{"id":9777,"date":"2017-05-24T06:57:20","date_gmt":"2017-05-24T09:57:20","guid":{"rendered":"https:\/\/www.socialismoobarbarie.org\/?p=9777"},"modified":"2018-07-12T19:39:52","modified_gmt":"2018-07-12T22:39:52","slug":"crise-de-hegemonia-norte-americana-na-geopolitica-mundial-uma-multipolaridade-muito-desigual","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.socialismoobarbarie.org\/?p=9777","title":{"rendered":"Crise de hegemonia norte-americana na geopol\u00edtica mundial: Uma multipolaridade muito desigual"},"content":{"rendered":"<p>Publicado originalmente no site da corrente internacional Socialismo ou Barb\u00e1rie<\/p>\n<p><strong>Pr\u00f3logo depois de 08 de novembro<\/strong><\/p>\n<p><em>\u201cA queda do Muro de Berlim, em 09 de novembro de 1989, foi o momento em que se afirmou que a hist\u00f3ria havia terminado. O combate entre o comunismo e o capitalismo tinha chegado ao fim. Depois de uma tit\u00e2nica batalha ideol\u00f3gica, que durou d\u00e9cadas ap\u00f3s a Segunda Guerra Mundial, o livre mercado e a democracia liberal ocidental reinavam incontestes. Na madrugada de 09 de novembro de 2016, quando Donald Trump cruzou o limiar dos 270 eleitores para se tornar presidente eleito dos EUA, essa ilus\u00e3o foi destru\u00edda. A hist\u00f3ria voltou \u2026 e como! Sua vit\u00f3ria p\u00f5e em risco velhas certezas sobre os EUA e seu papel no mundo. O que vai ficar em seu lugar?\u201d<\/em>(<em>\u201c<\/em>America\u2019s new president \u2013 The Trump era\u201d, <em>The Economist<\/em>, 12-11-16)<\/p>\n<p>Este artigo estava praticamente terminado quando as elei\u00e7\u00f5es presidenciais dos EUA, na ter\u00e7a-feira, 08 novembro, trouxeram a bomba: a vit\u00f3ria de Donald Trump. Isso exigiu este pr\u00f3logo. De fato, como reconhece o <em>The Economist<\/em>, a ilus\u00e3o do \u201cfim da hist\u00f3ria\u201d, de uma ordem mundial neoliberal, que imperaria do atual momento at\u00e9 a eternidade, presidida pelos EUA, recebeu um golpe fulminante.<\/p>\n<p>Na verdade, essa ilus\u00e3o j\u00e1 estava bastante deteriorada pela insol\u00favel crise econ\u00f4mica-social sem fim \u00e0 vista, pelo indignante contraste entre a queda vertiginosa do padr\u00e3o de vida e do emprego da grande maioria da popula\u00e7\u00e3o e a crescente concentra\u00e7\u00e3o da riqueza no outro p\u00f3lo, para n\u00e3o mencionar as intermin\u00e1veis guerras ou as atrocidades, como o \u00eaxodo mundial de refugiados. Mas este golpe foi dado pela direita, n\u00e3o pela esquerda, embora muitos trabalhadores americanos tenham votado em Trump por falta de alternativas vis\u00edveis. Al\u00e9m disso, as nuvens escuras da demagogia de Trump lan\u00e7am raios e trov\u00f5es contra a globaliza\u00e7\u00e3o e seus efeitos, mas n\u00e3o indicam, com clareza e precis\u00e3o, a alternativa, al\u00e9m de um \u201cprotecionismo\u201d de contornos ainda imprecisos e a serem definidos.<\/p>\n<p>O que \u00e9 inquestion\u00e1vel em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Trump, at\u00e9 o momento, se d\u00e1 pela negativa: expressa a crise da globaliza\u00e7\u00e3o neoliberal \u2013 agravada pela crise de 2008 -, mas n\u00e3o marca com exatid\u00e3o os alcances e contornos das alternativas e solu\u00e7\u00f5es concretas que prop\u00f5e. A \u00fanica certeza \u00e9 o seu car\u00e1ter super-reacion\u00e1rio. Nesse sentido, n\u00e3o deve haver lugar para ilus\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>Como\u00e7\u00e3o mundial<\/strong><\/p>\n<p>O triunfo de Trump implicou em uma <em>como\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e geopol\u00edtica mundial. <\/em>E n\u00e3o porque a grande m\u00eddia americana (todos anti-Trump) e\/ou as pesquisas haviam dado como certa a vit\u00f3ria de Hillary Clinton, cuja candidatura era apenas \u201cmais do mesmo\u201d. A como\u00e7\u00e3o ocorreu porque <em>abriu a possibilidade mas n\u00e3o a certeza de um \u00a0rumo protecionista aut\u00e1rquico <\/em>dos Estados Unidos, que ainda s\u00e3o \u2013 apesar de sua decad\u00eancia e retrocessos relativos \u2013 a principal pot\u00eancia imperialista, tanto no n\u00edvel econ\u00f4mico como financeiro e militar<a name=\"_ftnref1\"><\/a><a href=\"#_ftn1\">[1]<\/a>. Ou seja, <em>um giro<\/em> (ou, pelo menos, um transtorno) no caminho da globaliza\u00e7\u00e3o neoliberal, empreendido, na verdade, desde antes da queda do Muro de Berlim e do fim da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica.<\/p>\n<p>Se seu governo fosse a fundo nesse sentido- o que n\u00e3o \u00e9 de forma alguma certo \u2013 poderia se iniciar uma <em>importante mudan\u00e7a na ordem econ\u00f4mica mundial<\/em>. A atual ordem mundial neoliberal poderia chegar ao fim, mas n\u00e3o para dar lugar a algo muito melhor. O que o <em>trumpismo <\/em>procura confusamente \u00e9 um caminho protecionista-isolacionista que seria imposto a\u201csocos e pontap\u00e9s\u201d pelos EUA a seus s\u00f3cios e\/ou concorrentes.<\/p>\n<p>E essas mudan\u00e7as \u2013 que ainda est\u00e3o por vir\u2013n\u00e3o implicam em que os trabalhadores seriam beneficiados. Uma coisa \u00e9 a demagogia que permitiu a Trump ganhar votos da classe trabalhadora, e outra \u00e9 o que far\u00e1 a partir do trono de Washington.<\/p>\n<p>Conv\u00e9m lembrar que, na hist\u00f3ria do capitalismo, livre com\u00e9rcio e protecionismo t\u00eam se alternado, mas como dois lados da mesma moeda capitalista. Em muitos casos, o protecionismo por parte dos Estados imperialistas, tem sido a resposta beligerante em per\u00edodos e situa\u00e7\u00f5es de crise. No s\u00e9culo XIX, que viu o \u201cbig bang\u201d do capitalismo e a conforma\u00e7\u00e3o dos imperialismos modernos, o Imp\u00e9rio Brit\u00e2nico, a principal pot\u00eancia, foi sucessivamente \u201cprotecionista\u201d e adepta do\u201dlivre com\u00e9rcio\u201d, segundo sua conveni\u00eancia. Depois de conseguir uma esmagadora superioridade industrial, o Reino Unido, em meados do s\u00e9culo XIX, passou do protecionismo a uma cruzada mundial pelo livre com\u00e9rcio.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, no per\u00edodo entre as guerras \u00a0dev1914-1918 e 1939-45 o protecionismo e as tentativas de \u201cautarquia\u201d se generalizaram. Especialmente ap\u00f3s a eclos\u00e3o da Grande Depress\u00e3o em 1929, tanto os \u00ab\u00a0democr\u00e1ticos\u00a0\u00bb Estados Unidos quanto os regimes nazi-fascistas de Hitler e Mussolini eram protecionistas ao extremo<a name=\"_ftnref2\"><\/a><a href=\"#_ftn2\">[2]<\/a>.<\/p>\n<p>No final da Segunda Guerra Mundial, a b\u00fassola apontou novamente para o livre com\u00e9rcio. Reiniciou-se a chamada globaliza\u00e7\u00e3o da economia mundial, interrompida e retrocedida desde a Grande Guerra de 1914. Mas isto ainda era gradual e n\u00e3o envolvia a elimina\u00e7\u00e3o dr\u00e1stica das barreiras na produ\u00e7\u00e3o, nas finan\u00e7as e no com\u00e9rcio mundial. Isto seria promovido pelo neoliberalismo a partir do final dos anos 70 e, especialmente, nos anos 80, em resposta \u00e0 crise que p\u00f4s fim aos \u201c30 gloriosos\u201d, os trinta anos ap\u00f3s a Segunda Guerra Mundial, que foram os de maior crescimento na hist\u00f3ria do capitalismo, pelo menos nos pa\u00edses centrais da Europa Ocidental, Jap\u00e3o e EUA.<\/p>\n<p>A grande quest\u00e3o \u00e9 <em>at\u00e9 onde ir\u00e3o os EUA com Trump neste giro<\/em>. Ou seja, se este importante giro vai aprofundar as medidas j\u00e1 anunciadas, como a revis\u00e3o dr\u00e1stica doNafta (Tratado de livre com\u00e9rcio com M\u00e9xico e Canad\u00e1), a n\u00e3o aprova\u00e7\u00e3o doTrans-Pacific Partnership (TPP), o projeto de mercado comum dos EUA com pa\u00edses da \u00c1sia-Pac\u00edfico, Am\u00e9rica Latina e Canad\u00e1, para enfrentar a China, e ao mesmo em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Transatlantic Trade and Investment Partnership (TTIP) dos EUA com a Europa. Hoje, essas indaga\u00e7\u00f5es n\u00e3o podem ser respondidas.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, \u00e9 necess\u00e1rio esclarecer qualquer equ\u00edvoco em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 demagogia protecionista de Trump, apresentada como um rem\u00e9dio \u00e0 <em>cat\u00e1strofe social<\/em> que o neoliberalismo significou para os EUA, especialmente para a classe oper\u00e1ria e trabalhadora. Suas l\u00e1grimas de crocodilo por esse desastre da classe oper\u00e1ria americana \u2013 mas apenas da classe trabalhadora branca \u2013 n\u00e3o pode esconder que Trump constitui um personagem ultra-reacion\u00e1rio, racista &#8211; especialmente contra negros, latinos e \u201cisl\u00e2micos\u201d -, machista repugnante e, no fundo, como todos os demagogos de extrema direita, inimigo mortal dos trabalhadores.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, Trump expressa tamb\u00e9m o fracasso do \u201cprogressismo\u201d em geral e n\u00e3o s\u00f3 do Partido Democrata dos EUA. Os \u201cdemocratas\u201d americanos, as variantes social-democratas europeias (incluindo as que aparentavam serem mais \u201cradicais\u201d como Syriza) e, na Am\u00e9rica Latina, correntes como o chavismo, o PT brasileiro ou o kirchnerismo na Argentina, s\u00e3o todos muito diferentes, mas apresentam um tra\u00e7o comum. Estando no governo, eles nunca tomam medidas substanciais, estruturais, que afetem setores do grande capital. Nem sequer algumas reformas a s\u00e9rio, como tentaram, em sua \u00e9poca, certos governos imperialistas (como o de Roosevelt) ou alguns nacionalismos do \u201cTerceiro Mundo\u201d. Hoje, apenas fazem corre\u00e7\u00f5es e remendos, e isso no melhor dos casos. Na Europa, foi o \u201csocialista\u201d Hollande quem liquidou grande parte das conquistas hist\u00f3ricas do movimento oper\u00e1rio franc\u00eas. Na Gr\u00e9cia, o plano de austeridade mais brutal foi aplicado por Tsipras, que se apresentava como a \u201cesquerda radical\u201d. Nos EUA, Obama ganhou a presid\u00eancia em 2008 com a palavra de ordem \u201cChange\u201d (mudan\u00e7a) \u2026 e n\u00e3o mudou absolutamente nada. Em todo o mundo, o reformismo p\u00f3s-moderno \u00e9 um reformismo sem reformas.<\/p>\n<p>Isso explica por que Trump, um demagogo t\u00e3o reacion\u00e1rio e grotesco, foi capaz de irromper no cen\u00e1rio pol\u00edtico de descontentamento nos EUA e vencer primeiramente o <em>establishment<\/em>do Partido Republicano e, em seguida, a corrupta candidata democrata.<\/p>\n<p>H\u00e1 que se ter isso em mente, considerando o que est\u00e1 por vir. Se Trump for ratificado como uma <em>tentativa de reordenamento econ\u00f4mico e pol\u00edtico ultra-reacion\u00e1rio <\/em>nos EUA e com proje\u00e7\u00f5es mundiais, isso poderia levar a <em>enfrentamentos muito mais duros, <\/em>menos \u201cdescafeinados\u201d dos que vimos na era neoliberal nos EUA, Europa e Am\u00e9rica Latina. Em \u00faltima an\u00e1lise, isto \u00e9 o mais importante a se considerar.<\/p>\n<p>Devemos nos preparar para isso, construindo alternativas pol\u00edticas independentes dos partidos tradicionais do sistema, com programas revolucion\u00e1rios que estejam \u00e0 altura destes novos desafios. \u00c9 que uma agudiza\u00e7\u00e3o das contradi\u00e7\u00f5es e dos confrontos sociais e pol\u00edticos pode iluminar n\u00e3o apenas personagens como Trump, mas tamb\u00e9m alternativas \u00e0 esquerda.<\/p>\n<p><strong>Luzes e sombras<\/strong><\/p>\n<p>Nessa perspectiva, e sem subestimar a import\u00e2ncia desta vit\u00f3ria arqui-reacion\u00e1ria no interior do principal Estado imperialista, deve-se ressaltar que houve tamb\u00e9m tend\u00eancias no sentido contr\u00e1rio.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, Trump ser\u00e1 presidente gra\u00e7as ao sistema eleitoral mais antidemocr\u00e1tico do planeta. Ganhou a maioria do Col\u00e9gio Eleitoral, mas foi minoria no voto popular. Este sistema escandalosamente fraudulento remonta \u00e0 funda\u00e7\u00e3o dos EUA, e foi disposto desta forma para assegurar uma maioria artificial aos pequenos estados, principalmente aos escravistas.<\/p>\n<p>Mais importante ainda \u00e9 que, durante o processo eleitoral, a \u00fanica surpresa n\u00e3o tenha sido apenas Donald Trump. A outra grande novidade foi a entrada em cena de Bernie Sanders, um candidato que se proclamava \u201csocialista\u201d no pa\u00eds onde a \u201cdiaboliza\u00e7\u00e3o\u201d do socialismo ultrapassou todos os limites. Como revelou Wikileaks, Hillary Clinton e o aparato do Partido Democrata tiveram de recorrer a manobras sujas e fraudulentas para derrotar o \u00fanico pr\u00e9-candidato em condi\u00e7\u00f5es de competir comTrump na conquista de um \u201cvoto de castigo\u201d,que finalmente foi capturado pela direita<a name=\"_ftnref3\"><\/a><a href=\"#_ftn3\">[3]<\/a>.<\/p>\n<p>No entanto, o mais importante veio mais tarde: as mobiliza\u00e7\u00f5es em massa \u2013 principalmente de jovens e com presen\u00e7a destacada de mulheres \u2013 que se registraram nas cidades das duas costas, lideradas por Nova York, Los Angeles e tamb\u00e9m Chicago, as maiores do pa\u00eds. Nelas participaram tamb\u00e9m afro-americanos, latinos e LGBT. E a principal palavra de ordem dessas mobiliza\u00e7\u00f5es foi: \u201cNot my president\u201d (N\u00e3o \u00e9 meu presidente), situa\u00e7\u00e3o ins\u00f3lita na hist\u00f3ria dos Estados Unidos e potencialmente muito perigosa para a estabilidade do novo governo, caso seja levada \u00e0s \u00faltimas consequ\u00eancias.Quando em uma ocasi\u00e3o n\u00e3o se \u201creconheceu\u201d (ainda que pela direita) um presidente eleito, se chegou a uma guerra civil.<\/p>\n<p>Claro que n\u00e3o afirmamos que esta seja a situa\u00e7\u00e3o atual. Al\u00e9m disso, a \u00faltima canalhice de Obama e do aparato democrata, que tem pedido calma e contribu\u00eddo para a desmobiliza\u00e7\u00e3o, serviu a Trump para garantir uma transi\u00e7\u00e3o sem sobressaltos. Obama, Clinton e Cia. podem ser advers\u00e1rios pol\u00edticos de Trump, por\u00e9m, mais do que isso, s\u00e3o defensores da estabilidade do regime.<\/p>\n<p>Finalmente, como dissemos, este artigo estava praticamente escrito em 08 de Novembro. No entanto, n\u00e3o houve necessidade de fazer mudan\u00e7as significativas, porque o texto iniciava explicando precisamente <em>a relativa decad\u00eancia do poder dos EUA, <\/em>que no \u00e2mbito geopol\u00edtico varreu as ilus\u00f5es de um mundo \u201cunipolar\u201d e abriu caminho para outras pot\u00eancias mundiais \u2013 como China e R\u00fassia \u2013 e tamb\u00e9m para pot\u00eancias regionais, tais como Turquia, Ar\u00e1bia Saudita, Ir\u00e3 ou \u00cdndia.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m levamos em conta como fator fundamental do enfraquecimento relativo dos EUA <em>os efeitos sociais contradit\u00f3rios da globaliza\u00e7\u00e3o no interior da sociedade norte-americana<\/em>. Eles sedimentaram as bases do enorme descontentamento social que se cristalizou no \u201cvoto de castigo\u201d a favor de Trump.<\/p>\n<ol>\n<li><strong>O lugar dos conflitos geopol\u00edticos<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>A atual conjuntura mundial poderia ser definida como um momento marcado (ainda que n\u00e3o exclusivamente) por contradi\u00e7\u00f5es e confrontos \u201cgeopol\u00edticos\u201d; ou seja, tens\u00f5es e disputas (mais ou menos violentas ou pac\u00edficas) no sistema mundial de estados. Nem sempre foi assim nos \u00faltimos anos.<\/p>\n<p>Considerando o per\u00edodoque vai de 2007 a 2008 \u2013 quando ficou evidente a crise financeira e econ\u00f4mica que tinha sido \u201cremendada\u201d mas de forma alguma superada, alternaram-se diferentes aspectos predominantes no centro do cen\u00e1rio mundial.<\/p>\n<p>No primeiro momento, o ator principal foi essa mesma crise econ\u00f4mico-financeira. A pol\u00edtica central foi que \u201cos de baixo\u201d paguem o pre\u00e7o. Com isso, as perdas dos bancos, organismos financeiros e corpora\u00e7\u00f5es \u201ctoo big to fail\u201d (grandes demais para falir) foram estatizadas e, em seguida, transferidas atrav\u00e9s de medidas de \u201causteridade\u201d sobre os trabalhadores e os pobres. Milh\u00f5es de fam\u00edlias perderam suas casas nas estelionat\u00e1rias hipotecas dos EUA e da Europa, mas sobram dedos de uma m\u00e3o para contar as corpora\u00e7\u00f5es financeiras das dimens\u00f5es de Lehman Brothers que quebraram.<\/p>\n<p>Assim, a crise foi \u201ccontida\u201d, mas n\u00e3o solucionada em suas bases mais profundas. Continua presente, formando um longo ciclo de baixo crescimento ou estagna\u00e7\u00e3o direta, que impacta de forma desigual pa\u00edses e regi\u00f5es, e agora p\u00f5e em debate a t\u00e3o alardeada \u201cglobaliza\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Depois das corridas de 2007-2008, outros acontecimentos ocorreram no cen\u00e1rio mundial. Foram anos marcados por intensos movimentos de protestos pol\u00edticos e sociais.No auge, alguns configuraram rebeli\u00f5es em massa, estenderam-se por toda uma regi\u00e3o, derrubando governos e regimes. Algo assim j\u00e1 tinha se antecipado na Am\u00e9rica do Sul, com as eclos\u00f5es na Bol\u00edvia, Equador, Argentina, etc., e foi o principal fator direto ou indireto que motivou a ascens\u00e3o dos governos chamados \u201cprogressistas\u201d, comoo o de Ch\u00e1vez, o mais not\u00f3rio.<\/p>\n<p>Pouco tempo depois, por v\u00e1rias raz\u00f5es \u2013 desde os custos da crise econ\u00f4mica-financeira que os trabalhadores e setores populares come\u00e7avam a pagar, at\u00e9 o \u00f3dio a governos e regimes autorit\u00e1rios -, o mapa do mundo ficou cheio de numerosos pontos \u201cvermelhos\u201d destes movimentos, protestos e rebeli\u00f5es, de import\u00e2ncia muito desigual e extremamente heterog\u00eaneos social e politicamente.<\/p>\n<p>Entre os v\u00e1rios protestos e rebeli\u00f5es \u2013 que, durante esse per\u00edodo, constituiram a caracter\u00edstica mais proeminente da situa\u00e7\u00e3o mundial -, podemos mencionar os movimentos dos \u201cIndignados\u201d do Estado espanhol, a Occupy Wall Street nos EUA, os massivos protestos oper\u00e1rios, da juventude e populares da Fran\u00e7a em 2010, as lutas dos trabalhadores e da juventude na Gr\u00e9cia contra \u201causteric\u00eddio\u201d imposto pela Troika, as manifesta\u00e7\u00f5es em s\u00e9rie da \u201cPrimavera \u00c1rabe\u201d, que come\u00e7aram tamb\u00e9m em 2010 na Tun\u00edsia e, em seguida, se espalharam para o Egito, L\u00edbia, S\u00edria, I\u00eamen e outros pa\u00edses da regi\u00e3o\u2026 Depois, tivemos o movimento do Parque Gezi na Turquia (2013) e outras mobiliza\u00e7\u00f5es not\u00e1veis. Embora mais tardios e contradit\u00f3rios em seus conte\u00fados iniciais e suas pol\u00edticas resultantes, as manifesta\u00e7\u00f5es da Ucr\u00e2nia em 2014, tanto no oeste quanto no leste do pa\u00eds, podem tamb\u00e9m se encaixar neste fen\u00f4meno global.<\/p>\n<p>No Extremo Oriente, lembremos entre outros fatos, a rebeli\u00e3o dos \u201ccamisas vermelhas\u201d (2010) na Tail\u00e2ndia ou a primeira greve geral da \u00cdndia (2012). Mas nessa regi\u00e3o, o que um dia pode ter import\u00e2ncia mundial inestim\u00e1vel \u00e9 o caminho mais \u201cevolutivo\u201d da China. L\u00e1, a imensa e jovem classe oper\u00e1ria gerada por sua revolu\u00e7\u00e3o industrial vem despertando e realizando importantes lutas, apesar do regime ditatorial. Ainda que haja oscila\u00e7\u00f5es, falta de coordena\u00e7\u00e3o e especialmente aus\u00eancia de organiza\u00e7\u00e3o e de programa pol\u00edtico global, o conflito na China tem sido mantido e atingiu um pico no final de 2015. Al\u00e9m disso, em Hong Kong, em 2014, uma rebeli\u00e3o democr\u00e1tica, liderada pela juventude, p\u00f4s em apuros no enclave a ditadura dos burocratas bilion\u00e1rios de Pequim.<\/p>\n<p>No entanto, estes protestos e rebeli\u00f5es n\u00e3o est\u00e3o hoje na primeira linha do cen\u00e1rio mundial. Tem havido desvios \u00e0 direita; o mais terr\u00edvel, a derrota da \u201cPrimavera \u00c1rabe\u201d. Simultaneamente, houve a multiplica\u00e7\u00e3o dos conflitos e das crises no sistema mundial de Estados. Na primeira fila, aparecem crises \u201cestatais\u201d e\/ou confrontos diretos ou indiretos entre estados que, no caso do Oriente M\u00e9dio,resultaram em guerras. Em outras palavras, predominam os acontecimentos que se denominam \u201cgeopol\u00edticos\u201d.<\/p>\n<p>Isso tem a ver \u2013 entre outras raz\u00f5es- com o fato de que essas lutas e protestos pol\u00edtico-sociais a que aludimos anteriormente n\u00e3o conseguiram geralmente vit\u00f3rias retumbantes nem gerar processos progressivos ou revolucion\u00e1rios sustentados. No momento, predominam tend\u00eancias \u00e0 direita, sem que isso constitua de modo algum um quadro uniformemente sombrio, nem, muito menos ainda, que n\u00e3o haja tend\u00eancias opostas.<\/p>\n<p>Em suma, sem que as lutas sociais e pol\u00edticas se tenham esmorecido, muito menos solucionado a crise cr\u00f4nica da economia capitalista mundial, o que mais se destaca s\u00e3o fatos de outra natureza, os confrontos e os conflitos geopol\u00edticos. Assim, os mais diferentes setores acad\u00eamicos e\/ou pol\u00edticos elaboram esquemas e progn\u00f3sticos em torno das alian\u00e7as e rivalidades entre estados.<\/p>\n<p>Aqui, em primeiro lugar, procuramos uma defini\u00e7\u00e3o abrangente da atual situa\u00e7\u00e3o geopol\u00edtica mundial, marcada por crescentes tens\u00f5es e crises, onde os EUA j\u00e1 n\u00e3o representam a principal pot\u00eancia. Dentro deste quadro geral, consideramos o car\u00e1ter da China e da R\u00fassia como estados. \u00c9 que ambos s\u00e3o hoje protagonistas centrais no cen\u00e1rio geopol\u00edtico mundial, isso ocorrendo em paralelo aos crescentes problemas geopol\u00edticos e internos dos EUA e da Uni\u00e3o Europeia. Al\u00e9m disso, vemos duplamente necess\u00e1ria uma caracteriza\u00e7\u00e3o de sua natureza como estado, uma vez que s\u00e3o considerados, por diferentes setores, mais \u201cprogressistas\u201ddo que os tradicionais imperialismos dos EUA e Europa.<\/p>\n<p>Finalmente, em um ap\u00eandice hist\u00f3rico, veremos sinteticamente defini\u00e7\u00f5es sobre as etapas geopol\u00edticas anteriores que precederam o mundo atual, nascidas em 1989-91 ap\u00f3s o fim da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e da restaura\u00e7\u00e3o capitalista em praticamente todos os Estados que se proclamavam \u201csocialistas\u201d.<\/p>\n<ol>\n<li><strong>Um sistema \u201cmultipolar\u201d mundial de Estados com tend\u00eancias crescentes \u00e0 instabilidade<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p><em>\u00a0\u201cOs Estados Unidos cambaleiam pelos efeitos da guerra do Iraque\u2026 A invas\u00e3o do Iraque em 2003 causou danos permanentes aos EUA no mundo. Ap\u00f3s a queda de Saddam Hussein, a viol\u00eancia sect\u00e1ria destro\u00e7ou o Iraque, e o poder dos Estados Unidos come\u00e7ou a enfraquecer. N\u00e3o s\u00f3 o governo de George W. Bush fracassou em sua tentativa de mudar a ordem na regi\u00e3o atrav\u00e9s da for\u00e7a, mas tamb\u00e9m os custos pol\u00edticos, econ\u00f4micos e de poder desta aventura minaram finalmente a posi\u00e7\u00e3o mundial dos EUA. A ilus\u00e3o de um mundo unipolar desapareceu.\u201c<\/em>(Frank Steinmeier, ministro das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores da Alemanha, \u201cGermany\u2019s New Global Role\u201d, <em>Foreign Affairs<\/em> vol. 85, no. 4, julho-agosto de 2016).<\/p>\n<p>O ministro das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores de Merkel tem raz\u00e3o ao alegar que \u201ca ilus\u00e3o de um mundo unipolar desapareceu.\u201d E se procurar caracterizar o panorama do sistema mundial de Estados na atualidade com apena suma palavra, deveria come\u00e7ar por defini-lo como o oposto; ou seja, como \u201cmultipolar\u201d ou, talvez, \u201cpolic\u00eantrico\u201d, embora, \u00e9 claro, existam enormes desigualdades entre v\u00e1rios p\u00f3los. E, al\u00e9m disso, uma s\u00f3 palavra n\u00e3o \u00e9 suficiente para retratar um complexo e contradit\u00f3rio cen\u00e1rio geopol\u00edtico. Da mesma forma, \u00e9 muito importante acrescentar que estes \u201cp\u00f3los\u201d &#8211; grandes, m\u00e9dios e pequenos \u2013 e suas rela\u00e7\u00f5es cruzadas, mostram hoje certa instabilidade, desequil\u00edbrios e sobretudo tens\u00f5es crescentes e conflitos, alguns em estado potencial e outros j\u00e1 em andamento.<\/p>\n<p>As tens\u00f5es ocorrem tendo como pano de fundo um ciclo recessivo de longa dura\u00e7\u00e3o na economia global. Em 2008, a crise teve um s\u00e9rio pico. Mas, ent\u00e3o, as coisas n\u00e3o se resolveram reiniciando um ciclo de crescimento sustentado. Tudo \u00e9 \u201can\u00eamico\u201d, ainda que de forma desigual: a \u201canemia\u201d da China n\u00e3o tem as mesmas taxas do que a da It\u00e1lia. Contudo, em todo o mundo, as consequ\u00eancias dessa \u201canemia\u201d s\u00e3o pagas pelas massas trabalhadoras e populares.<\/p>\n<p>Isso tamb\u00e9m se reflete em outros dados quesintetizam o engessamentoda chamada \u201cglobaliza\u00e7\u00e3o\u201d: durante os quase 25 anos antes da crise de 2008, o com\u00e9rcio mundial cresceu o dobro do PIB mundial. A partir de 2008, somentea duras penas consegueigual\u00e1-lo. As supostas \u201cvantagens\u201d do capitalismo globalizado est\u00e3o cada vez mais desacreditadas! S\u00f3 t\u00eam favorecido,de um lado, a concentra\u00e7\u00e3o mais escandalosa da riqueza na hist\u00f3ria da humanidade \u2026e, nooutrolado, o crescimento fenomenal da desigualdade e da mis\u00e9ria: hoje, \u201co 1% mais rico da popula\u00e7\u00e3o mundial acumula mais riqueza do que os 99% restantes\u201d.<a name=\"_ftnref4\"><\/a><a href=\"#_ftn4\">[4]<\/a><\/p>\n<p>Mas os governos continuam seguindo a B\u00edblia do capitalismo e os Evangelhos da globaliza\u00e7\u00e3o neoliberal, e continuam negociando \u201ctratados de livre com\u00e9rcio\u201d, ainda que por baixo dos panos tomem medidas protecionistas pontuais, que j\u00e1 indicam tend\u00eancias de que a coisa n\u00e3o vai bem!<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que \u201ca ilus\u00e3o de um mundo unipolar desapareceu\u201d ap\u00f3s os EUA come\u00e7arem as aventuras do Iraque e do Afeganist\u00e3o, as quais ainda n\u00e3o terminaram de sair completamente. Mas por que o \u201cmundo unipolar\u201d se revelou t\u00e3o rapidamente uma ilus\u00e3o? S\u00f3 por causa do Afeganist\u00e3o e do Iraque? Ou porque esses fracassos revelaram as debilidades e problemas mais s\u00e9rios da \u201csuperpot\u00eancia\u201d, enquanto a China entravaem cena e a R\u00fassia retornava?<\/p>\n<p>Essa \u201cilus\u00e3o de um mundo unipolar\u201d tinha sua raz\u00e3o de ser. Nasceu em 1989-1991, com o colapso e desintegra\u00e7\u00e3o da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. \u00c9 que, geopoliticamente, o mundo p\u00f3s-Segunda Guerra Mundial foi visto principalmente como \u201cbipolar\u201d: EUA <em>versus <\/em>Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. Era o per\u00edodo da chamada Guerra Fria.<\/p>\n<p>Mas, de repente, um dos p\u00f3los da \u201cbipolaridade\u201d desapareceu. Ent\u00e3o, a defini\u00e7\u00e3o parecia muito, muito simples, aritm\u00e9ticamente: 2-1 = 1. Restava um s\u00f3 p\u00f3lo geopol\u00edtico: os Estados Unidos. Em outras palavras, est\u00e1vamos no mundo unipolar!<\/p>\n<p>As coisas mostraram-se mais complicadas. Issotem a ver com os processos econ\u00f4micos, pol\u00edticos e geopol\u00edticos que se desenvolveram nesse mundo relativamente \u201cbipolar\u201d, desde seu nascimento em 1945, no final da Segunda Guerra Mundial. Nesse p\u00f3s-guerra se iniciou a Guerra Fria, que, na verdade, sempre esteve contida e regulada pelos acordos de Yalta-Potsdam, pelos quais Washington e Moscou repartiram o mundo. A Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, um dos p\u00f3los, tinha se \u201cdissolvido\u201d. Mas o p\u00f3lo triunfante, Estados Unidos, depois de quase meio s\u00e9culo de mundo bipolar, n\u00e3o era igual nem mais forte do que no in\u00edcio, em v\u00e1rios aspectos fundamentais que veremos a seguir.<\/p>\n<p>Poder\u00edamos comparar isso com uma corrida de longa dist\u00e2ncia em que competem dois corredores. Um deles, a URSS, cai repentinamente v\u00edtimade um infarto. O outro corredor, EUA, atinge a linha de chegada e \u00e9 o vencedor, mas isso n\u00e3o significa que sua sa\u00fade esteja melhor ou igual do que no momento da partida, 45 anos antes. Com efeito, durante esse longo per\u00edodo, os EUA, como Estado, teve seus \u201cproblemas de sa\u00fade\u201d\u2026 ainda que n\u00e3o mortais, como foi o caso da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica.Vejamos alguns deles.<\/p>\n<p><strong>\u00a02.1.As guerras e suas consequ\u00eancias<\/strong><\/p>\n<p>Em 1975, pela primeira vez na hist\u00f3ria, EUA \u2013 superpot\u00eancia militar jamais derrotada \u2013 perdeu uma guerra, a do Vietn\u00e3.<a name=\"_ftnref5\"><\/a><a href=\"#_ftn5\">[5]<\/a> Para piorar a situa\u00e7\u00e3o, este resultado n\u00e3o foi apenas militar, mas tamb\u00e9m subproduto de uma enorme mobiliza\u00e7\u00e3o das massas:juventude e classes populares nos EUA, que abriu uma crise pol\u00edtica e tamb\u00e9m das for\u00e7as armadas.<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que este movimento de massas contra a guerra, assim como o movimento dos direitos civis dos afro-americanos que o precedeu, foram, ent\u00e3o, em grande parte \u201creabsorvidos\u201d pelo sistema, mas n\u00e3o sem dar concess\u00f5es e fazer mudan\u00e7ascom certas implica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Uma deles, de import\u00e2ncia geopol\u00edtica, foi o giro paraum ex\u00e9rcito exclusivamente profissional, uma mudan\u00e7a facilitada pelos avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos em assuntos militares. Isto tenta evitar que se repita a rejei\u00e7\u00e3o popular a futuras guerras, que, no caso do Vietn\u00e3, tinhasido exacerbado pelo servi\u00e7o militar obrigat\u00f3rio que atingia \u00e0s fam\u00edlias.<\/p>\n<p>A profissionaliza\u00e7\u00e3o das for\u00e7as armadas foi eficaz para evitar, nos casos do Iraque e do Afeganist\u00e3o, a repeti\u00e7\u00e3o de protestos em massa. Mas n\u00e3o solucionou o paradoxo de uma grande pot\u00eancia imperialista que tem de evitar os envios massivos de tropas em suas interven\u00e7\u00f5es e deve substitu\u00ed-los por avia\u00e7\u00e3o, drones e tecnologia. Problema que seus atuais rivais, R\u00fassia e China, parecem n\u00e3o ter.<\/p>\n<p><strong>2.2. Do \u201cAmerican Dream\u201d(sonho americano) ao pesadelo da globaliza\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o se deve subestimar o tema das guerras nem, mais especificamente, o fracasso da aventura geopol\u00edtica de Bush de colonizar quase diretamente o \u201cGrande Oriente M\u00e9dio\u201d. Mas h\u00e1 outro fator t\u00e3o ou mais importante do que essas guerras para explicar as inesperadas debilidades do imperialismo mais poderoso, depois de ficar sozinho no palco ap\u00f3s 1989-1991.<\/p>\n<p>Referimo-nos \u00e0 progressiva deteriora\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de vida e de trabalho nos EUA, e ao crescimento paralelo da desigualdade social. Isso come\u00e7ou em meados dos anos 70 e vai se aprofundando cada vez mais em sintonia com a globaliza\u00e7\u00e3o que, nos anos 90, recebe outro impulso formid\u00e1vel, decisivo: a queda da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e a restaura\u00e7\u00e3o capitalista na China e todo o (falso) \u201cmundo socialista\u201d. Depois, com a crise de 2008, apresenta-se ao mesmo tempo a oportunidade de dar mais um golpe para liquidar o que restou das concess\u00f5es e conquistas dos bons tempos do p\u00f3s-guerra.<\/p>\n<p>Recordemos que em meados dos anos 70 terminaram os \u201c30 anos gloriosos\u201d, ou seja, as tr\u00eas d\u00e9cadas de bonanza do p\u00f3s-guerra. Foi o maior per\u00edodo de crescimento econ\u00f4mico da hist\u00f3ria do capitalismo nos pa\u00edses centrais; a saber, EUA, Europa (ocidental) e\u00a0 Jap\u00e3o. Simultaneamente, as concess\u00f5es do Estado e das patronais \u2013 conhecidas como \u201cEstado de Bem-estar social\u201d \u2013 tamb\u00e9m foram sem precedentes naquelas d\u00e9cadas. N\u00e3o s\u00f3 eram concess\u00f5es poss\u00edveis em meio a essa bonanza, mas tamb\u00e9m inevit\u00e1veis por for\u00e7a dos movimentos oper\u00e1rios e, tamb\u00e9m, da concorr\u00eancia com o \u201ccomunismo\u201d.<\/p>\n<p>Embora com menos concess\u00f5es do que os Estados europeus, os Estados Unidos, nesse per\u00edodo, foi o \u201cmundo feliz\u201d da classe oper\u00e1ria e trabalhadora e, tamb\u00e9m, dos setores da classe m\u00e9dia, pequenos comerciantes e empres\u00e1rios\u2026 claro, desde que fossem WASP (White, Anglo-sax\u00e3o, Protestante).<a name=\"_ftnref6\"><\/a><a href=\"#_ftn6\">[6]<\/a><\/p>\n<p>No Manufacturing Belt (cintur\u00e3o industrial), que se estendia por v\u00e1rios estados dos Grandes Lagos ao Atl\u00e2ntico, estava o que quase poder\u00edamos chamar \u201cf\u00e1brica do mundo\u201d. Hoje a regi\u00e3o mudou de nome. Agora, \u00e9 conhecida como o Rust Belt (cintur\u00e3o da ferrugem): apenas restam ru\u00ednas de grande parte dessas f\u00e1bricas e das grandes cidades industriais como Detroit.<\/p>\n<p>Frente \u00e0 crise que eclodiu em meados dos anos 70, o capitalismo norte-americano liderou um salto qualitativo no processo de globaliza\u00e7\u00e3o, que j\u00e1 se havia reiniciado no final da guerra. Isto teve v\u00e1rios componentes, como, por exemplo, a globaliza\u00e7\u00e3o financeira, que se instalou principalmente em duas capitais: Nova York e Londres. No entanto, o mais importante, que transformou a produ\u00e7\u00e3o em escala mundial, foi a globaliza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o, facilitada pela revolu\u00e7\u00e3o dos cont\u00eaineres no transporte mar\u00edtimo e por outros avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos.<\/p>\n<p>Os produtos industriais n\u00e3o s\u00e3o fabricados em um s\u00f3 lugar ou um s\u00f3 pa\u00eds. Hoje os processos produtivos s\u00e3o levados a cabo em v\u00e1rios pa\u00edses, e suas partes convergem em algum ponto do planeta ondese monta o produto final, desde um autom\u00f3vel a um computador.<\/p>\n<p>Esta \u201cdeslocaliza\u00e7\u00e3o\u201d mundial da produ\u00e7\u00e3o permitiu ao grande capital \u2013 cada vez mais concentrado em oligop\u00f3lios \u2013colocar os trabalhadores do mundo inteiro competindo entre si, para explorar todos mais e melhor: o p\u00e1ria da \u00cdndia, China ou M\u00e9xico contra o oper\u00e1rio \u201cprivilegiado\u201ddos Estados Unidos, Gr\u00e3-Bretanha ou Fran\u00e7a. \u00c9 um grande neg\u00f3cio pagar a um oper\u00e1rio chin\u00eas ou mexicano 10% do sal\u00e1rio de um americano para fazer o mesmo trabalho.<\/p>\n<p>Apoiado nestes dois pilares, a globaliza\u00e7\u00e3o financeira e os oligop\u00f3lios produtivos tamb\u00e9m globais, o capitalismo pisou no acelerador da globaliza\u00e7\u00e3o neoliberal, na qual os EUA desempenharam um papel central e, em grande parte, condutor.<\/p>\n<p><strong>\u00a02.3. Internacionaliza\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o e finan\u00e7as, mas com Estados nacionais.<\/strong><\/p>\n<p>No entanto, ao mesmo tempo, isso desencadeou ou agravou velhas e (principalmente) novas contradi\u00e7\u00f5es. Entre elas, a crescente contradi\u00e7\u00e3o entre os capitais que internacionalizam cada vez mais sua produ\u00e7\u00e3o e finan\u00e7as, por um lado, e, por outro, as consequ\u00eancias sociais e geopol\u00edticas em seus respectivos estados, que permanecem sendo nacionais.<\/p>\n<p>A sociedade capitalista, desde sua origem, esteve cruzada pela contradi\u00e7\u00e3o entre o car\u00e1ter mundial da economia e o car\u00e1ter nacional de seus estados. A globaliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o a resolveu \u2013 como acreditavam alguns -, mas, pelo contr\u00e1rio, acirrou esta contradi\u00e7\u00e3o a um novo n\u00edvel e fez surgir novos aspectos.<\/p>\n<p>Retomemos o exemplo dos EUA. Para o grande capital norte-americano globalizado foi um magn\u00edfico neg\u00f3cio fechar f\u00e1bricas do Manufacturing Belt, convertendo-as em Rust Belt, o cintur\u00e3o de ferrugem, e, simultaneamente, abrir outras na China ou no M\u00e9xico, com sal\u00e1rios incomparavelmente mais baixos.<\/p>\n<p>Mas isso n\u00e3o foi apenas uma cat\u00e1strofe social para os trabalhadores e classes m\u00e9dias, mas tamb\u00e9m para outros capitalistas que n\u00e3o fugiram a tempo. Al\u00e9m disso, do ponto de vista geopol\u00edtico, para o Estado e para o imperialismo norte-americano, teve consequ\u00eancias,no m\u00ednimo, contradit\u00f3rias.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, a globaliza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e financeira proporcionou \u00e0 grande burguesia imperialista dos EUA \u2013 o famoso \u201d1%\u201d \u2013 lucros sem precedentes, mesmo durante a crise. Mas, ao mesmo tempo, enfraqueceu os imprescind\u00edveis alicerces do consenso do Estado e deteriorou suas bases sociais. Isso \u00e9 o que as recentes elei\u00e7\u00f5es refletiram, atrav\u00e9s dotriunfo muito distorcidode Trump. O descontentamento cresce cada vez mais!<\/p>\n<p>\u00c9 verdade que os EUA lideraram a \u201cglobaliza\u00e7\u00e3o\u201d da produ\u00e7\u00e3o e das finan\u00e7as. No entanto, isso os fortaleceu em alguns aspectos, mas n\u00e3o em outros. Em 1945, os EUA produziram em seu territ\u00f3rio 50% do PIB mundial. Este ano, segundo dados do FMI, medido como PIB nominal, os EUA estaria em 24,5% (World Economic Outlook Database, International Monetary Fund. October 2016). E, medido como PPP (paridade de poder de compra), em 15,6%. Enquanto isso, a China \u2013 que em 1945 era nada comparada aos EUA \u2013 atinge 15,20%, medido pelo PIB nominal, e chegaria a 17,5%, medido como PPP (\u201cReport for Selected Country Groups and Subjects-PPP valuation of country GDP\u201d, International Monetary Fund, 13-6-16).<\/p>\n<p>E isto n\u00e3o se verifica apenas nos Estados Unidos. Tamb\u00e9m se aplica \u00e0 Europa. Quando o Estado imperialista brit\u00e2nico foi social e institucionalmente mais s\u00f3lido? Quando concentrava na ilha a ind\u00fastria do Imp\u00e9rio Brit\u00e2nico, que tamb\u00e9m rivalizava de igual para igual com a Alemanha? Agora, que se desindustrializou relativamente (apenas 14% do PIB \u00e9 industrial), a principal \u201cind\u00fastria\u201d s\u00e3o os servi\u00e7os, incluindo em primeiro lugar a roleta financeira da City de Londres. Os \u201cservi\u00e7os\u201d figuram hoje nas estat\u00edsticas com quase 80% do PIB! A quem ocorreria, ademais, nas velhas \u00e9pocas, propor a separa\u00e7\u00e3o da Esc\u00f3cia do Reino Unido?<\/p>\n<p>Hoje, as ilhas brit\u00e2nicas e seu estado s\u00e3o atravessadas por uma crise social, com regi\u00f5es industriais em ru\u00ednas, similares ao Rust Belt dos EUA. Seu voto foi decisivo para o triunfo do Brexit, que desencadeou a mais grave crise geopol\u00edtica, tanto da Uni\u00e3o Europeia e como no interior do Reino Unido, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 poss\u00edvel separa\u00e7\u00e3o da Esc\u00f3cia.<\/p>\n<p>E, passando ao continente: o clima de descontentamento e falta de legitima\u00e7\u00e3o de todo o edif\u00edcio comunit\u00e1rio est\u00e1 fazendo desabar a Uni\u00e3o Europeia. \u00c9 obra de algum v\u00edrus desconhecido? Isso se deve apenas aos imigrantes? E antes que eles chegassem, todos eram felizes? As ind\u00fastrias floresciam com empregos est\u00e1veis \u200b\u200be bons sal\u00e1rios para todos? Ou os refugiados foram apenas a gota que transbordou o copo do descontentamento pr\u00e9-existente?<\/p>\n<p><strong>2.4.O surgimento da China como grande pot\u00eancia: um imperialismo em constru\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>No entanto, estas n\u00e3o s\u00e3o as \u00fanicas consequ\u00eancias negativas ou,ao menos, muito contradit\u00f3rias para os Estados imperialistas tradicionais. As deslocaliza\u00e7\u00f5es da produ\u00e7\u00e3o globalizada geraram zonas francas na Am\u00e9rica Central e no M\u00e9xico geopoliticamente \u201ccontrol\u00e1vel\u201d\u2026 pelo menos at\u00e9 agora.<\/p>\n<p>Na \u00c1sia-Pac\u00edfico, as coisas t\u00eam sido diferentes e mais contradit\u00f3rias. \u00c9 que a globaliza\u00e7\u00e3o produtiva foi o mecanismo decisivo (ainda que n\u00e3o o \u00fanico) para a emerg\u00eancia da China como grande pot\u00eancia, que agora est\u00e1 pisando nos calos dos Estados Unidos. Os investimentos na China e\/ou o uso de sua ind\u00fastria proporcionaram lucros colossais ao capital norte-americano e europeu. Mas isso, simultaneamente, implicou em um enfraquecimento geopol\u00edtico em seus Estados e crise social interna.<\/p>\n<p>Com a China, surge-lhes um rival geopol\u00edtico cujo tamanho, somado ao \u201cretorno\u201d da R\u00fassia, coloca os EUA cada vez mais longe do \u201cmundo unipolar\u201d governado por Washington, ilus\u00e3o que, na d\u00e9cada de 90, era dado como um fato. E n\u00e3o se trata apenas da China. A \u00cdndia tamb\u00e9m \u2013 que al\u00e9m de ser pot\u00eancia nuclear \u2013 constitui outro \u201cpeso pesado\u201d e uma interroga\u00e7\u00e3o geopol\u00edtica.<\/p>\n<p>Sobre um ponto espec\u00edfico do cen\u00e1rio da \u00c1sia-Pac\u00edfico, analisaremos mais adiante a expans\u00e3o da influ\u00eancia econ\u00f4mica e geopol\u00edtica da China, englobada nas iniciativas da \u201cnova estrada da seda\u201d e outros desenvolvimentos, bem como novas institui\u00e7\u00f5es internacionais promovidas por Pequim, paralelamente (e concorrentes) \u00e0s fundadas pelos EUA no p\u00f3s-guerra. Veremos tamb\u00e9m os crescentes atritos com os EUA e outros pa\u00edses da regi\u00e3o, com amea\u00e7as de confrontos militares, especialmente depois que Obama anunciou o \u201cgiro ao Pac\u00edfico\u201d para fazer frente ao novo \u201cperigo amarelo\u201d.<\/p>\n<p>Aqui s\u00f3 veremos uma defini\u00e7\u00e3o da China como Estado. Isto \u00e9 importante, entre outros motivos, porque setores da esquerda, na Am\u00e9rica Latina e na Europa, consideram a China mais \u201cprogressista\u201d ou, pelo menos, mais \u201cbenevolente\u201d do que os EUA e o resto dos velhos imperialismos. Algo parecido, embora com diferentes argumentos, se d\u00e1 nesses e noutros c\u00edrculos com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 R\u00fassia.<\/p>\n<p>A respeito deste tema, ocorreu durante anos uma confus\u00e3o geopol\u00edtica sobre a constitui\u00e7\u00e3o dos BRICS (Brasil, R\u00fassia, \u00cdndia, China e \u00c1frica do Sul), que colocou um falso sinal de igualdade entre Estados muito diferentes.<\/p>\n<p>Parece-nos que a defini\u00e7\u00e3o mais correta do Estado chin\u00eas \u2013 e de sua emerg\u00eancia como pot\u00eancia capaz de medir for\u00e7as com os EUA \u2013 \u00e9 a de Pierre Rousset: \u201cum imperialismo em constru\u00e7\u00e3o\u201d (ver seu texto \u201cChina \u2013 Um imperialismo em constru\u00e7\u00e3o\u201d, jornal <em>Socialismo ou Barbarie <\/em>N\u00ba 304, 11\/09\/14). Neste texto, polemiza com raz\u00e3o contra a f\u00e1bula dos BRICS e dos famosos \u201cEstados emergentes\u201d, que tantas fantasias econ\u00f4micas, pol\u00edticas e geopol\u00edticas inspiraram na d\u00e9cada passada. Muito se especulou sobre o projeto da associa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica-comercial das \u201ccinco economias nacionais emergentes mais importantes do mundo\u201d. Na verdade, a \u00fanica coisa que tinham em comum como estados era sua grande extens\u00e3o e popula\u00e7\u00e3o (embora a \u00c1frica do Sul nem isso). Mas nem os BRICS, nem o BRIC (sem a \u00c1frica do Sul) confirmaram esses sonhos. O impacto da crise, que come\u00e7ou em 2008, destacou as diferen\u00e7as.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, esses pa\u00edses t\u00eam sido caracterizados como \u201csub-imperialistas\u201d uma categoria de certa utilidade cunhada no s\u00e9culo passado por Ruy Mauro Marini \u2013te\u00f3rico da \u201cdepend\u00eancia\u201d \u2013 para caracterizar o papel do Brasil na Am\u00e9rica do Sul sob a ditadura militar nos anos 60, quando era uma esp\u00e9cie de pol\u00edcia continental, comiss\u00e1rio deWashington. Mas \u00e9 evidente que hoje nem a China nem a R\u00fassia exercem o papel de sub-imperialismos regionais sob o comando de alguma outra pot\u00eancia global.<\/p>\n<p>A burocracia mao\u00edsta (reconvertida ao capitalismo) que governa a China aproveitou a colossal oportunidade e, desde os anos 90, converteu-se na \u201cf\u00e1brica do mundo\u201d, o que levou a uma verdadeira revolu\u00e7\u00e3o industrial. Sob as palavras de ordem de Deng Xiaoping, \u201cficar rico \u00e9 maravilhoso\u201d, a burocracia tornou-se bilion\u00e1ria, mas isso n\u00e3o significa que se converteu em lacaio sub-imperialista dos EUA, como \u00e9 o caso (hist\u00f3rico e irremedi\u00e1vel)da grande burguesia brasileira.<\/p>\n<p>A chave principal desta diferen\u00e7a \u00e9 a exist\u00eancia de uma grande revolu\u00e7\u00e3o, a de 1949, uma das mais importantes do s\u00e9culo passado. N\u00e3o foi uma revolu\u00e7\u00e3o oper\u00e1ria e socialista, e sua burocracia a conduziu, ao final, a um capitalismo com padr\u00f5es de explora\u00e7\u00e3o selvagem. Mas tamb\u00e9m realizou uma transforma\u00e7\u00e3o social que varreu a velha burguesia subserviente aos Estados Unidos e outros imperialismos, consumou uma revolu\u00e7\u00e3o agr\u00e1ria e lan\u00e7ou as bases da independ\u00eancia nacional. \u00c9 sobre este terreno que a burocracia bilion\u00e1ria se apoiou para erigir a China como segunda pot\u00eancia mundial.<\/p>\n<p>A peculiar forma\u00e7\u00e3o econ\u00f4mico-social da China, onde uma burocracia governante gerada por uma revolu\u00e7\u00e3o se \u201creconverte\u201d em burguesia bilion\u00e1ria \u00e9, simultaneamente, a for\u00e7a ea debilidade de seu regime. O marxista chin\u00eas Au Loong Yu, ao polemizar com Giovanni Arrighi, em seu livro <em>Adam Smith em Pequim<\/em> (2007), considera a China e seu regime assim:<\/p>\n<p>\u201cAs experi\u00eancias do Ocidente levaram a considerar a burocracia ea classe capitalista como dois grupos sociais diferentes e at\u00e9 opostos. No entanto, na China, a burocracia <strong>\u00e9 <\/strong>a classe capitalista [\u2026]. Se o Estado-partido conserva a propriedade dos comandos da economia, n\u00e3o \u00e9 por causa de qualquer ades\u00e3o ao \u2018socialismo\u2019, como faz entender Arrighi. \u00c9 simplesmente porque a elite dirigente n\u00e3o tolera abandonar os setores mais rent\u00e1veis \u200b\u200bda economia. [\u2026] Mas, por mais hegem\u00f4nico que seja, o Estado- partido funciona de maneira contradit\u00f3ria. \u00c9 eficaz para controlar a popula\u00e7\u00e3o, mas perde progressivamente o controle sobre si mesmo. N\u00e3o pode controlar sua pr\u00f3pria voracidade, sua corrup\u00e7\u00e3o nem tampouco suas dimens\u00f5es. O n\u00famero de funcion\u00e1rios n\u00e3o deixa de crescer, apesar das diretrizes do governo central. Os esc\u00e2ndalos s\u00e3o exemplos do lugar da corrup\u00e7\u00e3o, que se traduzem em desconfian\u00e7a e \u00f3dio profundo da popula\u00e7\u00e3o pelos funcion\u00e1rios do governo; al\u00e9m disso,\u00a0 a desintegra\u00e7\u00e3o do tecido social coloca um n\u00famero crescente de cidad\u00e3os \u00e0 beira da rebeli\u00e3o\u201d (Au Loong Yu, \u201cFin d\u2019un mod\u00e8le ou naissance d\u2019un nouveau mod\u00e8le ?\u201d, <em>Inprecor<\/em>, N\u00b0 555, novembro 2009).<\/p>\n<p>E, de fato, desde que Au Loong Yu escreveu isso, os chamados \u201cincidentes\u201d, tanto oper\u00e1rios como populares, tenderam \u2013 com altos e baixos &#8211; a se multiplicar. E um caso especial foi a \u201crebeli\u00e3o dos guarda-chuvas\u201d de Hong Kong.<\/p>\n<p>Com Xi Jinping, que assume o comando do PCC em 2012, h\u00e1 uma tentativa de fazer frente aos desafios internos e externos. Internamente, h\u00e1 uma limpeza anti-corrup\u00e7\u00e3o, mas que muito provavelmente n\u00e3o acabar\u00e1 com uma quest\u00e3o que \u00e9 estrutural e que faz parte do modo de domina\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o da mais-valia no sistema simbi\u00f3tico de burguesia-burocracia. Externamente, se lan\u00e7a a iniciativa da Nova Rota da Seda, que veremos mais adiante.<\/p>\n<p><strong>\u00a02.5. R\u00fassia: um imperialismo em reconstru\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p>A atual natureza da R\u00fassia \u00e9 tamb\u00e9m um tema importante de debate como o da China. E com rela\u00e7\u00e3o a isso, tamb\u00e9m variam muito os pontos de vista que aparecem na \u201cesquerda\u201d em geral. Enquanto alguns apresentam a R\u00fassia de Putin como um imperialismo completo, no outro extremo, \u00e9 descrita quase como uma inofensiva semicol\u00f4nia, qua faz tudo o que pode para se defender dos provocadores da OTAN.\u00a0\u201cR\u00fassia uma pot\u00eancia imperialista, parte do \u2018centro\u2019 do capitalismo global? Ou, dadas as suas caracter\u00edsticas econ\u00f4micas, sociais e pol\u00edtico-militares \u00e9 identificada como parte da \u2018periferia\u2019 ou \u2018semiperiferia\u2019 global; ou seja, como um dos pa\u00edses (maioria) que, em maior ou menor grau, s\u00e3o alvos de ass\u00e9dio e pilhagem imperialista?\u201d (Renfrey Clarke e Roger Annis,\u201cThe Myth of \u2018Russian Imperialism\u2019: in defence of Lenin\u2019s analyses\u201d, <em>Links<\/em>, 29-2-16).Essa \u00e9 a pergunta ret\u00f3rca que faz um dos muitos polemistas, cuja opini\u00e3o \u00e9 que a R\u00fassia n\u00e3o \u00e9 \u201cuma pot\u00eancia imperialista.\u201d E remetem-nos a L\u00eanin &#8211; em \u201cO imperialismo, fase superior do capitalismo\u201d (1916-17) \u2013 e \u00e0 defini\u00e7\u00e3o sint\u00e9tica que formula acerca do imperialismo.<a name=\"_ftnref7\"><\/a><a href=\"#_ftn7\">[7]<\/a>\u00a0Nessa defini\u00e7\u00e3o, evidentemente, a R\u00fassia atual n\u00e3o entra totalmente. Mas tampouco entraria a R\u00fassia czarista da \u00e9poca de L\u00eanin. No entanto, a ningu\u00e9m da \u00e9poca \u2013 nem a L\u00eanin \u2013 ocorreria dizer que a R\u00fassia n\u00e3o era um imperialismo, ainda que, obviamente, n\u00e3o era como o Imp\u00e9rio Brit\u00e2nico, Alemanha, Fran\u00e7a ou EUA, e apresentava atrasos ainda piores do que os da R\u00fassia atual. \u00a0\u00c9 que a R\u00fassia czarista (e hoje tamb\u00e9m a R\u00fassia de Putin) tinha uma combina\u00e7\u00e3o extrema de desigualdades,de tra\u00e7os econ\u00f4micos e sociais atrasados e avan\u00e7ados. Em algumas cidades, havia as maiores f\u00e1bricas da Europa e, em outras regi\u00f5es, um atraso de s\u00e9culos, com rela\u00e7\u00f5es servis ou at\u00e9 tribais no campo. Financeiramente, os czares eram uma semi-col\u00f4nia dos banqueiros de Paris, enquanto, ao mesmo tempo, imperavam sobre in\u00fameras na\u00e7\u00f5es n\u00e3o russas, etc.! N\u00e3o \u00e9 por acaso que foi um russo &#8211; Leon Trotsky \u2013 quem formulou a \u201clei do desenvolvimento desigual e combinado\u201d, inspirando-se explicitamente na realidade russa de contrastes extremos e de \u201cam\u00e1lgama de formas arcaicas e modernas\u201d!\u00a0A R\u00fassia que emerge ap\u00f3s a dissolu\u00e7\u00e3o da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica em 1991, depois de mais de seis d\u00e9cadas de stalinismo, n\u00e3o era certamente a R\u00fassia dos czares, mas tinha pouco que invejar em termos de \u201ccontrastes extremos\u201d, por exemplo, entre uma ind\u00fastria militar e aeroespacial que rivalizava e, em alguns aspectos, superava os EUA, e uma economia onde os hidrocarbonetos eram ainda a principal fonte de divisas, como o Equador ou a Venezuela. Mas n\u00e3o nos enganemos: no quadro geopol\u00edtico do planeta, a R\u00fassia n\u00e3o \u00e9 a Venezuela nem tampouco o Equador.\u00a0Os privatistas e os neoliberais extremistas que governaram com Yeltsin levaram a R\u00fassia \u00e0 bancarrota em 1998. \u00c9 prov\u00e1vel que, naqueles primeiros anos, o car\u00e1ter da R\u00fassia, inclusive a possibilidade de sua fragmenta\u00e7\u00e3o, estivessem com pontos de interroga\u00e7\u00e3o. Mas a rea\u00e7\u00e3o nascida das entranhas do aparato do Estado \u2013 corporificado em Putin, que fez sua carreira no aparato militar especificamente \u2013 imp\u00f4s um giro bonapartista.\u00a0De maneira nenhuma, os oligarcas neoliberais que saquearam o Estado foram liquidados. Putin n\u00e3o tem nada de socialista ou anti-capitalista! Mas lhes imp\u00f4s obedi\u00eancia, juntamente com nacionaliza\u00e7\u00f5es de certa import\u00e2ncia. Aqueles que o desafiaram acabaram presos, no ex\u00edlio ou no cemit\u00e9rio. Claro que este clima repressivo tamb\u00e9m sopra para a esquerda \u2026\u00a0A hostilidade crescente dos Estados Unidos, a OTAN e (de foma desigual) da UE \u2013 com provoca\u00e7\u00f5es como a guerra com a Ge\u00f3rgia (2008), Ucr\u00e2nia (2013-14) e os destacamentos militares no B\u00e1ltico e na Pol\u00f4nia \u2013 n\u00e3o fez mais do que fortalecer sua imagem no interior da R\u00fassia. Especialmente o da Ucr\u00e2nia elevou a popularidade de Putin a taxas inalcan\u00e7\u00e1veis para seus colegas ocidentais. A demonstra\u00e7\u00e3o de for\u00e7a na guerra da S\u00edria, que contrastava com as vacila\u00e7\u00f5es dos EUA e das pot\u00eancias europeias, completou o quadro. \u00a0De alguma forma, a defini\u00e7\u00e3o geopol\u00edtica da R\u00fassia de Putin \u00e9 fornecida pelo mesmo Putin. Seu projeto parte explicitamente da reivindica\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica das R\u00fassias, seus imp\u00e9rios e seus czares, de que se apresenta como continua\u00e7\u00e3o e reconstru\u00e7\u00e3o. Nesse sentido, para que n\u00e3o restem d\u00favidas, Putin acaba de erguer em frente ao Kremlin uma est\u00e1tua monumental deVladimir I, fundador da Primeira R\u00fassia em 988. \u201cVladimir entrou para a hist\u00f3ria como o unificador e defensor das terras russas, como um pol\u00edtico vision\u00e1rio. Agora nosso dever \u00e9 nos levantar e enfrentar juntos os desafios e as amea\u00e7as modernas, com base em seu legado\u201d, disse Putin ao inaugur\u00e1-la. Outros destacados czares que constru\u00edram o poder imperial, como Pedro o Grande, tamb\u00e9m figuram no hagiol\u00f3gio oficial.\u00a0No entanto, para Putin h\u00e1 uma figura abomin\u00e1vel e culpada de todos os males na hist\u00f3ria da R\u00fassia: Vladimir L\u00eanin. Em janeiro passado, Putin chegou a responsabiliz\u00e1-lo <em>post mortem <\/em>pela desagrega\u00e7\u00e3o da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica: \u201cColocou uma bomba sob a casa da R\u00fassia, que depois explodiu\u201d (Isabelle Mandraud, \u201cPutin e o desafio de Lenin,\u201d Viento Sur, fevereiro 2016). Qual \u00e9 esta maldita bomba leninista, que desagregou os dom\u00ednios da R\u00fassia? O princ\u00edpio defendido por Lenin (contra Stalin, ao se constituir a URSS) de \u201cauto-determina\u00e7\u00e3o dos povos\u201d com \u201cplena igualdade\u201d eo \u201cdireito de cada um abandonar a Uni\u00e3o\u201d (idem). Putin, com toda franqueza, explica que vai na dire\u00e7\u00e3o oposta.\u00a0Nesse sentido, seu projecto de reconstru\u00e7\u00e3o, enquanto abomina Lenin, reivindica n\u00e3o s\u00f3 a R\u00fassia imperial dos grandes czares, mas tamb\u00e9m a de Stalin, embora neste caso evite prudentemente personalizar. Para isso, toma um grande fato hist\u00f3rico, a luta her\u00f3ica e a vit\u00f3ria da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica sobre o nazi-fascismo na Segunda Guerra Mundial. Os desfiles militares monumentais que organiza em frente ao Kremlin, s\u00e3o presididos por dois escudos colossais, o da \u00e1guia de duas cabe\u00e7as usado pelos czares e o da foice eo martelo. Mas, como fazia Stalin, este triunfo sobre o nazi-fascismo \u00e9 esvaziado do seu conte\u00fado internacionalista: \u00e9 \u201ca Grande Guerra Patri\u00f3tica\u201d.\u00a0Esta reconstru\u00e7\u00e3o ou recomposi\u00e7\u00e3o geopol\u00edtica encaminhada por Moscou olha para o Oriente e tamb\u00e9m para o Ocidente. Expressou-se tanto frente \u00e0 quest\u00e3o da Ucr\u00e2nia quanto aos projetos \u201ceuro-asi\u00e1ticos\u201d que est\u00e3o em curso com a China e v\u00e1rios pa\u00edses da \u00c1sia Central. E \u00e9 baseado nela que Moscou interv\u00e9m tamb\u00e9m decisivamente na guerra da S\u00edria.<\/p>\n<ol>\n<li><strong>Principais pontos de tens\u00f5es e conflitos geopol\u00edticos no atual cen\u00e1rio mundial<\/strong><\/li>\n<\/ol>\n<p>Conforme esclarecemos no in\u00edcio, este artigo foi conclu\u00eddo \u00e0s v\u00e9speras das elei\u00e7\u00f5es nos EUA. A mudan\u00e7a de comando do imperialismo norte-americano pode tamb\u00e9m mudar, em maior ou menor medida, a situa\u00e7\u00e3o de alguns ou de todos os cen\u00e1rios. Enquanto isso, aguardamos numa esp\u00e9cie de \u201climbo\u201d geopol\u00edtico at\u00e9 a posse de Trump, em 20 de janeiro de 2017.<\/p>\n<p>Atualmente, vemos <em>cinco \u00e1reas principais de tens\u00e3o e de conflitos geopol\u00edticos <\/em>que se desdobram mundialmente. A primeira \u00e9 a do Oriente M\u00e9dio, com suas v\u00e1rias guerras e confrontos diretos ou indiretos entre os Estados. A segunda \u00e9 a da \u00c1sia-Pac\u00edfico, cujos principais protagonistas s\u00e3o a China e os Estados Unidos. A terceira \u00e9 a da \u201cfrente europeia\u201d, com duas express\u00f5es: por um lado, o Brexit e a chamada \u201ccrise existencial\u201d da Uni\u00e3o Europeia; por outro, o confronto entre EUA-UE-OTAN <em>versus<\/em> a R\u00fassia, que hoje tem uma for\u00e7a militar expressiva na Ucr\u00e2nia. A quarta, na Am\u00e9rica Latina, que se expressa na crise e naufr\u00e1gio quase total do bloco \u201cprogressista\u201d. A quinta e \u00faltima abrange os m\u00faltiplos conflitos da \u00c1frica-subsaariana eNordeste da \u00c1frica (Chifre da \u00c1frica).<strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>3.1. Guerras no Oriente M\u00e9dio depois da Primavera \u00c1rabe afogada em sangue<\/strong><\/p>\n<p>Dentre esses conflitos geopol\u00edticos, o mais impactante (mas talvez n\u00e3o o mais decisivo em longo prazo) se desenrola hoje no Oriente M\u00e9dio. Em primeiro lugar, a guerra da S\u00edria (ou melhor, da S\u00edria-Iraque). A derrota da Primavera \u00c1rabe d\u00e1 lugar a guerras civis combinadas com confrontos geopol\u00edticos e interven\u00e7\u00f5es de outros Estados,na S\u00edria, Iraque, L\u00edbia, I\u00eamen, etc.<\/p>\n<p>Por uma combina\u00e7\u00e3o de fatores, que v\u00e3o desde as opera\u00e7\u00f5es das diferentes for\u00e7as reacion\u00e1rias (tanto locais como das pot\u00eancias imperialistas) at\u00e9 limita\u00e7\u00f5es sociais e pol\u00edticas dos movimentos iniciais, a Primavera \u00c1rabe levou a derrotas ou retrocessos de gravidade vari\u00e1vel. O pior foi o da S\u00edria, tamb\u00e9m estreitamente relacionado aos processos pol\u00edtico-sociais do Iraque e do L\u00edbano.<\/p>\n<p>Na parte oriental do \u201cCrescente\u201d ou \u201cCrescente F\u00e9rtil\u201d, as mobiliza\u00e7\u00f5es de massa que tomaram for\u00e7as especialmente na S\u00edria durante 2011, foram substitu\u00eddas por aquilo que poder\u00edamos chamar de \u201cpluri-guerras\u201d ou \u201cmulti-guerras\u201d, onde n\u00e3o h\u00e1 simplesmente dois grupos combatendo, duas partes em conflito, mas uma complexa teia de atores diretos ou indiretos, locais ou externos (que trabalham, esses \u00faltimos como \u201csponsors\u201d ou patrocinadores). Falamos de \u201cpluri-guerras\u201d ou guerras \u201cmultifacetadas\u201d porque na S\u00edria-Iraque, especialmente, h\u00e1 uma combina\u00e7\u00e3o flutuante de diversos conflitos armados que \u00e9 necess\u00e1rio diferenciar, ainda que \u00e0s vezes n\u00e3o seja f\u00e1cil. A principal destas \u201cpluri-guerras\u201d se desenvolveu centralmente na S\u00edria-Iraque, com confrontos que se estendem ou refletem no Curdist\u00e3o turco e no L\u00edbano.<\/p>\n<p>Uma guerra parecida (embora com outras complexidades) come\u00e7ou tamb\u00e9m na L\u00edbia ap\u00f3s a queda de Gaddafi em outubro de 2011. Depois, no I\u00eamen, a derrubada do presidente al-Hadi, em setembro 2014, provocou um conflito no qual n\u00e3o s\u00f3 intervieram a Ar\u00e1bia Saudita e outros pa\u00edses \u00e1rabes (com apoio dos EUA), como tamb\u00e9m agiram por conta pr\u00f3pria e controlaram territ\u00f3rios a Al Qaeda e o Estado isl\u00e2mico.<\/p>\n<p>No Egito, outro grande epicentro das rebeli\u00f5es no Oriente M\u00e9dio, o golpe de Estado militar e a ditadura de al-Sisi impuseram uma pesada derrota que provavelmente n\u00e3o vai durar para sempre, mas que, at\u00e9 agora, n\u00e3o foi superada. Hoje, o regime militar parece estar em um processo de deteriora\u00e7\u00e3o \u2013 tanto por raz\u00f5es econ\u00f4micas como pela perda de consenso pol\u00edtico-social &#8211; o que d\u00e1 lugar, de tempos em tempos, a fortes explos\u00f5es de protesto. Mas \u00e9 dif\u00edcil medir este decl\u00ednio, embora seja evidente que o apoio inicial a al-SiSi de setores de massas (incluindo a classe oper\u00e1ria) foi esvaziado. A ditadura tenta compensar isso com mais repress\u00e3o.<\/p>\n<p>Na S\u00edria (epicentro, juntamente com o Iraque, dos confrontos armados e tamb\u00e9m \u00a0da situa\u00e7\u00e3o geopol\u00edtica do Oriente M\u00e9dio), a militariza\u00e7\u00e3o dos conflitos tirou de cena um movimento de massas populares que n\u00e3o tinha nenhuma maneira de continuar sua revolta, nesse novo terreno, de forma unida e politicamente independente. Isto se agravou qualitativamente porque, diferentemente do Egito, a classe oper\u00e1ria e trabalhadora e suas organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o desempenharam nenhum papel no in\u00edcio da rebeli\u00e3o s\u00edria. Tudo foi exclusiva e excessivamente \u201cpopular\u201d, com o agravante de que a S\u00edria eo Iraque t\u00eam um mosaico \u00e9tnico e sect\u00e1rio, que inexiste no Egito.<a name=\"_ftnref8\"><\/a><a href=\"#_ftn8\">[8]<\/a><\/p>\n<p>Na \u00e9poca, muitas correntes de esquerda no Ocidente supervalorizaram a tend\u00eancia \u00e0 militariza\u00e7\u00e3o, como se fosse um salto para um n\u00edvel superior de luta da rebeli\u00e3o inicial. Mas a li\u00e7\u00e3o \u00e9 que, sem fortes organiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas revolucion\u00e1rias ,o passo para a luta armada em uma rebeli\u00e3o de massas, mas tamb\u00e9m ca\u00f3tica e sem a menor prepara\u00e7\u00e3o pol\u00edtico-militar, n\u00e3o \u00e9 em si automaticamente progressiva. Pode deixar a porta aberta a situa\u00e7\u00f5es e fatores muito adversos.<\/p>\n<p>As massas mobilizadas inicialmente por palavras de ordem democr\u00e1ticas elementares foram substitu\u00eddas por uma guerra ca\u00f3tica de dezenas de aparatos militares, que, em sua grande maioria, n\u00e3o s\u00e3o independentes, mas patrocinados por diferentes Estados regionais (Ar\u00e1bia Saudita, em primeiro lugar, seguida por outros governos do Golfo, Turquia, etc.) e\/ou pot\u00eancias imperialistas, com os EUA, que lidera.<\/p>\n<p>As primeiras e dispersas for\u00e7as de autodefesa dos protestos democr\u00e1ticos, compostas inicialmente por desertores do ex\u00e9rcito de al-Assad, foram total ou parcialmente dispersas por aparatos militares, em sua maioria isl\u00e2micos, com combatentes, em maior ou menor medida, importados e\/ou subsidiados pela Ar\u00e1bia Saudita ou outros Estados do Golfo, que, em muitos casos, t\u00eam pouco a ver com as popula\u00e7\u00f5es onde atuam. Uma not\u00e1vel exce\u00e7\u00e3o nesse panorama foram as mil\u00edcias curdas, operacionalmente importantes, mas que n\u00e3o alteraram o cen\u00e1rio global.<a name=\"_ftnref9\"><\/a><a href=\"#_ftn9\">[9]<\/a><\/p>\n<p>Este cen\u00e1rio tornou-se ainda mais complexo com o surgimento do Estado Isl\u00e2mico, surgido no Iraque, mas expandido na S\u00edria, e alimentado tamb\u00e9m de jihadistas da mais variada origem, com uma parte not\u00e1vel da Europa Ocidental e da R\u00fassia. Trata-se de uma guerra que terminou abertamente abrangendo dois pa\u00edses (S\u00edria e Iraque) e tem envolvido cada vez mais outros estados.<\/p>\n<p>\u00c9 que tamb\u00e9m, do lado do governo de Damasco, outras for\u00e7as e pot\u00eancias regionais e mundiais foram vindo \u00e0 tona. O Ir\u00e3 \u2013 pot\u00eancia regional que enfrenta a Ar\u00e1bia Saudita &#8211; atrav\u00e9s de seu protegido no L\u00edbano, o movimento Hezbollah, foi o primeiro a intervir principalmente contra os grupos jihadistas. As derrotas infligidas ao Estado Isl\u00e2mico, que parecia irreprim\u00edvel, pelos combatentes curdos a partir da batalha de Kobane (janeiro de 2015) e as opera\u00e7\u00f5es posteriores, j\u00e1 tinham mudado o cen\u00e1rio da guerra.<\/p>\n<p>Mas a grande mudan\u00e7a militar foi determinada pela interven\u00e7\u00e3o direta da R\u00fassia a partir de setembro de 2015. Suas opera\u00e7\u00f5es principalmente a\u00e9reas determinaram uma revers\u00e3o da guerra que favoreceu o governo de Damasco, sem que isso haja significado que o resultado da batalha esteja j\u00e1 decidido.<\/p>\n<p>Neste giro (que ainda n\u00e3o \u00e9 definitivo) em favor do regime de al-Assad, pesaram n\u00e3o s\u00f3 as a\u00e7\u00f5es militares da R\u00fassia. Tamb\u00e9m interferiram, contraditoriamente, a magnitude e as consequ\u00eancias da barb\u00e1rie islamita, que, para muitos, faz a ditadura \u201claica\u201d de al-Assad parecer como o mal menor. E n\u00e3o se trata s\u00f3 da amea\u00e7a do Estado Isl\u00e2mico e da Frente al-Nusra (Al-Qaeda). Boa parte da chamada oposi\u00e7\u00e3o \u201cmoderada\u201d terminou agrupando-se oficialmente na sombra da Ar\u00e1bia Saudita, o que implica numa defini\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e program\u00e1tica de que regime alternativo sustentam frente \u00e0 ditadura de al-Assad.<a name=\"_ftnref10\"><\/a><a href=\"#_ftn10\">[10]<\/a><\/p>\n<p>Este giro militar desfavor\u00e1vel aos EUA e seus amigos, e especialmente a amea\u00e7a do Estado Isl\u00e2mico, foram fatores decisivos para o in\u00edcio das negocia\u00e7\u00f5es e da forma\u00e7\u00e3o do Internacional Syria Support Group (ISSG) <a name=\"_ftnref11\"><\/a><a href=\"#_ftn11\">[11]<\/a>, com os EUA ea R\u00fassia como co-presidentes. Isto propiciou algumas semi-tr\u00e9guas na S\u00edria, com negocia\u00e7\u00f5es paralelas. No entanto, esta altern\u00e2ncia de negocia\u00e7\u00f5es e lutas n\u00e3o chegou,at\u00e9 agora, a uma defini\u00e7\u00e3o. Neste momento, in\u00edcio de novembro, a sangrenta batalha de Aleppo se apresenta como o terreno onde as coisas ser\u00e3o decididas.<\/p>\n<p>Nas dificuldades em alcan\u00e7ar uma sa\u00edda negociada, refletem-se os diferentes interesses n\u00e3o s\u00f3 dos protagonistas s\u00edrios desta guerra, mas tamb\u00e9m, fundamentalmente, dos distintos estados mundiais e regionais, que nela interv\u00eam direta ou indiretamente. Vejamos com mais detalhes esta complica\u00e7\u00e3o geopol\u00edtica.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, como mencionamos, operam belicamente, por um lado, os Estados Unidos e dois de seus parceiros europeus menores, o Reino Unido e Fran\u00e7a; e por outro, a R\u00fassia. Estas interven\u00e7\u00f5es envolvem opera\u00e7\u00f5es diretas, como os bombardeios a\u00e9reos na S\u00edria e no Iraque, ainda que atuem sem tropas em terra ou com um n\u00famero limitado de \u201cespecialistas\u201d, como a R\u00fassia e os EUA.<\/p>\n<p>Mas, por sua vez, as interven\u00e7\u00f5es est\u00e3o interligados (ou, melhor, colidem) com as pol\u00edticas (contradit\u00f3rias) e os operativos das diferentes pot\u00eancias regionais, como a Turquia, a Ar\u00e1bia Saudita (e outros Estados do Golfo) e Ir\u00e3. Cada uma delas tem interesses e pol\u00edticas n\u00e3o apenas diferentes como tamb\u00e9m em maior ou menor medida contradit\u00f3rias nessa zona, e tamb\u00e9m desenvolvem diferentes rela\u00e7\u00f5es com as pot\u00eancias mundiais.<a name=\"_ftnref12\"><\/a><a href=\"#_ftn12\">[12]<\/a><\/p>\n<p>Mais uma vez, a guerra \u00e9 a continua\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica por outros meios. E os objetivos geopol\u00edticos de cada uma dessas pot\u00eancias mundiais e regionais est\u00e3o longe de coincidirem plenamente. Cada uma tem seu pr\u00f3prio programa! Portanto, cada qual faz sua pr\u00f3pria guerra. Vejamos caso a caso.<\/p>\n<p>Simplificando excessivamente, podemos dizer que os Estados Unidos queriam derrotar o Estado Isl\u00e2mico mas tamb\u00e9m \u2013 em primeiro lugar? \u2013 tirar al-Assad para impor um governo pr\u00f3-ocidental em Damasco que, tamb\u00e9m expulsasse os russos de suas bases navais e a\u00e9reas. Os EUA (e seus parceiros da OTAN) exigem a sa\u00edda de al-Assad por ser um ditador cruel \u2026 enquanto sustentam a n\u00e3o menos cruel ditadura de al-Sisi no Egito, a barb\u00e1rie da monarquia saudita e o genoc\u00eddio de Israel contra os palestinos.<\/p>\n<p>A R\u00fassia, ao contr\u00e1rio, quer manter suas bases navais e a\u00e9reas, e, em geral, seu peso geopol\u00edtico na regi\u00e3o, at\u00e9 agora ligado \u00e0 continuidade do regime s\u00edrio. Isso inclui manter al-Assad (ou pelo menos o Ba\u2019ath) no governo, e esmagar os islamitas, que s\u00e3o tamb\u00e9m um problema, tanto dentro da R\u00fassia como nas regi\u00f5es do sul do C\u00e1ucaso e na \u00c1sia Central.<\/p>\n<p>O cen\u00e1rio geopol\u00edtico regional \u00e9 ainda mais complexo, pela maior ou menor perda de controle do imperialismo norte-americano sobre duas pot\u00eancias regionais, Ar\u00e1bia Saudita e Turquia, que hoje fazem em boa medida seu pr\u00f3prio jogo, ainda que sem romper abertamente com Washington. Simultaneamente, Israel tamb\u00e9m diverge das orienta\u00e7\u00f5es de Washington sob Obama, principalmente dos acordos com o Ir\u00e3.<\/p>\n<p>A Ar\u00e1bia Saudita patrocina, na S\u00edria e em outros pa\u00edses, uma variedade de grupos de islamitas \u201dbons\u201d \u2013 que s\u00e3o apresentados como menos selvagens do que o EI ou a Frente al-Nusra (al-Qaeda da S\u00edria) \u2013 para substituir al-Assad. Isso poderia garantir-lhe o dom\u00ednio da S\u00edria e a extens\u00e3o da barb\u00e1rie wahabita, variante do Isl\u00e3 sunita consubstancial ao poder da monarquia saudita. Al\u00e9m disso, \u00e0 Ar\u00e1bia Saudita seria conveniente o colapso do governo de Bagd\u00e1 no Iraque, por causa de sua estreita rela\u00e7\u00e3o e depend\u00eancia do Ir\u00e3, seu grande rival como pot\u00eancia regional em uma competi\u00e7\u00e3o convenientemente revestida de fanatismos religiosos: Riad, capital do Isl\u00e3 sunita, <em>versus<\/em> Teer\u00e3, capital pol\u00edtica da \u201cheresia\u201d xiita. Esse tem sido um dos pretextos do genoc\u00eddio no I\u00eamen nas m\u00e3os da coaliz\u00e3o liderada pela monarquia saudita. Para complicar este imbr\u00f3glio, \u00e9 preciso acrescentar que os interesses e pol\u00edticas dos outros estados do Golfo tamb\u00e9m n\u00e3o correspondem exatamente aos da fam\u00edlia Saud.<\/p>\n<p>Na Turquia, o governo de Erdogan deseja, em primeiro lugar, um genoc\u00eddio dos curdos nos dois lados da fronteira com a S\u00edria. Com esse objetivo, rompeu as negocia\u00e7\u00f5es de paz com o PKK, que \u00e9 a principal for\u00e7a pol\u00edtica na parte do Curdist\u00e3o sob dom\u00ednio turco. Desde ent\u00e3o, especialmente depois do fracassado golpe, em julho passado, Erdogan embarcou em uma aventura cada vez mais autorit\u00e1ria, implantando uma repress\u00e3o brutal contra amplos setores pol\u00edticos e da intelectualidade que n\u00e3o tinham nada a ver com aquele golpe.<\/p>\n<p>Isso tamb\u00e9m faz parte de uma concep\u00e7\u00e3o geopol\u00edtica mais global chamada \u201cneo-otomanista\u201d, que pesa em seu movimento. Ou seja, o sonho de hegemonia regional de Ancara sobre os territ\u00f3rios que faziam parte do Imp\u00e9rio Otomano, como S\u00edria e Iraque. Em nome desses interesses e projetos, Erdogan, descaradamente, n\u00e3o se preocupou com o Estado Isl\u00e2mico, pelo menos at\u00e9 recentemente. Facilitou suas exporta\u00e7\u00f5es de petr\u00f3leo atrav\u00e9s da fronteira com a S\u00edria e permitiu que por ela o EI recebesse armas e combatentes. Simultaneamente, operou contra os curdos, uma das poucas for\u00e7as que provou ser capaz de derrotar o EI.<\/p>\n<p>Ao mesmo tempo, Erdogan veio jogando com outra alternativa geopol\u00edtica -contraria ao \u201cotomanismo\u201d- a integra\u00e7\u00e3o da Turquia na Uni\u00e3o Europeia, perspectiva que estava em suspenso. A crise europeia dos refugiadosa descongelou relativamente. Por 3.000 milh\u00f5es de euros, para garantir uma maior abertura das fronteiras da UE para cidad\u00e3os turcos, e pela promessa de reabrir as negocia\u00e7\u00f5es de ingressona UE, Erdogan prometeu conter os refugiados.<\/p>\n<p>Tampouco tem sido um problema para os democratas de Berlim e Bruxelas que Erdogan, al\u00e9m dos renovados massacres de curdos, tenha dado um giro ditatorial, com persegui\u00e7\u00f5es crescentes e brutais \u00e0 imprensa, aos intelectuais e aos partidos de esquerda ou direita que se atrevam a critic\u00e1-lo. Seu \u00faltimo passo para o estabelecimento de uma ditadura presidencialista foi o de tentar retirar as imunidades dos parlamentares de esquerda para poder prend\u00ea-los \u201clegalmente\u201d.<\/p>\n<p>Este \u201cvai e vem\u201d de Erdogan sofreu mudan\u00e7as bruscas ap\u00f3s a fracassada tentativa de golpe militar em julho. Al\u00e9m de redobrar seu curso ditatorial e repressivo, deu um giro para tecer acordos com a R\u00fassia, com a qual vinha tendo choques graves, como a derrubada de um avi\u00e3o que operava na fronteira com a S\u00edria. Tudo isso p\u00f4s em quest\u00e3o tanto os acordos com a UE como suas rela\u00e7\u00f5es com Washington. No entanto, enquanto abra\u00e7a Putin, Erdogan restabelece rela\u00e7\u00f5es com Israel, rompida em 2010, ap\u00f3s o sangrento ataque sionista aos barcos turcos que levavam ajuda humanit\u00e1ria \u00e0 Gaza. E fez isso sem que Israel satisfa\u00e7a a reivindica\u00e7\u00e3o de suspender o bloqueio de Gaza.<\/p>\n<p>O Ir\u00e3, por sua vez, apresenta, como uma pot\u00eancia regional, interesses contradit\u00f3rios, em especial com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Ar\u00e1bia Saudita. Apoiando-se em sua condi\u00e7\u00e3o de metr\u00f3pole da outra grande corrente do Isl\u00e3, o xiismo, o Ir\u00e3 ampliou sua influ\u00eancia pol\u00edtico-militar no Iraque, S\u00edria e L\u00edbano. No Iraque, ap\u00f3s a invas\u00e3o de Bush em 2003 e o in\u00edcio da resist\u00eancia, os EUA tiveram, como eixo de sua pol\u00edtica, que estimular os enfrentamentos sect\u00e1rios de xiitasc<em>versus <\/em>sunitas, que \u201cde quebra\u201d favoreceram o Ir\u00e3. Esta situa\u00e7\u00e3ocse agravou, ainda mais, depois da \u201cretirada\u201d das tropas dos EUA em 2011, deixando um governo sect\u00e1rio-xiita que aprofundou o apartheid com assassinatos, viola\u00e7\u00f5es e pilhagens da popula\u00e7\u00e3o sunita. Neste forno, se cozinhou finalmente o Estado Isl\u00e2mico.<\/p>\n<p>O desmonte inicial do corrupto \u201cex\u00e9rcito\u201d iraquianocdiante do EI obrigou a uma recomposi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e militar, procurando uma maior inclus\u00e3o, embora nela se conserve a hegemonia dos partidos e setores religiosos relacionados ao Ir\u00e3.<\/p>\n<p>Assim mesmo, no L\u00edbano, a derrota, em 2006, da invas\u00e3o de Israel pelo partido-ex\u00e9rcito xiita Hezbollah foi mais um triunfo de grande import\u00e2ncia geopol\u00edtica que favoreceu o Ir\u00e3. Agora, na S\u00edria, o Hezbollah tem desempenhado um papel importante na luta em favor do regime de al-Assad, sustentado por Teer\u00e3.<\/p>\n<p>Finalmente, o Ir\u00e3, ao assinar o acordo nuclear com as pot\u00eancias do P5+1 (EUA, Reino Unido, Fran\u00e7a, R\u00fassia e China + Alemanha), acabou com as san\u00e7\u00f5es que castigavam sua economia e o fortaleceu como pot\u00eancia regional.<\/p>\n<p>Em resumo: Como se podem unir estes distintos atores geopol\u00edticos, com interesses, em mais ou menor medida, opostos (ou, pelo menos, diferentes) para enfrentar seriamente o Estado Isl\u00e2mico? O aspecto ca\u00f3tico do cen\u00e1rio da S\u00edria, do Iraque e seus vizinhos tem a ver, em parte, com estas m\u00faltiplas disc\u00f3rdias.<\/p>\n<p>O Oriente M\u00e9dio combina tamb\u00e9m outros problemas geopol\u00edticos de grande import\u00e2ncia, ainda que hoje apare\u00e7am em segundo plano diante da S\u00edria-Iraque. Em primeiro lugar, o do enclave colonial que \u00e9 Israel, que \u00e9 outra bomba-rel\u00f3gio geopol\u00edtica.<\/p>\n<p>Hoje, as correntes pol\u00edticas majorit\u00e1rias em Israel abandonaram h\u00e1 muito tempo a farsa das \u201cnegocia\u00e7\u00f5es pelos dois Estados\u201d. A pol\u00edtica de \u201climpeza \u00e9tnica\u201d se aplica mais do que nunca em Jerusal\u00e9m e na Cisjord\u00e2nia, onde se redobraram os despejos for\u00e7ados de fam\u00edlias palestinas para transferir suas casas e campos aos colonos sionistas. E em Gaza, o bloqueio, vigiado tamb\u00e9m pela ditadura do Egito, est\u00e1 levando a popula\u00e7\u00e3o a uma situa\u00e7\u00e3o desesperadora sob todos os pontos de vista: alimenta\u00e7\u00e3o, habita\u00e7\u00e3o, saneamento, provis\u00e3o de \u00e1gua, etc.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, Israel \u00e9 uma pot\u00eancia nuclear conduzida politicamente por setores racistas t\u00e3o demenciais como provincianos(o que \u00e9 comum nas experi\u00eancias coloniais, desde a \u00c1frica do Sul \u201cbranca\u201d at\u00e9 a Arg\u00e9lia \u201cfrancesa\u201d). Israel se habituou \u2013 j\u00e1 como norma \u2013 a promover periodicamente um banho de sangue que alinha sobretudo a \u201cfrente interna\u201d. Esta situa\u00e7\u00e3o \u2013 potencialmente perigosa \u2013 se agrava pelos relativos e crescentes deslocamentos no cen\u00e1rio geopol\u00edtico mundial. Washington j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 o \u00e1rbitro final, o \u201csuper-imperialismo\u201d, que punha ordem no mundo e tamb\u00e9m em seu pr\u00f3prio campo.<\/p>\n<p><strong>3.2. Tambores de guerra na \u00c1sia-Pac\u00edfico: China <em>versus <\/em>EUA-Jap\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Outra \u00e1rea do planeta onde os confrontos geopol\u00edticos est\u00e3o na \u201cordem do dia\u201d- embora sem derramamento de sangue \u2013 \u00e9 o da \u00c1sia-Pac\u00edfico. Ali, sem muito barulho, como no Oriente M\u00e9dio, ocorre o <em>confronto geopol\u00edtico mais importante e profundo <\/em>do s\u00e9culo XXI. Este confronto \u2013 ainda que tenha como epicentro a \u00c1sia-Pac\u00edfico \u2013 \u00e9 muito menos \u201cregional\u201d do que os do Oriente M\u00e9dio, e tem consequ\u00eancias mais diretamente globais. Mas, ao mesmo tempo, faz menos \u201cru\u00eddo\u201d do que o do Oriente M\u00e9dio, porque este confronto \u00e9 ainda potencial em n\u00edvel militar. At\u00e9 agora n\u00e3o foi disparado um s\u00f3 tiro, muito menos um m\u00edssil.\u00a0Os principais antagonistas s\u00e3o China e Estados Unidos (seguido, de perto, pelo Jap\u00e3o). Cada um tem seu s\u00e9quito de acompanhantes com distintos graus de fidelidade e compromissos (inclusive h\u00e1 v\u00e1rios que tentam colocar um p\u00e9 em cada lado!). Isso se exacerbou depois do \u201cgiro ao Pacifico\u201d, a reorienta\u00e7\u00e3o geopol\u00edtica anunciada por Obama no final de 2011. A reorienta\u00e7\u00e3o pretendia substituir a malfadada aventura dos Bush e dos \u201cneocons\u201d, a tentativade colonizar diretamente o \u201cGrande Oriente M\u00e9dio\u201d, que foi iniciada com as invas\u00f5es do Afeganist\u00e3o e do Iraque.<a name=\"_ftnref13\"><\/a><a href=\"#_ftn13\">[13]<\/a>\u00a0 Para os EUA, o n\u00facleo geopol\u00edtico do \u201cgiro ao Pac\u00edfico\u201d \u00e9 o enfrentamento com a China, o que pode levar a conflitos de alcances mais amplos e de consequ\u00eancias muito mais graves do que as atuais do Oriente M\u00e9dio. Isto inclui um conjunto de medidas, em primeiro lugar militares: mais de 60% da frota dos EUA mudaram-se para o Pac\u00edfico, e est\u00e3o sendo constru\u00eddas mais bases norte-americanas nas Filipinas, Austr\u00e1lia e outros pa\u00edses. Mas h\u00e1 tamb\u00e9m medidas pol\u00edticas e econ\u00f4micas, tais como o projeto de acordo do livre com\u00e9rcio TPP (Trans-Pacific Partnership).\u00a0Em n\u00edvel militar, isso implica um destacamento b\u00e9lico em ambos os lados, de dimens\u00f5es sem precedentes desde a Segunda Guerra Mundial, j\u00e1 que inclui, como dissemos, o rearmamento do imperialismo japon\u00eas como aliado n\u00famero um dos Estados Unidos. Sob seu atual governo de direita, o Jap\u00e3o abandonou a linha do \u201cpacifismo\u201d e de for\u00e7as armadas \u201cdefensivas\u201d, que foi sua pol\u00edtica de Estado desde a p\u00f3s-guerra.\u00a0Ao mesmo tempo, a China est\u00e1 fazendo um giro n\u00e3o menos radical, composto por um leque de operativos pol\u00edticos, econ\u00f4micos e militares. Al\u00e9m de iniciar um vasto programa de reestrutura\u00e7\u00e3o militar, que a transformar\u00e1 de pot\u00eancia terrestre-defensiva em pot\u00eancia mar\u00edtima-ofensiva (como s\u00e3o os EUA ou o que foi o Imp\u00e9rio Brit\u00e2nico), a China iniciou v\u00e1rios projetos gigantescos financeiros eecon\u00f4micos globais.\u00a0Para estender seus bra\u00e7os sobretodo o mundo &#8211; e, em primeiro lugar, sobrea a regi\u00e3o \u00c1sia-Pac\u00edfico-\u00cdndico em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 Europa -, a China come\u00e7ou por fundar novas institui\u00e7\u00f5es financeiras globais como a Asian Infrastructure Investment Bank (em paralelo ao Banco Mundial), o New Development Bank (onde est\u00e1 associada \u00e0 R\u00fassia, \u00cdndia, Brasil e outros pa\u00edses) e o New Silk Road (Fundo para a Nova Rota da Seda). Este \u00faltimo diz respeito a um projeto estrat\u00e9gico chave de expans\u00e3o de sua influ\u00eancia, tanto econ\u00f4mica e financeira, quanto pol\u00edtica e militar.\u00a0A antiga \u201crota da seda\u201d era terrestre<a name=\"_ftnref14\"><\/a><a href=\"#_ftn14\">[14]<\/a>. A nova combina diferentes \u201ctra\u00e7ados\u201d, por terra e por mar, o que a amplia significativamente de Norte a Sul, abarcando desde a R\u00fassia at\u00e9 a \u00c1frica, o Oceano \u00cdndico e o Pac\u00edfico. Estas rotas definem, respectivamente, dois operativos distintos de desenvolvimento: o do Silk Road Belt Economic Belt e o do Maritime Silk Road. O primeiro tem a ver com as rotas por terra; o segundo, com as vias mar\u00edtimas, o que inclui tamb\u00e9m bases, ilhas artificiais e portos sob seu controle. Assim, na Gr\u00e9cia, a COSCO, colossal empresa estatal chinesa de transporte de containers, apoderou-se do estrat\u00e9gico porto do Pireu, a partir do qual se pode chegar rapidamente a toda a Europa.\u00a0A \u201cnova rota da seda\u201d visa n\u00e3o s\u00f3 ao com\u00e9rcio com a Europa (tembifurca\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m para a \u00c1frica e Am\u00e9rica Latina), mas tamb\u00e9m conseguir, ao longo destas rotas terrestres e mar\u00edtimas, clientes e\/ou parceiros em diferentes empresas e projetos produtivos ou de infra-estrutura, com diferentes graus de compromisso, tanto em n\u00edvel estatal como privado. Com o Ir\u00e3, por exemplo, Xi Jinping assinou, em janeiro passado, \u201cacordos de coopera\u00e7\u00e3o\u201d em 17 campos diferentes. Por\u00e9m, ao embarcar no avi\u00e3o, n\u00e3o regressou diretamente \u00e0 China, mas desceu na Ar\u00e1bia Saudita (o arqui-inimigo de Teer\u00e3), onde fez negocia\u00e7\u00f5es similares, que incluiram tamb\u00e9m outros pa\u00edses do Golfo.\u00a0Neste contexto, a China tamb\u00e9m vem desenvolvendo la\u00e7os com a R\u00fassia que parecem estar crescendo, e n\u00e3o apenas economicamente. Eles v\u00e3o desde a constru\u00e7\u00e3o da monumental ferrovia rec\u00e9m-inaugurada de quase 6.000 km (para comparar, lembremos que a dist\u00e2ncia entre Nova York e San Francisco \u00e9 de 4.200 km) e Harbin-Ecaterimburgo (de onde se conectam a redes de ambos os pa\u00edses) at\u00e9 diversos acordos (como a \u201cAlian\u00e7a Energ\u00e9tica\u201d desde 2014). Esta Alian\u00e7a \u00e9 uma alternativa frente aos mercados europeus, que criaram problemas para a R\u00fassia, as san\u00e7\u00f5es do Ocidente em fun\u00e7\u00e3o da Ucr\u00e2nia. A China assinou tamb\u00e9m acordos milion\u00e1rios de compra de armamentos, especialmente ca\u00e7a-bombardeiros e m\u00edsseis, \u00e1reas nas quais a R\u00fassia rivaliza em condi\u00e7\u00f5es de igualdade com os EUA.\u00a0No in\u00edcio de 1996, a R\u00fassia e a China formaram a Organiza\u00e7\u00e3o de Coopera\u00e7\u00e3o de Xangai (OCX). Esta entidade agrupa tamb\u00e9m \u2013 com diferentes graus de compromisso (membros plenos, observadores, convidados, etc.) \u2013 outros Estados, como as ex-rep\u00fablicas sovi\u00e9ticas da \u00c1sia Central, Ir\u00e3, etc. A OCX tem ainda uma se\u00e7\u00e3o militar, ainda que esteja a anos-luz de ser algo compar\u00e1vel \u00e0 OTAN. A R\u00fassia e a China realizaram, por exemplo, exerc\u00edcios militares conjuntos.\u00a0Recentemente, a frota russa do Pac\u00edfico e a de Pequim fizeram, pela primeira vez, exerc\u00edcios conjuntos no Mar da China Meridional, zona disputada, onde os EUA questionam a soberania chinesa e desencadeiam incidentes periodicamente.\u00a0No entanto, embora as pol\u00edticas internacionais da R\u00fassia e da China tendam a uma converg\u00eancia, n\u00e3o s\u00e3o exatamente as mesmas. Enquanto a R\u00fassia na S\u00edria bombardeia os islamitas patrocinados, em sua maioria, pela Ar\u00e1bia Saudita; Xi Jinping viaja simultaneamente a Teer\u00e3 e a Riad para fazer neg\u00f3cios, no projeto da \u201dRota da Seda\u201d. O not\u00e1vel giro militar da China aponta fundamentalmente em outro sentido: em primeiro lugar, para a \u00c1sia-Pac\u00edfico e, em especial, para o dom\u00ednio dos mares adjacentes ao seu territ\u00f3rio, pelos quais circula mais de 40% do com\u00e9rcio mundial.\u00a0Neste contexto, a China quer, acima de tudo, equilibrar ou superar o poder b\u00e9lico dos EUA na regi\u00e3o. Para isso, est\u00e1 fortalecendo rapidamente sua marinha e avia\u00e7\u00e3o, al\u00e9m de estar construindo bases nas v\u00e1rias ilhas e recifes dos mares da China, cuja soberania est\u00e1 em disputa. No Mar da China Oriental, s\u00e3o disputadas as ilhas Diaoyu (reivindicadas pelo Jap\u00e3o, que as denomina Senkaku), e no Mar da China Meridional, as ilhas Spratly e as Paracelso, reivindicadas pelas Filipinas e Vietn\u00e3. Isto n\u00e3o s\u00f3 incentivou essas disputas entre os pa\u00edses da zona, mas tamb\u00e9m estimulou provoca\u00e7\u00f5es militares sistem\u00e1ticas dos EUA.<a name=\"_ftnref15\"><\/a><a href=\"#_ftn15\">[15]<\/a>\u00a0O dom\u00ednio militar desses mares costeiros ou vizinhos \u00e9 o objetivo imediato. Mas isso significa, como dissemos antes, uma mudan\u00e7a militar radical: passando de pot\u00eancia militar terrestre a mar\u00edtima, o que revela algo muito al\u00e9m de seus limites costeiros.<\/p>\n<p>Isso reflete mudan\u00e7as mais globais nas rela\u00e7\u00f5es de for\u00e7a. Inicialmente, na \u00e9poca mao\u00edsta, a postura era defensiva, baseada nas dimens\u00f5es do territ\u00f3rio da China \u2013 um pa\u00eds-continente \u2013 e no n\u00famero de sua popula\u00e7\u00e3o, que permitiaarregimentar enormes ex\u00e9rcitos, mas que n\u00e3o podiam ir muito al\u00e9m de seu territ\u00f3rio. Isso desanimava s\u00f3 um hipot\u00e9tico invasor terrestre. Enquanto isso, os mares da China, do Mar Amarelo at\u00e9 o Mar da China Meridional, eram controlados por porta-avi\u00f5es da frota norte-americana, e o mesmo ocorria em todo o Pac\u00edfico.<\/p>\n<p>Agora, isto \u00e9 intoler\u00e1vel para a China, segunda pot\u00eancia econ\u00f4mica mundial, com planos de expans\u00e3o global, como j\u00e1 foi explicado. O giro para pot\u00eancia mar\u00edtima inclui a constru\u00e7\u00e3o de mais porta-avi\u00f5es e de uma frota de submarinos, e o desenvolvimento de v\u00e1rias ilhas artificiais e bases militares, que isolam seus mares costeiros.<\/p>\n<p>No entanto, a dist\u00e2ncia entre a China e os EUA como pot\u00eancias mar\u00edtimas \u00e9 ainda colossal. Os EUA n\u00e3o s\u00f3 levam enorme vantagem no n\u00famero de porta-avi\u00f5es, como tamb\u00e9m, de forma geeral, em tecnologia. Mas a China est\u00e1 encurtando estas dist\u00e2ncias. Anunciou, por exemplo, um novo m\u00edssil \u2013 o Dong Feng-21D-, chamado \u201cassassino de porta-avi\u00f5es\u201d. Supostamente, a partir de 1.500 quil\u00f4metros, \u00e9 capaz de atingi-los e afund\u00e1-los. Al\u00e9m disso, desenvolveu um ca\u00e7a dos chamados \u201cde quinta gera\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Contudo, a presen\u00e7a militar chinesa j\u00e1 n\u00e3o se reduz a seus pr\u00f3prios mares. Simultaneamente, come\u00e7ou a instala\u00e7\u00e3o de sua primeira base militar no exterior, em Djibouti, no Chifre da \u00c1frica, de onde controla a estrat\u00e9gica entrada para o Mar Vermelho e, portanto, as rotas mar\u00edtimas para a Europa. Instalou-a perto da antiga base dos EUA. Os uivos de protesto de Washington n\u00e3o comoveram o governo de Djibuti, que hoje \u00e9 apenas um dentre a extensa clientela de Pequim na \u00c1frica.<\/p>\n<p>Claro, isso \u00e9 ainda incompar\u00e1vel \u00e0s centenas de bases dos EUA e da OTAN em quase todo o planeta. Mas a expans\u00e3o econ\u00f4mica global desenvolvida pela China, bem como os v\u00e1rios operativos de diferente natureza incluindo os projetos das \u201crotas da seda\u201d, est\u00e3o anexando elementos militares, especialmente em regi\u00f5es consideradas \u201cinseguras\u201d, como a \u00c1frica ou o Oriente M\u00e9dio.<a name=\"_ftnref16\"><\/a><a href=\"#_ftn16\">[16]<\/a><\/p>\n<p>Consideramos que, h\u00e1 aproximadamente sete anos, a China \u00e9 o principal parceiro comercial da \u00c1frica. Em 2014, seus interc\u00e2mbios chegaram a 210.000 milh\u00f5es de d\u00f3lares. Os investimentos diretos chineses multiplicaram-se por trinta em uma d\u00e9cada, e mais de 2.500 empresas chinesas fazem neg\u00f3cios na \u00c1frica, em setores como finan\u00e7as, telecomunica\u00e7\u00f5es, energia, manufaturas, agricultura e extra\u00e7\u00e3o de mat\u00e9rias-primas.<\/p>\n<p>Embora\u00a0 tenham respondido, desde o final de 2011, com o \u201cgiro ao Pac\u00edfico\u201d, os EUA ainda precisam assegurar a efic\u00e1cia e a magnitude deste giro. Especula-se que os EUA n\u00e3o podem sair ainda do p\u00e2ntano do Oriente M\u00e9dio, para se dedicarem ent\u00e3o plenamente ao novo eixo de confronto com a China. Os acordos com o Ir\u00e3 ajudaram, mas n\u00e3o resolveram tudo para os EUA na regi\u00e3o. Al\u00e9m disso, \u00e9 evidente que os EUA n\u00e3o conseguiram uma s\u00f3lida \u201cfrente \u00fanica\u201d anti-chinesa, compar\u00e1vel \u00e0 coaliz\u00e3o do Ocidente contra a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica ap\u00f3s a Segunda Guerra Mundial.<\/p>\n<p>O imperialismo japon\u00eas \u00e9, por raz\u00f5es \u00f3bvias, o parceiro mais fervoroso na cruzada contra Pequim; engtretanto, at\u00e9 os aliados incondicionais dos Estados Unidos, como Coreia do Sul, preferem ser cautelosos e manterem, ao mesmo tempo, boas rela\u00e7\u00f5es com China.<a name=\"_ftnref17\"><\/a><a href=\"#_ftn17\">[17]<\/a> Outro caso ainda mais decepcionante para Obama foi a ades\u00e3o imediata do Reino Unido \u2013 o mais pr\u00f3ximo aliado hist\u00f3rico de Washington \u2013 ao Asian Infrastructure Investment Bank, rival chin\u00eas do Banco Mundial gerido pelos EUA. Os uivos de raiva em Washington pela deslealdade da \u201cp\u00e9rfida Albion\u201d foram ouvidos em todo o mundo. At\u00e9 mesmo a Austr\u00e1lia, importante membro da TPP, optou por ter um p\u00e9 em cada canoa e se juntou ao AIIB.<a name=\"_ftnref18\"><\/a><a href=\"#_ftn18\">[18]<\/a><\/p>\n<p>Outro exemplo da \u201cvaria\u00e7\u00e3o do p\u00eandulo\u201d vem do Afeganist\u00e3o e Paquist\u00e3o, regi\u00e3o estrat\u00e9gica para a rota da seda e para o dom\u00ednio do Oceano \u00cdndico. Ap\u00f3s a retirada da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica do Afeganist\u00e3o (1989) e de Bush invadi-lo, em 2001, a regi\u00e3o do Afeganist\u00e3o-Paquist\u00e3o tornou-se territ\u00f3rio sob a \u00fanica e incontest\u00e1vel hegemonia dos Estados Unidos, ainda que, com essa invas\u00e3o irrespons\u00e1vel de 2001, tenha come\u00e7ado tamb\u00e9m o seu relativo decl\u00ednio. Agora \u00e9 a China que est\u00e1 pisando duro l\u00e1.<\/p>\n<p>Isso se deve a alguns gigantescos empreendimentos chineses nos dois pa\u00edses, mas principalmente, no Paquist\u00e3o, todos relacionados aos projetos da \u201cRota da Seda\u201d. Por exemplo, a iniciativa de um\u201d corredor sino-paquistan\u00eas\u201d \u2013 composto por rodovias, trens e oleodutos \u2013 que, partindo do leste da China atravessar\u00e1 o Paquist\u00e3o at\u00e9 Gwadar, antigo porto no Mar de Om\u00e3 ou Mar da Ar\u00e1bia (no Oceano \u00cdndico). L\u00e1, a China est\u00e1 construindo um novo e enorme porto.<\/p>\n<p>Outros giros not\u00e1veis acabam de ser dados nas Filipinas e Mal\u00e1sia. Os dois pa\u00edses reivindicam o Mar da China Meridional, onde a China constr\u00f3i suas ilhas artificiais e h\u00e1 frequentes incidentes navais e a\u00e9reos com os EUA. Mas, surpreendentemente, no final de outubro e novembro, os dois governos fizeram sua \u201cperegrina\u00e7\u00e3o\u201d a Pequim e juraram amizade e lealdade \u00e0 China, virando as costas, ostensivamente, aos EUA.<\/p>\n<p>O aspecto mais grave disso \u2013 como fato e como sintoma \u2013 \u00e9 o das Filipinas, dom\u00ednio colonial dos EUA desde o final do s\u00e9culo XIX, quando foram instaladas v\u00e1rias das principais bases militares dos Estados Unidos no Pac\u00edfico. Em seu retorno da China, Rodrigo Duterte, presidente das Filipinas, exigiu a retirada das for\u00e7as militares dos EUA, no prazo de dois anos.<\/p>\n<p>Em suma, com todas as contradi\u00e7\u00f5es e complexidades, a geopol\u00edtica da \u00c1sia-Pac\u00edfico est\u00e1 marcada pela ascens\u00e3o da China e pelo confronto com os EUA em virtude dessa ascens\u00e3o.<\/p>\n<p>Hoje, a grande quest\u00e3o \u00e9 quais desdobramentos geopol\u00edticos decorrer\u00e3o da crise que se manifesta na economia chinesa. \u00c9 dif\u00edcil prever, tanto em n\u00edvel estritamente econ\u00f4mico-financeiro como no \u00e2mbito pol\u00edtico e geopol\u00edtico. Os dados \u201coficiais\u201d da economia chinesa s\u00e3o duvidosos. \u00c9 muito prov\u00e1vel que as coisas sejam piores do que Pequim reconhece. Mas isso n\u00e3o significa, automaticamente, que as iniciativas expansionistas das\u201dRotas da Seda\u201d e outros planos ousados se \u200b\u200bdesacelerem, incluindo os aspectos pol\u00edtico-militares que, em \u00faltima inst\u00e2ncia, s\u00e3o o componente n\u00famero um dos confrontos geopol\u00edticos. Em vez disso, podem receber mais impulso.<\/p>\n<p>\u00c9 que muitas vezes na hist\u00f3ria as classes dominantes, com seus governos e estados, respondem \u00e0 crise e aos problemas internos por interm\u00e9dio de opera\u00e7\u00f5es de expans\u00e3o econ\u00f4micas, pol\u00edticas e militares no exterior. As dimens\u00f5es da China como segunda pot\u00eancia mundial \u2013 com uma economia para qual \u00e9 imprescind\u00edvel a expans\u00e3o em dois sentidos, de ida e de volta \u2013 torna dif\u00edcil conceber uma tend\u00eancia de fechamento em si. O principal obst\u00e1culo a isso seria se a crise econ\u00f4mica produzisse explos\u00f5es e lutas sociais e pol\u00edticas em grande escala, especialmente,se protagonizadas pelo imenso proletariado chin\u00eas, o mais numeroso e jovem do mundo.<\/p>\n<p><strong>3.3. O Brexit, a Ucr\u00e2nia e as rachaduras no projeto da Uni\u00e3o Europeia.<\/strong><\/p>\n<p>A Europa apresenta uma agudiza\u00e7\u00e3o das tens\u00f5es geopol\u00edticas, in\u00e9ditas desde a queda do Muro de Berlim e a desintegra\u00e7\u00e3o da Iugosl\u00e1via, que tiveram sinais diferentes dos atuais. Na regi\u00e3o, duas posi\u00e7\u00f5es controversas se destacam hoje.<\/p>\n<p>Na primeira linha est\u00e1 o Brexit, ou seja, a sa\u00edda do Reino Unido da Uni\u00e3o Europeia, resultado do referendo de 23 de junho passado. Este fato revela uma crise que abarca o conjunto da UE como tal. A isto se somam outras rachaduras que apontam para rupturas potenciais nos estados europeus, entre os quais a Esc\u00f3cia em rela\u00e7\u00e3o ao Reino Unido, Catalunha a respeito do Estado espanhol, Flanders a respeito da B\u00e9lgica,etc.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, na Europa h\u00e1 uma outra frente de tens\u00f5es geopol\u00edticas que se expressam na crise, a secess\u00e3o e a guerra civil na Ucr\u00e2nia, que faz parte de uma opera\u00e7\u00e3o geopol\u00edtica mais ampla, estimulada principalmente por Washington: o cerco militar dos EUA-UE-OTAN contra a R\u00fassia . Isto envolve diretamente \u2013 como \u201ccarne para canh\u00e3o\u201d real ou potencial \u2013 uma quantidade de estados menores, em um arco que se estende do Mar B\u00e1ltico ao C\u00e1ucaso, e onde a Ucr\u00e2nia vem sendo a principal v\u00edtima.<\/p>\n<p><strong>O Brexit e a crise da Uni\u00e3o Europeia<\/strong><\/p>\n<p>O relativamente inesperado Brexit \u00e9 um fato de grande import\u00e2ncia. Mas, precisamente por isso, h\u00e1 que se demarcar seus limites. \u00c9 que, inicialmente, motivou caracteriza\u00e7\u00f5es \u201ccatastrofistas\u201d e desmesuradas. Marine Le Pen -por exemplo \u2013a definiu como \u201cde longe, o maior evento hist\u00f3rico que se conheceu em nosso continente desde a queda do Muro de Berlim\u201d.\u00a0Defini\u00e7\u00f5es como essa se repetiram na Europa e no mundo. A queda do Muro em 1989 e sua consequ\u00eancia quase imediatamente, a dissolu\u00e7\u00e3o da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica em 1990-91, marcaram uma mudan\u00e7a mundial de \u00e9poca. Finalizou todo um ciclo hist\u00f3rico, que o marxismo definiu como de \u201ccrises, guerras e revolu\u00e7\u00f5es\u201d, iniciado com a Primeira Guerra Mundial 1914-18 ea Revolu\u00e7\u00e3o Russa de 1917. Uma de suas gigantescas consequ\u00eancias \u00e9 que, a partir da\u00ed, se inicia a restaura\u00e7\u00e3o do capitalismo em todos os Estados supostamente \u201csocialistas\u201d do planeta<a name=\"_ftnref19\"><\/a><a href=\"#_ftn19\">[19]<\/a>, incluindo, por exemplo, a China e o Vietn\u00e3, que n\u00e3o tinham nada a ver diretamente com a queda do Muro de Berlim. Outra consequ\u00eancia, n\u00e3o menos importante, foi o desaparecimento do Estado sovi\u00e9tico, que, durante todo esse per\u00edodo, havia desempenhado um papel mundial de lideran\u00e7a, ainda que extremamente \u00a0contradit\u00f3rio.\u00a0Como dissemos, a separa\u00e7\u00e3o do Reino Unido da Uni\u00e3o Europeia \u00e9, indiscutivelmente, um fato de suma import\u00e2ncia. E, al\u00e9m disso, n\u00e3o \u00e9 apenas uma disputa entre o Estado e a Uni\u00e3o Europeia. Indica uma crise grave,\u201dexistencial\u201d da UE, com perda de legitimidade e de consenso na Europa, mas suas consequ\u00eancias \u00faltimas (e suas dimens\u00f5es) ainda est\u00e3o por se ver. \u00a0O primeiro aspecto a se considerar \u00e9 que a campanha para que o Reino Unido rompesse com a Uni\u00e3o Europeia teve a hegemonia de setores de direita e extrema-direita. O eixo de propaganda da campanha foi a advert\u00eancia sobre as \u201chordas de imigrantes selvagens \u201dafricanos, poloneses e romenos\u00a0\u00bb que invadiriam o Reino Unido por causa da UE. Essas hordas n\u00e3o s\u00f3 eliminariam os postos de trabalhos dos brit\u00e2nicos, mas tamb\u00e9m \u201ccolocariam as mulheres brit\u00e2nicas diante do perigo de viola\u00e7\u00f5es em massa\u201d (como disse Nigel Farage, l\u00edder do UKIP, \u00e0s v\u00e9speras do referendo).\u00a0Foi uma campanha demag\u00f3gica, que explorou medos e percep\u00e7\u00f5es relacionados \u00e0 deteriora\u00e7\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es de vida de amplos setores de trabalhadores, atribuindo-a aos imigrantes e n\u00e3o ao verdadeiro culpado, o grande capital. Tamb\u00e9m questiona a globaliza\u00e7\u00e3o, mas de um \u00e2ngulo nacional imperialista e protecionista, que procura exaltar a \u201cgl\u00f3ria perdida\u201d do Imp\u00e9rio Brit\u00e2nico (um \u00e2ngulo similar ao que Trump adotou nos EUA, para que o imperialismo norte-americano recuperasse sua \u201cgrandeza nacional\u201d).\u00a0Em s\u00edntese: o Brexit \u00e9 uma ruptura com a Uni\u00e3o Europeia\u2026 mas pela direita, n\u00e3o pela esquerda. \u00c9 verdade que no voto para sair da UE (como tamb\u00e9m no voto por permanecer) entraram outras raz\u00f5es, diversas daquelas que as campanhas oficiais do \u201cLeave\u201d e do \u201cRemain\u201d apregoaram. S\u00e3o motiva\u00e7\u00f5es contradit\u00f3rias e opostas a essas campanhas oficiais. Por exemplo, o rep\u00fadio \u00e0 austeridade e \u00e0s privatiza\u00e7\u00f5es, que s\u00e3o a \u201cmarca de f\u00e1brica\u201d da Uni\u00e3o Europeia. Tamb\u00e9m a rejei\u00e7\u00e3o ao governo conservador de David Cameron, que era o chefe da campanha para permanecer na UE e que tem um recorde de ataques aos trabalhadores. Mas esses motivos ficaram difusos.<\/p>\n<p>Para compreender melhor estas contradi\u00e7\u00f5es, \u00e9 necess\u00e1rio comparar o referendo do Brexit com o realizado na Gr\u00e9cia, em julho de 2015, cujo resultado foi o categ\u00f3rico \u201cN\u00e3o\u201d ao plano de austeridade que a Uni\u00e3o Europeia e a Troika pretendiam impor. Um plano que, entre outros, estabeleceu abertamente um protetorado colonial Berlin-Bruxelas sobre o pa\u00eds. Se, a partir dali, fosse a um \u201cGrexit\u201d, teria sido uma ruptura com a Uni\u00e3o Europeia, mas pela esquerda. Ou seja, oposta \u00e0 do Reino Unido. Teria tido tamb\u00e9m um impacto sobre o conjunto da UE, mas em sentido contr\u00e1rio ao Brexit, um impacto para a esquerda.<\/p>\n<p>A trai\u00e7\u00e3o de Tsipras e do Syriza, ao capitular \u00e0 Troika, n\u00e3o s\u00f3 impediu isso, mas tamb\u00e9m gerou internacionalmente desmoraliza\u00e7\u00e3o e desorienta\u00e7\u00e3o da oposi\u00e7\u00e3o, tanto frente aos planos de austeridade como frente \u00e0 mis\u00e9ria que vinha crescendo na Europa.<\/p>\n<p>\u00c9 um fato que a vit\u00f3ria do Brexit provocou uma como\u00e7\u00e3o europeia e mundial. Fortalece as tend\u00eancias para a desagrega\u00e7\u00e3o da ordem mundial erguida nas \u00faltimas d\u00e9cadas. E isso n\u00e3o \u00e9 apenas um problema brit\u00e2nico: o Brexit \u00e9 uma bomba continental. \u00c9 a Uni\u00e3o Europeia como um todo que \u00e9 questionada. O Brexit s\u00f3 reflete a crise e a deslegitima\u00e7\u00e3o global em dois aspectos fundamentais.<\/p>\n<p>O primeiro aspecto \u00e9 que a UE \u00e9 uma institui\u00e7\u00e3o dedicada a aplicar essencialmente pol\u00edticas neoliberais de privatiza\u00e7\u00e3o e de austeridade contra os trabalhadores, as massas populares e a juventude. Trabalha exclusivamente para o benef\u00edcio do capital financeiro e das grandes corpora\u00e7\u00f5es, sendo, em primeiro lugar, os bancos alem\u00e3es e franceses. O segundo \u00e9 o car\u00e1ter profundamente anti-democr\u00e1tico da UE. O \u201cParlamento\u201d europeu \u00e9 apenas uma farsa sem qualquer poder. Esse \u201cCharlamento\u201d existe para dissimular que altos funcion\u00e1rios escolhidos a dedo por esses poderes discretamente resolvem tudo.<\/p>\n<p>J\u00e1 \u00e9 vis\u00edvel, cada vez mais, a irritante hierarquia de Estados: a Alemanha ordena e comanda, assistida pela Fran\u00e7a, que s\u00e3o os dois principais imperialismos continentais. Abaixo, est\u00e3o as na\u00e7\u00f5es como a Gr\u00e9cia, cuja rela\u00e7\u00e3o com a UE \u00e9 a de protetorado colonial. E a dist\u00e2ncia entre os dois extremos cresce. Os de baixo, al\u00e9m de estarem na mis\u00e9ria, perderam suas soberanias nacionais, mas n\u00e3o para serem parte de uma suposta \u201csoberania europeia\u201d, mas para obedecer o que ditam os pol\u00edticos e os banqueiros alem\u00e3es e franceses a partir de Berlim e Bruxelas.<\/p>\n<p>Estamos agora diante da deslegitima\u00e7\u00e3o e da crise mais grave dessas cria\u00e7\u00f5es dos imperialismos europeus, que tem in\u00edcio com a funda\u00e7\u00e3o da Comunidade Europeia do Carv\u00e3o e do A\u00e7o (CECA) em 1950-1951, do Mercado Comum Europeu (CEE) em 1957, e, finalmente, de sua sucessora, a atual UE. De acordo com pesquisas, num eventual referendo, ganharia o voto de ruptura total ou parcial.<\/p>\n<p>Diante desta crise, \u00e9 imperativo que a esquerda socialista e revolucion\u00e1ria europeia defenda um programa independente. H\u00e1 de se descartar as utopias de \u201creformar\u201d a UE, mas tamb\u00e9m evitar as alternativas de direita, de retornar \u00e0 total fragmenta\u00e7\u00e3o dos estados nacionais. A crise da UE volta a colocar a atualidade do programa de \u201cEstados Unidos Socialistas da Europa\u201d ou da federa\u00e7\u00e3o socialista.<\/p>\n<p><strong>A guerra da Ucr\u00e2nia: EUA, UE e OTAN contra R\u00fassia<\/strong><\/p>\n<p>Outra quest\u00e3o crucial \u00e9 a da frente europeia no confronto EUA-OTAN com a R\u00fassia. Aqui, a UE e seus Estados \u2013 inclusive \u201cos que mandam\u201d em toda a Europa, como a Alemanha &#8211; desempenham um papel extremamente subordinado a Washington.<\/p>\n<p>O crescente confronto com a R\u00fassia tem sido descrito por alguns como a \u201cnova Guerra Fria\u201d. Esta defini\u00e7\u00e3o aponta para caracter\u00edsticas semelhantes \u2013 por exemplo, Washington vs. Moscou -, mas tem o perigo de negligenciar as diferen\u00e7as estratosf\u00e9ricas com a verdadeira Guerra Fria, do P\u00f3s-Guerra.<a name=\"_ftnref20\"><\/a><a href=\"#_ftn20\">[20]<\/a><\/p>\n<p>Este confronto reflete, acima de tudo, que os EUA (juntamente com imperialismos europeus de diversas matizes, unidos na OTAN) tinham e t\u00eam como norte impedir que a R\u00fassia volte a levantar a cabe\u00e7a, recuperando, em maior ou menor medida, o peso geopol\u00edtico da antiga Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica.<\/p>\n<p>Claro, a atual R\u00fassia de Putin est\u00e1 longe disso. Mas, se comparada, n\u00e3o com a ex-URSS em momentos altos, mas com a ru\u00edna quase semicolonial dos tempos do alcoolizado Boris Yeltsin, h\u00e1 de se concluir que conseguiu uma recupera\u00e7\u00e3o not\u00e1vel como pot\u00eancia mundial e regional. Na verdade, na S\u00edria, os EUA tiveram de engolir v\u00e1rios sapos, e aceitar tratar o Kremlin de igual a igual.<\/p>\n<p>No \u00e2mbito europeu, o caso da Ucr\u00e2nia marca o confronto mais retumbante nessa regi\u00e3o. Mas \u00e9 s\u00f3 um \u00faltimo elo do cerco geopol\u00edtico e militar que os EUA ea OTAN foram formando ao redor da R\u00fassia, do B\u00e1ltico ao C\u00e1ucaso, imediatamente ap\u00f3s o colapso da URSS.<\/p>\n<p>O caso da Ucr\u00e2nia tamb\u00e9m \u00e9 um exemplo de como duas rebeli\u00f5es populares \u2013 a primeira em Kiev e a segunda no Leste -, ambas com motivos inicialmente leg\u00edtimos, foram finalmente controladas e enquadradas por for\u00e7as pol\u00edticas superiores afinadas com o imperialismo norte-americano e Moscou, respectivamente, uma vez que n\u00e3o existiam outras alternativas.<\/p>\n<p>Como observado anteriormente, depois da dissolu\u00e7\u00e3o da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica em 1991, foi ignorada a solene promessa dos EUA \u00e0 R\u00fassia de que n\u00e3o tentaria estabelecer um cercomilitar da OTAN. Contudo, essa foi a pol\u00edtica sem varia\u00e7\u00f5es de Washington: formar e estender esse cerco, apesar de, por longo tempo, n\u00e3o s\u00f3 sob Yeltsin, mas tamb\u00e9m sob Putin, o Kremlin inicialmente tentou evitar o confronto com os EUA, cedendo e cedendo. Apesar disso, o cerco militar foi estendido do B\u00e1ltico ao C\u00e1ucaso, na maioria dos casos mediante a incorpora\u00e7\u00e3o \u00e0 Otan de estados pr\u00f3ximos ou fronteiri\u00e7os (como a Pol\u00f4nia, a Rom\u00eania, etc.), e a instala\u00e7\u00e3o de bases de m\u00edsseis que apontam provocativamente para o cora\u00e7\u00e3o da R\u00fassia.<\/p>\n<p>Nem a carta de inten\u00e7\u00e3o, que inicialmente os sucessivos governos russos fizeram, nem as desastrosas aventuras coloniais de Bush no Oriente M\u00e9dio, suspenderam esse operativo de ass\u00e9dio. Assim, em 2008, Washington encorajou Mikhail Saakashvili \u2013 um aventureiro corrupto georgiano-americano que tinha conseguido assumir a presid\u00eancia da ex-rep\u00fablica sovi\u00e9tica da Ge\u00f3rgia &#8211; a iniciar provoca\u00e7\u00f5es b\u00e9licas contra a R\u00fassia. Em poucos dias, isto terminou em uma cat\u00e1strofe militar para os georgianos.<\/p>\n<p>O caso da Ucr\u00e2nia foi muito mais grave. Na inicial rebeli\u00e3o popular em Kiev, setores principalmente de jovens e de classe m\u00e9dia da capital foram rapidamente cooptados: na base, pela milit\u00e2ncia de direita, e por cima, pelos pol\u00edticos subordinados aos EUA. Entraram para a hist\u00f3ria as difundidas grava\u00e7\u00f5es telef\u00f4nicas de Victoria Noland (respons\u00e1vel pelos Assuntos Europeus no Departamento de Estado), ditando a seus fantoches de Kiev a pol\u00edtica e a composi\u00e7\u00e3o do futuro governo \u201cucranianas\u201d, e referindo-se \u00e0 Uni\u00e3o Europeia e seus governantes em termos obscenos e depreciativos por vacilarem no confronto com Moscou.<\/p>\n<p>Mas a pol\u00edtica desses fantoches de Kiev \u2013 como a tentativa de proibir o idioma russo e, em geral, a hostilidade para com a R\u00fassia \u2013 atingiu cerca de metade, ou mais, da popula\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, a que vive no leste da Ucr\u00e2nia, \u00e9 russ\u00f3fona e deseja mais a uni\u00e3o com a R\u00fassia do que com a UE. Isso possibilitou a Moscou, apoiando-se nesses setores, recuperar a Crim\u00e9ia, e, no leste da Ucr\u00e2nia, desencadear uma segunda rebeli\u00e3o pela ruptura total ou parcial com Kiev e pela aproxima\u00e7\u00e3o \u00e0 R\u00fassia. A guerra civil que se seguiu n\u00e3o terminou ainda, apesar das sucessivas negocia\u00e7\u00f5es e \u201ctr\u00e9guas\u201d. Continua em c\u00e2mara lenta, prolongando uma situa\u00e7\u00e3o que \u201cn\u00e3o \u00e9 de paz nem de guerra\u201d.<\/p>\n<p>Simultaneamente, isso levou n\u00e3o s\u00f3 \u00e0 divis\u00e3o, de fato, da Ucr\u00e2nia, mas tamb\u00e9m \u00e0 ru\u00edna de suas duas partes. Um economista ucraniano (pr\u00f3-ocidente) resume, em poucas palavras, o panorama visto a partir de Kiev: \u201cdesindustrializa\u00e7\u00e3o, degrada\u00e7\u00e3o e despovoamento\u201d, em um quadro de corrup\u00e7\u00e3o escandaloso (\u201cA corrup\u00e7\u00e3o e a crise econ\u00f4mica amea\u00e7am desmoronar a Ucr\u00e2nia\u201d, <em>El Pa\u00eds,<\/em> 15- 2-16).<\/p>\n<p>O que interessa ressaltar s\u00e3o algumas consequ\u00eancias geopol\u00edticas. A linha de cerco, provoca\u00e7\u00f5es e, finalmente, san\u00e7\u00f5es impostas pelos EUA e acatadas pela Uni\u00e3o Europeia, longe de colocarem a R\u00fassia de joelhos, levaram o Kremlin, sob Putin, a abandonar as pol\u00edticas de concilia\u00e7\u00e3o a todo custo.<a name=\"_ftnref21\"><\/a><a href=\"#_ftn21\">[21]<\/a> Melhor dizendo, em meio a uma grave crise econ\u00f4mica alimentada pela queda dos pre\u00e7os do petr\u00f3leo, a linha de auto-afirma\u00e7\u00e3o do Estado russo se fortaleceu, em um cocktail estranho no qual se misturam a exalta\u00e7\u00e3o do Imp\u00e9rio dos czares, da Igreja Ortodoxa Russa, do regime de Stalin (juntamente com o categ\u00f3rico rep\u00fadio a Lenin) e da vit\u00f3ria na \u201cGrande Guerra P\u00e1tria\u201d contra a Alemanha nazista.<\/p>\n<p>Finalmente, \u00e9 prov\u00e1vel que, sem a colis\u00e3o geopol\u00edtica da Ucr\u00e2nia, Putin teria pensado duas vezes antes de intervir na S\u00edria, o que obrigou os EUA a buscarem uma sa\u00edda pol\u00edtica, tratando-o de igual para igual.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, as san\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas impostas pelo Ocidente n\u00e3o conduziram \u00e0 rendi\u00e7\u00e3o de Moscou, mas ao giro \u00e0 China. A depend\u00eancia da Uni\u00e3o Europeia com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 venda de petr\u00f3leo russo se revelou geopoliticamente perigosa. Portanto, desde a crise da Ucr\u00e2nia, Moscou est\u00e1 fechando acordos de venda com a China, substituindo a Alemanha como principal comprador.<\/p>\n<p><strong>3.4. Am\u00e9rica Latina: crise e naufr\u00e1gio do bloco \u201cprogressista\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Na Am\u00e9rica Latina, particularmente na Am\u00e9rica do Sul, as crises econ\u00f4micas e pol\u00edticas na Venezuela e em outros estados, o escandaloso processo \u201cdestituinte\u201d do Brasil, e a ascens\u00e3o, em Buenos Aires, de um governo neoliberal raivoso que se proclama abertamente servo de Washington, abrem a oportunidade para que os EUA tentem restaurar a submiss\u00e3o dos anos noventa. Isso n\u00e3o s\u00f3 preocupa as rela\u00e7\u00f5es de cada um dos estados com o amo do Norte, mas tamb\u00e9m p\u00f5e em causa v\u00e1rios agrupamentos e institui\u00e7\u00f5es latino-americanos, como o Mercosul, a CELAC (Comunidade de Estados da Am\u00e9rica Latina e Caribe), a ALBA (Alian\u00e7a Bolivariana para os Povos de Nossa Am\u00e9rica), etc., que expressam -muito timidamente \u2013 pretens\u00f5es a uma maior independ\u00eancia dos EUA.<\/p>\n<p>\u00c9 \u00f3bvio que os EUA desejam liquidar o Mercosul \u2013 como, em dado momento, tentou George W. Bush com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 ALCA (\u00c1rea de Livre Com\u00e9rcio das Am\u00e9ricas) e fracassou \u2013 e desejam tamb\u00e9m que seus membros adiram \u00e0 Trans-Pacific Partnership (TPP, que, com Trump, pode ser liquidada). O mesmo se aplica em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 CELAC, nascida em 2010, no auge da influ\u00eancia do chavismo e dos governos \u201cprogressistas\u201d latino-americanos. Ainda que a CELAC esteja longe de ter enfrentado a s\u00e9rio o imperialismo americano, tem um pecado de nascen\u00e7a: nela, n\u00e3o participam os EUA ou o Canad\u00e1. S\u00f3 a sua exist\u00eancia j\u00e1 \u00e9 um fato \u201cpreocupante\u201d. Por isso, os EUA desejariam voltar \u00e0 \u201cnormalidade\u201d, isto \u00e9, ficar apenas a tradicional OEA (Organiza\u00e7\u00e3o dos Estados Americanos), com sede em Washington, que tem sido (com nomes diferentes) seu minist\u00e9rio das col\u00f4nias desde o final do s\u00e9culo XIX.<\/p>\n<p>As crises econ\u00f4micas e pol\u00edticas que derrubaram ou enfraqueceram, em maior ou menor medida, os governos \u201cprogressistas\u201d se inscrevem em alguns denominadores comuns. Estes incluem o fim do ciclo de bonan\u00e7a dos pre\u00e7os das mat\u00e9rias-primas (commodities) e, acima de tudo, o fato de que nenhum destes governos, de Chavez a Lula, passando pelos Kirchner, aproveitou a oportunidade para capitalizar e revolucionar sua matriz produtiva t\u00edpica de pa\u00edses dependentes, ou, ao menos, tomar medidas preventivas contra uma queda. E, claro, isto sem falar de uma mudan\u00e7a real, revolucion\u00e1ria, do sistema social.<\/p>\n<p>No \u00e2mbito geopol\u00edtico, isto tende agora a agravar a depend\u00eancia ea submiss\u00e3o desses Estados frente ao imperialismo americano, em primeiro lugar. No entanto, o panorama n\u00e3o chega a ser inteiramente monocolor, como nos anos noventa. Em algumas situa\u00e7\u00f5es, o p\u00eandulo pode come\u00e7ar a se mover na dire\u00e7\u00e3o oposta. \u00c9 que tudo \u00e9 qualitativamente mais inst\u00e1vel do que nos anos noventa, a d\u00e9cada de gl\u00f3ria da contra-revolu\u00e7\u00e3o neoliberal. Este poderia ser o caso da Argentina, com Macri. E \u00e9 poss\u00edvel que o Brasil v\u00e1 no mesmo caminho, haja visto os personagens que depuseram Dilma Roussef e as medidas econ\u00f4micas e pol\u00edticas brutais que come\u00e7am a ser aplicadas.\u00a0O pior, o mais desfavor\u00e1vel e com repercuss\u00f5es mundiais, \u00e9 o caso da Venezuela. O regime chavista \u2013 que apareceu falsamente como o mais \u201cprogressista\u201d, \u201crevolucion\u00e1rio\u201d e at\u00e9 mesmo \u201csocialista\u201d \u2013 \u00e9 o que levou \u00e0 situa\u00e7\u00e3o mais catastr\u00f3fica. At\u00e9 o momento, com prud\u00eancia, o imperialismo norte-americano est\u00e1 deixando apodrecer, embora apoiando, medi\u00e1tica e financeiramente, a oposi\u00e7\u00e3o de direita, que j\u00e1 ultrapassa eleitoralmente o desgastado presidente Maduro. \u00c9 que um intervencionismo demasiado direto e aberto poderia ativar os anticorpos anti-imperialistas na Venezuela e no continente. Al\u00e9m disso, a Washington, bem como aos governos e \u00e0s burguesias europeias, conv\u00eam o espet\u00e1culo tr\u00e1gico e grotesco do desastre do chavismo.\u00a0Gra\u00e7as a Maduro, os imperialismos do Ocidente conseguiram montar na m\u00eddia uma reprise do \u201cfracasso do socialismo\u201d, a trag\u00e9dia protagonizada por Gorbachev e Yeltsin que, no final dos anos oitenta e in\u00edcio dos noventa, liquidaram a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. Mas a reprise toma a forma de uma obra grotesca de Valle-Incl\u00e1n.\u00a0Agora, o fracasso da Venezuela \u2013 embora de muito menor envergatura do que o desmonte da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica-\u00e9 usado no mesmo sentido. Assim, nas reiteradas elei\u00e7\u00f5es espanholas, o desastre do \u201csocialismo\u201d na Venezuela foi um dos principais temas de campanha da direita conservadora (PP e Ciudadanos) e social-liberal (PSOE).<\/p>\n<p><strong>3.5. \u00c1frica subsaariana e seus \u201cfr\u00e1geis estados\u201d<\/strong><\/p>\n<p>Por \u00faltimo, a \u00c1frica subsaariana apresenta um panorama geopol\u00edtico particular. Um especialista o define dizendo que, nesta regi\u00e3o, se concentram esmagadoramente os estados mais fr\u00e1geis do planeta, que est\u00e3o em situa\u00e7\u00f5es de \u201cconflito abertos ou enrustidos, p\u00f3s-conflito ou em reconstru\u00e7\u00e3o\u201d. Essas situa\u00e7\u00f5es surgem ou degradam a regi\u00e3o com muita rapidez.<\/p>\n<p>O primeiro aspecto a ser considerado \u00e9 que o conceito \u201csubsaariano\u201d \u00e9 question\u00e1vel. Na \u00c1frica h\u00e1 quase sessenta \u201centidades\u201d estatais ou paraestatais. A grande maioria s\u00e3o estados reconhecidos e formalmente \u201csoberanos\u201d.<a name=\"_ftnref22\"><\/a><a href=\"#_ftn22\">[22]<\/a> Mas desses, apenas cinco pa\u00edses (Marrocos, Arg\u00e9lia, Tun\u00edsia, L\u00edbia e Egipto), que d\u00e3o para o Mediterr\u00e2neo, n\u00e3o s\u00e3o classificados como \u201csubsaarianos\u201d.<\/p>\n<p>Na verdade, esses pa\u00edses e estados s\u00e3o parte do mundo cultural e pol\u00edtico\u00e1rabe, e n\u00e3o \u00e9 errado consider\u00e1-los, geopoliticamente, parte do Oriente M\u00e9dio, tomado no sentido amplo. Mas, ao mesmo tempo, h\u00e1 vasos comunicantes mais ou menos importantes entre as duas regi\u00f5es da \u00c1frica. Assim, em v\u00e1rios dos estados \u201csubsaarianos\u201d, vem sendo um s\u00e9rio problema as organiza\u00e7\u00f5esislamistas jihadistas, como Boko Haram na Nig\u00e9ria, Camar\u00f5es, Chade, N\u00edger e Mali, as quais se reivindicamtamb\u00e9m parte do Estado Isl\u00e2mico. Algo semelhante acontece na Som\u00e1lia e seus vizinhos.<\/p>\n<p>H\u00e1 ainda outra regi\u00e3o geopol\u00edtica africana de certa import\u00e2ncia cuja inclus\u00e3o nas duas \u00a0j\u00e1 mencionada s\u00e9 duvidosa. Referimo-nos ao chamado Corno da \u00c1frica, que d\u00e1 para o Mar Vermelho. Ali est\u00e3o a Abiss\u00ednia, a Eritreia, Djibuti, a Somalil\u00e2ndia e, em parte, a Som\u00e1lia. Hoje esta regi\u00e3o est\u00e1 convulsionada por crises pol\u00edticas (Abiss\u00ednia), recrudecimento de conflitos armados (Abiss\u00ednia vs. Eritreia); guerrilhas e lutas de cl\u00e3s (Som\u00e1lia), etc.<\/p>\n<p>Por outro lado, o conjunto \u201csubsaariano\u201d engloba estados com tantas ou mais diferen\u00e7as \u200b\u200bdo que as existentes em rela\u00e7\u00e3o aos pa\u00edses africanos do Mediterr\u00e2neo. A \u00c1frica do Sul, por exemplo, no extremo sul, foi considerada um dos BRICS juntamente com Brasil, R\u00fassia, \u00cdndia e China, ou seja, um dos chamados \u201cpa\u00edses emergentes\u201d. Embora hoje a \u00c1frica do Sul atravesse uma grave crise econ\u00f4mica, apresenta um panorama muito diferente dos pa\u00edses que se localizam na faixa que se estende do Saara at\u00e9 mais abaixo da linha equatorial (paralelo 0\u00b0). \u00c9 nessa faixa onde a fragmenta\u00e7\u00e3o estatal, as guerras e os conflitos sangrentos t\u00eam sido mais not\u00e1veis e generalizados. \u00c9 tamb\u00e9m nessa faixa, que se encontram as maiores desigualdades e os n\u00edveis de pobreza.<\/p>\n<p>Esta \u201cfragilidade\u201d cr\u00f4nica de muitos Estados africanos \u2013 especialmente dos \u00faltimos mencionados \u2013 decorre de uma complexa combina\u00e7\u00e3o de causas. Em primeiro lugar, o que \u00e9 decisivo, \u00e9 a sua pr\u00e9-hist\u00f3ria colonial, que a independ\u00eancia formal n\u00e3o resolveu. A a\u00e7\u00e3o da Europa significou a mais brutal explora\u00e7\u00e3o e submiss\u00e3o, que incluiu a \u201cca\u00e7a ao homem\u201d (e mulheres) para serem exportados como escravos para as Am\u00e9ricas, e depois a explora\u00e7\u00e3o dos colonialismos europeus. Mas n\u00e3o parou a\u00ed. Na \u00c1frica, a preda\u00e7\u00e3o dos colonialismos foi ainda mais atroz do que nas sociedades pr\u00e9-capitalistas mais desenvolvidas, como as da \u00c1sia e do Oriente M\u00e9dio.\u00a0As independ\u00eancias posteriores \u00e0 Segunda Guerra Mundial, que implicaram na cria\u00e7\u00e3o de estados pr\u00f3prios, nasceram carregadas de problemas. Em primeiro lugar, os novos estados foram constru\u00eddos nas fronteiras (e funda\u00e7\u00f5es) das antigas col\u00f4nias, o que j\u00e1 revela que, por tr\u00e1s dessa mudan\u00e7a, havia tamb\u00e9m uma continuidade. Isto balcanizou o continente em um n\u00famero absurdo de estados; o pior foi que esta fragmenta\u00e7\u00e3o geralmente tinha pouco a ver com as reais diferen\u00e7as etno-tribais, lingu\u00edsticas, etc., de seus povos.\u00a0Sobre essas complexas estruturas sociais \u2013 nas quais o capitalismo se combina com forma\u00e7\u00f5es socioecon\u00f4micas pr\u00e9-capitalistas &#8211; superestruturas estatais copiadas em suas formas dos estados europeus foram impostas. Houve dois modelos, um pior que o outro: ou o dos pa\u00edses europeus que haviam colonizado a regi\u00e3o, ou o dos regimes stalinistas de partido \u00fanico que ainda passavam por \u201csocialistas\u201d.\u00a0Na pr\u00e1tica, em ambos os casos, por tr\u00e1s democr\u00e1tico-liberal ou pseudo- \u201csocialista\u201d, uma elite civil e\/ou militar, inicialmente formada e educada durante a col\u00f4nia, geralmente separada por um abismo do resto da popula\u00e7\u00e3o, assumia a totalidade do poder. A partir da\u00ed, sob diferentes r\u00f3tulos, inclusive \u201csocialista\u201d, as ditaduras mais atrozes com presidentes reeleitos cem vezes foram se sucedendo\u2026 at\u00e9 que uma guerra e\/ou\u00a0 um golpe militar os derrubasse, apenas para substitu\u00ed-los por personagens parecidos.<\/p>\n<p>Diferen\u00e7as e tens\u00f5es \u00e9tnico-tribais, e a interven\u00e7\u00e3o dos estados e corpora\u00e7\u00f5es estrangeiras para a pilhagem das mat\u00e9rias-primas, resultaram em horrores como a Guerra de Coltan ou \u201cGuerra Mundial Africana\u201d que causou um n\u00famero estimado de 4 milh\u00f5es de v\u00edtimas, diretamente ou por fome e doen\u00e7as provocadas por ela. Esta guerra, que envolveu nove estados e cerca de vinte diferentes fac\u00e7\u00f5es armadas, come\u00e7ou em 1998 e, com intervalos de \u201cpaz\u201d, foi se prolongando porto da a primeira d\u00e9cada deste s\u00e9culo.<\/p>\n<p>A chave da guerra mais mort\u00edfera da hist\u00f3ria africana foi a disputa entre as corpora\u00e7\u00f5es dos EUA e da Uni\u00e3o Europeia, na qual a China se entrou em seguida, pelo coltan, mineral imprescind\u00edvel para a fabrica\u00e7\u00e3o de equipamentos eletr\u00f4nicos. Este exemplo ilustra por que a \u00c1frica, o continente mais rico em recursos naturais do planeta, tem os piores indicadores de desenvolvimento socioecon\u00f4mico.<\/p>\n<p>Do ponto de vista geopol\u00edtico, nos \u00faltimos anos, a mudan\u00e7a provavelmente mais importante parece ser o ingresso e a influ\u00eancia da China nas disputas. Como dissemos, os chineses se tornaram os principais parceiros comerciais da \u00c1frica. E os planos da \u201cRota da Seda\u201d contemplam tamb\u00e9m empreendimentos portu\u00e1rios e ferrovi\u00e1rios, em especial nos pa\u00edses que d\u00e3o para o Oceano \u00cdndico.<\/p>\n<p><strong>Um mundo sob o signo do descontentamento e as crises<\/strong><\/p>\n<p>Se hoje existe uma nuance ou um signo comum que, sob distintas formas, atravessa os mais diversos pa\u00edses e situa\u00e7\u00f5es, \u00e9 o signo do <em>descontentamento<\/em>. Hoje, o descontentamento est\u00e1 presente nas falas de todos os idiomas do planeta, ainda que haja desigualdades de extens\u00e3o, profundidade e consequ\u00eancias emcada pa\u00eds ou regi\u00e3o. Um descontentamento que, tamb\u00e9m, se projeta em dire\u00e7\u00e3o ao futuro. No horizonte, as massas n\u00e3o percebem amanheceres cor de rosa \u2026 e com toda raz\u00e3o.<\/p>\n<p>Se h\u00e1 algo que, na maioria dos pa\u00edses, os trabalhadores e setores populares percebem nesta era neoliberal \u00e9 que hoje sua situa\u00e7\u00e3o est\u00e1 pior do que a de seus pais, e que, amanh\u00e3, a situa\u00e7\u00e3o de seus filhos estar\u00e1 pior do que a deles. No entanto, essa percep\u00e7\u00e3o n\u00e3o implica automaticamentea ades\u00e3o \u00e0s alternativas revolucion\u00e1rias, socialistas ou, pelo menos, progressistas.<\/p>\n<p>O descontentamento estava por tr\u00e1s do \u201cBrexit\u201d no Reino Unido. Na Fran\u00e7a, o descontentamento levou setores de massa entre jovens e trabalhadores para a luta contra a lei El Khomri de liquida\u00e7\u00e3o de mais de um s\u00e9culo de conquistas oper\u00e1rias, mas tamb\u00e9m vai empurrar muitos a votar na Front National de extrema direita como voto de castigo por essa inqualific\u00e1vel trai\u00e7\u00e3o do partido que se diz \u201csocialista\u201d. Nos EUA, o descontentamento de amplos setores alimentou simultaneamente duas express\u00f5es pol\u00edticas muito diferentes, as candidaturas de Sanders e especialmente a de Trump. E assim poder\u00edamos continuar com mais e mais exemplos.<\/p>\n<p>Em \u00faltima inst\u00e2ncia, a grande quest\u00e3o (ea grande luta pol\u00edtica) \u00e9 como este \u201cclima\u201d mundial ir\u00e1 se decantando e para onde ser\u00e1 canalizado? Para a esquerda ou para a direita? Na perspectiva do fortalecimento da alternativa socialista? Ou par a abismos ainda piores do que a atual cat\u00e1strofe neoliberal? Portudo isso, s\u00e3o previs\u00edveis tamb\u00e9m<em>uma maior polariza\u00e7\u00e3o e dureza das lutas pol\u00edticas e sociais.<\/em><\/p>\n<p>Isso tem suas rela\u00e7\u00f5es de \u201cida e volta\u201d com os cen\u00e1rios geopol\u00edticos que descrevemos. Muitos caracterizam a atual situa\u00e7\u00e3o geopol\u00edtica como semelhante ao per\u00edodo de \u201cPaz Armada\u201d, que precedeu a Primeira Guerra Mundial. Na verdade, existem algumas semelhan\u00e7as \u2026 e n\u00e3o s\u00e3o tranquilizadoras. Antes de 1914, existia \u2013 como agora \u2013 uma grande pot\u00eancia mundial, o Imp\u00e9rio Brit\u00e2nico, mas que estava em decl\u00ednio em rela\u00e7\u00e3o aos novos imperialismos como Alemanha, EUA, Jap\u00e3o, etc. Tamb\u00e9m, como agora, se multiplicavam fric\u00e7\u00f5es, tens\u00f5es e disputas, em um paralelo duplamente preocupante para o presente, porque nos anos da Paz Armada n\u00e3o havia armas nucleares.<\/p>\n<p><strong>\u00a0A crise do capitalismo neoliberal globalizado<\/strong><\/p>\n<p>Hoje, a atual situa\u00e7\u00e3o se d\u00e1 em um contexto de crise do capitalismo neoliberal globalizado. Desde o in\u00edcio dos anos 80, como \u201cmodo de regula\u00e7\u00e3o\u201d do capitalismo, houve, al\u00e9m de muitas fal\u00eancias nacionais e regionais, tr\u00eas crise recessivas mundiais, a de 1990-91, a de 2000-01 e a que se iniciou em 2008 \u2026que n\u00e3o terminou, mas se estende. Isto foi batizado de \u201ca nova normalidade\u201d das economias do Ocidente: baixo crescimento, baixo investimento e alto desemprego. Outros economistas, como Michael Roberts, caracterizam isso diretamente como a Longa Depress\u00e3o \u2026 e \u00e9 prov\u00e1vel que estejam certos.<\/p>\n<p>Durante um breve per\u00edodo, a China e outras economias emergiram como um mundo \u00e0 parte dessa realidade global. Mas hoje tudo tende ao nivelamento\u2026 por baixo.<\/p>\n<p><strong>Crise ecol\u00f3gica mundial: os problemas do Antropoceno<\/strong><\/p>\n<p>Mas a diferen\u00e7a com a \u00e9poca da \u201cPaz Armada\u201d n\u00e3o \u00e9 apenas que muitos Estados t\u00eam armas at\u00f4micas. H\u00e1 tamb\u00e9m outras realidades globais mais preocupantes. Por exemplo, os riscos mortais que se esbo\u00e7am no terreno da ecologia.<\/p>\n<p>A esp\u00e9cie humana adquiriu um poder de transforma\u00e7\u00e3o (e destrui\u00e7\u00e3o) da natureza e do planeta como nenhuma outra. Por isso, v\u00e1rios cientistas prop\u00f5em que a \u00e9poca geol\u00f3gica atual dentro do per\u00edodo Quatern\u00e1rio j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 o Holoceno, mas o \u201cAntropoceno\u201d, dado o dom\u00ednio e as consequ\u00eancias avassaladoras das atividades da esp\u00e9cie humana no planeta.<\/p>\n<p>Estas atividades n\u00e3o seguiram\u00a0<em>nenhum plano racional em uma escala planet\u00e1ria, mas os interesses imediatos das classes dominantes e de seus Estados<\/em>. Entre as consequ\u00eancias acumuladas desta explora\u00e7\u00e3o ca\u00f3tica da natureza, apresentamos as seguintes:<\/p>\n<p>\u201c1) Entre a ter\u00e7a parte e a metade da superf\u00edcie terrestre foi transformada pela a\u00e7\u00e3o humana.<\/p>\n<p>\u201c2) A concentra\u00e7\u00e3o de di\u00f3xido de carbono na atmosfera tem aumentado em mais de 30% \u00a0desde o come\u00e7o da revolu\u00e7\u00e3o industrial.<\/p>\n<p>\u201c3) A a\u00e7\u00e3o humana fixa mais nitrog\u00eanio atmosf\u00e9rico do que a combina\u00e7\u00e3o das fontes terrestres naturais.<\/p>\n<p>\u201c4) A humanidade usa mais da metade de toda a \u00e1gua doce acess\u00edvel na superf\u00edcie do planeta.<\/p>\n<p>\u201c5) Aproximadamente um quarto das esp\u00e9cies de aves do planeta foi extinto pela a\u00e7\u00e3o humana.<\/p>\n<p>\u201c6) As duas ter\u00e7as partes dos principais redutos pesqueiros (reservas marinhas) est\u00e3o superexploradas ou esgotadas\u201d (Florent Marcellesi, \u201cQue \u00e9 a crise ecol\u00f3gica?\u201d <em>ecoportal.net<\/em>, 15\/01\/13).<\/p>\n<p>E se h\u00e1 um problema que os Estados n\u00e3o demonstraram capacidade de enfrentar conjuntamente \u00e9 o da ecologia. As confer\u00eancias mundiais sobre o tema terminam, na melhor das hip\u00f3teses, votando aspirinas como rem\u00e9dio para curar um c\u00e2ncer que pode extinguir a esp\u00e9cie humana.<\/p>\n<p>Agora, a vit\u00f3ria de Trump leva isto a um n\u00edvel muito mais perigoso. Um \u201cnegacionista\u201d da mudan\u00e7a clim\u00e1tica ir\u00e1 governar o maior Estado poluidor do mundo, ao lado da China!<\/p>\n<p><strong>Necessidade de um Estado mundial\u2026 que s\u00f3 poderia ser socialista<\/strong><\/p>\n<p>O sistema mundial de estados nacionais tem demonstrado <em>ad nauseam<\/em> a sua incapacidade de enfrentar os problemas e desafios globais da humanidade. Pode ter sido progressivo no per\u00edodo neol\u00edtico, mas hoje a humanidade precisa de outra coisa.<\/p>\n<p>\u00c9 que cada estado representa, em \u00faltima an\u00e1lise, os interesses contradit\u00f3rios de diferentes burguesias. Nas \u00e9pocas de bonan\u00e7a, podem se p\u00f4r, mais ou menos, de acordo. Mas, em tempos de vacas magras, predomina a luta de todos contra todos. A atual crise na Uni\u00e3o Europeia \u2013 a tentativa mais ambiciosa de um grupo de burguesias para a relativa supera\u00e7\u00e3o de seus estados nacionais \u2013 \u00e9 resultado do fracasso. S\u00e9culos atr\u00e1s, os Estados particulares, esse mecanismo sangrento e seus instrumentos, podiam ser, ao mesmo tempo, eficazes. Mas hoje, a longo prazo, eles amea\u00e7am a pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia da humanidade.<\/p>\n<p>\u00c9 que hoje, mais do que nunca, a humanidade enfrenta desafios mundiais, que v\u00e3o desde a economia cada vez mais globalizada, at\u00e9 as amea\u00e7as de mudan\u00e7as que a atividade humana provoca no clima e na natureza.<\/p>\n<p>Mas um estado mundial n\u00e3o pode ser capitalista. Um Estado mundial exigiria das burguesias a abdica\u00e7\u00e3o de seus interesses particulares. Somente os trabalhadores t\u00eam um grau de interesse comum que permite a constru\u00e7\u00e3o de um Estado de toda a humanidade.<\/p>\n<p>E s\u00f3 o socialismo, baseado na propriedade comum dos meios de produ\u00e7\u00e3o, daria base para acabar com esta guerra de todos contra todos, e passar a trabalhar juntos.<\/p>\n<p>22 \u2013 Dezembro \u2013 2016<\/p>\n<p><a name=\"_ftn1\"><\/a><a href=\"#_ftnref1\">[1]<\/a> . Para uma an\u00e1lise mais ampla de Trump, sua vit\u00f3ria eleitoral e suas perspectivas, ver Jos\u00e9 Luis Rojo, \u201cUn demagogo llega a la presidencia de los Estados Unidos\u201d, <em>Socialismo o Barbarie<\/em> 405, 10-11-16.<\/p>\n<p><a name=\"_ftn2\"><\/a><a href=\"#_ftnref2\">[2]<\/a>. Evidentemente que, em termos de protecionismo, isso tem a ver tamb\u00e9m com o tipo de Estado e suas rela\u00e7\u00f5es com os imperialismos e o capitalismo mundial. Em um Estado oper\u00e1rio, como foi inicialmente a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, \u00e9 imprescind\u00edvel o monop\u00f3lio estatal do com\u00e9rcio exterior e o mais estrito protecionismo diante das press\u00f5es da economia capitalista mundial. Assim mesmo, com todas suas limita\u00e7\u00f5es, podem ser progressivas as medidas protecionistas, tomadas pelo Estado de um pa\u00eds atrasado e dependente, frente \u00e0 concorr\u00eancia desigual do capital imperialista.<\/p>\n<p><a name=\"_ftn3\"><\/a><a href=\"#_ftnref3\">[3]<\/a> . Ainda que, no final, as pesquisas e sondagens de opini\u00e3ose mostraram pouco confi\u00e1veis, Sanders apareceu na maioria delas como o \u00fanico candidato democrata capaz de derrotar, por uma boa margem , Donald Trump. Clinton apareceu tamb\u00e9m como vencedora, mas com cifras mais baixas. Para derrubar Sanders, o establishment do Partido Democrata deu a Trump a totalidade do \u201cvoto de castigo\u201d.<\/p>\n<p><a name=\"_ftn4\"><\/a><a href=\"#_ftnref4\">[4]<\/a>. \u201cO fosso entre ricos e pobres \u2013 conforme o relat\u00f3rio da Oxfam de 2016 \u2013 est\u00e1 atingindo novos patamares. Recentemente, o Credit Suisse revelou que o 1% mais rico da popula\u00e7\u00e3o mundial acumula mais riqueza do que os 99% restantes. Ao mesmo tempo, a riqueza nas m\u00e3os da metade mais pobre da humanidade foi reduzida em em um bilh\u00e3o de d\u00f3lares ao longo dos \u00faltimos cinco anos. [\u2026] A desigualdade no mundo atingiu n\u00edveis sem precedentes em pouco mais de um s\u00e9culo. [\u2026] Existe uma crise de desigualdade que est\u00e1 fora de controle. [\u2026] Em 2015, apenas 62 pessoas tinham a mesma riqueza do que 3 milh\u00f5es e 600 mil (a metade mais pobre da humanidade). H\u00e1 pouco tempo atr\u00e1s, em 2010, eram 388 pessoas \u2026 A riqueza nas m\u00e3os dessas 62 pessoas mais ricas do mundo aumentou em 45% em apenas cinco anos, pouco mais de meio trilh\u00e3o de d\u00f3lares (542.000 milh\u00f5es) desde 2010, at\u00e9 atingir 1,76 trilh\u00f5es de d\u00f3lares. Enquanto isso, a riqueza nas m\u00e3os da metade \u00a0mais pobre da popula\u00e7\u00e3o caiu em mais de um bilh\u00e3o de d\u00f3lares no mesmo per\u00edodo, uma queda de 38% \u201c(\u201cUma economia a servi\u00e7o do 1% \u201c, relat\u00f3rio da Oxfam 2016 , 18\/1\/16).<\/p>\n<p><a name=\"_ftn5\"><\/a><a href=\"#_ftnref5\">[5]<\/a>.\u00a0\u00a0 Embora seja conhecida geralmente como a \u201cGuerra do Vietn\u00e3\u201d, o conflito terminado em 1975 abrangeu toda a Indochina, incluindo Laos e Camboja. Al\u00e9m disso, \u00e9 necess\u00e1rio lembrar que a Guerra da Coreia (1950-53) \u2013 na qual os EUA liderou a coaliz\u00e3o\u00a0 \u201cocidental\u201d contra a Coreia do Norte e a China \u2013 terminou em \u201cempate\u201d que ainda continua. Os EUA n\u00e3o foram derrotados definitivamente, como no Vietn\u00e3, mas tamb\u00e9m n\u00e3o foram\u00a0 vencedores. No entanto, a Coreia n\u00e3o provocou uma crise pol\u00edtica com t\u00e3o profundas consequ\u00eancias como a Indochina.<\/p>\n<p><a name=\"_ftn6\"><\/a><a href=\"#_ftnref6\">[6]<\/a>. Em um relat\u00f3rio recente, um velho oper\u00e1rio americano lembra: \u201cQuando eu era jovem, todos trabalhavam e o normal era ficar toda a vida na mesma empresa. T\u00ednhamos uma casa, seguro de sa\u00fade, uma aposentadoria e uma fam\u00edlia. Agora, tudo isso j\u00e1 n\u00e3o existe.\u201d (Ricardo Mir de Francia, correspondente nos EUA,\u201dA revolta da Am\u00e9rica branca\u201d,<em>El Peri\u00f3dico<\/em>, 5-11-16).<\/p>\n<p><a name=\"_ftn7\"><\/a><a href=\"#_ftnref7\">[7]<\/a>. \u201c1) A concentra\u00e7\u00e3o da produ\u00e7\u00e3o e do capital se desenvolveu a tal ponto que criou monop\u00f3lios que desempenham um papel decisivo na vida econ\u00f4mica; 2) a fus\u00e3o do capital banc\u00e1rio com o industrial e a cria\u00e7\u00e3o sobre a base desse capital \u2018financeiro\u2019 de uma oligarquia financeira; 3) a exporta\u00e7\u00e3o de capitais, diferentemente da exporta\u00e7\u00e3o de mercadorias, adquire excepcional import\u00e2ncia; 4) a forma\u00e7\u00e3o de associa\u00e7\u00f5es capitalistas monopolistas internacionais que dividem o mundo entre si; 5) o encerramento da reparti\u00e7\u00e3o territorial de todo o mundo entre as grandes pot\u00eancias\u201d (Lenine, <em>O\u00a0 imperialismo, etapa superior do capitalismo<\/em>).<\/p>\n<p><a name=\"_ftn8\"><\/a><a href=\"#_ftnref8\">[8]<\/a> . Al\u00e9m do peso social e pol\u00edtico da classe trabalhadora no Egito, as tens\u00f5es entre mu\u00e7ulmanos e coptas, ou entre diferentes correntes do Isl\u00e3 ou outras religi\u00f5es, s\u00e3o insignificantes em compara\u00e7\u00e3o com a S\u00edria e Iraque.<\/p>\n<p><a name=\"_ftn9\"><\/a><a href=\"#_ftnref9\">[9]<\/a> .Nesse cen\u00e1rio t\u00e3o complexo da S\u00edria, o combatente que aparece se apoiando na mobiliza\u00e7\u00e3o popular e com \u00a0posi\u00e7\u00f5es mais independentes e progressistas s\u00e3o os curdos, que ocupam um pequeno territ\u00f3rio ali\u2026 Isso n\u00e3o \u00e9 novidade, mas a continua\u00e7\u00e3o de uma longa luta deste povo na Turquia e no Iraque, principalmente. Digamos que, por uma s\u00e9rie de lutas anteriores (muitas delas militares), que incluem historicamente a guerrilha do KPD de Mustaf\u00e1 Barzani, desenvolvida principalmente no Curdist\u00e3o iraquiano com o apoio inicial da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, e depoiso mais radicalizado no PKK de Abdullah \u00d6calan na Turquia, os curdos tinham uma prepara\u00e7\u00e3o pr\u00e9via superior para enrfrentar este giro \u201cmilitar\u201d da situa\u00e7\u00e3o. As YPG-YPJ da S\u00edria est\u00e3o intimamente relacionadas ao PKK.<\/p>\n<p><a name=\"_ftn10\"><\/a><a href=\"#_ftnref10\">[10]<\/a>. A Ar\u00e1bia Saudita \u00e9 um regime retr\u00f3grado, no qual, em 2015, 150 pessoas foram condenadas \u00e0 decapita\u00e7\u00e3o ou apedrejamento, v\u00e1rias por \u201cdelitos\u201d como \u201cbruxaria\u201d, \u201cadult\u00e9rio\u201d ou por escrever \u201cpoesias ateias\u201d (como o caso do famoso poeta palestino Ashraf Fayadh). Os protestos e o esc\u00e2ndalo mundial por esta \u00faltima atrocidade obrigaram a certa indulg\u00eancia: o atrevido poeta teve sua pena de morte alterada para oito anos de pris\u00e3o e 800 chibatadas. E este regime de barb\u00e1rie n\u00e3o \u00e9 apenas membro do International Syria Support Group (ISSG), que esteve negociando a paz, mas tamb\u00e9m seagrupa oficialmente em Riada oposi\u00e7\u00e3o s\u00edria reconhecida pelo ISSG. Para n\u00e3o sermos unilaterais, \u00e9 preciso acrescentar que a ditadura teocr\u00e1tica dos aiatol\u00e1s xiitas no Ir\u00e3 tem pouco a invejar com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 barb\u00e1rie da monarquia sunita-wahabita de Riad. A grande diferen\u00e7a entre a Ar\u00e1bia Saudita eo Ir\u00e3 consiste em que a sociedade iraniana \u00e9 qualitativamente mais moderna e ilustrada, o que p\u00f5e osaiatol\u00e1s em dificuldades e os obriga a fazer concess\u00f5es.<\/p>\n<p><a name=\"_ftn11\"><\/a><a href=\"#_ftnref11\">[11]<\/a> . O Internacional Syria Support Group (ISSG) inclui tamb\u00e9m outros estados e organismos internacionais: Ar\u00e1bia Saudita, Alemanha, Emirados \u00c1rabes, China, Egito, Fran\u00e7a, It\u00e1lia, Ir\u00e3, Iraque, Jord\u00e2nia, L\u00edbano, Om\u00e3, Qatar, Reino Unido, Turquia e os organismos da Liga \u00c1rabe, das Na\u00e7\u00f5es Unidas e da Uni\u00e3o Europeia.<\/p>\n<p><a name=\"_ftn12\"><\/a><a href=\"#_ftnref12\">[12]<\/a> . Egito e Israel aparecem mais \u00e0 margem desta \u201cmultiguerra\u201d, o que n\u00e3o significa que n\u00e3o intervenham ocasionalmente, em especial o Estado sionista, por exemplo, com bombardeios \u00e0s for\u00e7as do Hezbollah (mil\u00edcia do L\u00edbano) que combatem junto do governo de Damasco.<\/p>\n<p><a name=\"_ftn13\"><\/a><a href=\"#_ftnref13\">[13]<\/a>. Inspirados pelas (duvidosas) teorias da geopol\u00edtica cl\u00e1ssica sobre o \u201cHeartland\u201d e, acima de tudo, por sua sede de petr\u00f3leo antes de desenvolver a alternativa do fracking, o imperialismo norte-americano, com os Bush, buscou a impor um poder mais direto, mais colonial, no \u201cGrande Oriente M\u00e9dio\u201d. Tentava aproveitar o vazio geopol\u00edtico deixado pela dissolu\u00e7\u00e3o da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica em 1989\/91. Assim, Bush (pai) iniciou a primeira guerra contra o Iraque (1991). Em seguida, seu filho G. W. Bush, depois de ocupar o Afeganist\u00e3o em 2001, invadiu o Iraque em 2003. Os respectivos pretextos foram as Torres G\u00eameas e a f\u00e1bula das \u201carmas de destrui\u00e7\u00e3o em massa\u201d, que o Iraque supostamente possuia. Na verdade, esta orienta\u00e7\u00e3o j\u00e1 tinha sido exposta publicamente na d\u00e9cada de 90 pelos \u201cneocons\u201d (neoconservadores), em seu manifesto\u201cProject for the New American Century\u201d, assinado por aqueles que seriam, em seguida, a equipe de governo de Bush, (filho). Sintetizando: os EUA deviam se ratificar como super-imperialismo do s\u00e9culo XXI, lan\u00e7ando uma pol\u00edtica externa \u201cousada\u201d, com interven\u00e7\u00f5es militares e sem levar em conta a ONU ou os vacilantes imperialismos europeus. O primeiro passo seria a \u201cremodela\u00e7\u00e3o\u201d do Grande Oriente M\u00e9dio, como dizia Condoleeza Rice. Assim, o mundo \u201cunipolar\u201d seria consolidado, sob o comando exclusivo dos EUA, esbo\u00e7ado ap\u00f3s o desmoronamento da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica.<\/p>\n<p><a name=\"_ftn14\"><\/a><a href=\"#_ftnref14\">[14]<\/a>.\u00a0 A \u201cRota da Seda\u201d foi, na verdade, v\u00e1rias rotas comerciais, principalmente terrestres, que ligaram a China \u00e0 Europa desde antes da era crist\u00e3 (h\u00e1 muitas discuss\u00f5es sobre as datas). Ao longo da hist\u00f3ria, a Rota da Seda se manteve, ainda que com grandes oscila\u00e7\u00f5es, at\u00e9 que, a partir do final do s\u00e9culo XV, foi superada pelas rotas mar\u00edtimas dominadas por pot\u00eancias europeias, que davam a volta pela \u00c1frica atrav\u00e9s do Cabo da Boa Esperan\u00e7a e chegavam, desta forma, \u00e0 China e \u00e0 \u00cdndia. Comparativamente, at\u00e9 a primeira metade do s\u00e9culo XV, a China havia sido uma pot\u00eancia mar\u00edtima com navios de dimens\u00f5es e t\u00e9cnicas muito superiores \u00e0s europeias. Mas diversos fatores, crises e conflitos internos levaram a China a retroceder e se fechar sobre si mesma, liquidando sua frota. Pouco tempo depois, a Europa come\u00e7ou o desenvolvimento de uma economia-mundo capitalista facilitada pela circunavega\u00e7\u00e3o da \u00c1frica e pelo \u201cdescobrimento\u201d e conquista da Am\u00e9rica, que foram praticamente simult\u00e2neos.<\/p>\n<p><a name=\"_ftn15\"><\/a><a href=\"#_ftnref15\">[15]<\/a>.\u00a0 \u00c9 pol\u00edtica de Washington provocar regularmente \u201cincidentes\u201d para deixar claro que desconhece a soberania da China. Em outubro passado, enviou um navio de guerra para as Ilhas Spratly, no Mar da China Meridional, que superou as 12 milhas de mar territorial. Antes, em maio, havia enviado um avi\u00e3o militar com os jornalistas da CNN para sobrevoar o territ\u00f3rio chin\u00eas sem autoriza\u00e7\u00e3o. Logo depois, Pequim respondeu enviando cinco navios de guerra ao Alasca que ultrapassou tamb\u00e9m as 12 milhas. Um aviso a Obama, que naquele dia estava visitando o Alasca!<\/p>\n<p><a name=\"_ftn16\"><\/a><a href=\"#_ftnref16\">[16]<\/a>. A \u00c1frica Subsaariana, por exemplo, \u00e9 um importante fornecedor de mat\u00e9rias-primas para a China, e Pequim \u00e9 seu maior parceiro comercial. Neste contexto, a China come\u00e7ar\u00e1 a construir um porto colossal na Nam\u00edbia (o de Walvis Bay), estrat\u00e9gico para o controle do Oceano \u00cdndico. Claro que dever\u00e1 ser vigiado, por terra e por mar.<\/p>\n<p><a name=\"_ftn17\"><\/a><a href=\"#_ftnref17\">[17]<\/a>.\u00a0 Outro aliado dos EUA para formar o bloco anti-chin\u00eas \u00e9 \u2026 o Vietn\u00e3, ainda que n\u00e3o esteja claro se isto se estender\u00e1 ao terreno militar. A visita de Obama a Han\u00f3i, em maio passado, visa a aprofundar uma aproxima\u00e7\u00e3o que vem de longe. Isto pode parecer surpreendente, dadas as atrocidades cometidas pelo imperialismo norte-americano na guerra, mesmo que tenha acabado com a humilhante derrota dos EUA em 1975. Mas recordemos que, pouco tempo depois, em fevereiro de 1979, as burocracias de Pequim e Han\u00f3i estavam engajadas em uma guerra fratricida que terminou em uma semiderrota da China. Al\u00e9m disso, o Vietn\u00e3 \u00e9 hoje um dos principais atores na luta contra a China pelas ilhas Spratly e Paracelso, como comentamos anteriormente.<\/p>\n<p><a name=\"_ftn18\"><\/a><a href=\"#_ftnref18\">[18]<\/a>.\u00a0 Bom ou mau? A Austr\u00e1lia assinou com Washington em 2014 um acordo para instalar uma base da Marinha em Darwin, cidade-porto estrat\u00e9gica no norte do pa\u00eds, e que desempenhou um papel importante na Segunda Guerra Mundial. Mas como estamos em tempos p\u00f3s-modernos, se estabelece que a Marinha s\u00f3 a utilizar\u00e1 para \u2013 n\u00e3o riam \u2013 \u201ctrabalhos humanit\u00e1rios\u201d. Como Guant\u00e1namo?<\/p>\n<p><a name=\"_ftn19\"><\/a><a href=\"#_ftnref19\">[19]<\/a>.\u00a0 Cuba seguiu esse caminho com mais lentid\u00e3o, uma vez que a pol\u00edtica inicial de Washington pretendia uma mudan\u00e7a de regime e, ao mesmo tempo, a devolu\u00e7\u00e3o do poder \u00e0 burguesia \u201cgusana\u201d de Miami.<\/p>\n<p><a name=\"_ftn20\"><\/a><a href=\"#_ftnref20\">[20]<\/a> . No P\u00f3s-Guerra, a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e outros estados (do Leste europeu, depois da China, etc.), embora n\u00e3o fossem realmente \u201csocialistas\u201d, haviam expropriado o o capitalismo. Isto estabelecia diferen\u00e7as radicais com o resto, ainda que de conjunto \u2013 considerada como uma totalidade \u2013 a economia mundial era capitalista. Hoje, depois das restaura\u00e7\u00f5es dos anos noventa, n\u00e3o s\u00f3 a economia mundial, de conjunto, \u00e9 capitalista, mas tamb\u00e9m cada uma de suas partes, inclusive a R\u00fassia, os pa\u00edses do Leste, etc.<\/p>\n<p><a name=\"_ftn21\"><\/a><a href=\"#_ftnref21\">[21]<\/a>.\u00a0 Isso alimenta as fabula\u00e7\u00f5es de alguns setores da esquerda, tanto europeus como latino-americanos (por exemplo, o castrismo e o chavismo), a verem na R\u00fassia e tamb\u00e9m na China pot\u00eancias mais \u201cbenevolentes\u201d ou \u201cprogressistas\u201d do que o imperialismo americano.<\/p>\n<p><a name=\"_ftn22\"><\/a><a href=\"#_ftnref22\">[22]<\/a>. Mas h\u00e1 tamb\u00e9m outros tipos de \u201centidades\u201d, como enclaves europeus (por exemplo, Ceuta e Melilla), territ\u00f3rios de soberania duvidosa (como a Rep\u00fablica \u00c1rabe Saaraui Democr\u00e1tica), secess\u00f5es de fato, etc.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Publicado originalmente no site da corrente internacional Socialismo ou Barb\u00e1rie Pr\u00f3logo depois de 08 de novembro \u201cA queda do Muro de Berlim, em 09 de novembro de 1989, foi o momento em que se afirmou que a hist\u00f3ria havia terminado. O combate entre o comunismo e o capitalismo tinha chegado ao fim. 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