcos da institucionalidade burguesa. Por outro lado, era importante apresentar tarefas que fossem pontes entre a situa\u00e7\u00e3o atual e as reivindica\u00e7\u00f5es transit\u00f3rias.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Na crise de corrup\u00e7\u00e3o na Petrobras denunciada a partir da opera\u00e7\u00e3o da Pol\u00edcia Federal (PF) denominada de \u201cLava Jato\u201d em refer\u00eancia a lavagem de dinheiro desviado da empresa feita por doleiros envolve as principais empreiteiras do pa\u00eds, pol\u00edticos da alta c\u00fapula de partidos como o PT, PMDB, PSDB, PP e Solidariedade (partidos da base aliada do governo e de oposi\u00e7\u00e3o). Neste esquema as empreiteiras pagavam propina para diretores da empresa indicados por partidos governistas em que parte era repassada para os cofres dos partidos (calcula-se que foi movimentado nesse esquema algo em torno a 10 bilh\u00f5es). E, sem atinar para os diversos aspectos do processo, mais uma vez o PSTU defende como bandeira pol\u00edtica o \u201cFim do Senado\u201d, desligada de bandeiras que possam mobilizar em torno de sa\u00eddas pol\u00edticas mais gerais para a crise.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">O principal problema da linha do PSTU \u00e9 de, em meio a crises pol\u00edticas, n\u00e3o levar em conta que o levantamento de demandas democr\u00e1ticas deve ser parte de um sistema de consignas transicionais. Diante dos seguidos exemplos e experi\u00eancias com o Estado burgu\u00eas, incluindo o seu parlamento, n\u00e3o apresentar uma proposta aos trabalhadores que v\u00e1 para al\u00e9m da democracia formal consiste em um rebaixamento do programa que s\u00f3 pode ser explicado pela adapta\u00e7\u00e3o desta dire\u00e7\u00e3o \u00e0 l\u00f3gica dominante da democracia formal. Assim, mais uma vez o crit\u00e9rio de utilizar um sistema de consignas que v\u00e1 das mais imediatas at\u00e9 as mediatas \u00e9 perdido. Durante essas crises levantamos pol\u00edticas que tivessem voltada para o atendimento das necessidades prementes dos trabalhadores, de democratiza\u00e7\u00e3o e as de supera\u00e7\u00e3o socialista, por\u00e9m sem desconsiderar que n\u00e3o podemos propor tarefas que significam o fortalecimento do regime, tal como \u201cFim do Senado\u201d pura e simplesmente e nem deixar de considerar que vivemos sob a \u00e9gide da democr\u00e1tica formal.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Em meio a uma situa\u00e7\u00e3o de polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica entre o governo, nenhuma reforma pol\u00edtica que saia dessa tens\u00e3o ir\u00e1 favorecer os trabalhadores, pois governo e oposi\u00e7\u00e3o burguesa, apesar das diferen\u00e7as pontuais, querem realizar micro reformas para aperfei\u00e7oar a m\u00e1quina que alija as massas de trabalhadores do poder, al\u00e9m de reduzir o espa\u00e7o da oposi\u00e7\u00e3o que representa os trabalhadores (PSTU, PSOL e PCB). Como em outros momentos e, principalmente, agora que entramos em uma crise org\u00e2nica da <em>hegemonia lulista,<\/em> pensamos que qualquer sistema de consignas para a crise pol\u00edtica deve conter a consigna de Assembleia Constituinte Soberana e Independente imposta pela mobiliza\u00e7\u00e3o direta dos trabalhadores, o que contribui para que os trabalhadores encontrem caminhos para substituir a representa\u00e7\u00e3o formal (burguesa) por uma estrutura de poder baseada na mobiliza\u00e7\u00e3o e em organismos de representa\u00e7\u00e3o direta.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><strong>7.4 A situa\u00e7\u00e3o exige mais do que <em>economicismo<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Aqui entramos no terreno da pol\u00edtica para o movimento sindical. Nesse quesito predominou o <em>economicismo<\/em>, ou seja, as demandas imediatas dos trabalhadores s\u00e3o tratadas de forma a n\u00e3o considerar a necessidade de politiza\u00e7\u00e3o constante das lutas. N\u00e3o se trata apenas de propaganda voltada para a forma\u00e7\u00e3o de setores mais amplos dos trabalhadores, o que tem grande import\u00e2ncia tamb\u00e9m, mas de mediante as lutas procurar formas de generalizar o problema, tentar transformar demandas importantes em lutas nacionais que comovam os que n\u00e3o fazem parte de determinada categoria em luta.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Comecemos por destacar a postura do PSTU em rela\u00e7\u00e3o a mobiliza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores da GM de S\u00e3o Jos\u00e9 dos Campos (polo industrial que fica entre S\u00e3o Paulo e Rio de Janeiro) no primeiro semestre de 2008, que enfrentaram um pacote de ataques da empresa. Este foi um dos exemplos de processo de mobiliza\u00e7\u00e3o que permitia e exigia uma pol\u00edtica que rompesse com o isolamento a que foram submetidos estes trabalhadores, mas o PSTU, ao n\u00e3o romper com a sua l\u00f3gica corporativa e imediatista, tratou de manter a mobiliza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores da GM restrita geograficamente a S\u00e3o Jos\u00e9 dos Campos e a seu controle pol\u00edtico. No final desse processo foi imposta pela empresa a contrata\u00e7\u00e3o de trabalhadores tempor\u00e1rios.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">No in\u00edcio de 2009 a GM de S\u00e3o Jos\u00e9 dos Campos vai, justamente, atacar primeiro o elo mais fraco: os mesmos contratados em car\u00e1ter tempor\u00e1rios ap\u00f3s a luta de maio\/junho de 2008 que descrevemos a cima. Ao n\u00e3o avaliar concretamente o que significava a introdu\u00e7\u00e3o dos contratos tempor\u00e1rios, a dire\u00e7\u00e3o n\u00e3o preparou os trabalhadores a contento para os futuros enfrentamentos com a patronal, fato que contribuiu para que n\u00e3o houvesse resist\u00eancia diante da demiss\u00e3o de mais de 800 trabalhadores.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Al\u00e9m de n\u00e3o preparar os trabalhadores para o que viria n\u00e3o foi capaz nem de impulsionar uma real resist\u00eancia diante das demiss\u00f5es, pois, diante da demiss\u00e3o de mais de 800 trabalhadores tempor\u00e1rios na GM a \u00fanica pol\u00edtica desenvolvida pelo sindicato dos metal\u00fargicos de S\u00e3o Jos\u00e9 dos Campos foi realizar uma paralisa\u00e7\u00e3o de duas horas em frente \u00e0 f\u00e1brica e um ato no centro da cidade que reuniu no m\u00e1ximo 2 mil pessoas. A falta de resposta pol\u00edtico-sindical \u00e0 altura na demiss\u00e3o na GM foi seguida da demiss\u00e3o massiva (4.200) dos metal\u00fargicos da Embraer (f\u00e1brica de avi\u00f5es), tamb\u00e9m em S\u00e3o Jos\u00e9 dos Campos.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">No segundo semestre de 2009, logo ap\u00f3s a demiss\u00e3o de milhares de metal\u00fargicos em S\u00e3o Jos\u00e9 dos Campos, a Conlutas apresenta um balan\u00e7o triunfalista em rela\u00e7\u00e3o a sua campanha salarial por ter conseguido uma reposi\u00e7\u00e3o salarial em torno de 1% a mais do que os metal\u00fargicos do ABC que s\u00e3o dirigidos pela CUT. O que pode diferenciar verdadeiramente uma alternativa sindical n\u00e3o s\u00e3o acordos salariais com alguns pontos percentuais superiores ao da burocracia sindical governista, mas uma postura sindical totalmente distinta que seja capaz de lutar por demandas espec\u00edficas e articular as categorias em luta. No segundo semestre deste mesmo ano uma s\u00e9rie de categorias, como carteiros, banc\u00e1rios, metal\u00fargicos, fizeram greves simult\u00e2neas sem que o PSTU propusesse a unifica\u00e7\u00e3o destes trabalhadores.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">O esfor\u00e7o de politiza\u00e7\u00e3o desse setor se restringe apenas em exigir do governo federal que atenda as demandas populares, trabalhistas ou estudantis, nunca se faz um apelo de politiza\u00e7\u00e3o ao conjunto diretamente aos trabalhadores ou a juventude para que tal luta seja alvo de uma campanha nacional, isso nem quando a luta atinge diretamente a sua base, como na \u00faltima greve dos trabalhadores da GM de S\u00e3o Jos\u00e9 dos Campos, por exemplo. A compreens\u00e3o da situa\u00e7\u00e3o de polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que entramos logo ap\u00f3s a elei\u00e7\u00e3o de outubro de 2014 exige respostas pol\u00edticas. Isto implica, necessariamente, que as lutas em curso, e as que ir\u00e3o surgir, se convertam em lutas profundamente pol\u00edticas, o que \u00e9 estrat\u00e9gico para a recomposi\u00e7\u00e3o do movimento oper\u00e1rio e estudantil.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><strong>7.5 diante da onda de Junho&#8230;<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Sabemos que as jornadas de Junho e a situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica aberta a partir da\u00ed colocaram maiores desafios para esquerda. Foi uma onda de indigna\u00e7\u00e3o juvenil compar\u00e1vel \u00e0s passeatas massivas pelo \u201cFora Collor\u201d de 1992 ou em rela\u00e7\u00e3o ao n\u00edvel de enfrentamento \u00e0s manifesta\u00e7\u00f5es contra a ditadura militar do final da d\u00e9cada de 1970. Contudo, do ponto de vista do patamar pol\u00edtico, ficou aqu\u00e9m destas express\u00f5es, pois se tratou de uma onda de indigna\u00e7\u00e3o popular depois de duas d\u00e9cadas defensiva do movimento de massas.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Foram longos vinte anos de retrocesso pol\u00edtico que n\u00e3o pode ser desconsiderado se queremos compreender a din\u00e2mica da luta de classes desde ent\u00e3o. Para recuperar o tempo pol\u00edtico perdido ser\u00e3o necess\u00e1rios alguns anos de luta de classes, inclusive, com efeito, para atingir o patamar de consci\u00eancia pol\u00edtica de d\u00e9cadas anteriores. Essa nova etapa da luta de classes no Brasil vai, obviamente, conviver com momentos de refluxo, mas algumas caracter\u00edsticas fundamentais v\u00e3o ser mantidas, tais como: predisposi\u00e7\u00e3o de amplos setores de massas em tomar as ruas e se envolverem diretamente nos temas pol\u00edticos.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Essa nova situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica colocou\/coloca a prova organiza\u00e7\u00f5es, sua estrutura militante, dire\u00e7\u00e3o e pol\u00edticas. Mas tamb\u00e9m a partir da maior atividade da classe trabalhadora e da juventude s\u00e3o criadas condi\u00e7\u00f5es mais favor\u00e1veis para o desenvolvimento de correntes que passem por essas provas com uma linha pol\u00edtica correta. Fazemos essa digress\u00e3o para dizer que \u00e9 necess\u00e1rio, a partir dessa considera\u00e7\u00e3o, compreender que essa nova situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de maior atividade da classe trabalhadora n\u00e3o ir\u00e1 se inclinar para o socialismo para a esquerda revolucion\u00e1ria sem uma dura e prolongada batalha das organiza\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias no interior desse movimento, o que necessariamente nasce de forma difusa, contradit\u00f3ria e com elementos de atraso. Assim, como forma de aferi\u00e7\u00e3o de pol\u00edtica, seguiremos nossa an\u00e1lise no intuito de tratar brevemente da forma como o PSTU interviu nas jornadas de junho.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">No 18 de Brum\u00e1rio<a href=\"#_ftn66\" name=\"_ftnref66\"><sup><sup>[66]<\/sup><\/sup><\/a>, texto que analisa a revolu\u00e7\u00e3o francesa de 1848 (mas que tem grande valor hist\u00f3rico e te\u00f3rico para se compreender a din\u00e2mica da luta de classes e particularmente a din\u00e2micas das crises pol\u00edticas), Marx afirma que os homens n\u00e3o fazem a hist\u00f3ria em condi\u00e7\u00f5es ideais, por\u00e9m nas que s\u00e3o tramitadas pelo passado, que \u201ca tradi\u00e7\u00e3o de todas as gera\u00e7\u00f5es mortas pesa sobre o c\u00e9rebro dos vivos como um pesadelo\u201d e que nas crises pol\u00edticas os homens tomam emprestado do passado seus nomes, suas palavras de ordem e sua linguagem. Em nossa opini\u00e3o, essa \u201clei hist\u00f3rica\u201d demonstrada e analisada por Marx pode ser uma importante chave para compreendermos porque setores importantes de massa assumem a bandeira e o hino nacional como m\u00e1scaras para manifestarem sua indigna\u00e7\u00e3o. \u00c9 claro, evidentemente, que h\u00e1 setores que se utilizam das mesmas roupagens de forma esclarecida e identificada conscientemente com as ideologias dominantes, mas n\u00e3o \u00e9 esse o caso das multid\u00f5es que est\u00e3o indo \u00e0s ruas.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Sobre o atraso pol\u00edtico de um setor da juventude n\u00e3o podemos desconsiderar que desde a derrota da greve dos petroleiros em 1995 entramos em uma etapa de refluxo do movimento dos trabalhadores no qual a ofensiva neoliberal deu \u00e0 t\u00f4nica. Se fizermos um recuo ainda maior, ap\u00f3s a queda do muro de Berlim houve uma brutal ofensiva ideol\u00f3gica para \u201cprovar\u201d que n\u00e3o havia alternativa ao capitalismo e que as experi\u00eancias \u201csocialistas\u201d fracassaram e eram contra toda forma de individualidade e democracia. Todavia, a explos\u00e3o de rebeldia popular inaugurou uma nova situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica nacional, colocando o Brasil no circuito internacional de rebeli\u00f5es populares, o que criou uma situa\u00e7\u00e3o tremendamente mais favor\u00e1vel para a reconstru\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia classista e socialista de massas.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">A massifica\u00e7\u00e3o do movimento e a disputa do mesmo pela direita levaram alguns setores a tirarem conclus\u00f5es equivocadas sobre o processo e as tarefas que decorriam dele. A come\u00e7ar pela dire\u00e7\u00e3o do movimento, o MPL, que suspende a convoca\u00e7\u00e3o de todas a mobiliza\u00e7\u00e3o afirmando que a pauta da redu\u00e7\u00e3o da passagem j\u00e1 havia sido conquistada e as manifesta\u00e7\u00f5es estavam tomando rumos contr\u00e1rios \u00e0 proposta do MPL. N\u00e3o foi apenas o MPL que tirou conclus\u00f5es impressionistas e equivocadas sobre o processo. Organiza\u00e7\u00f5es como PSOL e PSTU tamb\u00e9m se equivocaram sobre os rumos do movimento e as pol\u00edticas adequadas diante da explos\u00e3o da situa\u00e7\u00e3o de passividade das massas.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">A pol\u00eamica com o <em>economicismo<\/em> do PSTU continua, pois permeia toda a pol\u00edtica dessa organiza\u00e7\u00e3o. Durante as manifesta\u00e7\u00f5es de junho essa organiza\u00e7\u00e3o apresentou uma pauta baseada apenas em reivindica\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas que tinha como s\u00edntese um \u201cplano econ\u00f4mico dos trabalhadores\u201d. Pol\u00edtica essa que n\u00e3o conseguiu rivalizar com a manobra diversionista do governo federal e do PT que por sua parte apresentava a proposta de \u201creforma pol\u00edtica\u201d atrav\u00e9s de um plebiscito como forma de esvaziar a pol\u00edtica das ruas.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">O necess\u00e1rio era apresentar uma linha que contivesse uma formula\u00e7\u00e3o totalizante (pol\u00edtica) para a situa\u00e7\u00e3o. Medidas anticapitalistas s\u00e3o necess\u00e1rias para qualquer situa\u00e7\u00e3o de crise pol\u00edtica, mas um conjunto de medidas soltas no espa\u00e7o n\u00e3o pode se realizar e, por isto, \u00e9 necess\u00e1rio um f\u00f3rum de luta que as coloque em pr\u00e1tica. Assim sendo, diante da perspectiva de sa\u00edda bonarpartista apresentada por Dilma, deveria haver uma tentativa de di\u00e1logo direto com as massas na rua. Por isso,consideramos correto naquele momento retomar a agita\u00e7\u00e3o de uma Constituinte soberana e independente dos patr\u00f5es e do governo.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><strong>7.6 Sectarismo e pol\u00edtica eleitoral<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">As elei\u00e7\u00f5es foram outro momento decisivo da nova situa\u00e7\u00e3o para testar a pol\u00edtica da esquerda. Em meio a deteriora\u00e7\u00e3o, na nova situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica p\u00f3s junho se acumulava o processo de desgaste do governo e abriu-se um campo maior de disputa no interior das massas para a esquerda. No entanto, essa situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e eleitoral mais favor\u00e1vel n\u00e3o foi aproveitada, pois as maiores organiza\u00e7\u00f5es da esquerda independente (PSOL e PSTU) n\u00e3o formaram uma frente eleitoral para participar da elei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">A incapacidade de construir uma frente eleitoral nestas elei\u00e7\u00f5es demonstrou mais uma vez a profundidade dos problemas de formula\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da esquerda socialista no Brasil. Perdeu-se oportunidades de amplia\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o eleitoral entre as massas, de avan\u00e7ar no terreno cada vez mais necess\u00e1rio, isto \u00e9, o terreno da unifica\u00e7\u00e3o pol\u00edtica das esquerda e inser\u00e7\u00e3o em setores da classe trabalhadora \u2013 como os dos cord\u00f5es industriais em todo pa\u00eds &#8211; que come\u00e7am a n\u00e3o votar mais no PT. Situa\u00e7\u00e3o essa que ocorreu devido a uma combina\u00e7\u00e3o de sectarismo(PSTU) e oportunismo(PSOL) e, em meio a uma polariza\u00e7\u00e3o burguesa n\u00e3o vista desde 1989, perdemos a oportunidade de apresentar uma alternativa socialista unificada para o pa\u00eds.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Mesmo com a pol\u00edtica do PSOL de ficar com a candidatura a presidente e vice, o que parece ter sido o motivo real da n\u00e3o aceita\u00e7\u00e3o do PSTU de entrar na alian\u00e7a com o PSOL, faltou desta organiza\u00e7\u00e3o uma batalha para que todas as organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e sindicais fizessem parte da constru\u00e7\u00e3o pela base da frente de esquerda para as elei\u00e7\u00f5es. O c\u00e1lculo do PSTU era de que poderia obter uma quantidade de votos similar ao do PSOL, como sabemos hoje esse c\u00e1lculo eleitoral passou longe do resultado das urnas que deu ao PSOL 1,5% dos votos e ao PSTU 0,9%.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">A esquerda socialista perdeu a possibilidade de dialogar mais amplamente com os setores de massas na primeira elei\u00e7\u00e3o ap\u00f3s a rebeli\u00e3o de junho de 2013 e capitalizar parte da base oper\u00e1ria e da juventude que o PT vem perdendo. N\u00e3o compreendeu que a tarefa central nas elei\u00e7\u00f5es deste ano era fazer um amplo chamado para que a esquerda revolucion\u00e1ria constru\u00edsse um movimento capaz de criar uma chapa que representasse de fato os milh\u00f5es de jovens e trabalhadores que desde Junho protagonizam um hist\u00f3rico processo de lutas.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Perdeu-se um espa\u00e7o pol\u00edtico valioso para se apresentar um programa socialista para uma imensa massa de jovens e trabalhadores, que est\u00e3o cada vez mais descontentes com a pol\u00edtica tradicional, essa posi\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m n\u00e3o contribuiu em nada para preparar as lutas que ir\u00e3o enfrentar, advindas do \u201crem\u00e9dio amargo\u201d do ajuste p\u00f3s-eleitoral. Ou seja, perdeu-se a oportunidade de apresentar uma sa\u00edda socialista unificada para os trabalhadores e jovens radicalizados em um momento em que j\u00e1 se esbo\u00e7ava a fase terminal do <em>pacto lulista<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><strong>7.7 A crise de hegemonia<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">J\u00e1 caracterizamos que a partir de Junho de 2013 superamos a situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica reacion\u00e1ria (de refluxo quase total do movimento de massas) vivida no Brasil durante os anos de auge do <em>pacto lulista<\/em>. Uma mudan\u00e7a na situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que n\u00e3o conseguiu alterar por completo a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as entre as classes, mas que abriu um patamar muito superior de politiza\u00e7\u00e3o da sociedade, que se manifesta no aumento da quantidade e variedade de manifesta\u00e7\u00f5es, na radicalidade das lutas com paralisa\u00e7\u00f5es constantes de rodovias, greves com piquetes, sabotagens e ocupa\u00e7\u00f5es e etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">A crise econ\u00f4mica no Brasil combinada com a onda de rebeldia de 2013, denominada a seu tempo por n\u00f3s como um processo de rebeli\u00e3o popular, rompeu com a situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica reacion\u00e1ria que vivemos durante mais de dez anos e inaugurou uma nova situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que, por sua vez, n\u00e3o conseguiu alterar completamente a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as entre as classes. Apesar de n\u00e3o termos entrado em uma situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de rebeldia generalizada, ou em uma situa\u00e7\u00e3o pr\u00e9-revolucion\u00e1ria, como querem determinados analistas, de l\u00e1 para c\u00e1, momentos de relativa tranquilidade s\u00e3o interrompidos com uma atividade massiva e radicalizada dos trabalhadores e da juventude n\u00e3o vista h\u00e1 anos em nosso territ\u00f3rio. Houve conjunturas de ascenso do movimento, conjunturas de fortalecimento do governo e endurecimento com as lutas e agora uma nova fase no interior dessa situa\u00e7\u00e3o que est\u00e1 sendo marcada pela crise org\u00e2nica do <em>lulismo, <\/em>que tem como desdobramento uma polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que at\u00e9 agora est\u00e1 sendo capitaneada pela direita.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">A perda de sustenta\u00e7\u00e3o do governo est\u00e1 ligada a irrefre\u00e1vel recess\u00e3o, perda de capacidade de pagamento dos juros da d\u00edvida, desvaloriza\u00e7\u00e3o cambial, infla\u00e7\u00e3o e crescimento do desemprego. Os setores da classe m\u00e9dia alta se afetam com a deprecia\u00e7\u00e3o cambial e s\u00e3o os que est\u00e3o mobilizando multid\u00f5es contra o governo. Dilma tentou reagir com um pacto de medidas anticorrup\u00e7\u00e3o,contudo as den\u00fancias ligadas a opera\u00e7\u00e3o \u201cLava Jato\u201d n\u00e3o param de atingir o governo e o PT.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Estamos em meio a uma crise que, mesmo que n\u00e3o venha a se desdobrar em um impeachment de Dilma, tende a significar um longo per\u00edodo de indefini\u00e7\u00f5es e polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Podemos dizer, assim, que estamos diante de uma crise pol\u00edtica org\u00e2nica pela combina\u00e7\u00e3o entre a deteriora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, perda de apoio popular e de base parlamentar e mobiliza\u00e7\u00f5es de rua.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Ap\u00f3s a elei\u00e7\u00e3o de 2014 entramos em uma nova conjuntura e o <em>pacto lulista<\/em> entra definitivamente em uma crise estrutural. N\u00e3o se trata de qualquer conjuntura, pois se constitui uma combina\u00e7\u00e3o superior entre os problemas pol\u00edticos e econ\u00f4micos verificados at\u00e9 as elei\u00e7\u00f5es presidenciais. A crise pol\u00edtica at\u00e9 a elei\u00e7\u00e3o de Dilma podia ser camuflada e ter os seus efeitos dilu\u00eddos porque at\u00e9 o momento os elementos da crise (tais como o crescente desemprego e os ataques diretos a direitos conquistados) n\u00e3o se demonstravam t\u00e3o explosivos como agora. Dilma ganhou a elei\u00e7\u00e3o com o argumento de que a oposi\u00e7\u00e3o iria aplicar pol\u00edticas neoliberais, cortar direitos e acabar com pol\u00edticas sociais. No entanto, a primeira medida do governo foi elevar a taxa de juros, seguida da nomea\u00e7\u00e3o de um \u201cnot\u00f3rio\u201d economista neoliberal para titular de Minist\u00e9rio da Fazenda. Em seguida, para garantir um super\u00e1vit prim\u00e1rio de 1,5% em 2015, anunciou restri\u00e7\u00e3o de direitos trabalhistas como o acesso ao seguro desemprego, a pens\u00e3o por morte e outros. Para coroar a linha abertamente neoliberal, o governo no final do ano contingenciou 30% do or\u00e7amento federal.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Esse pilar de sustenta\u00e7\u00e3o do governo tem se deteriorado rapidamente. Apenas no primeiro m\u00eas deste ano foram demitidos mais de 30 mil trabalhadores, n\u00famero este que se soma aos milhares de demitidos na ind\u00fastria metal\u00fargica, na constru\u00e7\u00e3o civil e agora no setor de servi\u00e7os. Todavia, a resist\u00eancia dos trabalhadores j\u00e1 se faz notar pelas greves radicalizadas da classe oper\u00e1ria industrial contra demiss\u00f5es, nos servi\u00e7os p\u00fablicos, como a dos professores do Estado do Paran\u00e1 e nas mobiliza\u00e7\u00f5es dos trabalhadores contra as demiss\u00f5es na constru\u00e7\u00e3o civil e rebeli\u00e3o nacional dos caminhoneiros por reajuste no frete, contra o aumento do DIESEL e melhores condi\u00e7\u00f5es de trabalho. No in\u00edcio do ano fomos agradavelmente surpreendidos pela resist\u00eancia radicalizada dos oper\u00e1rios da Volkswagen de S\u00e3o Bernardo do Campo contra a demiss\u00e3o de 800 trabalhadores. No m\u00eas de janeiro tivemos uma greve que contou com uma incr\u00edvel disposi\u00e7\u00e3o de luta dos trabalhadores, que realizaram a greve no interior da f\u00e1brica, piquetes di\u00e1rios, arrast\u00f5es no seu interior e manifesta\u00e7\u00f5es p\u00fablicas. Depois de 11 dias de greve a empresa cedeu e reincorporou os trabalhadores. Processo similar ocorreu na General Motors de S\u00e3o Jos\u00e9 dos Campos no m\u00eas seguinte. Ap\u00f3s o an\u00fancio de que a empresa iria desligar 784 trabalhadores que estavam layout os oper\u00e1rios resolveram fazer uma greve no interior da f\u00e1brica, garantindo a paralisa\u00e7\u00e3o completa da planta, o que fez com que uma semana depois a empresa recuasse das demiss\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Al\u00e9m das greves radicalizadas e vitoriosas dos trabalhadores da Volks (S\u00e3o Bernardo do Campo) e da GM (S\u00e3o Jos\u00e9 dos Campos) contra as demiss\u00f5es em massa &#8211; processos que trazem a classe oper\u00e1ria industrial para a cen\u00e1rio pol\u00edtico nacional depois de mais de uma d\u00e9cada de apatia total &#8211; as demiss\u00f5es nas obras e empresas contratadas pela Petrobr\u00e1s a partir do esc\u00e2ndalo de corrup\u00e7\u00e3o envolvendo partidos, empresa e prestadores de servi\u00e7o, devido \u00e0 interrup\u00e7\u00e3o de pagamentos a luta contra o desemprego ocorrem em um cen\u00e1rio em que h\u00e1 uma combina\u00e7\u00e3o explosiva, de fatores pol\u00edticos e econ\u00f4micos que colocou o governo Dilma contra a parede. Este elemento \u00e9 o que gera maior agita\u00e7\u00e3o sindical que, se bem aproveitada, pode se desdobrar em uma luta pol\u00edtica importante contra as medidas do governo e que se coloque como alternativa \u00e0 polariza\u00e7\u00e3o com o governo que est\u00e1 sendo protagonizada atualmente pela direita.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Diante da perda de protagonismo do governo, que perdeu base social e pol\u00edtica, e apesar da radicaliza\u00e7\u00e3o vista nas \u00faltimas greves, quem est\u00e1 de posse da iniciativa pol\u00edtica \u00e9 a classe dominante. Isso ficou claro no ato do dia 15 de mar\u00e7o quando cerca de 2 milh\u00f5es de pessoas sa\u00edram \u00e0s ruas para se mobilizar contra o governo. O sucesso das convoca\u00e7\u00f5es contou com a participa\u00e7\u00e3o da grande m\u00eddia que dava notas constantes sobre as manifesta\u00e7\u00f5es com tom de convoca\u00e7\u00e3o. Esses atos, apesar do total apoio pol\u00edtico n\u00e3o foram convocados diretamente pelos partidos da oposi\u00e7\u00e3o burguesa (PSDB ou DEM), contudo pelas redes sociais atrav\u00e9s de movimentos neoconservadores intitulados como \u201cBrasil Livre\u201d, \u201cVem pra rua\u201d e outros. Mas, ficou claro que a composi\u00e7\u00e3o social majorit\u00e1ria dessa manifesta\u00e7\u00e3o era de classe m\u00e9dia, eleitores de A\u00e9cio Neves e com renda acima de cinco sal\u00e1rios m\u00ednimos.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Esse setor se mobiliza contra a corrup\u00e7\u00e3o na Petrobr\u00e1s e pelo impeachment de Dilma a partir de uma plataforma pol\u00edtica claramente reacion\u00e1ria. Ap\u00f3s as manifesta\u00e7\u00f5es, Dilma, para retomar algum protagonismo pol\u00edtico, anuncia um pacote de medidas anticorrup\u00e7\u00e3o. No entanto, o centro da sua pol\u00edtica \u00e9 o ajuste fiscal que se dirige principalmente contra os trabalhadores. Dilma em qualquer entrevista diz que o ajuste fiscal \u00e9 fundamental para o pa\u00eds. Assim, o governo tenta usar, contraditoriamente, as manifesta\u00e7\u00f5es para fortalecer e tentar aprovar no Congresso o ajuste fiscal. Repetindo nas ruas e nas pesquisas o fen\u00f4meno das \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es, na qual o PT perdeu apoio eleitoral em todas as regi\u00f5es oper\u00e1rias.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Pesquisas deram conta que apesar das manifesta\u00e7\u00f5es serem predominantemente de classe m\u00e9dia e eleitores de A\u00e9cio, o \u00edndice de popularidade de Dilma em todas as camadas sociais e regi\u00f5es do pa\u00eds estava caindo vertiginosamente para \u00edndices politicamente perigosos. Por outro lado, desde o come\u00e7o do ano uma s\u00e9rie de lutas dos trabalhadores ocorre por todo o pa\u00eds. O problema \u00e9 que por falta de alternativa oposicionista com capacidade de mobilizar as massas e com uma plataforma pela esquerda, essa onda de manifesta\u00e7\u00f5es, apesar de serem majoritariamente de classe m\u00e9dia, come\u00e7a a arrastar ainda secundariamente outros setores sociais.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Estamos em uma conjuntura de polariza\u00e7\u00e3o entre o governo e a oposi\u00e7\u00e3o de direita extremamente perigoso do ponto de vista pol\u00edtico, pois sem uma interven\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da classe trabalhadora e da juventude corremos o risco de que a situa\u00e7\u00e3o de maior politiza\u00e7\u00e3o desde os anos 90 seja sequestrada pela direita. Esta conjuntura pol\u00edtica tende a se estender, pois as condi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e econ\u00f4micas n\u00e3o permitem uma solu\u00e7\u00e3o r\u00e1pida para este ou para aquele lado.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">A polariza\u00e7\u00e3o entre governo e oposi\u00e7\u00e3o de direita ir\u00e1 marcar o cen\u00e1rio pol\u00edtico nacional nos pr\u00f3ximos meses. O que n\u00e3o podemos permitir \u00e9 que os trabalhadores fiquem encurralados ou mesmo sendo disputados pelo governo ou pela direita tradicional sem que uma alternativa classista seja constru\u00edda em um momento de efervesc\u00eancia de lutas. Parte ausente na atual conjuntura s\u00e3o as condi\u00e7\u00f5es mais subjetivas para a mobiliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da classe trabalhadora, pois amplos setores das massas trabalhadoras j\u00e1 est\u00e3o em marcha contra os ataques as suas condi\u00e7\u00f5es de vida nas greves por emprego, sal\u00e1rio ou direitos. E a grande contradi\u00e7\u00e3o aqui \u00e9 a de que quem tem capacidade real de mobilizar grandes contingentes al\u00e9m da grande m\u00eddia est\u00e1 no interior do governo &#8211; estamos falando da CUT, MST e MTST. Por isso, a esquerda independente tem que desenvolver uma combina\u00e7\u00e3o entre exig\u00eancia e den\u00fancia sobre a dire\u00e7\u00e3o burocr\u00e1tica destes aparatos.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">A classe trabalhadora e a juventude t\u00eam sabido responder \u00e0 altura estes ataques em seus lugares de trabalho e repudiando demiss\u00f5es em massa, pol\u00edticas de arrocho salarial e cortes de gastos em educa\u00e7\u00e3o. Mas, sozinhos, sem as organiza\u00e7\u00f5es da esquerda, n\u00e3o podem elaborar as sa\u00eddas pol\u00edticas para fazer frente ante a burguesia, os meios de comunica\u00e7\u00e3o e os movimentos neodireitistas que t\u00eam conseguido, por meio de atos massivos (que mobilizam a classe m\u00e9dia), come\u00e7ar a mobilizar setores da classe trabalhadora para pressionar o governo a ir mais fundo nos ajustes de interesse patronal e polarizar o cen\u00e1rio pol\u00edtico. Ent\u00e3o, o problema que temos aqui \u00e9 que, apesar da classe trabalhadora estar mobilizada e at\u00e9 utilizando m\u00e9todos radicalizados de luta, n\u00e3o dispomos at\u00e9 o momento de um instrumento capaz de organizar o descontentamento de amplas massas trabalhadores e populares com o governo pela esquerda e com uma plataforma pol\u00edtica independente dos patr\u00f5es e do governo.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Est\u00e1 conjuntura pol\u00edtica tende a se estender, pois as condi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e econ\u00f4micas n\u00e3o permitem uma solu\u00e7\u00e3o r\u00e1pida para este ou para aquele lado. Assim, a polariza\u00e7\u00e3o entre governo e oposi\u00e7\u00e3o de direita ir\u00e1 marcar o cen\u00e1rio pol\u00edtico nacional nos pr\u00f3ximos meses. O que n\u00e3o podemos permitir \u00e9 que os trabalhadores fiquem encurralados ou mesmo sendo disputados pelo governo ou pela direita tradicional sem que uma alternativa classista seja constru\u00edda em um momento de efervesc\u00eancia de lutas.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Essa situa\u00e7\u00e3o, na qual as for\u00e7as reacion\u00e1rias conseguem colocar milh\u00f5es nas ruas enquanto a esquerda coloca poucas centenas, n\u00e3o acontece por raz\u00f5es pela derrota da classe ou pela aus\u00eancia de condi\u00e7\u00f5es disposi\u00e7\u00e3o de luta. A aus\u00eancia aqui \u00e9 de condi\u00e7\u00f5es subjetivas, pois amplos setores das massas trabalhadoras j\u00e1 est\u00e3o em marcha contra os ataques \u00e0s suas condi\u00e7\u00f5es de vida nas greves por emprego, sal\u00e1rio ou direitos.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Diante de uma situa\u00e7\u00e3o na qual o <em>pacto lulista<\/em> est\u00e1 em uma crise terminal, do fortalecimento da direita e da retomada do movimento oper\u00e1rio com seus m\u00e9todos de luta hist\u00f3ricos, \u00e9 necess\u00e1rio retomar a proposta de unificar pol\u00edtica e sindicalmente a esquerda radical. Pensamos que a experi\u00eancia da luta de classes nestes \u00faltimos 14 anos demonstra que toda estrat\u00e9gia de constru\u00e7\u00e3o que n\u00e3o passe pela unifica\u00e7\u00e3o das correntes revolucion\u00e1rias no Brasil, n\u00e3o passa de um tremendo equ\u00edvoco. Esse mesmo crit\u00e9rio serve para a organiza\u00e7\u00e3o sindical. Assim, as maiores organiza\u00e7\u00f5es da esquerda, PSOL e PSTU, t\u00eam uma enorme responsabilidade na tarefa de lutar pela constru\u00e7\u00e3o de uma alternativa classista ampla para os trabalhadores e para a juventude combativa.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Precisamos romper com a in\u00e9rcia e dar passos concretos para nesse momento criar uma ampla frente de luta e uma plataforma pol\u00edtica que represente os interesses fundamentais da classe trabalhadora. \u00c9 fundamental se atentar para o fato de que estamos em um momento espec\u00edfico de polariza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores pela direita, situa\u00e7\u00e3o que exige a unidade imediata (com a estrat\u00e9gia mais do que necess\u00e1ria de unificar definitivamente o sindicalismo independente) entre CSP-Conlutas, Intersindical e outras organiza\u00e7\u00f5es independentes num espa\u00e7o de organiza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores e da juventude independente dos patr\u00f5es e do governo.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u00c9 necess\u00e1rio criar uma alavanca para mobilizar setores mais amplos dos trabalhadores e da juventude para poder exigir que os principais sindicatos mobilizem contra os ataques do governo. S\u00f3 com a unidade do sindicalismo independente podemos criar as condi\u00e7\u00f5es para exigir que a CUT organize a luta contra os ajustes. CSP-Conlutas, Intersindical e demais organiza\u00e7\u00f5es independentes devem convocar com urg\u00eancia um encontro para organizar um calend\u00e1rio de lutas e uma plataforma pol\u00edtica m\u00ednima alternativa frente o avan\u00e7o da direita.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Por outro lado, n\u00e3o podemos desconsiderar que hoje \u00e9 a CUT que dirige os batalh\u00f5es mais importantes da classe trabalhadora. Sabemos que essa burocracia governista e pelega vai ter que dar alguma satisfa\u00e7\u00e3o para a sua base diante das demiss\u00f5es, arrocho salarial e perda de direitos. Desenvolver uma pol\u00edtica sistem\u00e1tica de disputa com essa central governista \u00e9 decisivo para esse momento da luta de classes. Essa disputa n\u00e3o pode ser feita sem o fortalecimento do sindicalismo independente, sem a supera\u00e7\u00e3o da pulveriza\u00e7\u00e3o que nos encontramos atualmente, sem um enfrentamento pol\u00edtico cotidiano contra o governo e a burocracia cutista que o apoia. Por isso, pensamos que \u00e9 necess\u00e1rio construir, al\u00e9m de uma ferramenta de mobiliza\u00e7\u00e3o e da exig\u00eancia\/den\u00fancia sobre a burocracia governista, uma abordagem pol\u00edtica que dialogue com os setores que est\u00e3o saindo \u00e0 luta contra o ajuste, as demiss\u00f5es em massa e o arrocho salarial.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Abordagens sect\u00e1rias como as vistas em um editorial recente do <em>Opini\u00e3o Socialista<\/em> afirmando que \u201ca classe trabalhadora tem obriga\u00e7\u00e3o de ficar contra esse governo e apoiar o governo Dilma \u00e9 fazer o jogo da direita\u201d e que \u201capoiando o governo n\u00e3o se luta de maneira coerente contra o ajuste fiscal\u201d<a href=\"#_ftn67\" name=\"_ftnref67\"><sup><sup>[67]<\/sup><\/sup><\/a> \u00e9 um exerc\u00edcio propagand\u00edstico sect\u00e1rio e est\u00e9ril, pois n\u00e3o considera que parte da classe trabalhadora que j\u00e1 est\u00e1 fazendo um movimento no sentido de romper com o <em>lulismo <\/em>e o setor que ainda pode romper com ele n\u00e3o o far\u00e1 isto por \u201cobriga\u00e7\u00e3o\u201d, mas dever\u00e1 se convencer da necessidade e viabilidade de outra alternativa pol\u00edtica.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Por isso, o centro da pol\u00edtica hoje \u00e9 construir a luta efetiva em torno do ajuste fiscal e a partir da\u00ed apresentar um programa contra a corrup\u00e7\u00e3o que tenha como centro a pris\u00e3o de todos os envolvidos e principalmente a estatiza\u00e7\u00e3o das empresas corruptas sob o controle dos trabalhadores. De outro lado, a crise pol\u00edtica exige da nossa parte uma sa\u00edda total para se contrapor a armadilha da reforma eleitoral do governo e da burguesia que t\u00eam como um dos objetivos centrais eliminar o espa\u00e7o pol\u00edtico da esquerda socialista, por isso \u00e9 necess\u00e1rio apresentar como sa\u00edda pol\u00edtica para a crise uma <em>Constituinte soberanae Independente<\/em> imposta e constitu\u00edda atrav\u00e9s da luta direta dos trabalhadores.<\/p>\n<ol style=\"text-align: left;\" start=\"8\">\n<li><strong> CONSTRUIR UMA ALTERNATIVA POL\u00cdTICA DA CLASSE<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: left;\">A <em>coalis\u00e3o preventiva <\/em>eleita em 2002 foi um arranjo pol\u00edtico entre a burocracia <em>lulista e<\/em> setores da classe dominante com o objetivo de prevenir uma poss\u00edvel <em>rebeli\u00e3o popular <\/em>no Brasil. Em consequ\u00eancia dessa coalis\u00e3o, em que pese resist\u00eancias ocorridas neste per\u00edodo, as massas foram pacificadas e mantidas sob controle pol\u00edtico. A situa\u00e7\u00e3o de refluxo foi sustentada pelo crescimento econ\u00f4mico mundial de quase uma d\u00e9cada e pelas pol\u00edticas sociais-liberais que focaram uma parte \u00ednfima do or\u00e7amento em medidas de combate \u00e0 mis\u00e9ria e de acesso ao consumo, condi\u00e7\u00f5es sem as quais o arranjo governamental preventivo n\u00e3o poderia ter se mantido hegem\u00f4nico por uma d\u00e9cada.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Com o fim do ciclo internacional de valoriza\u00e7\u00e3o das commodities (que garantia renda estatal que poderia, sem enfrentar os interesses do capital, desenvolver pol\u00edticas de compensa\u00e7\u00e3o social). Este fato,associado \u00e0 situa\u00e7\u00e3o de polariza\u00e7\u00e3o social e pol\u00edtica aberta durante a onda de protestos de junho de 2013 provoca uma combina\u00e7\u00e3o que faz com o <em>pacto lulista<\/em> entreem crise.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">A crise hegem\u00f4nica depois da elei\u00e7\u00e3o de outubro de 2014 vem se agravando permanentemente. O governo, logo ap\u00f3s as elei\u00e7\u00f5es mais disputadas desde 1989, anuncia um ajuste draconiano que atinge em cheio os trabalhadores, a partir da\u00ed, a popularidade do governo cai em n\u00edveis pol\u00edticos perigosos. A crise de popularidade de Dilma chega a tal ponto que a presidente n\u00e3o pode mais falar diretamente ao p\u00fablico sem que manifesta\u00e7\u00f5es imediatas irrompam em todo o pa\u00eds.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Aproveitando-se dessa situa\u00e7\u00e3o, a burguesia pressiona o governo para que aprofunde atrav\u00e9s do ajuste fiscal os ataques \u00e0 classe trabalhadora. Apesar dos trabalhadores estarem resistindo aos ataques em todo pa\u00eds, por meio de lutas muitas vezes radicalizadas, a aus\u00eancia de instrumentos de luta que possam substituir os aparatos governistas (PT e CUT) faz com que os trabalhadores tenham dificuldades para apresentar sa\u00eddas pol\u00edticas ou sejam capitaneados pelas manifesta\u00e7\u00f5es pol\u00edtica dirigidas pela classe dominante.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Para que a esquerda independente entre na disputada orienta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica dos trabalhadores com a dire\u00e7\u00e3o governista e com a burguesia \u00e9 necess\u00e1rio romper com todo o sectarismo e dar passos concretos no processo da unifica\u00e7\u00e3o da esquerda independente. \u00c9 necess\u00e1rio que CSP-Conlutas e Intersindical, convoquem imediatamente a unidade contra estes ataques atrav\u00e9s de plen\u00e1rias de base que discutam uma plataforma m\u00ednima diante da crise pol\u00edtica e um calend\u00e1rio de mobiliza\u00e7\u00e3o que parta das lutas que est\u00e3o em curso.S\u00f3 assim, qualquer exig\u00eancia de que a CUT mobilize contra os ataques do governo e dos patr\u00f5es (atrav\u00e9s de dias de luta ou greves gerais) ser\u00e1 efetiva.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Diante da crise que estamos vivendo, a classe dominante apresenta alternativas pol\u00edticas totalizantes, tais como a \u201creforma pol\u00edtica\u201d, a redu\u00e7\u00e3o da maioridade penal, a terceiriza\u00e7\u00e3o, dentre outras. Neste cen\u00e1rio, a esquerda socialista tem que romper com o <em>economicismo <\/em>e apresentar uma proposta pol\u00edtica para a situa\u00e7\u00e3o. A nosso ver, temos que construir uma proposta de <em>Constituinte Independente e Soberana<\/em> que seja imposta pela mobiliza\u00e7\u00e3o direta dos trabalhadores, uma resposta pol\u00edtica a uma situa\u00e7\u00e3o de crescente polariza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Por fim, diante da crise estrutural, \u00e9 necess\u00e1rio retomar o debate sobre a necessidade de unificar a esquerda revolucion\u00e1ria em uma mesma organiza\u00e7\u00e3o. A experi\u00eancia da luta de classes demonstra que nenhum dos partidos ou agrupamentos isolados pode dar respostas pol\u00edticas e organizativas necess\u00e1rias para a classe trabalhadora enfrentar os desafios imediatos e hist\u00f3ricos que colocam a luta contra o capitalismo. Nesse sentido, pensamos que o processo inicial de unifica\u00e7\u00e3o da esquerda revolucion\u00e1ria deve garantir a todas as correntes o direito de tend\u00eancia, pois a centraliza\u00e7\u00e3o definitiva s\u00f3 pode ocorrer a partir da discuss\u00e3o, experi\u00eancia e reflex\u00e3o comum.<\/p>\n<ol style=\"text-align: left;\" start=\"9\">\n<li><strong> REFER\u00caNCIAS BIBLIOGR\u00c1FICAS<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p style=\"text-align: left;\">AB\u2019S\u00c1BER, Tales. Lulismo, carisma pop e cultura autorit\u00e1ria. S\u00e3o Paulo: Hedra, 2011.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">ARCARY, Val\u00e9rio. Um reformismo quase sem reformas. S\u00e3o Paulo: Sundermann, 2011.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">BARBOSA, Alexandre de Freitas org. Brasil real: a desigualdade para al\u00e9m dos indicadores. S\u00e3o Paulo: Outras Express\u00f5es, 2012.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">BRAGA, Ruy. A pol\u00edtica do precariado: do populismo \u00e0 hegemonia lulista. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2012<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">CASTELO, Rodrigo. O social-liberalismo: auge e crise da supremacia burguesa na era neoliberal. S\u00e3o Paulo: Express\u00e3o Popular, 2013.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">GALV\u00c3O, Andr\u00e9ia e BOITO JR, Armando org. Pol\u00edtica e classes sociais nos anos 2000. S\u00e3o Paulo: Alameda, 2012.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">GRAMSCI, Antonio. Maquiavel, a Pol\u00edtica e o Estado Moderno. Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 1968.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">IASI, Mauro Luis. As metamorfoses da consci\u00eancia de classe. S\u00e3o Paulo: Express\u00e3o Popular, 2012.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">MARX, Karl. O 18 de Brum\u00e1rio de Lu\u00eds Bonaparte in A revolu\u00e7\u00e3o antes da revolu\u00e7\u00e3o. S\u00e3o Paulo: Express\u00e3o Popular, 2008.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">OLIVEIRA, Francisco de. Cr\u00edtica \u00e0 raz\u00e3o dualista : o ornitorrinco. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2013.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">PAULANI, Leda. Brasil Delivery: a servid\u00e3o financeira e estado de emerg\u00eancia econ\u00f4mico. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2008.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">RAMIRES, Roberto e BRAGGA, Jo\u00e3o. O gobierno Lula y la recomposici\u00f3n del movimiento obrero y la izquierda in Socialismo o Barbarie 17\/18. Buenos Aires, 2004.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">RICCI, Ruda. Lulismo \u2013 Da era dos movimentos sociais \u00e0 ascens\u00e3o da nova classe m\u00e9dia. Br\u00e1silia: Funda\u00e7\u00e3o Astrojildo Pereira\/Rio: Contraponto, 2013.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">SADER, Emir org. 10 anos de governo p\u00f3s-neoliberais no Brasil: Lula e Dilma. S\u00e3o Paulo: Boitempo, 2013.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">SA\u00c9NZ, Roberto. Apuntes de formaci\u00f3n: Ciencia y arte de la politica revolucionaria. Buenos Aires: Editorial Ant\u00eddoto.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">SINGER, Andr\u00e9 Vitor. Os sentidos do lulismo: reforma gradual e pacto conservador. S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2012.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">TROTSKY, Leon. Aonde vai a Fran\u00e7a? S\u00e3o Paulo: Editora Desafio, 1994.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">VIANNA, Luiz Werneck. A moderniza\u00e7\u00e3o sem o moderno: an\u00e1lises de conjuntura na era Lula. Rio de Janeiro: Contraponto, 2011.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">WEFFORT, Francisco Corr\u00eaa. O Populismo na pol\u00edtica brasileira. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2003.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><strong>\u00a0&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;&#8230;<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><sup><sup>[1]<\/sup><\/sup><\/a> Estima-se que o pagamento de juros ao capital financeiro chega a cerca de 40% do or\u00e7amento do governo, enquanto o investido em pol\u00edticas de compensa\u00e7\u00e3o social n\u00e3o passa de 1% do or\u00e7amento.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\"><sup><sup>[2]<\/sup><\/sup><\/a> No in\u00edcio do s\u00e9culo XV, o Brasil come\u00e7a a ser integrado ao capitalismo comercial como col\u00f4nia fornecedora de mat\u00e9ria-prima (pau-brasil). Passado esse ciclo de explora\u00e7\u00e3o &#8211; mais ou menos trinta anos &#8211; entramos no ciclo da produ\u00e7\u00e3o de cana de a\u00e7\u00facar, sistema de <em>plantation, <\/em>sistema este de espolia\u00e7\u00e3o baseado no trabalho escravo, no latif\u00fandio e na monocultura e que dura s\u00e9culos.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\"><sup><sup>[3]<\/sup><\/sup><\/a> Em 1989 \u00e9 realizada uma greve geral de 14 e 15 de mar\u00e7o de 1989 contra o Plano Cruzado. Ela mobilizou 35 milh\u00f5es de trabalhadores e deixou o governo Sarney paralisado por semanas.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\"><sup><sup>[4]<\/sup><\/sup><\/a> O Social-liberalismo, Rodrigo Castelo. Express\u00e3o Popular, 2012, p. 343.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\"><sup><sup>[5]<\/sup><\/sup><\/a> N\u00e3o se tratava de mais um partido comunista nos moldes do Partido Comunista, nem de um partido trabalhista e nem mesmo de um partido tipicamente social democrata.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\"><sup><sup>[6]<\/sup><\/sup><\/a> Os sentidos do lulismo, Andr\u00e9 Singer. Companhia das Letras, 2012, p. 93.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\"><sup><sup>[7]<\/sup><\/sup><\/a> As metamorfoses da consci\u00eancia de classe, Mauro Luis Iasi. Express\u00e3o Popular, 2012, p. 559.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\"><sup><sup>[8]<\/sup><\/sup><\/a> Idem, p. 564.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\"><sup><sup>[9]<\/sup><\/sup><\/a> As metamorfoses da consci\u00eancia de classe, Mauro Luis Iasi. Express\u00e3o Popular, 2012, p. 359.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\"><sup><sup>[10]<\/sup><\/sup><\/a> A burocracia <em>lulista<\/em> teve um papel progressista apenas quando rompe com velha a burocracia colaboracionista no final da d\u00e9cada de 1970. Quando come\u00e7a a ocorrer as primeiras greves esse setor da burocracia se descola do governismo como forma de sobreviver ao novo momento pol\u00edtico da classe oper\u00e1ria. Mas, como todo progressismo, n\u00e3o tardou para demonstrar seus limites. Durante a d\u00e9cada de 1980, tratou de esvaziar qualquer possibilidade de organiza\u00e7\u00e3o de base aut\u00f4noma atrav\u00e9s das comiss\u00f5es de f\u00e1brica ou delegados sindicais. Al\u00e9m disso, colaborou diretamente com a patronal para perseguir implacavelmente a oposi\u00e7\u00e3o sindical atrav\u00e9s do m\u00e9todo da amea\u00e7a, agress\u00e3o f\u00edsica e da dela\u00e7\u00e3o de ativistas para a patronal. Assim, essa burocracia partid\u00e1ria\/sindical j\u00e1 apresentava em sua origem o \u00abDNA\u00bb da concilia\u00e7\u00e3o de classes, fazendo com que nos processos decisivos da luta de classes os trabalhadores fossem desarmados.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\"><sup><sup>[11]<\/sup><\/sup><\/a> Destacado revolucion\u00e1rio romeno que colaborou ativamente com a Revolu\u00e7\u00e3o Russa e com a Terceira Internacional. No processo de burocratiza\u00e7\u00e3o, colabora com Trotsky na Oposi\u00e7\u00e3o de Esquerda e \u00e9 um dos cr\u00edticos mais agudos \u00e0 burocratiza\u00e7\u00e3o. No ex\u00edlio e em condi\u00e7\u00f5es materiais e politicas dific\u00edlimas acabou capitulando ao estalinismo, e durante a segunda Guerra Mundial em 1941 \u00e9 fuzilado.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"#_ftnref12\" name=\"_ftn12\"><sup><sup>[12]<\/sup><\/sup><\/a> Um ato com a presen\u00e7a de aproximadamente 100 mil pessoas foi organizado em Bras\u00edlia por esses setores.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"#_ftnref13\" name=\"_ftn13\"><sup><sup>[13]<\/sup><\/sup><\/a> Brasil delivery, Leda Paulani. Boitenpo, 2008, p. 70.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"#_ftnref14\" name=\"_ftn14\"><sup><sup>[14]<\/sup><\/sup><\/a> Acervo de medidas neoliberais que conta com a eleva\u00e7\u00e3o do super\u00e1vit prim\u00e1rio de 3,75% para 4,25% do PIB; aumento da taxa b\u00e1sica de juros de 22% para 26,5% ao ano; corte de liquidez que tirou de circula\u00e7\u00e3o 10% dos meios de pagamento; pagamento de um servi\u00e7o da d\u00edvida que chegou a 8% do PIB; transforma\u00e7\u00e3o do sistema previdenci\u00e1rio brasileiro, acabando com o solidarismo Inter geracional e jogando na incerteza o futuro de milh\u00f5es de trabalhadores dos setores privado e p\u00fablico; aprova\u00e7\u00e3o de uma lei de fal\u00eancia que coloca, no gerenciamento das massas falidas, os interesses dos credores do sistema financeiro \u00e0 frente dos interesses dos trabalhadores e do Estado; a defesa despudorada da independ\u00eancia de direito do Banco Central (ela j\u00e1 existe de fato).<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"#_ftnref15\" name=\"_ftn15\"><sup><sup>[15]<\/sup><\/sup><\/a> A elei\u00e7\u00e3o de Dilma significou o aprofundamento desse realinhamento pol\u00edtico, permitindo ao <em>lulismo<\/em> aplicar pol\u00edticas neoliberais que afetam diretamente setores dos trabalhadores sem risco de se desidratar eleitoralmente.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"#_ftnref16\" name=\"_ftn16\"><sup><sup>[16]<\/sup><\/sup><\/a> Fonte: http:ultimosegundo.ig.com.br<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"#_ftnref17\" name=\"_ftn17\"><sup><sup>[17]<\/sup><\/sup><\/a> Ao concentrar as pol\u00edticas de compensa\u00e7\u00e3o social no PBF, foi gerida a primeira cis\u00e3o no governo com a ruptura de Frei Beto. Na medida em que deslocou uma parte \u00ednfima do or\u00e7amento da Uni\u00e3o para as pol\u00edticas de redu\u00e7\u00e3o de pobreza, uma fra\u00e7\u00e3o do eleitorado que sempre foi avessa a votar no PT foi cooptada eleitoralmente. Mas, a coopta\u00e7\u00e3o n\u00e3o se deu apenas em rela\u00e7\u00e3o ao proletariado pauperizado, ocorreu tamb\u00e9m de forma intensa em rela\u00e7\u00e3o a burguesia, sem isso n\u00e3o se poderia compreender o grande consenso pol\u00edtico em torno do governo.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"#_ftnref18\" name=\"_ftn18\"><sup><sup>[18]<\/sup><\/sup><\/a> O Brasil real, Alexandre de Freitas Barbosa, Outras Express\u00f5es, 2012, p. 47.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"#_ftnref19\" name=\"_ftn19\"><sup><sup>[19]<\/sup><\/sup><\/a> Na quest\u00e3o do emprego 95% dos novos postos de trabalho foram abertos com uma remunera\u00e7\u00e3o de at\u00e9 1,5 sal\u00e1rio-m\u00ednimo.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"#_ftnref20\" name=\"_ftn20\"><sup><sup>[20]<\/sup><\/sup><\/a> Hegemonia \u00e0s avessas, Francisco de Oliveira. Boitempo, 2010, p. 374.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"#_ftnref21\" name=\"_ftn21\"><sup><sup>[21]<\/sup><\/sup><\/a> O Brasil real, Alexandre de Freitas Barbosa. Outras express\u00f5es, 2012, p. 31.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"#_ftnref22\" name=\"_ftn22\"><sup><sup>[22]<\/sup><\/sup><\/a> Lula e Dilma, Boitempo, 2013, p.138<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"#_ftnref23\" name=\"_ftn23\"><sup><sup>[23]<\/sup><\/sup><\/a> Idem. p. 139.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"#_ftnref24\" name=\"_ftn24\"><sup><sup>[24]<\/sup><\/sup><\/a> Idem, p. 141.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"#_ftnref25\" name=\"_ftn25\"><sup><sup>[25]<\/sup><\/sup><\/a> Os sentidos do lulismo. Andr\u00e9 Singer. Companhia das Letras, 2012, p. 52.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"#_ftnref26\" name=\"_ftn26\"><sup><sup>[26]<\/sup><\/sup><\/a> Idem, p. 21.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"#_ftnref27\" name=\"_ftn27\"><sup><sup>[27]<\/sup><\/sup><\/a> Ibidem, p. 18.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"#_ftnref28\" name=\"_ftn28\"><sup><sup>[28]<\/sup><\/sup><\/a> Os sentidos do lulismo, Andr\u00e9 Singer. Companhia das Letras, 2012, p. 126.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"#_ftnref29\" name=\"_ftn29\"><sup><sup>[29]<\/sup><\/sup><\/a> Os sentidos do lulismo, Andr\u00e9 Singer. Companhia das Letras, 2012, p. 202.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"#_ftnref30\" name=\"_ftn30\"><sup><sup>[30]<\/sup><\/sup><\/a> Um reformismo quase sem reformas, Val\u00e9rio Arcary. Sundermann, 2011, p. 17.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"#_ftnref31\" name=\"_ftn31\"><sup><sup>[31]<\/sup><\/sup><\/a> Idem, p. 19.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"#_ftnref32\" name=\"_ftn32\"><sup><sup>[32]<\/sup><\/sup><\/a> Idem, p. 19.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"#_ftnref33\" name=\"_ftn33\"><sup><sup>[33]<\/sup><\/sup><\/a> Um reformismo quase sem reformas, Val\u00e9rio Arcary. Sundermann, 2011, p. 24.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"#_ftnref34\" name=\"_ftn34\"><sup><sup>[34]<\/sup><\/sup><\/a> A moderniza\u00e7\u00e3o sem o moderno, Luiz Werneck Vianna. Contraponto, 2011.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"#_ftnref35\" name=\"_ftn35\"><sup><sup>[35]<\/sup><\/sup><\/a> Idem, p. 29.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"#_ftnref36\" name=\"_ftn36\"><sup><sup>[36]<\/sup><\/sup><\/a> Ibidem, p. 31.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"#_ftnref37\" name=\"_ftn37\"><sup><sup>[37]<\/sup><\/sup><\/a> Hegemonia \u00e0s avessas, p. 8.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"#_ftnref38\" name=\"_ftn38\"><sup><sup>[38]<\/sup><\/sup><\/a> Idem. p.369.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"#_ftnref39\" name=\"_ftn39\"><sup><sup>[39]<\/sup><\/sup><\/a> A pol\u00edtica do precariado, Ruy Braga. Boitempo, 2012, p. 24.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"#_ftnref40\" name=\"_ftn40\"><sup><sup>[40]<\/sup><\/sup><\/a>Idem, p. 24 e 25.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"#_ftnref41\" name=\"_ftn41\"><sup><sup>[41]<\/sup><\/sup><\/a> Idem, p. 29.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"#_ftnref42\" name=\"_ftn42\"><sup><sup>[42]<\/sup><\/sup><\/a> Idem, p. 44.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"#_ftnref43\" name=\"_ftn43\"><sup><sup>[43]<\/sup><\/sup><\/a> Aonde vai a Fran\u00e7a?Leon Trotsky. Editora Desafio,1994, p. 117.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"#_ftnref44\" name=\"_ftn44\"><sup><sup>[44]<\/sup><\/sup><\/a> Idem, p. 117.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"#_ftnref45\" name=\"_ftn45\"><sup><sup>[45]<\/sup><\/sup><\/a> Idem, p. 117.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"#_ftnref46\" name=\"_ftn46\"><sup><sup>[46]<\/sup><\/sup><\/a> Idem, p. 117.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"#_ftnref47\" name=\"_ftn47\"><sup><sup>[47]<\/sup><\/sup><\/a> Idem, p. 156.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"#_ftnref48\" name=\"_ftn48\"><sup><sup>[48]<\/sup><\/sup><\/a> O social-liberalismo, Rodrigo Castelo. Express\u00e3o Popular, 2013, p. 106.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"#_ftnref49\" name=\"_ftn49\"><sup><sup>[49]<\/sup><\/sup><\/a> Maquiavel, a pol\u00edtica e o estado moderno, Antonio Gramsci. Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira,1968, p. 64.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"#_ftnref50\" name=\"_ftn50\"><sup><sup>[50]<\/sup><\/sup><\/a> Idem, 63-63.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"#_ftnref51\" name=\"_ftn51\"><sup><sup>[51]<\/sup><\/sup><\/a> Idem, p. 64.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"#_ftnref52\" name=\"_ftn52\"><sup><sup>[52]<\/sup><\/sup><\/a> O social-liberalismo, Rodrigo Castelo. Express\u00e3o Popular, 2013, p.112.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"#_ftnref53\" name=\"_ftn53\"><sup><sup>[53]<\/sup><\/sup><\/a> Gramsci, p. 77.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"#_ftnref54\" name=\"_ftn54\"><sup><sup>[54]<\/sup><\/sup><\/a> Idem, p. 159.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"#_ftnref55\" name=\"_ftn55\"><sup><sup>[55]<\/sup><\/sup><\/a> Idem, p. 159.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"#_ftnref56\" name=\"_ftn56\"><sup><sup>[56]<\/sup><\/sup><\/a> Idem, p. 159.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"#_ftnref57\" name=\"_ftn57\"><sup><sup>[57]<\/sup><\/sup><\/a>Hegemonia da pequena pol\u00edtica. p. 30-31.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"#_ftnref58\" name=\"_ftn58\"><sup><sup>[58]<\/sup><\/sup><\/a> Idem, p. 30.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"#_ftnref59\" name=\"_ftn59\"><sup><sup>[59]<\/sup><\/sup><\/a>O PSTU, por exemplo, \u00e9 o setor que melhor representa essa perspectiva esquem\u00e1tica.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"#_ftnref60\" name=\"_ftn60\"><sup><sup>[60]<\/sup><\/sup><\/a> Capitalismo financeiro, estado de emerg\u00eancia econ\u00f4mico e hegemonia \u00e0s avessas. Leda Maria Paulani, p.128.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"#_ftnref61\" name=\"_ftn61\"><sup><sup>[61]<\/sup><\/sup><\/a> Trata-se da continuidade da reforma iniciada por FHC que, por sua vez, imp\u00f4s aos trabalhadores a idade m\u00ednima para se aposentar. Agora s\u00e3o os servidores p\u00fablicos que s\u00e3o obrigados a terem a idade m\u00ednima. Com essas manobras o tempo necess\u00e1rio para aposentar aumentou no m\u00ednimo dez anos, retirando diretamente direitos adquiridos dos trabalhadores e favorecendo a financeiriza\u00e7\u00e3o da previd\u00eancia social.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"#_ftnref62\" name=\"_ftn62\"><sup><sup>[62]<\/sup><\/sup><\/a> Idem. p. 35.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"#_ftnref63\" name=\"_ftn63\"><sup><sup>[63]<\/sup><\/sup><\/a>O <em>subproletariado <\/em>que passa a votar em Lula tem nas pol\u00edticas de compensa\u00e7\u00e3o social a raz\u00e3o de seu realinhamento e n\u00e3o em fatores como um pretenso conservadorismo pol\u00edtico arraigado e indefect\u00edvel, como afirma Singer. Esse setor da classe trabalhadora tem pelas suas condi\u00e7\u00f5es de exist\u00eancia maiores dificuldades para apresentar um projeto alternativo de sociedade e uma capacidade menor de se auto organizar.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"#_ftnref64\" name=\"_ftn64\"><sup><sup>[64]<\/sup><\/sup><\/a> Ver \u201cHegemonia as avessas. A hegemonia da pequena pol\u00edtica.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"#_ftnref65\" name=\"_ftn65\"><sup><sup>[65]<\/sup><\/sup><\/a> Idem, p. 40.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"#_ftnref66\" name=\"_ftn66\"><sup><sup>[66]<\/sup><\/sup><\/a> O 18 de Brum\u00e1rio de Lu\u00eds Bonaparte. in A revolu\u00e7\u00e3o antes da revolu\u00e7\u00e3o, Karl Marx. Express\u00e3o popular, 2008.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><a href=\"#_ftnref67\" name=\"_ftn67\"><sup><sup>[67]<\/sup><\/sup><\/a> www.pstu.org.br<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>. APRESENTA\u00c7\u00c3O A expectativa alimentada de que um governo do Partido dos Trabalhadores (PT) pudesse combater as profundas desigualdades sociais, fazer reformas estruturais ou, ao menos, abrir caminhos neste sentido, foi durante estes doze \u00faltimos anos frustrada. No entanto, estes governos n\u00e3o foram de pura e simples continuidade dos governos neoliberais de Fernando Henrique Cardoso [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":8,"featured_media":4739,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[14,1686],"tags":[],"class_list":{"0":"post-4734","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-movimiento-obrero","8":"category-portugues"},"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.4 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>A crise do lulismo \u2013 Ascens\u00e3o e queda de um pacto social - Socialismo o Barbarie<\/title>\n<meta name=\"robots\" content=\"index, follow, max-snippet:-1, max-image-preview:large, max-video-preview:-1\" \/>\n<link rel=\"canonical\" href=\"https:\/\/www.socialismoobarbarie.org\/?p=4734\" \/>\n<meta property=\"og:locale\" content=\"es_ES\" \/>\n<meta property=\"og:type\" content=\"article\" \/>\n<meta property=\"og:title\" content=\"A crise do lulismo \u2013 Ascens\u00e3o e queda de um pacto social - Socialismo o Barbarie\" \/>\n<meta property=\"og:description\" content=\". APRESENTA\u00c7\u00c3O A expectativa alimentada de que um governo do Partido dos Trabalhadores (PT) pudesse combater as profundas desigualdades sociais, fazer reformas estruturais ou, ao menos, abrir caminhos neste sentido, foi durante estes doze \u00faltimos anos frustrada. No entanto, estes governos n\u00e3o foram de pura e simples continuidade dos governos neoliberais de Fernando Henrique Cardoso [&hellip;]\" \/>\n<meta property=\"og:url\" content=\"https:\/\/www.socialismoobarbarie.org\/?p=4734\" \/>\n<meta property=\"og:site_name\" content=\"Socialismo o Barbarie\" \/>\n<meta property=\"article:published_time\" content=\"2015-05-02T14:51:44+00:00\" \/>\n<meta property=\"article:modified_time\" content=\"2015-09-25T18:19:13+00:00\" \/>\n<meta property=\"og:image\" content=\"https:\/\/www.socialismoobarbarie.org\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/140423-manifestacao-paulista-junho-2013-690x465.jpg\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:width\" content=\"690\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:height\" content=\"465\" \/>\n\t<meta property=\"og:image:type\" content=\"image\/jpeg\" \/>\n<meta name=\"author\" content=\"SOB\" \/>\n<meta name=\"twitter:card\" content=\"summary_large_image\" \/>\n<meta name=\"twitter:label1\" content=\"Escrito por\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data1\" content=\"SOB\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:label2\" content=\"Tiempo de lectura\" \/>\n\t<meta name=\"twitter:data2\" content=\"204 minutos\" \/>\n<script type=\"application\/ld+json\" class=\"yoast-schema-graph\">{\"@context\":\"https:\\\/\\\/schema.org\",\"@graph\":[{\"@type\":\"Article\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/www.socialismoobarbarie.org\\\/?p=4734#article\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/www.socialismoobarbarie.org\\\/?p=4734\"},\"author\":{\"name\":\"SOB\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/www.socialismoobarbarie.org\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/bc1c3b321d47ed092405949c77e35a8e\"},\"headline\":\"A crise do lulismo \u2013 Ascens\u00e3o e queda de um pacto social\",\"datePublished\":\"2015-05-02T14:51:44+00:00\",\"dateModified\":\"2015-09-25T18:19:13+00:00\",\"mainEntityOfPage\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/www.socialismoobarbarie.org\\\/?p=4734\"},\"wordCount\":40787,\"publisher\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/www.socialismoobarbarie.org\\\/#organization\"},\"image\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/www.socialismoobarbarie.org\\\/?p=4734#primaryimage\"},\"thumbnailUrl\":\"https:\\\/\\\/www.socialismoobarbarie.org\\\/wp-content\\\/uploads\\\/2015\\\/04\\\/140423-manifestacao-paulista-junho-2013-690x465.jpg\",\"articleSection\":[\"Movimiento obrero\",\"Portugu\u00eas\"],\"inLanguage\":\"es\"},{\"@type\":\"WebPage\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/www.socialismoobarbarie.org\\\/?p=4734\",\"url\":\"https:\\\/\\\/www.socialismoobarbarie.org\\\/?p=4734\",\"name\":\"A crise do lulismo \u2013 Ascens\u00e3o e queda de um pacto social - Socialismo o Barbarie\",\"isPartOf\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/www.socialismoobarbarie.org\\\/#website\"},\"primaryImageOfPage\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/www.socialismoobarbarie.org\\\/?p=4734#primaryimage\"},\"image\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/www.socialismoobarbarie.org\\\/?p=4734#primaryimage\"},\"thumbnailUrl\":\"https:\\\/\\\/www.socialismoobarbarie.org\\\/wp-content\\\/uploads\\\/2015\\\/04\\\/140423-manifestacao-paulista-junho-2013-690x465.jpg\",\"datePublished\":\"2015-05-02T14:51:44+00:00\",\"dateModified\":\"2015-09-25T18:19:13+00:00\",\"breadcrumb\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/www.socialismoobarbarie.org\\\/?p=4734#breadcrumb\"},\"inLanguage\":\"es\",\"potentialAction\":[{\"@type\":\"ReadAction\",\"target\":[\"https:\\\/\\\/www.socialismoobarbarie.org\\\/?p=4734\"]}]},{\"@type\":\"ImageObject\",\"inLanguage\":\"es\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/www.socialismoobarbarie.org\\\/?p=4734#primaryimage\",\"url\":\"https:\\\/\\\/www.socialismoobarbarie.org\\\/wp-content\\\/uploads\\\/2015\\\/04\\\/140423-manifestacao-paulista-junho-2013-690x465.jpg\",\"contentUrl\":\"https:\\\/\\\/www.socialismoobarbarie.org\\\/wp-content\\\/uploads\\\/2015\\\/04\\\/140423-manifestacao-paulista-junho-2013-690x465.jpg\",\"width\":690,\"height\":465},{\"@type\":\"BreadcrumbList\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/www.socialismoobarbarie.org\\\/?p=4734#breadcrumb\",\"itemListElement\":[{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":1,\"name\":\"Portada\",\"item\":\"https:\\\/\\\/www.socialismoobarbarie.org\\\/\"},{\"@type\":\"ListItem\",\"position\":2,\"name\":\"A crise do lulismo \u2013 Ascens\u00e3o e queda de um pacto social\"}]},{\"@type\":\"WebSite\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/www.socialismoobarbarie.org\\\/#website\",\"url\":\"https:\\\/\\\/www.socialismoobarbarie.org\\\/\",\"name\":\"Socialismo o Barbarie\",\"description\":\"Sitio web de la corriente internacional Socialismo o Barbarie\",\"publisher\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/www.socialismoobarbarie.org\\\/#organization\"},\"potentialAction\":[{\"@type\":\"SearchAction\",\"target\":{\"@type\":\"EntryPoint\",\"urlTemplate\":\"https:\\\/\\\/www.socialismoobarbarie.org\\\/?s={search_term_string}\"},\"query-input\":{\"@type\":\"PropertyValueSpecification\",\"valueRequired\":true,\"valueName\":\"search_term_string\"}}],\"inLanguage\":\"es\"},{\"@type\":\"Organization\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/www.socialismoobarbarie.org\\\/#organization\",\"name\":\"Socialismo o Barbarie\",\"url\":\"https:\\\/\\\/www.socialismoobarbarie.org\\\/\",\"logo\":{\"@type\":\"ImageObject\",\"inLanguage\":\"es\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/www.socialismoobarbarie.org\\\/#\\\/schema\\\/logo\\\/image\\\/\",\"url\":\"https:\\\/\\\/www.socialismoobarbarie.org\\\/wp-content\\\/uploads\\\/2025\\\/02\\\/soblogoweb-2025.png\",\"contentUrl\":\"https:\\\/\\\/www.socialismoobarbarie.org\\\/wp-content\\\/uploads\\\/2025\\\/02\\\/soblogoweb-2025.png\",\"width\":450,\"height\":161,\"caption\":\"Socialismo o Barbarie\"},\"image\":{\"@id\":\"https:\\\/\\\/www.socialismoobarbarie.org\\\/#\\\/schema\\\/logo\\\/image\\\/\"}},{\"@type\":\"Person\",\"@id\":\"https:\\\/\\\/www.socialismoobarbarie.org\\\/#\\\/schema\\\/person\\\/bc1c3b321d47ed092405949c77e35a8e\",\"name\":\"SOB\",\"url\":\"https:\\\/\\\/www.socialismoobarbarie.org\\\/?author=8\"}]}<\/script>\n<!-- \/ Yoast SEO plugin. -->","yoast_head_json":{"title":"A crise do lulismo \u2013 Ascens\u00e3o e queda de um pacto social - Socialismo o Barbarie","robots":{"index":"index","follow":"follow","max-snippet":"max-snippet:-1","max-image-preview":"max-image-preview:large","max-video-preview":"max-video-preview:-1"},"canonical":"https:\/\/www.socialismoobarbarie.org\/?p=4734","og_locale":"es_ES","og_type":"article","og_title":"A crise do lulismo \u2013 Ascens\u00e3o e queda de um pacto social - Socialismo o Barbarie","og_description":". APRESENTA\u00c7\u00c3O A expectativa alimentada de que um governo do Partido dos Trabalhadores (PT) pudesse combater as profundas desigualdades sociais, fazer reformas estruturais ou, ao menos, abrir caminhos neste sentido, foi durante estes doze \u00faltimos anos frustrada. No entanto, estes governos n\u00e3o foram de pura e simples continuidade dos governos neoliberais de Fernando Henrique Cardoso [&hellip;]","og_url":"https:\/\/www.socialismoobarbarie.org\/?p=4734","og_site_name":"Socialismo o Barbarie","article_published_time":"2015-05-02T14:51:44+00:00","article_modified_time":"2015-09-25T18:19:13+00:00","og_image":[{"width":690,"height":465,"url":"https:\/\/www.socialismoobarbarie.org\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/140423-manifestacao-paulista-junho-2013-690x465.jpg","type":"image\/jpeg"}],"author":"SOB","twitter_card":"summary_large_image","twitter_misc":{"Escrito por":"SOB","Tiempo de lectura":"204 minutos"},"schema":{"@context":"https:\/\/schema.org","@graph":[{"@type":"Article","@id":"https:\/\/www.socialismoobarbarie.org\/?p=4734#article","isPartOf":{"@id":"https:\/\/www.socialismoobarbarie.org\/?p=4734"},"author":{"name":"SOB","@id":"https:\/\/www.socialismoobarbarie.org\/#\/schema\/person\/bc1c3b321d47ed092405949c77e35a8e"},"headline":"A crise do lulismo \u2013 Ascens\u00e3o e queda de um pacto social","datePublished":"2015-05-02T14:51:44+00:00","dateModified":"2015-09-25T18:19:13+00:00","mainEntityOfPage":{"@id":"https:\/\/www.socialismoobarbarie.org\/?p=4734"},"wordCount":40787,"publisher":{"@id":"https:\/\/www.socialismoobarbarie.org\/#organization"},"image":{"@id":"https:\/\/www.socialismoobarbarie.org\/?p=4734#primaryimage"},"thumbnailUrl":"https:\/\/www.socialismoobarbarie.org\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/140423-manifestacao-paulista-junho-2013-690x465.jpg","articleSection":["Movimiento obrero","Portugu\u00eas"],"inLanguage":"es"},{"@type":"WebPage","@id":"https:\/\/www.socialismoobarbarie.org\/?p=4734","url":"https:\/\/www.socialismoobarbarie.org\/?p=4734","name":"A crise do lulismo \u2013 Ascens\u00e3o e queda de um pacto social - Socialismo o Barbarie","isPartOf":{"@id":"https:\/\/www.socialismoobarbarie.org\/#website"},"primaryImageOfPage":{"@id":"https:\/\/www.socialismoobarbarie.org\/?p=4734#primaryimage"},"image":{"@id":"https:\/\/www.socialismoobarbarie.org\/?p=4734#primaryimage"},"thumbnailUrl":"https:\/\/www.socialismoobarbarie.org\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/140423-manifestacao-paulista-junho-2013-690x465.jpg","datePublished":"2015-05-02T14:51:44+00:00","dateModified":"2015-09-25T18:19:13+00:00","breadcrumb":{"@id":"https:\/\/www.socialismoobarbarie.org\/?p=4734#breadcrumb"},"inLanguage":"es","potentialAction":[{"@type":"ReadAction","target":["https:\/\/www.socialismoobarbarie.org\/?p=4734"]}]},{"@type":"ImageObject","inLanguage":"es","@id":"https:\/\/www.socialismoobarbarie.org\/?p=4734#primaryimage","url":"https:\/\/www.socialismoobarbarie.org\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/140423-manifestacao-paulista-junho-2013-690x465.jpg","contentUrl":"https:\/\/www.socialismoobarbarie.org\/wp-content\/uploads\/2015\/04\/140423-manifestacao-paulista-junho-2013-690x465.jpg","width":690,"height":465},{"@type":"BreadcrumbList","@id":"https:\/\/www.socialismoobarbarie.org\/?p=4734#breadcrumb","itemListElement":[{"@type":"ListItem","position":1,"name":"Portada","item":"https:\/\/www.socialismoobarbarie.org\/"},{"@type":"ListItem","position":2,"name":"A crise do lulismo \u2013 Ascens\u00e3o e queda de um pacto social"}]},{"@type":"WebSite","@id":"https:\/\/www.socialismoobarbarie.org\/#website","url":"https:\/\/www.socialismoobarbarie.org\/","name":"Socialismo o Barbarie","description":"Sitio web de la corriente internacional Socialismo o Barbarie","publisher":{"@id":"https:\/\/www.socialismoobarbarie.org\/#organization"},"potentialAction":[{"@type":"SearchAction","target":{"@type":"EntryPoint","urlTemplate":"https:\/\/www.socialismoobarbarie.org\/?s={search_term_string}"},"query-input":{"@type":"PropertyValueSpecification","valueRequired":true,"valueName":"search_term_string"}}],"inLanguage":"es"},{"@type":"Organization","@id":"https:\/\/www.socialismoobarbarie.org\/#organization","name":"Socialismo o Barbarie","url":"https:\/\/www.socialismoobarbarie.org\/","logo":{"@type":"ImageObject","inLanguage":"es","@id":"https:\/\/www.socialismoobarbarie.org\/#\/schema\/logo\/image\/","url":"https:\/\/www.socialismoobarbarie.org\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/soblogoweb-2025.png","contentUrl":"https:\/\/www.socialismoobarbarie.org\/wp-content\/uploads\/2025\/02\/soblogoweb-2025.png","width":450,"height":161,"caption":"Socialismo o Barbarie"},"image":{"@id":"https:\/\/www.socialismoobarbarie.org\/#\/schema\/logo\/image\/"}},{"@type":"Person","@id":"https:\/\/www.socialismoobarbarie.org\/#\/schema\/person\/bc1c3b321d47ed092405949c77e35a8e","name":"SOB","url":"https:\/\/www.socialismoobarbarie.org\/?author=8"}]}},"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.socialismoobarbarie.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/4734","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.socialismoobarbarie.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.socialismoobarbarie.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.socialismoobarbarie.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.socialismoobarbarie.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=4734"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/www.socialismoobarbarie.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/4734\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":4740,"href":"https:\/\/www.socialismoobarbarie.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/4734\/revisions\/4740"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.socialismoobarbarie.org\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/4739"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.socialismoobarbarie.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=4734"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.socialismoobarbarie.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=4734"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.socialismoobarbarie.org\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=4734"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}